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Como vimos, a indicação do interventor Anthenor Navarro, identificado com os ideais tenentistas, levou na Paraíba à intensificação do processo de centralização e fortalecimento do Estado iniciado ainda no governo de João Pessoa. Essa orientação, em certa medida, teve continuidade na interventoria de Gratuliano Brito. Contudo, como buscaremos mostrar mais adiante, diferentemente de seu antecessor, que teve como uma de suas principais linhas de ação de governo a desestruturação do poder oligárquico, o novo interventor desenvolveu um governo mais moderado politicamente e aberto a reconciliações com os chefes locais.

Quando Gratuliano Brito assumiu a Interventoria, o momento era de crise em diversas áreas: sentia-se ainda muito fortemente no estado os ressentimentos das disputas políticas de 1930, isto é, da Revolta de Princesa e da própria “Revolução”; a crise econômica de 1929 continuava causando reflexos na economia brasileira e paraibana; uma terrível seca assolava o Nordeste; e, para completar, logo no inicio de sua gestão rebentou uma revolta armada no estado de São Paulo para a qual a Paraíba, assim como quase todos os outros entes da federação, se viu na obrigação de dispensar esforços para combatê-la. O interventor não tinha, portanto, um programa de governo preestabelecido e fundamentado de acordo com as necessidades e interesses fundamentais do Estado. Segundo ele, para atuar em seu novo cargo, contava apenas com um acervo de apreciações colhidas no exercício das funções de membro do Conselho Consultivo e no contato com os negócios da Secretaria do Interior e Segurança Pública, da qual foi titular durante três meses (ESTADO DA PARAHYBA, 1935, p.03-04).

Diante da forma inesperada com a qual se tornou interventor devido à morte de Navarro e da sua alegada falta de planejamento prévio, só restou a Gratuliano Brito, em um primeiro momento, dar continuidade as ações que já estavam em andamento. É perceptível por meio da análise dos documentos oficiais do governo como durante todo o período em que atuou como interventor interino ele procurou seguir a risca as diretrizes e ações que já haviam sido determinadas por Navarro antes de sua morte. Em quase todos os decretos e ações publicadas nesse período fazia-se questão de deixar claro que as medidas administrativas que estavam sendo tomadas haviam sido decisões do seu antecessor65. Apenas após sua efetivação no cargo, em 28 de junho de 1932, é que Gratuliano Brito começou a imprimir características próprias ao seu governo.

65 Mesmo sendo decisões tomadas ainda por Navarro, vale destacar que estas passavam pelo crivo do José

No que se refere à centralização político-administrativa e a reestruturação dos setores funcionais do Estado, sua administração deu sequência a preocupação de tutelar os municípios e coibir, em certa medida, alguns os abusos praticados pelos coronéis. Na sua concepção, era papel do Estado auxiliar os governos municipais interferindo da melhor maneira possível em suas questões administrativas e financeiras. Dizia ele a respeito dos governos municipais e das transformações pelas quais vinham passando no pós-1930:

É bem verdade que nem todas as administrações municipais orientaram os seus commetimentos encarando objetivos mais praticos e alcançando os assunptos fundamentais da região, entretanto, isso corre por conta de uma mentalidade que jamais poderia ser modificada sem a intercorrencia do factor tempo. Dahi resulta que ao Estado cumpre assistir a vida municipal, mantida a interferencia do governo nas questões administrativas e financeiras dos municipios, para que, afinal, se estabeleça um sentido mais racional no trato dos seus negocios publicos em beneficio destes e sobretudo do proprio Estado, cujos interesses se confundem com os problemas municipais. (ESTADO DA PARAHYBA, 1935, p.178)

Em sua procura, então, por interferir positivamente nos municípios do interior, centralizando a tomada de decisão em setores chaves, Gratuliano Brito extinguiu por meio do Decreto nº 307, de 6 de agosto de 1932, a junta de inspeção das municipalidades que havia sido criada por Navarro. No seu entendimento, as prefeituras estariam melhor assistidas e fiscalizadas respondendo diretamente à Secretaria do Interior e Segurança Pública, o que passou a acontecer a partir de então. Decorrente também do Decreto 307, toda parte de projetos, orçamentos e construções de obras públicas de interesse dos municípios passaram a necessitar de aprovação da Diretoria de Obras Públicas do Estado, o que representou uma forte limitação na autonomia municipal.

