Com suporte nas reflexões pertinentes ao projeto de formação profissional do assistente social, torna-se claro que, no contexto atual, há um claro confronto entre o projeto ético-político defendido pelo Serviço Social e o projeto societário em curso, que realiza um movimento de ajuste e reforma do ensino superior, afirmando o favorecimento da expansão do privatismo; a relação desarticulada entre o ensino, pesquisa e extensão; a supressão do caráter universalista da formação; a subordinação dos objetivos universitários às demandas de mercado, a redução do grau de autonomia pensada no seu sentido restrito de autonomia financeira; a falta de incentivo ao exercício da autonomia docente e a presença do Estado Avaliativo, justificado pela necessidade de racionalização dos recursos, dentre outros aspectos (PAULO NETTO, 2004).
De forma geral, a pauta maior das discussões lideradas pela ABEPSS na atualidade incide sobre as reflexões acerca da formação profissional pretendida para os assistentes sociais, dentro de uma opção epistemológica e política definida pela categoria profissional, por um lado, e as políticas educacionais/curriculares em curso no contexto brasileiro atual, por outro.
Atualmente, o modelo de organização política e econômica do Estado segue os princípios do neoliberalismo, que trabalha com uma forma de sociabilidade mediada pelo mercado. O neoliberalismo emerge nos marcos da mundialização do capital (CHESNAIS), da financeirização dos seus processos produtivos e da intensa concentração de renda, e aponta como marcos de sua proposta: 1) um Estado forte para romper o poder dos sindicatos e controlar a moeda; 2) um Estado parco para gastos sociais e regulamentações econômicas; 3) a busca da estabilidade monetária como meta suprema; 4) uma forte disciplina orçamentária, diga-se, contenção dos gastos sociais e restauração de uma taxa natural de desemprego; 5) uma reforma fiscal, diminuindo os impostos sobre os rendimentos mais altos e 6) o desmonte
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dos direitos sociais, implicando a quebra da vinculação entre política social e esses direitos sociais (BEHRING; BOSCHETTI, 2006).
As transformações do Estado e do trabalho na sociedade atual introduzem novas mediações históricas na expressão da questão social, assim como nas formas, até então vigentes, de seu enfrentamento, seja por parte da sociedade ou do Estado, por meio das políticas sociais públicas e empresariais, dos movimentos sociais e sindicais e demais iniciativas da sociedade civil.
Essas transformações na forma de organização do Estado, também, implicam em radicais mudanças na divisão social e técnica do trabalho, afetando, além das políticas sociais, as de emprego e salário e o mercado de trabalho. Atingem, assim, de forma particular o Serviço social, como uma das especializações do trabalho coletivo, que tem como objeto de intervenção a questão social.
Nos marcos do neoliberalismo, há uma tendência de naturalizar a questão social, acompanhada da transformação de suas manifestações em objetos de programas sociais assistenciais focalizados de combate à pobreza ou em expressões da violência aos pobres, numa evocação do passado, quando a questão social era tratada como caso de polícia13, em vez de ser objeto de uma ação sistemática do Estado no estabelecimento de uma rede de serviços.
Os modos mais atuais de tratar a questão social atualizam a articulação assistência focalizada/repressão em detrimento do consenso necessário aos regimes democráticos. Como anota Montaño (2004, p. 189)
Desta forma, o projeto neoliberal, que elabora uma nova modalidade de resposta à
“questão social”, quer acabar com a condição de direito das políticas sociais e
assistenciais, com seu caráter universalista, com a igualdade de acesso com a base de solidariedade e responsabilidade social e diferencial. No seu lugar cria-se uma modalidade polimórfica de resposta às necessidades individuais, diferente segundo o poder aquisitivo de cada um.
Desta feita, o trato da “questão social” e a orientação das políticas sociais estatais são alterados de forma significativa. Para Montaño (2004), as políticas sociais são retiradas paulatinamente da órbita do Estado, sendo privatizadas e transferidas para o mercado (quando lucrativas) e/ou alocadas na sociedade civil ou terceiro setor (quando deficitárias), reconhecendo como de responsabilidade da família, da comunidade ou mesmo dos serviços privados e/ou filantrópicos. Estas são ainda descentralizadas administrativamente, o que
13 Os últimos eventos que acompanhamos pela mídia televisiva de combate ao crime organizado nas
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implica apenas uma desconcentração financeira e executiva, mantendo uma centralização normativa e política. Assim, coexistem três tipos de respostas ou três qualidades de serviços, quais sejam:
O Privado/mercantil, de boa qualidade, o estatal / ‘gratuito’, precário, e o filantrópico- voluntário – geralmente também de qualidade duvidosa. - e, portanto três categorias de
cidadãos, os “integrados” /consumidores de serviços mercantilizados, os “excluídos”
/usuários atendidos pelo Estado e os “excluídos/assistidos pela caridade e filantropia do
terceiro setor”. (MONTAÑO, 2004, p. 198).
