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A partir dos sete anos de idade, aproximadamente, as ações interiorizadas da criança começam a adquirir um conjunto de operações, definidas por Piaget (1990/2012) como transformações reversíveis que modificam ou conservam as variáveis numa estrutura lógica. As operações organizam as coordenações, que antes eram isoladas em cada situação, em sistemas de conjuntos ou estruturas com a característica de fechamento. Desta forma, se

apresentam as principais características do avanço deste novo período: reversibilidade e conservação, esta última que será expressa e aplicada em diferentes operações lógicas, como a transitividade numérica, a conservação de líquidos e de pesos. Deve-se destacar, no entanto, que essas habilidades se desenvolvem em cronologias diferentes, e ainda são presas a esquemas concretos e absolutos, podendo-se identificar duas etapas, ou sub-níveis, de desenvolvimento no estágio operatório concreto.

A primeira etapa, que compreende aproximadamente as idades entre sete e nove anos de idade, se caracteriza essencialmente pelo surgimento e estabelecimento da reversibilidade operatória no pensamento da criança. Como já explicitado, a reversibilidade refere-se à habilidade cognitiva de analisar uma operação nos dois sentidos possíveis, ou seja, compreendendo uma lógica em seu sentido direto e em seu sentido oposto. Essa habilidade permite que a criança consiga realizar a distinção entre “todos e alguns”, posto que ela passa a compreender, por exemplo, que se A + A‟ = B, então B – A‟ = A. Piaget (1990/2012) apresenta as características desse primeiro sub-nível a partir das respostas de crianças em diversas tarefas cognitivas que ele realizou para testar os estágios cognitivos propostos em sua teoria.

No entanto, apesar de representarem um avanço operatório em relação aos estágios anteriores, nesse primeiro nível que vai dos sete aos nove anos de idade, aproximadamente, os objetos e ações ainda são estruturados a partir de um novo egocentrismo intelectual, que analisa apenas suas características absolutas, o que vai dificultar o uso das operações de conservação, como a conservação dos pesos, líquidos, volumes, etc.

Considerando, por exemplo, uma das tarefas clássicas dos estudos piagetianos, que busca identificar a conservação de líquidos pelas crianças. Nesta tarefa, apresentavam-se às crianças dois copos idênticos com a mesma quantidade de água em cada um e solicitava-se que a criança identificasse qual copo possuía mais água. As crianças indicavam que os copos

tinham a mesma quantidade de água. Em seguida, transferia-se, na frente das crianças, a água de um dos copos para um copo mais fino em diâmetro, porém mais alto, e solicitava-se que as crianças identificassem qual copo possuía mais água nesta nova configuração. As crianças de sete anos de idade, que ainda se mantinham presas às configurações perceptivas, respondiam que o copo mais fino e alto possuía mais água, pois se baseavam no fato de o nível da água, em comparação ao outro copo, ter subido. Logo após, transferia-se, na frente das crianças, a água do copo mais fino e alto para um copo mais largo e mais baixo, o que fazia com que a água ficasse em um nível mais baixo em comparação com o copo original. Ao serem questionadas sobre qual dos dois copos possuía mais água, as crianças nesse sub-nível indicavam que a partir de então o outro copo, o que era idêntico ao originalmente utilizado, possuía mais água, pois novamente se baseavam unicamente no nível da água nos dois copos e desconsideravam as mudanças no formato do copo. Ou seja, faltava ainda a capacidade de conservação de líquidos, que permitiria que ela respondesse que existia, nas duas situações, a mesma quantidade de água de antes nos copos, pois as mudanças no formato do copo compensavam a mudança no nível da água.

Só por volta dos nove a dez anos de idade é que a criança apresentará todas as evoluções que o pensamento operatório possibilita. A partir das habilidades de reversibilidade e transitividade adquiridas dos dois primeiros anos do estágio operatório, e através das experiências das crianças em interação com o ambiente, começam a surgir as operações infralógicas ou espaciais, que permitem que a criança adote mais de uma perspectiva em relação ao objeto para resolver os problemas.

Para resolver adequadamente as tarefas de percepção visual, é necessário que a criança se descentre da configuração perceptiva inicial ou predominante e consiga avaliar que outras configurações são possíveis ou que fatores podem estar levando a ilusões perceptivas. Essa descentração, que se expressa na capacidade de comutabilidade, será a responsável pela

resposta correta à tarefa da conservação de líquidos apresentada anteriormente. Ou seja, a partir dos nove anos de idade, em média, a criança torna-se capaz de identificar que as mudanças no nível da água nos copos diferentes não implicam numa mudança na quantidade de água, pois o copo mais largo ou mais fino interfere na distribuição da água, mas não alteram a sua composição.

Dentre as diferentes formas de descentração que se caracterizam pela reversibilidade do pensamento, Piaget (1970/1976) cita a descentração social, que está ligada à capacidade do indivíduo se colocar no lugar do outro. Segundo ele, é neste segundo nível do pensamento operatório concreto que começa a existir uma coordenação de pontos de vista em relação a um conjunto de objetos e coisas.

Um exemplo clássico utilizado por Piaget para demonstrar o surgimento da coordenação de perspectiva é a tarefa das “três montanhas”, onde se apresentava para cada criança uma maquete contendo três montanhas com características diferentes entre si, algumas dessas características que só poderiam ser vistas em determinados ângulos de visão da maquete, e solicitava-se à criança que adotasse a perspectiva de um boneco que era deslocado para ocupar diferentes posições de observação. Note-se que a criança não poderia mudar sua posição. Perguntava-se à criança qual seria a visão das montanhas que o boneco teria em cada posição. Até a idade de nove a dez anos, as crianças ainda apresentavam algumas dificuldades em compreender que o boneco não possuía o mesmo campo de visão que elas e que poderia estar vendo coisas que elas próprias não poderiam ver da sua posição e vice-versa. No entanto, aproximadamente aos onze ou doze anos de idade, as crianças já se mostram capazes de coordenar os pontos de vista de modo a prever corretamente o que o boneco observava, mesmo que de uma localização diferente da sua.

É importante destacar que, neste estágio, Piaget não indica claramente que as descentrações tenham restabelecido o equilíbrio entre as assimilações e acomodações,

promovendo uma nova equilibração majorante. Ao que parece, as descentrações que ocorrem neste estágio, apesar de permitirem avanços significativos no raciocínio da criança, pois ela se torna capaz de se desprender das características absolutas do objeto, não são suficientes para equilibrar as estruturas, pois também fazem com que a criança identifique contradições que só são resolvidas com as operações formais.

1.2.4. O surgimento do raciocínio reflexivo e a libertação do pensamento infantil do

Benzer Belgeler