Ainda em relação à administração municipal, os prefeitos continuaram obrigados a publicarem mensalmente balancetes sobre a vida financeira e contábil dos municípios. Esta foi uma prática instituída ainda por João Pessoa e que teve continuidade nos governos subsequentes. Eram balanços minuciosos publicados no jornal A União que traziam informações tanto sobre a Receita arrecadada como sobre as despesas com funcionalismo, obras, instrução, etc.; até os gastos com a limpeza pública e com o cemitério da cidade eram por vezes relatados66. Isto permitia um amplo controle da interventoria sobre a administração municipal, visto que aqueles prefeitos que demonstrassem inabilidade para conduzirem as prefeituras podiam rapidamente ser substituídos.

66 Ver, por exemplo, os balancetes das prefeituras de Brejo do Cruz, Princesa, São João do Cariry, Pombal,

Cabaceiras, Soledade, Mamanguape, Araruna, Catolé do Rocha, Picuhy, Alagoa Grande, Alagoa de Monteiro e Caiçara publicados ente maio e dezembro de 1932 no jornal A União.

É o que aconteceu, por exemplo, em janeiro de 1933, com Lafayette Cavalcanti, prefeito de Campina Grande que teve sua exoneração decretada após desentendimentos com a Interventoria. O jornal A União explicou a saída de Cavalcanti da prefeitura nos seguintes termos:

O govêrno vinha recebendo reclamações a respeito da má actuação dos negocios publicos de Campina Grande, o mais importante município do Estado. E era apontado como indice do descaso do sr. Lafayette Cavalcanti, a circumstancia de viver aquelle cidadão dias sucessivos em sua fazenda, menos preocupado com o interesse da comuna do que com os seus haveres particulares. No entanto essas reclamações, levadas á conta de desinteligências pessoaes, nunca produziram maiores consequências. Agora, porém, tendo o sr. Lafayette Cavalcanti assumido, em varias oportunidades, atitudes visivelmente hostis ao governo do Estado, foi exonerado das suas funções, uma vez que teimava em permanecer deslembrado de que o cargo é de confiança e devia abrir mão do mesmo, para ficar mais á vontade. 67 O controle da Interventoria sobre quase todos os aspectos da administração dos municípios levava a que os prefeitos seguissem a risca as determinações do governo estadual e demonstrassem extrema lealdade ao interventor e ao grupo político do qual este fazia parte. Por meio das cartas enviadas por prefeitos a Gratuliano Brito, percebemos tanto a submissão destes aos desígnios do governo interventorial quanto a preocupação que havia em mostrarem-se aptos a conduzirem os negócios do município. Em uma dessas cartas, diz o prefeito do município de Sapé: “Estou tratando do Balanço da Prefeitura, e só para a semana estará terminado; findo este, estarei ahi para receber de V. Excia suas ordens” (MENEZES, 1933, p.1) 68. Essas demonstrações de obediência se repetem em várias das cartas consultadas, demonstrando ser essa subserviência uma regularidade nas relações entre governo interventorial e prefeituras.

