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CTP’ nin İnşaat Sektöründe Kullanım Uygulamaları

BÖLÜM 3. CAM ELYAF TAKVİYELİ PLASTİKLER (CTP) 21

3.4. CTP’ nin İnşaat Sektöründe Kullanım Uygulamaları

Por mais evidente que seja tal constatação, somente ao final do Terceiro Congresso de História Nacional ela relampejou sobre a Casa. Incumbido de proferir as últimas palavras na Sessão Solene de encerramento, o presidente do encontro, o sócio Augusto Tavares de Lyra, de início repisou o mote das comemorações, ao afirmar ter o IHGB “jamais fugido à sua finalidade” e, na

seqüência, rememorar os grandes acontecimentos do Brasil independente e o papel do Instituto frente a eles. Sua fala seguia o mesmo roteiro dos discursos de

30 Sobre o monumento a Varnhagen, cf. “Sessão Magna, comemorativa do primeiro centenário do Instituto, em 21 de outubro de 1938”. RIHGB. Rio de Janeiro, v. 173, 1938, p. 849. Sobre os demais, cf. Max FLEIUSS,

“Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Cem anos bem vividos)”. Anais do Terceiro Congresso de História Nacional. Rio de Janeiro: IHGB/Imprensa Nacional, 1942. Vol. VII, p. 220. Com relação a tal conjunto como o panteão da pátria formado pelo IHGB, como afirmado no parágrafo seguinte, cf. Lucia Maria Paschoal GUIMARÃES, “Debaixo da imediata proteção de Sua Majestade Imperial: O Instituto Histórico e Geográfico

Brasileiro (1838-1889)”, p. 542-3. 31

“[...] Mais si ce qu’ils défendant n’était pas menacé, on n’aurait pas non plus besoin de les construire. Si les souvenirs qu’ils enferment, on les vivait vraiment, ils seraient inútiles. [...]”. Pierre NORA, “Entre mémoire et

uma semana antes, até observar que, “na antiguidade clássica, a história era a narração despretensiosa dos fatos ou, como disse alguém, o maravilhoso épico. No primeiro caso, crônica monótona e muitas vezes enfadonha; no segundo, gênero de literatura que seduzia pelo estilo, a arte da forma, e a movimentação dramática dos personagens, através de seus grandes feitos ou ações heróicas. Outro, porém, o seu conceito no momento atual”. Citando “passagens lapidares” do falecido jurista Pedro Lessa, para quem a história “nos apresenta os fatos que servem de fundamento às generalizações da sociologia”, Tavares de Lyra então concluía:

Mesmo assim, reduzida a uma ciência auxiliar, a função da história é importantíssima, a de estudar o homem em seu tempo e no meio físico, social e econômico em que vive, a de coligir e classificar metodicamente os fatos, em suas causas e seus efeitos, a de fazer sua crítica justa, serena, imparcial. Formula as grandes sínteses, que só são possíveis mediante a consulta e a análise de abundante e fidedigna documentação, que surge todos os dias à luz e que exige longas e cuidadosas investigações. Ao historiador nunca se confina o terreno das pesquisas. Ao contrário, se alarga e aumenta sempre, abrindo aos seus olhos novos e mais amplos horizontes.32

Como se vê, a mudança de perspectiva frente ao estudo do passado não preocupava o expositor, que, para todos os efeitos, falava como historiador. Sem

