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Current Pharmacological Approaches in SARS-CoV-2/ COVID-19

As representações sociais se apresentam como uma maneira de interpretar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da atividade mental desenvolvida pelos indivíduos e pelos grupos, para fixar suas posições em relação a situações, eventos, objetos e comunicações que lhes concernem. O social intervém de várias formas, dentre elas, o contexto concreto no qual se situam grupos e pessoas, pela comunicação que se estabelece entre eles, pelo quadro de apreensão que fornece sua bagagem cultural, pelos códigos, símbolos, valores e ideologias ligadas às posições e vinculações sociais específicas.

As representações sociais se sobressaem em relação a outros fenômenos no plano simbólico porque surgem da realidade cotidiana, a qual tem prevalência sobre outras realidades como a religiosa e a científica, por exemplo. E essa prevalência é determinada tanto pela linguagem como pela estrutura social da realidade, em cuja interação o indivíduo compartilha sua subjetividade, estabelecendo diferenças entre realidades vividas e outras que existem na consciência.

Em outras palavras, a representação social é um conhecimento prático, que dá sentido aos eventos que nos são normais, forja as evidências da nossa realidade consensual e ajuda na construção social de nossa realidade.

A representação é sempre a atribuição da posição que as pessoas ocupam na sociedade. Toda representação social é representação de alguma coisa ou de alguém. Ela não é cópia do real, nem cópia do ideal, nem a parte subjetiva do objeto, nem a parte objetiva do sujeito, ela é o processo pelo qual se estabelece a relação entre o mundo e as coisas. As representações sociais, conforme Reigota (2004), estão basicamente relacionadas com as pessoas que atuam fora da comunidade científica, muito embora possam aí, também, estar presentes. Nessas representações, podemos encontrar os conceitos científicos da forma como foram apreendidos e internalizados pelas pessoas. Assim posto, as representações sociais devem ser encaradas de modo ativo, pois, como explica Moscovici,

As representações se mostram semelhantes a teorias que ordenam ao redor de um tema (as doenças mentais são contagiosas, as pessoas são o que elas comem, etc.) uma série de proposições que possibilitam que coisas ou pessoas sejam classificadas, que seus caracteres sejam descritos, seus sentimentos e ações sejam explicados e assim por diante (MOSCOVICI, 2003, p. 209 e 210).

De acordo com Moscovici (2003), o conceito dado às representações sociais vem de Durkheim, mas nos dias atuais existe uma visão diferente. A partir da ótica da sociologia as representações sociais eram vistas

Como artifícios explanatórios, irredutíveis cuja função teórica era semelhante à do átomo na mecânica tradicional, ou à do gene na genética tradicional; isto é, átomos e genes eram considerados como existentes, mas ninguém se importava sobre o que faziam, ou com o que pareciam (MOSCOVICI, 2003, p. 45).

A psicologia social, a partir dos estudos de Piaget, passa a considerá-las sob um ângulo diferente, de forma que, ainda sob a ótica de Moscovici (2003), todos sabiam que as representações sociais existiam nas sociedades, mas não era dado a elas o devido valor, ou melhor, ninguém se importava com sua estrutura e sua dinâmica. Hoje, assevera o estudioso em pauta, as representações sociais “devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que nós já sabemos.”. Elas surgiram pela necessidade contínua de se “re-construir o „senso comum‟ ou a forma de compreensão que cria o substrato das imagens e sentidos, sem a qual nenhuma coletividade pode operar” (MOSCOVICI, 2003, p. 46-48).

A partir do posicionamento do autor anteriormente citado, “as representações sociais se apresentam como uma „rede‟ de ideias, metáforas e imagens mais ou menos interligadas livremente”, que têm uma existência à medida que são úteis (MOSCOVICI, 2003, p. 20).

A teoria das representações sociais parte da premissa de que existem formas diferentes de conhecer e de se comunicar; podemos destacar a consensual e a científica. A diferença, no caso, não significa hierarquia nem isolamento entre elas, apenas propósitos diversos. O universo do senso comum seria aquele que se constitui principalmente na conversação informal, na vida cotidiana, enquanto o universo científico se cristaliza no espaço acadêmico, com toda sua especificidade e hierarquia rigidamente postas. Ambas, portanto, apesar de terem propósitos diferentes, são eficazes e indispensáveis para a vida humana. As representações sociais constroem-se mais frequentemente na esfera consensual, embora as duas esferas não sejam totalmente estanques. Na esfera consensual, todos podem falar com a mesma competência, pois em nível da aparência, neste universo não há fronteiras, todos podem falar de tudo. Obviamente que nesse contexto estarão

implícitos os valores, a cultura e as ideologias de cada grupo. Enquanto que na esfera acadêmica, a especialidade determina quem pode falar sobre o quê.