Esta era a nova dinâmica administrativa que se instituiu no Estado a partir do governo de João Pessoa e com mais intensidade após o Movimento de 1930. A pretendida moralização política e administrativa tão mencionada em jornais e documentos do período passou a ser buscada via centralização e fortalecimento do Estado. A interventoria entendia que as prefeituras não podiam mais proceder de modo autônomo, sofrendo com as ingerências dos coronéis na política local. Era preciso ciar mecanismo de controle e fiscalização das

67 Jornal A União, 06 de janeiro de 1933, p.01. No lugar de Lafayette Cavalcanti assumiu Antônio de Almeida.

Outros prefeitos foram sendo substituídos ao longo da administração de Gratuliano Brito. Entre eles, o de Caiçara, o de Anthenor Navarro (Município), o de Umbuzeiro, o de Araruna e o de Campina Grande novamente em 1934.

68 Carta enviada por Epaminondas Menezes, prefeito do município de Sapé, ao interventor Gratuliano Brito. 06

municipalidades de modo a possibilitar que os interesses do Estado fossem colocados acima dos interesses privados dos coronéis. E quanto aos prefeitos, cabia a eles prestar contas exclusivamente ao Interventor e ser leal aos seus desígnios.

Em relação ao funcionalismo público estadual e municipal, Gratuliano Brito seguiu a orientação de reduzi-lo e subordiná-lo às ordens da Interventoria. Diante das dificuldades financeiras pelas quais passava o Estado no início de sua gestão, o interventor suprimiu diversos cargos públicos com o objetivo de gerar economia e tentar reduzir a interferência dos chefes locais em algumas áreas consideradas fundamentais para administração pública, a exemplo do fisco. Assim sendo, continuaram recorrentes as publicações nas páginas oficiais do jornal A União acerca de exonerações, transferências, indeferimento de licenças desnecessárias e suspensão de vencimentos de servidores69. Os municípios também seguiam a mesma orientação, o que é possível observar através dos relatórios que eram publicados pelos prefeitos municipais. Relatou, por exemplo, Sabiniano Maia, prefeito de Mamanguape entre 1932-1934:

Existiam ao assumir o exercicio a 22 de setembro de 1932, 27 funccionarios publicos, percebendo a importancia mensal de 2:800$000. Como medida de economia exonerei onze (11), existindo actualmente 16, com os vencimentos mensaes de 1:550$000.

[...] Esta medida de reducção do funccionalismo, que aliás, nenhuma falta fez ao serviço publico foi tomada em observancia ao Codigo dos Interventores 70.

Percebemos, portanto, que tutelar as administrações municipais foi um dos caminhos encontrados pelo governo do Estado e pelo governo central para efetuar o desmonte da estrutura político-administrativa baseada no coronelismo existente até 1930 na Paraíba. No nosso entendimento, o governo de Gratuliano Brito não se furtou diante da finalidade de centralização e fortalecimento do Estado que então se impunha. As medidas tomadas afetaram diretamente os interesses dos coronéis locais que, durante a sua administração, continuaram tendo dificuldades para exercer suas práticas de mandonismo e clientelismo do mesmo modo

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Ver as páginas destinadas aos assuntos oficiais do Estado no jornal A União entre maio de 1932 e outubro de 1934.

70 Jornal A União, 07 de outubro de 1934, p. 11-12. O Código dos Interventores determinava que os

Interventores e prefeitos deveriam se empenhar em realizar o equilíbrio orçamentário em suas administrações. Além disso, dizia em seu art. 20º: “Cada Interventor, ou prefeito, mandará proceder o estudo da organização administrativa do Estado ou município respectivo, procurando melhorar e facilitar os serviços, reduzir os quadros do funcionalismo, proporcionando-lhes as vantagens e garantias necessárias”. Ver ESTADO DA PARAHYBA. Código dos Interventores e Regimento do Conselho Consultivo do Estado da Parahyba

(1932). João Pessôa: Imprensa Official, 1932. Ver também os relatórios das prefeituras de Alagôa Nova, Sapé e

que antes da “Revolução”. Como veremos melhor no próximo capítulo, as nomeações para alguns setores da administração pública como o fisco ou até mesmo a Instrução Pública já não sofriam da parte dos coronéis a mesma influência de antes; as obras já não eram mais realizadas graças exclusivamente à ação benemérita dos chefes locais, mas sim a um Estado que se pretendia mais forte, atuante e racional; a justiça também começava a ganhar outros contornos. Essas medidas acabaram por interferir no poder e na influência dos coronéis, que inevitavelmente tiveram que se adequar a este novo ordenamento que se instituía.