Oliveira (1988) acentua que o que era chamado de “antimercadorias”, pois seu valor de troca (os serviços sociais e assistência estatal) passa agora a constituir ora uma função filantrópica, ora uma atividade comercial e mercantil, em ambos os casos, perdendo a condição de direito de cidadania.
Esse trato da questão social inscreve na cena contemporânea formas bem mais antigas de individualização, moralização ou trato repressivo da questão social o que é próprio das formas mais conservadoras que remontam à origem profissional do assistente social de trato caritativo e individualizado às “mazelas” da sociedade.
Justificada na crise financeira afirma-se a impossibilidade de universalizar serviços – e a
necessidade de ‘focalizar’ na população carente, os “parcos” recursos estatais, não os “malgastando” com setores em condições de adquiri-los no mercado. Processa-se assim
uma substantiva alteração na responsabilidade pela resposta à ‘questão social’. Agora é fundamentalmente o próprio trabalhador que tem o encargo de responder às suas necessidades e reproduzir-se como força de trabalho, liberando o capital deste “ônus”. Com isso, promove-se uma demanda para serviços sociais, respondida pela auto atividade dos próprios sujeitos portadores de carecimentos. (MONTAÑO, 2004, p. 194).
Ante essa diversificação das respostas dadas à questão social, esta também se diversifica e se fez mais complexa, indo desde questões coletivas – ocasionadas por aspectos do âmbito da vida material decorrentes, sobretudo, da reestruturação produtiva – a questões subjetivas, individualíssimas que solicitam um trato qualificado e personalizado, porém não descontextualizado. Como anota Lypovetsky (2009, p. 164)
A pobreza e a vulnerabilidade de massa em vigor nas nossas sociedades revestem-se de uma aparência inédita [...] Desempregados de longa duração, mães sós empregadas em tempo parcial, jovens sem qualificação à procura de um lugar, beneficiários do rendimento mínimo: um quadro nebuloso, de situações e caminhos particulares díspares, tal é a paisagem da exclusão hipermoderna. Nesta constelação de dimensões plurais, não existe consciência de classe, nem solidariedade de grupo ou destino comum, mas trajetórias e histórias pessoais muito diversas.
Esse contexto traz implicações diretas para a formação do assistente social, haja vista a fragmentação e a pulverização dos projetos formativos dos cursos, agravados por sua
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expansão em instituições privadas e uma oferta indiscriminada de cursos de graduação a distância nas instituições públicas e privadas (BOSCHETTI, 2000).
Para Mota, o influxo dessas transformações na formação profissional incide diretamente na mercantilização do ensino e no aligeiramento da formação. Para a autora, a reestruturação da formação profissional é resultante da implementação do ideário neoliberal e também da mais profunda crise do capital, a qual aciona três mecanismos:
1 processo de Reestruturação Produtiva, a qual impõe uma agenda para a formação profissional do ensino superior, como uma expansão do mesmo marcada pela privatização;
2 reforma do Estado, que minimiza suas ações e oferece suporte a mercantilização mencionada;
3 supercapitalização que direciona um fluxo de capital para investimento no ensino superior.
As marcas do contexto atual em relação às práticas docentes incidem sobre as exigências do produtivismo acadêmico, onde a quantidade de publicações se torna o principal critério de avaliação da produtividade de um pesquisador. Conectado a isso, observamos a naturalização da mercantilização do saber no mundo globalizado. Muitos grupos de pesquisa pertencentes a universidades públicas prestam serviço a instituições de caráter privado e subsidiam a produção de conhecimentos estratégicos no “jogo do mercado”.
