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B. Öğretim Kadrosu

1. Dârulmuâllimîn-i Rüşdî

Quando se acompanha a formação dos discursos realista e liberal em Relações Internacionais é possível perceber, a partir de uma análise das procedências na filosofia política de cada um desses ramos teóricos, como se forma entre eles uma zona de afinidades no que se refere à concepção de política. Há em ambos a partilha de uma base contratualista, quer seja pela leitura que privilegia o legado hobbesiano — o

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realismo — quer seja a que se apóia no legado kantiano — o liberalismo. Tal característica faz com que as escolas teóricas coincidam na avaliação de que a formação e manutenção do Estado são as senhas para garantir a paz civil. Isso porque, a ausência de Estado, a “anarquia”, significa falta de restrições aos desejos de poder e materiais dos homens, o que conduziria a um estado de guerra permanente. Nas duas correntes teóricas, a paz só adviria da superação da “desordem”, da constituição de um poder político centralizado. Em um regime absolutista ou republicano, pelo viés hobbesiano ou kantiano, a celebração do contrato social significa a criação da política e, com isso, a negação da guerra. Além desse movimento de aproximação entre as escolas, o Primeiro Capítulo apontou como os conceitos de política e guerra entre realistas e liberais confluíam para a celebração do Estado e do regime dos direitos, em especial o direito à vida e à propriedade privada. No entanto, para complementar a análise sobre as afinidades entre as escolas adversárias, faltava mostrar mais detalhadamente como o conceito de guerra era trabalhado nos fundamentos das escolas realista e liberal.

De um lado, investiu-se na importância da leitura de Clausewitz por Raymond Aron na formulação do pensamento realista em Relações Internacionais. De outro lado, atentou-se à centralidade do debate sobre a guerra justa e a criminalização da guerra no campo liberal. Acompanhando a reflexão de Clausewitz, pôde-se notar como o prussiano percebia a guerra como um recurso da política e que a ela deveria permanecer submetida para a própria preservação do Estado. Por sua vez, Aron, ao incorporar a noção de clausewitziana de guerra como continuação da política, introduziu-a nos fundamentos da teoria realista das relações internacionais que procurou elaborar. Sua preocupação foi a de sublinhar a importância do controle político do recurso militar em uma época na qual a capacidade de destruição termo-nuclear tornava viável pensar na realização da guerra absoluta que, em Clausewitz, era apenas uma abstração. A guerra,

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sob controle do Estado — da política — era um recurso necessário, mas perigoso caso fosse conduzida pelo ódio das massas ou enveredasse pela guerra termo-nuclear. Nessas duas situações, ou em outras de descontrole, a guerra ameaçaria de morte não só a política como a humanidade; e essa não deveria ser sua função. Ao contrário, a guerra deveria servir de meio para a preservação e fortalecimento doEstado e da humanidade.

A reflexão liberal sobre a guerra é marcada, por sua vez, pelo pacifismo que emergiu no século XIX entre grupos e associações voltados para a defesa da paz e que encontrou, gradativamente, maior ressonância entre Estados também interessados em estabelecer limites à prática da guerra moderna. Esse pacifismo defendeu, em linhas gerais, a formulação de um sistema internacional para solução pacífica de controvérsias que implicaria na proibição da guerra de agressão. As celebrações do Pacto da Liga das Nações, do Pacto Briand-Kellogg e, finalmente, da Carta de São Francisco — com o complemento da Carta do Tribunal Militar Internacional — trouxeram as demandas do pacifismo liberal para o campo do direito internacional, explicitando as influências do cosmopolitismo kantiano. Essa incorporação das noções liberais teve como resultado uma atualização do conceito de guerra justa que passou a ser entendida como as guerras autorizadas pela lógica da segurança coletiva. Ao mesmo tempo, essa nova concepção instituiu a criminalização da guerra ofensiva. A noção de guerra justa impulsionada pelo liberalismo vinculou-se aos princípios morais que, desde ao menos as formulações medievais da reflexão sobre a justiça ou injustiça das guerras, definiram a legitimidade ou não de uma ação militar. Esse juízo moral se atualizou pela leitura liberal, com a incorporação do princípio kantiano da paz perpétua. Ao identificar essas relações, procurou-se mostrar como que, para o internacionalismo liberal, a guerra também é um acontecimento que nega a política e que por isso, quando acontece, lhe é exterior.

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Tanto pelo viés realista — que define a guerra como um instrumento da política — quanto pelo liberal — que, no limite, admite como válida apenas a guerra transformada em ação “policial” reparadora do direito — a guerra é um fato exterior à política. Entre os realistas ela pode acontecer no plano internacional, como recurso de política exterior dos Estados. Para os liberais, ela deve ser negada como recurso e admitida apenas como a guerra justa restauradora da paz internacional. Em ambos os casos, no entanto, as argumentações diferentes convergem para uma percepção comum: a guerra não existe se há política. Ela somente acontece no estado de natureza. Para os realistas, esse estado de natureza define a natureza do próprio plano internacional; já para os liberais, há a possibilidade de que a construção de uma malha de tratados e compromissos marque a renúncia à guerra e celebre a cooperação entre os Estados levando, como ápice do processo, a um estado de sociedade mundial no qual não haveria mais guerras. E para ambas as escolas, a guerra civil é uma perigosa anomalia porque nega o contrato, destrói o direito, questiona a centralização do poder político e anuncia o retorno ao estado de natureza.

Assim, realistas e liberais, por meios diferentes, coincidem na avaliação de que a guerra é um acontecimento exterior à política. Exterior e que pode servir à política, como pensam Clausewitz e Aron. Exterior e que também pode servir à política quando convertida em guerra justa no sistema de segurança coletiva, na visão kantiano-liberal. O Estado — sua soberania e a preservação da independência — e os bens jurídicos que ele protege — minimamente, os direitos à vida e à propriedade privada — são as preocupações centrais tanto pelo prisma realista, quanto pelo liberal. Ainda que por premissas distintas, liberais e realistas desenvolvem uma noção de guerra que conduz à defesa e preservação do Estado. E que, nesse caminho, percebe a política como espaço de paz, no qual se pode pensar um exercício legítimo da coerção física que não se

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confundiria com a guerra. Ela, a guerra, apenas existiria apenas onde não há poder político centralizado, onde não há direito, onde não há violência chancelada pelo contrato. Para realistas e liberais, tudo que não seja Estado e obediência — à lei, ao regime de propriedade e às hierarquias políticas e sociais — significa “anarquia” e guerra.

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