Contudo, atento aos interesses do Governo Central que desejava manter harmoniosa a sua relação com os grupos oligárquicos regionais, Gratuliano Brito não teve por objetivo alijar completamente os coronéis da política paraibana. A despeito dos momentos iniciais do seu governo, em que o discurso revolucionário de combate às oligarquias ainda se apresentava muito forte, procurou ele rapidamente seguir as orientações de José Américo no sentido de estabelecer uma reconciliação com as forças políticas locais que se encontravam em conflito por conta da Revolta de Princesa e da “Revolução” de 1930.

Sobretudo a partir do momento em que foi tomada a decisão por parte do Governo Central em reconstitucionalizar o país no ano de 1933, percebemos com maior clareza a continuidade de certas práticas ligadas a cultura política coronelista, a exemplo de uma preocupação maior em ceder aos anseios dos coronéis por nomeações e remoções de amigos e parentes ou a própria escolha de prefeitos provenientes das tradicionais famílias oligárquicas. É nesse sentido que entendemos que o governo de Gratuliano Brito foi pouco a pouco se mostrando mais pragmático do ponto de vista político que o de seu antecessor, como veremos mais adiante.

Enquanto Navarro agiu de modo intransigente demitindo prefeitos e funcionários e nomeando pessoas “estranhas” ao meio político para comandar as prefeituras no interior, Gratuliano Brito, mesmo dando continuidade a algumas medidas que visaram tutelar as administrações municipais ao governo estadual e as tornar mais racionais e eficientes, não teve por objetivo alijar as velhas lideranças da política local. Assim, ao mesmo tempo em que se buscava implementar as mudanças centralizadoras que eram impostas pela conjuntura “revolucionária”, procurava-se estabelecer uma reconciliação com as forças político- oligárquicas do estado. Nossa hipótese, portanto, é a de que a administração de Gratuliano Brito deu sequência as medidas de centralização política e reestruturação dos setores funcionais do Estado paraibano, mas diferentemente de Navarro não buscou alijar os coronéis da política estadual, evitando, deste modo, entrar em um conflito aberto com estes.

Podemos citar como exemplo dessa postura conciliatória que assumiu o governo interventorial a própria escolha do Secretário do Interior e Segurança Pública. Tendo determinado que estariam as prefeituras subordinadas a essa secretária, habilmente Gratuliano Brito tomou o cuidado de procurar para esta pasta um individuo capaz de estabelecer um bom relacionamento com os prefeitos, que, como dissemos, em certa altura do seu governo já começaram a ser recrutados entre as forças político-oligárquicas locais. Assim é que foi nomeado como Secretário Argemiro de Figueiredo, um destacado advogado de Campina Grande que possuía bom trânsito com os coronéis do estado. O sucesso de Argemiro de Figueiredo na relação com as forças políticas locais foi tão evidente que aos poucos ele próprio construiu uma forte base de apoio que contribuiu para sua candidatura ao Governo da Paraíba em 1934, vindo a suceder o próprio Gratuliano Brito.

Contudo, destacamos mais uma vez que mesmo aos poucos permitindo uma reaproximação dos chefes locais à política paraibana, as ações nos setores funcionais do Estado continuaram se ampliando. Áreas como instrução, saúde, obras, economia, justiça e segurança pública passaram cada vez mais a receber as atenções de um Estado que agora se pretendia forte, centralizado e racional.

CAPÍTULO 2 – A ADMINISTRAÇÃO INTERVENTORIAL: PODER ESTATAL X