32

Cf. “Ata da Sessão Solene de Encerramento do 3o Congresso de História Nacional, realizada em 28 de outubro de 1938”. Anais do Terceiro Congresso de História Nacional. Rio de Janeiro: IHGB/Imprensa Nacional, 1939. Vol. I, p. 79-80. É significativo que, para tecer seus comentários sobre a História, Tavares de Lyra (vice-presidente do Instituto e ministro do Tribunal de Contas da União) tenha recorrido a Pedro Lessa (1859–1921): jurista, ministro do Supremo Tribunal Federal e também membro do IHGB, Lessa foi um “positivista ilustrado”, que, embora convencido da importância e do valor da física social, “repudiou francamente o autoritarismo do comtismo” (cf. Dicionário Biobibliográfico de Autores Brasileiros, p. 272). A citação feita por Lyra, infelizmente sem a referência da obra, demonstra muito bem o acento positivista de seu autor: “O estudo das leis a que está sujeito o organismo social faz o objeto da sociologia e das ciências sociais particulares. Se estudamos o que há de uniforme, geral e permanente na gênese, na estrutura e na evolução das sociedades, temos a sociologia ou ciência social fundamental. Se estudamos certos fenômenos especiais, certos aspectos particulares da sociedade, por exemplo, a sociedade considerada sob o aspecto da riqueza, da direção dos interesses públicos internos e externos, ou da manutenção da ordem necessária à conservação e desenvolvimento da coletividade, temos a economia política ou o direito. A história contém os fatos, cuja comparação nos leva às induções da sociologia e das ciências sociais particulares... A filosofia da história foi substituída pela sociologia... Limitamos nossa aspiração científica a conhecer a sociedade... Para alcançar esse desideratum, dispomos das duas séries de processos lógicos, dos dois instrumentos únicos que a ciência pode admitir: a indução, a generalização, obtida pela comparação dos fatos; e a dedução, a extração pelo raciocínio de verdades gerais menos extensas, compreendidas virtualmente em verdades gerais superiores. É a história que nos apresenta os fatos que servem de fundamento às generalizações da sociologia...”. Cf. “Ata da Sessão Solene de Encerramento do 3o Congresso de História Nacional, realizada em 28 de outubro de 1938”, cit., p. 80.

32 qualquer constrangimento, ele não apenas aceitava a submissão da história à sociologia como ainda procurava valorizar esse seu novo papel reduzido, coadjuvante, perante os colegas presentes. Só não percebia, porém, que tal afirmação da condição “moderna” do estudo do passado confessava, por certo involuntariamente, o esgotamento das narrativas do passado circunscritas à massa volumosa dos documentos – ou seja, o esgotamento do paradigma estabelecido pelo mesmo Varnhagen incensado pelo Instituto. Ao contrário do que afirmara, as crônicas monótonas e enfadonhas, bem como os relatos de grandes feitos e ações heróicas, não só não haviam desaparecido como era sobre eles que a sociologia se impunha, uma vez que fazia aquilo que os mesmos supostamente não atingiam: a interpretação dos fatos coligidos e classificados no terreno das pesquisas.

A rigor, Tavares de Lyra não anunciava nenhuma novidade. Desde as últimas décadas do século XIX despontavam novas possibilidades de análise da formação social brasileira, graças à atividade da chamada “geração de 1870”. Pegos pela inserção compulsória do país nos quadros da economia capitalista global, envoltos nas delicadas transformações estruturais por ela acarretadas e embebidos nas novas doutrinas científicas estrangeiras, em especial o evolucionismo e o positivismo, esses intelectuais fin-de-siècle sentiam-se “homens naufragados entre o passado e o presente, à procura de um ponto fixo

em que se apoiar”, conforme Nicolau Sevcenko.33 Como a questão fundamental

que os afligia era a adequação (ou não) do Brasil a uma nova ordem mundial, sua tábua de salvação foi a investigação da realidade nacional, à qual se dedicaram de diversas maneiras e em diferentes frentes, não raro confundidas umas com as outras. Por isso, embora visassem ao futuro, acabaram em larga medida por voltar-se à compreensão do passado, movimento que incidia direta ou indiretamente numa crítica à historiografia estabelecida e seus limites.34

33

Nicolau SEVCENKO, Literatura como Missão, p. 107. Apesar de óbvio, é forçoso notar também que a expressão “inserção compulsória do país nos quadros da economia capitalista global” é uma paráfrase do título de seu primeiro capítulo (“A inserção compulsória do Brasil na Belle Époque”).

34 Sílvio Romero, por exemplo, avaliou a obra de Varnhagen em sua História da Literatura Brasileira, fundamentando seu juízo “na valorização da pesquisa documental, por um lado, e na crítica à falta de embasamento antropológico ‘moderno’ e de ‘capacidade filosófica’, por outro”. Cf. Arno WEHLING, Estado,

História, Memória: Varnhagen e a Construção da Identidade Nacional, p. 201. Para uma visão mais apurada da diversidade de angústias, expectativas, projetos, práticas e resultados da “geração de 1870” – muito menos homogênea do que o rótulo permite imaginar –, veja-se, além do citado livro de Nicolau SEVCENKO,

Literatura como Missão (especialmente o capítulo II – “O exercício intelectual como atitude política: os escritores-cidadãos”), A. L. MACHADO NETO, Estrutura Social da República das Letras; Roberto VENTURA,