Outro agravante para se pensar sobre a qualidade do ensino superior ofertado no contexto atual é a expansão dos cursos de graduação a distância. Pensa Boschetti (2004b), que expansão pode estar relacionada, sobremaneira, ao cumprimento do compromisso de aumento dos índices de matrículas no ensino superior brasileiro, acordados entre o Ministério da Educação e os organismos internacionais como condição de financiamento externo da educação no País e, segundo a autora supramencionada, tem elevado a prática da mercantilização do conhecimento, já iniciada pela oferta indiscriminada dos cursos privados.
Tais cursos a distância estão vinculados à utilização de novas tecnologias da informação e da comunicação, com acesso a plataformas de softwa res livres, que rompe fronteiras geográficas e temporais, oportunizando o acesso ao ensino superior, mas que podem estar contribuindo para uma mítica de que a comunicação virtual é mais avançada e a educação presencial é conservadora.
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No dizer das entidades representativas da categoria14, o ensino à distância demarca uma predominância da mercantilização da educação e “[...] tem profunda implicação na elaboração dos projetos pedagógicos e na implementação dos currículos dos Cursos de Graduação em Serviço Social.” (BOSCHETTI, 2004b, p. 23).
Consoante raciocina essa autora, o ensino a distância na graduação simplifica o processo formativo, pois em sua maioria utiliza a carga horária mínima proposta nas Diretrizes Curriculares do MEC, compromete o aprofundamento teórico, à medida que há uma predominância na utilização de apostilas e não uma referência direta aos textos originais dos autores, e destitui a proposta nacional de formação profissional estabelecida coletivamente, as diretrizes propostas pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), na qual há uma explicitação de que a formação profissional do assistente social deve se fundamentar na teoria crítica marxista.
Dados ressaltados por Mota (2011) enfatizam que em 2003, o Serviço Social já era o terceiro maior curso de oferta do ensino a distância, tendo 70.000 alunos matriculados. Essa modalidade de ensino, segundo a autora, também é marcada pela concentração de capital, onde grandes grupos de investidores concentram a oferta de matrícula em cursos privados e/ou a distância.
Informa Daniela Neves (conferência: 2013), que as dificuldades encontradas para a implementação do projeto coletivo de formação profissional do assistente social no Brasil sintetizam-se em três elementos:
1. ampliação da investida conservadora;
2. pragmatismo ou fortalecimento de tendências tecnicistas, centradas nas teorias das competências e;
3. ecletismo teórico, caracterizado pela ampliação da descontextualização dos paradigmas e pelo avanço de tendências comumente denominadas pós- modernas.
Ante tal quadro conjuntural novo, podemos considerar que aconteçam equívocos e desvirtuamentos da qualidade historicamente buscada para os cursos de graduação em Serviço Social. Um desses equívocos é considerar que a formação profissional deva estar voltada exclusivamente para as demandas patronais, atreladas ao mercado de trabalho, confundindo a formação profissional com a prática de emprego. Outro equívoco pode ser considerado o utopismo, que seria pensar que a formação e o exercício o profissional possa ser refletido e
14 Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social
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efetivado ignorando a especificidade da prática do assistente social e suas determinações objetivas.
Outro fator a ser considerado na realidade atual que traz implicações para a formação profissional dos assistentes sociais é o favorecimento da expansão privatista, invadindo os campos da pós-graduação lato e stricto sensu, o que pode trazer por consequência uma visão desarticulada de ensino-pesquisa-extensão e ainda, a supressão do caráter universalista da formação no nível superior; subordinando os objetivos universitários às demandas do mercado e reduzindo o grau de autonomia nas instituições de ensino superior. Verificamos também um aumento da oferta de cursos pagos nas universidades públicas, com cobrança de mensalidades para cursos de especialização e mestrado profissionais. Isso abre caminho para outros tipos de privatizações nas universidades públicas: a denominada “privatização branca”.
É na discussão da reforma do Estado, porém, que compreendemos os impactos mais significativos para a formação e prática dos assistentes sociais, pois incidem diretamente na reconfiguração dos espaços ocupacionais dos trabalhadores em geral e do Serviço Social em particular. Nas transformações do mundo do trabalho, destacamos a flexibilização das formas de contratação dos trabalhadores, que, no caso do Serviço Social, incidem diretamente sobre a forma de descontinuidade na implementação das políticas ou programas sociais.
