A intencionalidade que está por trás da pesquisa qualitativa é a seleção intencional dos participantes ou dos locais ou ainda dos documentos que melhor ajudarão o pesquisador a entender o problema e a questão de pesquisa. Não se trata de uma amostragem ou seleção aleatória de um grande número de participantes ou locais como no caso da pesquisa quantitativa (CRESWELL, 2010).
De acordo com Minayo (2006), nas pesquisas qualitativas, o pesquisador pode selecionar participantes representativos em relação ao objeto do estudo. Tendo em vista tal consideração, foram convidados (as) para participar desta pesquisa: lideranças comunitárias e profissionais de saúde que lidam diretamente com Participação Social e compõem as equipes de Saúde da Família do CSF da Vila União em Sobral – CE, a saber: doze ACS, três enfermeiras, um médico, dois odontólogos, três gestores (Gerente de CSF, Apoiadora Institucional/Tutora de território e Coordenador de Macroárea) e equipe multiprofissional de apoio matricial19 do território, sendo cinco profissionais da RMSF (Duas Nutricionistas, uma Assistente Social, uma Terapeuta Ocupacional e um professor de Educação Física) e cinco do NASF (Uma Assistente Social, uma Terapeuta Ocupacional, uma Fisioterapeuta, uma Educadora Física e uma Nutricionista). Ao todo, foram convidados a participar do estudo, 31 profissionais de saúde.
Para inclusão de profissionais de saúde foi levada em consideração a disponibilidade e interesse em contribuir com a pesquisa, bem como o seu envolvimento em processos participativos na saúde. Já as lideranças comunitárias, foram representativas e identificadas de modo intencional a partir de sua participação comunitária, tempo de moradia ou convivência na comunidade, de no mínimo dois anos, e interesse e disponibilidade.
Dessa forma, foram excluídos da pesquisa, os profissionais de saúde que não lidam diretamente com a participação social no território de Vila União e as lideranças comunitárias
19O apoio matricial em saúde objetiva assegurar retaguarda especializada a equipes e profissionais encarregados da atenção a problemas de saúde. Trata-se de uma metodologia de trabalho complementar àquela prevista em sistemas hierarquizados. O apoio matricial busca oferecer tanto retaguarda assistencial quanto suporte técnico pedagógico às equipes de referência. (CAMPOS; DOMITTI, 2007).
representativas e indicadas para o estudo que tinham menos de dois anos de moradia ou convivência na comunidade.
Inicialmente, não havia uma definição sobre o quantitativo de lideranças que participariam do estudo, entretanto, essas foram mobilizadas por meio de indicações de profissionais de saúde do território, em particular, das ACS que além de trabalhadoras são moradoras do território e puderam de maneira mais fidedigna reconhecer entre seus pares aqueles que se destacam como lideranças. A consulta foi realizada em uma Roda do CSF que ocorre semanalmente às quintas-feiras.
Neste estudo, defendemos as concepções de liderança apontadas por Góis e Demo. Segundo Gois (2008) dentro de uma comunidade, as lideranças estão relacionadas a moradores escolhidos entre seus pares para coordenar alguma tarefa, uma atividade comunitária completa ou a própria associação de moradores, quando existe.
De acordo com Demo (1996), apesar de não reduzirmos participação à mobilização, toda mobilização depende sobremaneira de lideranças. Este estudioso cita diversos tipos de lideranças: as lideranças estranhas, aqueles que não fazem parte da especificidade social do grupo, os externos, aqueles que se tornam chefes sem antes terem pertencido ao grupo, os impostos, aqueles atrelados a dominações sociais e os pretensos, aqueles que gostariam de se insinuar como tais. Todas essas marcas negativas concorrem para a indesejada vitaliciedade, outra forma de reinventar o coronelismo, na falta de lideranças locais.
A experiência tem mostrado que o líder preferencial é o líder natural, que revela práticas sem estratagemas. A mobilização qualitativa passa pela lógica do menor, do pequeno, do local, mas o pequeno sozinho não é nada e ser pequeno já é um estigma. Entretanto, ser pequeno, torna-se vantagem devido à qualidade organizativa (DEMO, 1996). Destarte, optamos em convidar a participar deste estudo líderes naturais e legitimados na Vila União, em Sobral-CE.
Após levar em consideração as questões antes descritas, participaram deste estudo 17 lideranças comunitárias e 21 profissionais de Saúde. As lideranças comunitárias tinham entre 19 e 62 anos, se autodeclararam pardos ou negros. A maior parte escolarizada, apenas um registro de não escolarização. Entretanto, a maioria tinha ensino fundamental ou médio incompleto. Nenhuma liderança afirmou cursar ou ter cursado graduação superior. Apenas um encontra-se inserido no Curso Técnico de Meio Ambiente no Instituto Federal Tecnológico do Ceará (IFCE).
Dentre as profissões, temos relatos de cabeleireiros, Agente Juvenil de Projeto Social, Aposentados, Domésticas, Auxiliares de Produção de uma indústria calçadista, motorista, porteiro, Coordenador de Grupo de Dança e duas Agentes Comunitárias de Saúde que optaram em participar do grupo junto às lideranças, tendo em vista sua trajetória de envolvimento em processos participativos no bairro, em especial nas Associações Comunitárias e no CLDSS. Em média possuem renda familiar de um salário mínimo e residem na comunidade entre sete e 32 anos. As lideranças descreveram atuação no CLDSSS, nas Associações Comunitárias, nos Grupos de Adolescentes, Religiosos, de Idosos e de Promoção de Saúde do CSF.
Com relação aos profissionais de Saúde, participaram nove ACS, uma médica, uma cirurgiã dentista, uma enfermeira gerente, uma tutora (enfermeira) de território e da Residência Multiprofissional em Saúde da Família, três profissionais do NASF (Assistente Social, Nutricionista e Professora de Professor de Educação Física) e cinco residentes, sendo duas da turma atual - Ano I (X Turma da RMSF - Nutricionista e Terapeuta Ocupacional com atuação na comunidade de Vila União e Expectativa) e três da turma anterior – Ano II (IX Turma da RMSF – Nutricionista, Assistente Social e Professor de Educação Física com atuação apenas na comunidade de Terrenos Novos, mas que no ano I tiveram como cenário de prática a Vila União).
No tocante às ACS, estas tem entre 28 e 41 anos, todas são do gênero feminino, a maior parte com ensino Médio completo e duas com inserção na graduação superior. Todas têm renda familiar de um salário mínimo, residem na comunidade de 10 a 24 anos e atuam na ESF de cinco a 17 anos. Com relação aos demais, todos têm ensino superior completo e possuem pós graduação ou estão cursando, principalmente a RMSF. A renda familiar varia entre três a 20 salários mínimos. No tocante ao tempo de atuação na ESF, tivemos uma profissional com apenas um mês de inserção e no máximo dois anos, o que pode revelar acentuada rotatividade de profissionais de nível superior, dificultando a vinculação longitudinal com a comunidade.