Mesmo dentro do IHGB as mudanças ecoariam, e muito antes dos próprios

Congressos de História Nacional. A partir da virada do século, alguns sócios começaram a produzir obras em que inovações historiográficas eram nítidas e marcantes. Os exemplos mais destacados nesse sentido, como mostram vários comentaristas recentes, são certamente Joaquim Nabuco, com Um Estadista do

Império (lançado em três volumes entre 1897 e 1899), João Ribeiro e a História do Brasil (1900), Oliveira Lima e Dom João VI no Brasil (1908), e Alcântara

Machado e seu Vida e Morte do Bandeirante (1928). Nestas obras, o alcance da pesquisa extrapolava os limites da documentação oficial e a colocava lado a lado com narrativas de viagem, inventários, testamentos, memórias e outros papéis privados. Como novas fontes exigem novos métodos, a reconstrução promovida pelos autores levava também a mudanças interpretativas, refletidas na organização e desenvolvimento dos temas abordados e, no caso de Nabuco e de Oliveira Lima, ainda no estilo narrativo, que assumia características “literárias”. Cada qual a seu modo, enfim, eles mostravam sob outras formas um conteúdo também novo, que, ao trazer à luz dimensões sociais, culturais, materiais do nosso passado, ultrapassava em muito o referencial político-administrativo do que

usualmente se pensava como “história”.35

Nenhum desses nomes, entretanto, se empenhou mais, nem foi mais longe nesse exercício de renovação da historiografia brasileira que João Capistrano de Abreu (1853–1927). Cearense com passagem pela efervescente Recife de fins da década de 1860, autodidata ávido e curioso por conhecimento, Capistrano fez do interesse pela história, despertado ainda em sua terra natal, o horizonte de sua atuação desde que se estabeleceu no Rio de Janeiro, em 1875. Daí até o final da vida, suas atividades seguiram sempre três direções, nota Fernando Novais: a crítica historiográfica, voltada à exegese radical da produção bibliográfica sobre o

Estilo Tropical: História Cultural e Polêmicas Literárias no Brasil; Lilia Moritz SCHWARCZ, O Espetáculo das

Raças; e Angela ALONSO, Idéias em Movimento: A Geração de 1870 na Crise do Brasil Império.

35 Ou, como diz Angela de Castro Gomes, “todos esses historiadores, no trato com novas fontes e com o uso de novas categorias, apresentavam uma história de homens vivos e interessantes para o leitor”, bem diferente das abordagens habituais. Cf. Angela de Castro GOMES, “Gilberto Freyre e Oliveira Lima: Casa

Grande e Senzala e o contexto historiográfico do início do século XX”, p. 42. Todo o parágrafo baseia-se nas análises feitas pela autora entre as páginas 37 e 43 deste texto, como também se aproveitou da leitura dos artigos de Luiz Felipe de ALENCASTRO, “Joaquim Nabuco – Um Estadista do Império”; Laura de Mello e SOUZA,

“Alcântara Machado – Vida e Morte do Bandeirante”; Guilherme Pereira das NEVES, “Oliveira Lima – D. João

VI no Brasil”, todos ensaios que aparecem pelos dois volumes do livro organizado por Lourenço Dantas MOTA, Introdução ao Brasil: Um Banquete no Trópico. Especificamente sobre João Ribeiro e sua História do

Brasil, de caráter didático, as referências foram os livros de Arno WEHLING, Estado, História, Memória:

Varnhagen e a Construção da Identidade Nacional, p. 202-3, e de Arlette Medeiros GASPARELLO, “Invenção e

34 Brasil; as traduções e a pesquisa documental criteriosa, “com descobertas importantíssimas e edições críticas de textos fundamentais”; e, finalmente, “a produção propriamente histórica, isto é, do discurso historiográfico, seja em monografias, seja em obra de síntese”.36

Assim, Capistrano se fez especialista entre polígrafos, fugindo à grande característica que marcou a intelectualidade nativa, do século XIX até boa parte do XX. É certo que, para garantir uma sobrevivência modesta, nunca pôde prescindir da imprensa, o tradicional refúgio dos nossos homens de letras e o principal veículo de circulação de idéias no país de analfabetos que então era o Brasil. Em contrapartida, sua colaboração para variados jornais cariocas, iniciada logo após chegar à Corte, não cedeu às paixões políticas dos primeiros tempos da República, nem ao mundanismo da Belle-Époque ou ao nacionalismo dos anos em torno da Grande Guerra, antes fez das folhas o veículo difusor de suas posições sobre a história. Foi, portanto, o primeiro historiador brasileiro no sentido moderno do termo. Erudito, rigoroso e militante, seu compromisso fundamental era com a elaboração de um saber histórico qualificado, pautado por extremo apuro teórico-metodológico. Afinal, como ele próprio afirmara ainda no início da carreira, “é preciso saber muita cousa, ter grande solidez de raciocínio, para se poder escrever história, e entre o que se deve saber é indispensável também conhecer-se a história que se pretende escrever”.37

