É notória e inegável a necessidade de participação do particular para incrementar políticas estatais tendentes a estimular o crescimento econômico da Nação. Imperioso, portanto, a implantação de práticas que estimulem e façam com que a iniciativa privada se sinta atraída a contribuir com o Estado brasileiro, com vistas à construção de uma sociedade mais forte economicamente.
Reflexo disso são as novas modalidades de contrato administrativo surgidas no ordenamento jurídico brasileiro. Dá-se especial destaque às parcerias público-privadas, que são um sintoma inegável da crescente implantação de relações consensuais Estado-indivíduo, com vistas a um bem maior de interesse de ambas as partes.
Cabe ao Estado, ante o panorama aduzido, adotar práticas tendentes a diminuir os custos de transação do particular com o Estado. Acerca do conceito de custos de transação, leciona Pugliese (2008, p. 77):
Custos de transação são os custos para a realização de intercâmbios econômicos. Todos os custos que o indivíduo incorre, em função dos relacionamentos que deve manter com os demais integrantes do sistema produtivo podem ser chamados de custos de transação.
Vislumbra-se claramente que o método de resolução de controvérsias utilizado pelas partes pode influir positiva ou negativamente nos custos de transação envolvidos. O Estado deve estimular a arbitragem em vista disso, pois tratar-se-ia de uma ferramenta de grande valia para o estímulo e crescimento econômico que o Brasil tanto necessita. Acerca do tema, aduz o mesmo autor:
Com efeito, se comparada à prestação jurisdicional estatal, a arbitragem pode reduzir os custos de transação da prestação jurisdicional. Em primeiro lugar, em razão da agilidade com que é concluída. O procedimento arbitral não está sujeito à rigidez dos processos judiciais, não se submete ao regime dos infindáveis recursos a instâncias superiores, e os árbitros, não raro, contam com a infra-estrutura necessária para que suas decisões sejam tomadas com grande rapidez. (PUGLIESE, 2008, p. 78)
Aqui, cabe analisar o Poder Judiciário brasileiro como uma instituição econômica. É inegável a influência da eficiência da justiça no campo econômico, sendo uma justiça eficiente fomento para o crescimento da atividade econômica, enquanto que sua visível ineficiência poder levar a uma estagnação da supracitada atividade.
Analisando-se a eficiência do Poder Judiciário enquanto instituição influente no campo econômico, é imperioso ressaltar a sua completa incapacidade, nos moldes atuais, de contribuir com o crescimento econômico brasileiro. Sabe-se que a justiça deve restar dotada de acessibilidade, previsibilidade e celeridade para cumprir com este objetivo, o que infelizmente não é a realidade da jurisdição brasileira (JOBIM, 2008, p. 125).
A previsibilidade e, notadamente, a celeridade são deficiências notórias na prestação da justiça pelo Estado, o que implica em seu descrédito pelo mercado.
É certo que a imprevisibilidade das decisões e a sua lentidão acabam por afetar os custos de transação na sociedade. Ao pactuar, os particulares tendem a onerar ainda mais os negócios realizados, vislumbrando a dificuldade que um eventual litígio judicial poderia levar para ambas as partes. Assim, aumentando-se a oneração dos contratos, ocorre o desestímulo em pactuar o que, por sua vez, interfere no crescimento econômico do país como um todo.
Resta, portanto, caracterizada a íntima relação entre um Judiciário eficiente e o crescimento econômico de um país. A título de exemplo, o STF demorava em média, no ano de 2007, 272 (duzentos e setenta e dois) dias para proferir uma decisão monocrática, proferindo 22 (vinte e duas) decisões por dia para cada ministro (JOBIM, 2008, p. 126). O autor, ao comparar o caótico quadro do STF brasileiro com a Suprema Corte Americana no mesmo ano, chegou à conclusão de que o número de decisões por ano em toda aquela corte é equivalente ao número de decisões que cada Ministro brasileiro, individualmente, profere por semana (JOBIM, 2008, p. 127).
