1.4 General Approaches to Studies on the Properties of the Materials and Decay
1.4.4 Conditions that Affect Salt Damage
Os anarquistas nasceram das utopias, mas a potência de liberdade está na realização de heterotopias como prática liberadora. Como nota Edson Passetti, ―os anarquistas vivem em associações, como pessoas livres para dela saírem quando bem entenderem, inventando formas de vida livre, na casa, no amor, na amizade, com os filhos, os amigos, os que chegam e os que vão. Os anarquismos expressam existências, vidas e suas obras dissolvendo lazer e trabalho, privado e público. O anarquista não vive da utopia, inventa heterotopias‖ (2002: 163).
Interessa-nos os libertários fazendo uma antipolítica na cultura libertária, alertando que ao tomarem outros atalhos no agonismo do poder (decidindo participar da política) acabam compondo governos (Revolução Russa e Revolução Espanhola), atuando como agentes locais de coalizão política (como no municipalismo libertário, proposto por Murray Bookchin), ou ainda absorvidos em lutas tópicas e aparições espetaculares (contra ditaduras, no movimento antiglobalização e protestos
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circunscritos)32. Uma breve retomada de algumas das lutas anarquistas mostrará que no interior dessas batalhas passaram acontecimentos que moveram interessados nos combates e provocaram metamorfoses nas tecnologias de poder e experimentações múltiplas de resistências, considerando resistências, segundo Michel Foucault, menos pela oscilação ativo-reativo e precisamente pelo que elas trazem de inovações de liberdade.
A procedência importante é a Europa da década de 1840, quando emergem as primeiras associações operárias que culminam, na França, na tentativa de uma revolução social, de contornos socialistas, impulsionada de imediato por uma luta pelo sufrágio universal e direito de trabalho, com a criação das oficinas nacionais. Momento apontado por Proudhon como emergência da capacidade política da classe operária (Resende & Passetti, 1985). A reação conservadora nesse momento ocorrerá com a instauração da Segunda República. Mesmo assim, lançam-se as condições para que, pouco mais de uma década adiante, surgisse, em 1864, a Associação Internacional dos
Trabalhadores (AIT). A década de 1840 inicia-se com o livro-bomba de Proudhon O
que é propriedade? Ou pesquisa sobre o princípio do governo e do direito (1840); Max Stirner publica o Único e sua propriedade (1845), provocando um abalo ainda que leve às radicais propostas de Proudhon para derrubada do Estado. É também nessa década que se encontram o sucesso editorial de A Democracia na América, de Alexis de Tocqueville (1835) (Cf. Brogan, 2012), e, principalmente, a publicação do Manifesto do
Partido Comunista (1848), de Marx e Engels.
Outro historiador dos anarquismos, Jean Maitron (1991), situa o período que vai da Comuna de Paris (1871) ao início da I Guerra Mundial (1914), como um período decisivo nesse embate entre a ordem, a ação dos libertários e a reação conservadora. O massacre realizado pelo exército franco-prussiano à experiência revolucionária na cidade de Paris realizou-se com a extinção dos comunards, seguido de uma perseguição,
32 Embora a designação do anarquismo como uma política da antipolítica venha sendo retomada nos dias
de hoje como componente de um pós-anarquismo, cf. Newman (2010: 68-70 e 2011: 23-48), a designação dos anarquistas como antipolíticos já aparece, segundo Nettlau (2008: 100), em 1841, no jornal francês
L’Humanitaire, organe de science sociale, num artigo que recomendava as idéias antipolíticas e
anarquistas e propunha uma luta na qual a verdade, o materialismo, a abolição da família individual, a abolição do casamento e a destruição das cidades como centros de dominação e corrupção seriam seus motes. Neste sentido, utilizo-me de uma compreensão de antipolítica diversa da propostas do pós- anarquismo. Aqui antipolítica se refere às formas de atuação da cultura libertária no embate com os procedimentos de governamentalidade; enquanto para os pós-anarquistas a antipolítica se refere às formas de luta política que não se referem ou se relacionam com as formas da soberania, isto é, com a forma-Estado. A distinção é minúscula, mas considerável.