Moscovici (2003) afirma que apesar da ciência ser tão diferente das representações sociais, elas são complementares entre si; daí a necessidade de pensar e falar em ambos os registros. Acrescenta ainda que a ciência avança, o conhecimento é transmitido ao mundo consensual:

A ciência era antes baseada no senso comum e fazia o senso comum menos comum; mas agora senso comum é ciência tornada comum. Sem dúvida, cada fato, cada lugar comum esconde dentro de sua própria banalidade um mundo de conhecimento, determinada dose de cultura e um mistério que o fazem ao mesmo tempo compulsivo e fascinante. Baudelaire pergunta: “Pode algo ser mais encantador, mais frutífero e mais positivamente excitante do que um lugar comum?” E poderíamos acrescentar, mais coletivamente efetivo? Não é fácil transformar palavras não familiares, ideias ou seres, em palavras usuais, próximas e atuais. É necessário, para dar-lhes uma feição familiar, pôr em funcionamento os dois mecanismos de um processo de pensamento baseado na memória e em conclusões passadas (MOSCOVICI, 2003, p. 60).

Moscovici (2003) assevera ainda que esses mecanismos transformam o não familiar em familiar, primeiramente transferindo-o para nossa esfera particular, onde somos capazes de compará-lo e interpretá-lo para depois reproduzi-lo entre as coisas que podemos ver e tocar e, consequentemente, controlar.

Esse autor, na mesma obra, sistematiza tais fundamentos recorrendo a dois processos ou mecanismos. O primeiro mecanismo, aquele que dá sentido ao objeto que se apresenta à nossa compreensão, ele o denomina de ancoragem. Esse processo trata da maneira pela qual o conhecimento se enraíza no social e volta a ele, ao converter-se em categoria e integrar-se à grade de leitura do mundo do sujeito.

A esse respeito, Moscovici (2003) considera que:

Esse é um processo que transforma algo estranho e perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de categorias e o compara com um paradigma de uma categoria que nós pensamos ser apropriada (MOSCOVICI, 2003, p. 61).

Ancorar, assim posto, é classificação e conceituação de alguma coisa. Coisas, que não são classificadas e que não possuem nomes, são estranhas, e

evidentemente, experimentamos uma resistência, um distanciamento, quando não somos capazes de avaliar algo, de descrevê-lo a nós mesmos ou a outras pessoas.

O outro processo denominado objetivação esclarece como se estrutura o conhecimento do objeto. Ele trabalha em três etapas, sendo a primeira a forma como se faz a seleção e descontextualização dos elementos do que vai ser representado, operando-se assim um enxugamento da informação transmitida. Essa sofre cortes baseados na nossa informação prévia, na experiência e nos nossos valores. Uma vez feitos os recortes, reconstituem-se os fragmentos num esquema que se torna o núcleo figurativo da representação, o qual tende a apresentar um aspecto de imagem. Tal aspecto constitui o foco da representação. Procedendo assim, aquele objeto que era misterioso foi devidamente decodificado, recomposto e agora se torna algo efetivamente objetivo, tangível, passa a nos parecer natural. Chegamos, portanto à fase da naturalização, completando assim o ciclo da objetivação.

Moscovici, ao discorrer sobre o assunto, afirma ainda que:

Objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma ideia ou ser impreciso; é reproduzir um conceito em uma imagem. Comparar é já representar, encher o que está naturalmente vazio, com substância. Temos apenas de comparar Deus com um pai e o que era invisível, instantaneamente se torna visível em nossas mentes, como uma pessoa a quem nós podemos responder como tal. Um enorme estoque de palavras, que se referem a objetos específicos, está em circulação em toda sociedade e nós estamos sob constante pressão para provê-los com sentidos concretos equivalentes. Desde que suponhamos que as palavras não falam sobre “nada”, somos obrigados a ligá-las a algo, a encontrar equivalentes não verbais para elas. Assim como se acredita na maioria dos boatos por causa do provérbio; “não há fumaça sem fogo”, assim uma coleção de imagens é criada por causa do provérbio: “Ninguém fala sobre coisa alguma” (MOSCOVICI, 2003. p. 72).

A partir desse pressuposto, percebemos que a teoria em pauta opera uma transformação do sujeito e do objeto na medida em que são modificados no processo de elaborar o objeto. O sujeito amplia sua categorização e o objeto se acomoda ao repertório do sujeito, repertório o qual, por sua vez, também se modifica ao se agregar a mais um indivíduo.