Fundado sobre tão firmes posições, o trabalho capistraniano desde logo se

contrapôs à historiografia “oficial” do IHGB e, sobretudo, ao “paradigma

Varnhagen”. Como é sempre observado pelos comentadores de um e de outro, a primeira revisão crítica do legado do autor da História Geral do Brasil partiu justamente de Capistrano, no conhecido “Necrológio” que publicou no Jornal do

Commercio no exato momento em que “a pátria traja[va] luto pela morte de seu

historiador”. Com indisfarçável admiração, o balanço valorizava o “grande

36

Fernando A. NOVAIS, “Capistrano de Abreu na historiografia brasileira”. Aproximações: Estudos de História e Historiografia, p. 313-4. Do mesmo modo que com relação a Varnhagen, existe um número considerável de análises biobibliográficas acerca de Capistrano, em sua maioria na forma de artigos e ensaios, publicados em diferentes lugares; assim, a elaboração das páginas que se seguem tomaram como referências principais, além deste texto do Professor Novais, os seguintes trabalhos: Stuart SCHWARTZ, “A house built on sand:

Capistrano de Abreu and the History of Brazil”; Ronaldo VAINFAS, “Capistrano de Abreu – Capítulos de

História Colonial”; José Honório RODRIGUES, “Capistrano de Abreu e a historiografia brasileira” e “Duas obras

básicas de Capistrano de Abreu: os Capítulos de História Colonial e Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil”.

37 Capistrano de A

BREU, “História da Fundação do Império Brasileiro”, resenha publicada em O Globo de 10

progresso na maneira de conceber a história pátria” promovido pelo Visconde de Porto Seguro, que, por “atender somente ao Brasil”, se diferenciava de todos os seus antecessores, de Gândavo a Southey. Já os lamentos eram por conta de seu “maior defeito”, a “falta de espírito plástico e simpático” aos homens e acontecimentos estudados – ausência que, embora Capistrano não note, expressava a objetividade e a neutralidade pretendidas pelos historiadores oitocentistas –, e de seu desconhecimento do “corpo de doutrinas criadoras que nos últimos anos se constituíram em ciência sob o nome de sociologia”. Com relação a isto, especificamente, ainda completava:

Sem esse facho luminoso, ele não podia ver o modo por que se elabora a vida social. Sem ele, as relações que ligam os momentos sucessivos da vida de um povo não podiam desenhar-se em seu espírito, de modo a esclarecer as diferentes feições e fatores reciprocamente. Ele poderia escavar documentos, demonstrar-lhes a autenticidade, solver enigmas, desvendar mistérios, nada deixar que fazer a seus sucessores no terreno dos fatos; compreender, porém, tais fatos em suas origens, em sua ligação com fatos mais amplos e radicais de que dimanam; generalizar as ações e formular-lhes teoria; representá-las como conseqüência e demonstração de duas ou três leis basilares, não conseguiu, nem consegui-lo-ia.38

O tom dos reparos à ausência da sociologia na obra de Varnhagen exemplifica muito bem a relação entusiasmada da geração de 1870 com aquilo que Sílvio Romero chamou o “bando de idéias novas”, recém-chegadas de fora. Mas as coisas nem sempre são o que parecem ser, e o acento de Capistrano deve ser visto com certo cuidado, para não identificá-lo à defesa da prevalência da sociologia sobre a história, a antecipar posições como aquelas de Pedro Lessa e Tavares de Lyra. Longe de querer substituir ou submeter uma à outra, pretendia era aproximá-las, para potencializar o máximo possível a reconstrução do passado – e isto, sim, antecipava uma postura que ganharia grande importância na historiografia do século XX. Em outras palavras, o que lhe interessava era

38

Capistrano de ABREU, “Necrológio de Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro” (Jornal

do Commercio. Rio de Janeiro, 16 e 20 de dezembro de 1878), in Capistrano de ABREU, Ensaios e Estudos –

1a Série, p. 90. As citações do parágrafo anterior, deste mesmo texto, estão às p. 82, 89-90, 89 e 90, respectivamente.