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em toda Europa, aos que escaparam das baionetas. No ano seguinte, 1872, a tensão entre socialistas autoritários, ao lado de Marx e Engels, e socialistas libertários, em sua maioria coletivistas, ao lado de Bakunin, dissipa-se com a expulsão da ala bakuninista após uma ardilosa ação de Marx que leva o congresso da Associação Internacional dos
Trabalhadores (AIT), também conhecida como I Internacional, para o esvaziado congresso de Haia (Nettlau, 2008). Desde então, as lutas operárias ou seguirão a centralização do partido da revolução, segundo a concepção do Manifesto Comunista (1848), de Marx e Engles, que ganha força com as críticas dirigidas ao ―fracasso‖ da
Comuna de Paris, ou irão à busca de outras maneiras de combater o Estado e o Capital, como a organização em sindicatos livres ou as ações de expropriação e terrorismo individual ou associado. Como indicado anteriormente, esses acontecimentos marcam uma codificação das lutas dos trabalhadores em tensão com a atitude individual dos anarquistas terroristas, que opunham à violência indiscriminada da burguesia, do Estado e da polícia contra os anarquistas, os atos de terrorismo individual que tomavam a burguesia também em bloco. Essas ações, denominadas de propaganda pela ação, atacavam violentamente o modo de vida burguês e seus espaços públicos privatizados na cidade, prática da qual decorrerá a noção de ação direta, que não é, forçosamente, violenta. Como mostra Degenszajn (2006), essa ação ―não teve como alvo apenas o soberano ou figuras importantes do Estado, mas também foi dirigido à burguesia, por meio da explosão de cafés ou restaurantes — símbolos da ostentação da sociedade burguesa —, como uma forma de negação dos valores incorporados pela burguesia. Foi um movimento que ficou conhecido como propaganda pela ação‖ (Idem; 60)33.
A expressão mais radical dessa prática foi a ação perpetrada pelo jovem Émile Henry no Café Terminus, em Paris. No momento de seu julgamento ele expõe suas motivações, recusa o perdão e o reconhecimento do tribunal, assumindo a responsabilidade sobre o que fez. Também utiliza o tribunal, ao qual é forçado
33―A noção de propaganda pela ação pode ser encontrada também como propaganda pelo fato. Em
inglês utiliza-se a expressão propaganda by deed. A tradução de deed, segundo o The New Oxford Dictionary of English, é "an action that is performed intentionally or consciously" [ação conduzida intencional ou conscientemente]. Em francês, utiliza-se a expressão propagande par le fait, em que fait pode ser traduzido tanto por feito, ação ou fato (Larousse Dictionnaire). A tradução literal mais direta de
deed ou fait seria feito, que não se adapta a essa utilização em português. A tradução para propaganda
pelo fato parece ser uma aproximação do termo em francês e da tradução para o português como feito. Em espanhol, encontra-se tanto a expressão propaganda del acto como propaganda por el hecho. Já em italiano, a tradução mais freqüente é propaganda del fatto. Optou-se nessa pesquisa por utilizar a expressão propaganda pela ação, que nos parece ser a tradução mais adequada e também refletir melhor a prática descrita por essa noção‖ (Idem: Ibidem).
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comparecer, como espaço para expor suas ideias e ações, afirmando, mesmo contra os companheiros que condenam sua ação, que anarquia não é um dogma ou uma doutrina, a ser seguido pelos preceitos expressos em algum livro sagrado, e precisamente pelo fato dos anarquistas não serem crentes, afirma que as ações falam contra os dogmas (Maitron, 2005: 11-42; Passetti & Augusto, 2008: 70-82).
Entre os anarquistas ganha força o debate sobre organização e a importância de atuação nos sindicatos, com presença ativa de grupos e associações secretas e conspiratórias, aos moldes da Aliança, proposta por Bakunin (Nettlau, 1977: 209-222; Guillaume, 2009). Isso não interrompe ou determina as experiências educativas, como as de Faure e e de Paul Robin no Orfanato de Cempuis de 1880 a 1894, a atuação dos anarco-individualistas, como Émile Armand na França (Armand, 2003) e Benjamim Tucker e outros anarquistas individualistas na Inglaterra e nos EUA (Nettlau, 1977: 166-182; Woodcock, 2002: 234-298) com seus jornais, revistas e livros e a ação dos anarquistas terroristas (Maitron, 1981). No interior das lutas anarquistas, intensifica-se a tensão entre ação coletiva organizada e ação individual associada. Entre os socialistas, ganha força a tese da necessidade de um partido da revolução que oriente o povo em armas, a partir da leitura que Marx fará da experiência dos communards em Paris, em A
guerra civil na França (Marx, 2008), como confirmação da necessidade de uma ditadura do proletariado. Como anota Engels no prefácio ao livro de Marx, escrito vinte anos após a Comuna de Paris, ―o filisteu socialdemocrata caiu recentemente, outra vez, em salutar terror, ao termo: ditadura do proletariado. Bem, senhores, quereis saber que rosto tem essa ditadura? Olhai para a Comuna de Paris. Era a ditadura do proletariado‖ (Marx, 2008: 355). No interior do socialismo, a tensão está entre a socialdemocracia, e suas propostas de ocupação gradual do Estado pelo sufrágio dos trabalhadores, e a ditadura do proletariado, a tese de ocupação do governo pela violência organizada dos trabalhadores. Teses experimentadas na revolução russa, de 1917, e nas alemã e húngara, de 1918. Entre anarquistas e socialistas, a tensão se dá entre o centralismo estatal e o federalismo coletivista ou dos anarquistas comunistas, que será também descrito pelos partidários de Bakunin como socialismo com liberdade.