A fim de fazer frente a essas novas tendências do capitalismo contemporâneo, a ABEPSS, articulada coletivamente com os outros órgãos representativos da categoria profissional – conjunto CFESS/CRESS e estudantil – ENESSO – promovem estratégias de enfrentamento dessa realidade. Dentre as diversas ações que sistematicamente já vêm se desenvolvendo, atualmente está em curso o Projeto: ABEPSS Itinerante, os grupos temáticos de pesquisa e a eleição de um eixo fundamental que é o estágio, a qual é marcada pela sistematização de uma política nacional de estágio e pela realização do I Fórum Nacional de Supervisores de Estágio.
Com esta realidade, consideramos que são muitos os desafios na esfera da atuação profissional do assistente social, principalmente se pensarmos que a prática está situada no âmbito do cotidiano, do fragmentado, do surpreendente, nos pode levar a atuações igualmente fragmentadas e/ou improvisadas. A possibilidade de superação dessa fragmentação e imprevisilidade só consegue ser transposta por um projeto de antecipação ideal do resultado.
O estágio é um importante componente curricular da formação profissional do assistente social. Por isso recebe um trato particular na pesquisa avaliativa das Diretrizes
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Curriculares, culminando com o estabelecimento da Política Nacional de Estágio (PNE). Em relação ao debate sobre o estágio, Abramides (2003, p. 16) salienta que,
A partir da concepção definida pelas diretrizes curriculares aprovadas nos fóruns da ABEPSS, a temática do estágio na formação profissional deve constituir-se em aprofundamento permanente no interior do debate acadêmico, como elemento constituinte e constitutivo da formação profissional, e de competência das unidades de ensino no processo formativo. Nessa direção, o tratamento dado ao estágio deve ser pauta constante dos fóruns da ABEPSS, no sentido de antecipar-se de forma articulada e organizada na defesa do projeto ético-político da profissão, do ensino da formação de qualidade; pressupostos das diretrizes.
Em produções profissionais recentes, são problematizadas inúmeras questões acerca da discussão sobre o estágio na formação profissional das (os) assistentes sociais brasileiras (os). Sobre isso, Abramides (2003, p. 14) salienta que um dos principais problemas a ser enfrentado na materialização do estágio como processo formativo e da instituição social como possibilitadora desse exercício acadêmico-pedagógico encontra-se no conflito e tensão existentes entre a exigência pedagógica e a determinação do mercado que amplia sua tendência em substituir o processo pedagógico de ensino e aprendizagem concebido como diretriz na formação profissional pelas unidades de ensino, através da solicitação de alunos de 1° e 2° anos letivospara o estágio, sem terem ainda adquirido os conhecimentos teóricos, as habilidades para essa inserção. Essa demanda do mercado não pode sucumbir o projeto formativo de responsabilidade das unidades de ensino, tornando-o refém dos ditames do mercado que impõe a mão de obra barata, e a desqualificação (de) formativa ao aluno em sua condição de estudante-trabalhador.
Consoante as preocupações da autora supracitada, se faz necessário que as diretrizes desta política nacional de estágio apontem alguns princípios e parâmetros básicos para as Unidades de Formação dos Assistentes Sociais (UFAS), relacionados ao estágio supervisionado curricular, nas modalidades obrigatório e não obrigatório, respeitadas as diversidades de processos formativos conhecidos na formação profissional em Serviço Social, como estratégias de resistência para a manutenção da qualidade dessa formação profissional.
Problematizar, conhecer e construir novas possibilidades para a intervenção profissional, num campo contraditório de práticas e retóricas que fortalecem a fragmentação e a atomização nos processos sociais e de trabalho, torna-se estratégico e exige o esforço crítico-reflexivo, por meio de uma formação profissional expressa além da lógica instrumental na ação profissional (GUERRA, 2002).
Os elementos, até aqui arrolados, nos remetem à necessidade da reafirmação e aprofundamento do debate e elaboração concreta de instrumentos que possibilitem a
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materialização da lógica curricular que “[...] expressa uma concepção de ensino e aprendizagem calcada na dinâmica da vida social, o que estabelece os parâmetros para a inserção profissional na realidade sócio institucional.” (ABESS; CEDEPSS, 1996, p. 8).
Assim sendo, a formação profissional deve garantir a apreensão do significado sócio-histórico do Serviço Social; das condições de trabalho dos assistentes sociais; das conjunturas; das instituições; do universo dos trabalhadores usuários dos diversos serviços e das políticas sociais. Neste aspecto, exige conhecimentos teóricos e saberes prático- interventivos, além, é claro, dos fundamentos e da lógica tendencial que os constituem (GUERRA, 2002).
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