36 aplicar o novíssimo saber sociológico a serviço do conhecimento histórico, não o contrário:

[...] Esperemos que alguém, iniciado no movimento do pensar

contemporâneo, conhecedor dos métodos novos e dos instrumentos poderosos que a ciência põe à disposição de seus adeptos, eleve o edifício, cujos elementos reuniu o Visconde de Porto Seguro. [...]

Que venha, e escreva uma história da nossa Pátria digna do século de Comte e Herbert Spencer. Inspirado pela teoria da evolução, mostre a unidade que ata os três séculos que vivemos. Guiado pela lei do

consensus, mostre-nos o rationale de nossa civilização, aponte-nos a

interdependência orgânica dos fenômenos, e esclareça uns pelos outros. Arranque das entranhas do passado o segredo angustioso do presente, e liberte-nos do empirismo crasso em que tripudiamos. [...] 39

Exageros positivistas à parte, para Capistrano a sociologia deveria, em suma, contribuir para o historiador ir além da reconstituição dos fatos e buscar o

sentido da história, isto é, deixar a superfície e penetrar na essência das

transformações ocorridas ao longo do tempo. Percebe-se, assim, que pensava a história enquanto processo dotado de especificidade, afastando-se claramente da concepção até então predominante, linear e sem rupturas. Quatro anos mais tarde, em nova crítica ao Visconde de Porto Seguro, esta muito mais ácida e despida da terminologia sociológico-cientificista, ele diria:

Sob as mãos de Varnhagen, a história do Brasil uniformiza-se e esplandece; os relevos arrasam-se, os característicos misturam-se e as cores desbotam. Vê-se uma extensão, mas plana, sempre igual, que lembra as páginas de um livro que o brochador descuidoso repete. E, todavia, mesmo as pessoas que conhecem a história pátria infinitamente menos que Varnhagen, percebem que as épocas se sucedem, mas não se parecem, e muitas vezes não se continuam.40

Sem se restringir à crítica pela crítica, essa forma de pensar a história, e a história do Brasil especificamente, desdobrou-se em formulações originais a seu

39

Capistrano de ABREU, “Necrológio de Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro”, p. 90-1.

40 Capistrano de A

BREU, “Sobre o Visconde de Porto Seguro” (Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 21, 22 e 23

respeito. Ainda no “Necrológio”, por exemplo, a percepção de Capistrano foi capaz de valorizar a importância de aspectos secundários dentro do plano eminentemente político da História Geral do Brasil, como “as explorações do território, a cruzada cruenta contra os Tupis, o aumento da população, os começos da indústria, as descobertas das minas, as obras e associações

literárias, as comunicações com outras nações”.41 Já no artigo de 1882, logo após

notar a descontinuidade do passado acima descrita, ele deitaria uma visão inédita sobre nossa cronologia histórica, dividindo-a em seis períodos, que “apresentam entre si, ao lado de feições congêneres, caracteres que os separam pronunciadamente”. De acordo com sua periodização, de 1500 a 1614 “se tratou principalmente de ocupar o litoral”; de 1614 a 1700, “começa a internação, mas pelos rios”; de 1700 a 1750, “dominam as minas”, “todo o interior é devassado e povoado” e “rompem, para não mais se extinguir, as rivalidades de raça”; de 1750 a 1808 ocorre a “consolidação do sistema colonial”, enquanto o momento seguinte, de 1808 a 1850, marca a “decomposição” do mesmo sistema, iniciada com a abertura dos portos por D. João; finalmente, de 1850 até aquele início da década de 1880, vivia-se “um período novo, a que se poderá chamar centralizador, imperialista ou industrial”, em que “há muita coisa que ainda durará longo tempo e que só o historiador do futuro poderá dizer”.42

Ambas as passagens indicam o caminho que Capistrano começava a traçar para sua própria análise historiográfica. Convergentes e complementares, elas mantinham a formação da nação brasileira como objeto de estudo e, ao mesmo tempo, referencial teleológico, do mesmo modo que Varnhagen e os

demais historiadores reunidos no IHGB. A grande mudança em relação a eles dizia

respeito ao ângulo de abordagem, que se afastava da “evolução” política para

Benzer Belgeler