No entanto, a mesma noção de ação direta, que se desdobra em propaganda
pela ação, animará oposições e ataques entre libertários partidários da ação sindical organizada e anarquistas que atuam individualmente, como nos atentados terroristas, ou
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anarquistas individualistas que consideram a capacidade de associação e realização dos preceitos libertários mais importantes que discursos de convencimento voltados para as massas. O final do século XIX e começo do XX foi rico nesses debates, sobretudo pelo momento de dispersão que vivia o chamado movimento anarquista, efeito direto das perseguições policiais e judiciais. Há uma busca, nesse momento, em forjar formas de atuação libertária. Para Fernand Pellouteir, a quem é atribuído a invenção do termo ação
direta como momento culminante da antirepresentação e expressão da força dos trabalhadores na realização da greve geral, ―o anarquismo era muito simplesmente a arte de se cultivar e de cultivar suficientemente os outros para que os homens possam governar-se e fruir de si mesmos‖ (Prepósiet, 2007: 485). Em sintonia com as teses proudhonianas, os sindicalistas revolucionários anarquistas, rechaçavam as ações violentas dos anarcoterroristas e acusavam os individualistas, como Émile Armand, de proselitismo estéril. Para esses sindicalistas, como Pelloutier, Pouget e Guillame, era preciso que essa cultura do autogoverno ganhasse os trabalhadores, pois a transformação se daria pela ação direta contra a atual sociedade que só reconhece o ficcional cidadão, para erigir os produtores como seres reais de uma sociedade onde homens são capazes de autogoverno.
Os acontecimentos pós Comuna de Paris, portanto, são decisivos nas acomodações e codificações que se tornarão mais claras e apresentam-se nas formas de anarco-individualismo, anarco-comunismo, anarco-sindicalismo, etc. O ponto de inflexão foi, sem dúvida, as ações terroristas, à atitude desses terroristas. A noção de ação direta que ganha esta dimensão entre sindicalistas, já era valorizada em Proudhon como atitude antirrepresentativa, desde a sua malfadada experiência no parlamento francês. Mas os atos e, sobretudo a atitude perante eles, marcará a ação dos terroristas como uma ação de antirepresentação não apenas perante as instituições de Estado, mas perante a sociedade. Essa atitude, mais que os atos em si, é que trazem um traço marcante da história das lutas anarquistas como atitude libertária, a revolta como
antipolítica na cultura libertária. Escutemos algumas breves manifestações de Henry perante o tribunal. Escutemos a voz da dinamite. Essa voz introduzida não apenas contra a sociedade, mas também contra o marasmo que ameaçava o movimento operário devido aos rescaldos da repressão contra a Comuna de Paris.
