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CHAPTER II: Neuromancer, Mona Lisa Overdrive, Count Zero by William

B) Count Zero

Para se analisar a mudança de uso do solo no Amapá deve-se levar em consideração o processo de transição florestal que ocorre numa escala global e nacional. A transição florestal é a reversão de um período em que prevalece o desflorestamento para um período em que o ganho em cobertura florestal supera as perdas, visando explicar estas causas surgiu a Teoria da Transição Florestal (TTF) (RUDEL et al., 2005).

Apesar das taxas de desmatamento e reflorestamento apresentarem variações dentro de um país e de um país para outro ao longo do tempo, a TTF apresenta um conceito importante: a curva de transição florestal (Figura 9) (BOUCHER et al., 2014).

Figura 9: Curva de transição florestal.

Fonte: Boucher et al. (2014).

Partindo de altos níveis iniciais de cobertura florestal (t0), a taxa de desmatamento em uma região tende a aumentar antes da cobertura florestal atingir um ponto inferior (t1) quando a taxa de desmatamento cai para zero em termos líquidos, e a partir de então o nível de cobertura florestal começar a se recuperar (t3). Apesar da forma da curva variar espaço-temporalmente

em cada região, existe um consenso entre os estudiosos a respeito deste padrão e os motivos ainda são debatidos (RUDEL et al., 2010; BOUCHER et al., 2014).

No entanto, o aspecto mais importante sobre a curva de transição florestal é que as mudanças que ela descreve não são inevitáveis e atualmente os esforços dos atores envolvidos na redução do desmatamento tem se concentrado em fazer reverter o processo de transição florestal, mudando o percurso em direção à recuperação florestal (BOUCHER et al., 2014).

Em um contexto global, existem regiões como África Central e as Guianas que estão nos estágios iniciais da transição florestal e ainda possuem altos níveis de cobertura florestal. Por outro lado, Tanzânia e Madagascar moveram-se para a parte mais alta da curva e apresentam a maior taxa de desmatamento. Brasil junto do México encontra-se próximo ao ponto inferior da curva e Vietnã, El Salvador, Costa Rica e Índia passaram da parte inferior da curva e estão em ascensão, com aumentos líquidos na sua cobertura florestal (BOUCHER et al., 2014).

Inicialmente foram propostas duas hipóteses principais: a da ‘via do desenvolvimento’ em que o desenvolvimento econômico, associado à industrialização e urbanização, levaria ao abandono de terras marginais e recuperação da cobertura florestal; e a segunda hipótese denominada como ‘via da escassez de produtos florestais’, em que a escassez de produtos florestais levaria ao plantio de florestas para atender à demanda interna (RUDEL et al., 2005; FARINACI et al., 2013).

No entanto, trabalhos conduzidos em países tropicais indicam uma maior complexidade dos mecanismos envolvidos nas dinâmicas de cobertura florestal e mudanças de uso e cobertura das terras, sendo estas duas hipóteses insuficientes para explicar este processo (RUDEL et al., 2005; FARINACI et al., 2013).

No Brasil, o processo de expansão da fronteira agrícola motivou vários estudos mais detalhados destes estados (Mato Grosso, Pará, Rondônia) que inicialmente limitavam-se à análise da expansão dos grandes estabelecimentos e da presença supostamente transitória de pequenos produtores. A partir destes estudos identificou-se um ciclo típico de fronteira em que na primeira fase de ocupação os colonizadores, apesar de possuírem títulos de propriedade rural inseguros realizam a derrubada da floresta primária com base na agricultura de corte e queima ou agricultura itinerante; e asseguram a própria subsistência abastecendo os centros urbanos com alimentos baratos (HURTIENNE, 2005).