Efetivamente, parece desproporcional que cada Ministro do STF, em uma semana, decida o mesmo número de processos do que toda a corte americana em um ano inteiro. Tal quadro retrata o completo caos que a jurisdição brasileira vive, sendo imperiosa uma política de implantação de soluções alternativas que auxilie a tradicional litigância estatal.
É notória, ainda, a incapacidade de um Judiciário tão sobrecarregado de processos em proferir decisões qualitativas e céleres e funcionar como uma instituição de estímulo econômico. Urge apelar para os métodos alternativos, uma vez que a tutela jurídica restará duplamente afetada, seja em seu caráter social (acesso à justiça), seja em seu caráter econômico.
Acerca do exposto, é preciso adotar, na Administração Pública brasileira, o conceito de Administração gerencial, onde se dá primazia à celeridade e qualidade das decisões em detrimento da burocracia, o que garantiria, igualmente, maior possibilidade de negociação entre a máquina pública e os particulares.
Machado (2008, p. 367), ao tratar do tema em debate, trouxe importante contribuição ao relacioná-lo com a teoria de saída, voz e lealdade de Albert O. Hirschman, doutrina de cunho essencialmente econômico. Para Hirschman, a concorrência é o principal mecanismo de recuperação de determinada entidade, pois estimula o uso dos instrumentos de saída e de voz por parte de seus usuários. Assim aduz Machado (2008, p. 367) acerca do conceito de saída:
Nesse caso, quando um agente está descontente com a atuação de uma organização
“A”, pois está agindo em desacordo com a expectativa que se nutria para com ela, o
principal mecanismo que esse agente possui para forçá-la a recuperar-se está na concorrência, ou seja, na possibilidade de que tem esse agente de encontrar uma
outra organização “B”, capaz de substituir potencialmente aquela organização “A”.
Além da saída, que se resume na busca por um serviço mais correto e eficiente em outra organização, tem-se a voz, assim definida (MACHADO, 2008, p. 368):
[...] há uma outra resposta possível por parte dos agente insatisfeitos, que vem a ser a manifestação direta e expressa de sua insatisfação para com as organizações, por meio de protestos contra esse decréscimo de qualidade.
Nota-se que a sociedade já fez uso da voz por diversas vezes no tocante à prestação jurídica estatal. Sabe-se dos intensos pedidos de reforma processual tendentes à celeridade na justiça, sendo mesmo tal objetivo elevado a um princípio do direito processual brasileiro. É inconteste o clamor popular por uma justiça mais eficiente, justa e célere, sendo, igualmente, incontáveis as diversas tentativas de reforma com vistas a obter um processo que tenha o condão de materializar os diferentes direitos previstos (MACHADO, 2008, p. 375).
Entretanto, como exposto, no Brasil há um imenso apego à prestação jurisdicional por parte do Estado, seja por simples tradição, seja por uma pretensa segurança que o aparato estatal garante aos particulares. Assim, há uma resistência em buscar formas alternativas ao Poder Judiciário em virtude da lealdade de seus usuários.
Conclui-se do exposto que a arbitragem funciona como uma saída ao Poder Judiciário, sendo mais uma alternativa que pode ajudar a modernizar o próprio aparato estatal através da concorrência. Suas vantagens, notadamente em matéria econômica, impõem o seu uso sempre que se tratar de direitos patrimoniais disponíveis.
Outrossim, duas características inerentes à arbitragem tendem a diminuir os custos de transação na sociedade, razão pela qual tal método resta consagrado em negociações mercantis a vários anos: sigilo e rapidez (TIMM, 2009, p. 23).
Com efeito, o particular, ao notar no edital de licitação para a contratação com o ente público a previsão da arbitragem, chegará irremediavelmente à conclusão de que as contendas eventualmente dali decorrentes serão resolvidas de maneira mais célere, sem maiores delongas, propiciando um clima amigável na relação entre os contratantes.
Não é por outro motivo que a arbitragem vem tendo larga utilização nos contratos empresariais entre particulares. A Administração Pública, que tem como um de seus deveres principais estimular o desenvolvimento socioeconômico, deve se valer da arbitragem para atrair o particular à concertação da gerência estatal através do diálogo e do consenso.