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Segundo Maitron, que organiza os documentos da Prefeitura de Paris sobre julgamento de Émile Henry, perante a perseguição a Ravachol e as ações de banditismo do Bando Bonot, Henry era um jovem de boa formação e modos mais refinados que a maioria dos operários franceses. Filho de um ex-combatente da Comuna, viveu na Espanha e iniciou estudo de engenharia e arquitetura na Itália. Ao retornar à Paris, adere ao movimento anarquista. Após ter colocado uma bomba no Café Terminus, empreende, sem sucesso, uma fuga. Levado ao tribunal, em 25 de abril de 1894, e após ouvir as acusações, pede a palavra e declara34:
―Não é uma defesa que vos quero apresentar. Não tento de forma alguma furtar- me às represálias da sociedade que ataquei. De resto, só aceito um único tribunal — eu próprio; e o veredicto de qualquer outro é-me indiferente‖ (Maitron, 1981: 83). Após essa fala alta e franca e essa elevação diante da autoridade do tribunal, passa à explicação de seus atos diante da sociedade em que vivia: ―Tinha sido habituado a respeitar, e até a amar, os princípios da pátria, família, autoridade e propriedade. Mas os educadores da geração atual esquecem com demasiada freqüência de uma coisa: que a vida, com suas lutas e seus dissabores, as suas injustiças e iniqüidades, encarrega-se, indiscreta de abrir os olhos dos ignorantes à realidade. Foi o que aconteceu, como acontece com todos. Tinham me dito que essa vida era fácil, largamente aberta aos inteligentes e energéticos, mas a experiência mostrou-me que só os hipócritas e os bajuladores conseguem obter um lugar ao sol. (...) Não tardei a compreender que as palavras pomposas que me tinham ensinado a venerar — honra, abnegação, dever — mais não eram que uma máscara escondendo as mais torpes infâmias. (...) Bastar-me-á dizer que me tornei inimigo de uma sociedade que considerava criminosa‖ (Idem: 84).
Fala direta, franca e de desafio à sociedade que havia atacado. Mas dirige-se, também, ao movimento socialista da época, que ele chama de ala dos timoratos. Suas palavras ecoam, em grande mediada, as críticas de Stirner aos comunistas, mas Henry professa, resoluto, seu pertencimento ao caráter dos anarquistas. Fala Henry:
34 Para análises acerca dos terrorismos que consideram os acontecimentos em torno das ações de Émile
Henry remeto o leitor à coletânea Terrorismos (Oliveira & Passetti, 2006). Utilizo-me especialmente dos textos de Batista (2006: 13-36), que expõe os efeitos históricos dos dispositivos jurídicos e constitucionais no combate ao terrorismo, e Passetti (2006: 95-121), sobretudo a respeito do terrorismo anarquista como insurgência e seu deslocamento no interior dos anarquismos como atitude oposta à Proudhon e adiante de Bakunin (Idem; 111). Nessa mesma coletânea esbocei uma análise inicial do terrorismo anarquista como uma mudança tática nas lutas anarquistas contra a prisão após Comuna de
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―Momentaneamente atraído pelo socialismo, depressa me afastei desse partido. Tinha demasiado amor à liberdade, demasiado respeito pela iniciativa individual, demasiada repugnância pela arregimentação, para aceitar ser um número a mais no exército do Quarto Estado‖ (Idem; 85). E expõe como se torou anarquista: ―Me relacionei com alguns companheiros anarquistas, que ainda hoje considero como dos melhores que conheci. O caráter desses homens seduziu-me imediatamente, apreciava-lhes a grande sinceridade, a absoluta franqueza, um desprezo profundo por todos os preconceitos, e quis conhecer o pensamento que tornava tais homens tão diferentes de todos os que conhecera até ali. Esse pensamento encontrou em mim um terreno preparado para o receber, devido a observações e reflexões pessoais. Apenas tornou mais preciso o que havia em mim de vago e confuso. Fiz-me também anarquista‖ (Ibidem: 85).
Seu ataque à conduta dos socialistas no movimento operário, os timoratos, evidencia seu objetivo de fazer que seu ato abra caminho para outro também elevarem sua palavra: ―Quem eram esses homens? Os mesmos que fazem abortar todos os movimentos revolucionários, por recearem que o povo, uma vez lançado à ação, deixe de obedecer a sua voz; aqueles levam milhares de homens a sofrer privações durante meses inteiros, para fazer propaganda à custa dos seus sofrimentos e ganharem a popularidade necessária à obtenção de uma mandato — refiro-me aos chefes socialistas. Esses homens, com efeito, tomaram a direção do movimento grevista‖ (Ibidem: 86).