Numa segunda fase, com a falta de segurança fundiária, de políticas agrárias dirigidas aos agricultores familiares, infraestrutura insuficiente e com a queda dos rendimentos devido

ao empobrecimento dos solos, a permanência destes colonizadores é minada e no final do ciclo a maioria dos colonos vendem suas terras a grandes pecuaristas ou grandes produtores agrícolas. Em muitos casos estes pequenos agricultores são expulsos de suas terras e a maioria migra para a próxima fronteira ou para as cidades. Este ciclo de fronteira se reflete na estrutura fundiária polarizada das regiões de colonização na forma do complexo latifúndio-minifúndio (HURTIENNE, 2005).

Em se tratando da Região Amazônica, os estados do Pará, Mato Grosso e Rondônia tiveram grande porcentagem de seus territórios desmatados e se encaminham para o ponto inferior da curva da Transição Florestal. O Amapá se destaca com cerca de 98% de sua cobertura florestal conservada, seguido pelos estados do Amazonas e Roraima, os quais também estão em estágio inicial da curva de transição florestal, e para estes estados, o desafio consiste em encontrar o caminho do desenvolvimento socioeconômico mantendo o alto índice de preservação de suas florestas.

De acordo com Prates e Bacha (2011), embora alguns estudos apontem enfaticamente para fatores específicos, como a construção e pavimentação de estradas ou outras melhorias em infraestrutura (LAURANCE et al., 2004; SOARES FILHO et al., 2005), o avanço da pecuária (MARGULIS, 2003) para atender os mercados internacionais (KAIMOWITZ et al., 2004) e da soja (BRANDÃO et al., 2005; FEARNSIDE, 2006) ou até mesmo o crescimento populacional, pode-se constatar que todos estão plenamente relacionados ao desmatamento e portanto é o modelo de desenvolvimento adotado para a Região Amazônica e a expansão das atividades produtivas que geram o desmatamento, uma vez que foi negada a vocação florestal da região no modelo de desenvolvimento adotado.

Historicamente a relação do Homem com a natureza na região Amazônica ocorreu por meio de uma experiência ambiental originada do contato direto e imediato. Isto decorreu devido ao isolamento das populações locais, as quais utilizam o meio natural na sua reprodução material, social e simbólica, sem necessariamente ameaçar a diversidade biológica (MONTEIRO, 2013).

Para Diegues (1999), há uma dimensão ideológica e geopolítica subjacentes ao processo do desmatamento que foram expressas principalmente durante os 20 anos do regime militar (1964 a 1984) em que o chamado “vazio geográfico” do território amazônico deveria ser ocupado a qualquer custo. Por meio delas foram criados programas de desenvolvimento em que o Estado antecipou uma apreciável massa de investimentos, viabilizando as condições materiais e jurídico-administrativas para os empreendimentos nacionais e internacionais se instalarem.

Com a premissa de atrair capitais privados à Amazônia, o que constituiria um elemento sustentado de desenvolvimento à região, o governo federal concedeu uma série de incentivos fiscais à atividade agropecuária que teve a propriedade como pré-condição para o acesso e quanto maior ela fosse, maior o recurso captado. Destaca-se que a produção de látex e coleta de castanhas pela população tradicional não foram contemplados, pois estas atividades eram consideradas atrasadas e não ocupavam efetivamente o território (PRATES e BACHA, 2011).

Para Diegues (1999), uma vez que a Amazônia se apresenta como a última fronteira agrícola brasileira, o processo mais importante subjacente ao desmatamento deve ser visto no contexto da acumulação de capital e da modernização. Este processo de ocupação promovido resultou numa destruição maciça do patrimônio natural e na marginalização da maioria das populações locais através da apropriação dos seus recursos naturais renováveis e não- renováveis pelo capital nacional e internacional.

O processo de reapropriação social da natureza como resposta das lutas sociais que visam garantir e melhorar a qualidade de vida com base nos modos de vida tradicionais é um contraponto a um sistema de desenvolvimento que visa apenas uma capitalização da natureza, reduzindo a uma condição ecológica a ser internalizada (LEFF, 2001).

Benzer Belgeler