Diante de tal sociedade e contra essa situação do movimento operário, Henry declara sua decisão: ―Decidi introduzir, nesse concerto de alegres chilreios, uma voz que os burgueses já tinham ouvido, mas julgavam morta com Ravachol: a voz da dinamite. Quis mostrar à burguesia que, daí em diante, acabaram para ela as alegrias completas, que seus insolentes triunfos seriam perturbados, que seu bezerro de ouro haveria de tremer violentamente no pedestal, até o abanão definitivo que o derrubaria na lama e no sangue‖ (Maitron, 1981: 87). Alerta em seguida para caça empreendida contra os anarquista e conclui sua declaração de guerra: ―O anarquista já não era um homem, mas um animal feroz cercado por todos os lados, para quem a imprensa burguesa, escrava infame do poder, pedia a exterminação por todos os meios. (...) Pois bem. Uma vez que vocês responsabilizaram um movimento pelo atos de um indivíduo e o atacaram em bloco, nós também atacamos em bloco‖ (Idem: 89-90). Esse ataque se fará sem receio ou remorso de matar, e ―não poupam nem mulheres nem crianças
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burguesas porque as mulheres e crianças que amam também não são poupadas. (...) Tenham ao menos a coragem de seus crimes, senhores burgueses, e admitam que nossas represálias são totalmente legítimas‖ (Ibidem: 90-91). E que não venham os teóricos dizer como devemos fazer, ―tais indivíduos tentam estabelecer uma sutil distinção entre teóricos e terroristas. Demasiado covardes para arriscarem sua vida, renegam aqueles que atuam. Mas a influência que dizem ter sobre o movimento revolucionário é nula. Hoje a hora é de ação, sem fraquezas nem recuos‖ (Ibidem: 91).
Conclui sua exposição ante ao tribunal: ―Não imploramos a mínima piedade nesta guerra impiedosa que declaramos à burguesia. Sabemos matar, saberemos morrer. É pois com indiferença que aguardo vosso veredito. Estou ciente que minha cabeça não será a última que vocês cortarão; outra ainda hão de rolar, pois os mortos-de-fome começam a descobrir o caminho de vossos grandes cafés e restaurantes, como o ‗Terminus‘ e o ‗Foyot‘. (...) Vocês enforcaram em Chicago, decapitaram na Alemanha, garrotaram em Jerez, fuzilaram em Barcelona, guilhotinaram em Montbrison e em Paris, mas o que nunca conseguirão destruir é a anarquia‖ (Ibidem: 91-92).
Esse pequeno-grande acontecimento em torno de Henry, para além do que poderia ter sido sua existência infame de um profissional liberal oriundo da classe média instruída, ressoará com ponto de virada no movimento operário em geral e entre os anarquistas em particular. Despertará ódios, medos, repulsas, críticas e adesões. Produzirá novas formas de ação, muitas vezes em discordância com ele, outras designações ou adjetivos anarquistas. No limite é o acontecimento que dispara, mesmo indiretamente, a retomada da palavra libertário, para despistar a perseguição que o levou a cometer sua ação. Entre alguns anarquistas, que ele também chamará de timoratos, despertará a necessidade de organização e estratégia de ação. Mesmo que contra seus objetivos imediatos, é em reação ao seu ato corajoso que uns irão propor as ações coletivas e sindicais, enquanto outros valorizarão o cultivo individual.
O atentado de Henry, para além de seus efeitos imediatos, é um acontecimento que embaralha as codificações que vinha se imprimindo ao movimento operário como reação à repressão perpetrada após 1848 e, sobretudo, após a Comuna de Paris. Mas o que se deve reter e ressaltar é força dessa atitude corajosa que interessa na cultura
libertária hoje, pois mais do que a ação terrorista,é a forma como ele a pronuncia e o efeito que ela produzirá que serão mais decisivos e ressoam até hoje, animando
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libertários e assustando os timoratos: a revolta como atitude, que empreende uma ação e uma maneira de realizá-la e pronunciá-la. Um pronunciamento para o qual a prudência não se identifica com a vacilação, a hesitação, mas é realizada como preparação, estudo, avaliação e decisão pelo momento e forma de ação: contra os timoratos, os demagogos, e direcionada a um alvo específico como produção de um escândalo.
Émile Armand, entre os individualistas, via com desconfiança o apelo dos coletivistas e sindicalistas. Para ele, estava em jogo propagar a anarquia e a capacidade de autogoverno, portanto, nada melhor do que viver da forma que se propõe, sem esperar a realização em uma sociedade futura. Além disso, a ânsia pelo convencimento pode levar a uma adaptação do discurso para as massas e fazer com se perca as potências da anarquia em meio aos que ele chama de ―questões de estômago‖. Armand argumenta a potência de experiências minoritárias realizada por pequenos grupos, como o amor livre e a livre associação para produção e educação. Para ele, não se deve almejar a maioria, pois a anarquia está em associar-se com ―essa pequena minoria de indomáveis, de rebeldes, de incorrigíveis, esforçando-se sempre em não se deixar levar