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No trabalho de campo para a dissertação foram realizadas entrevistas com os membros da Comunidade Católica Shalom. Estas entrevistas foram restritas aos membros da CV e CA, por atender melhor o objetivo de perceber a forma como os membros compreendem as regras da Shalom e como buscam adequar suas vidas a elas. Aqueles que fazem parte da Obra, por não terem obrigação de viver conforme as regras da Comunidade, em muitos casos não possuem de forma elaborada aspectos relevantes de sua prática religiosa.

Deste modo, o principal objetivo das entrevistas é perceber através do que os membros da CV e da CA entrevistados falam acerca de suas experiências dentro da Comunidade, os aspectos importantes de suas trajetórias de vidas; como conheceram e por que decidiram participar da Shalom; os benefícios e dificuldades que tiveram com a adesão ao Shalom; a reação de suas famílias e amigos e suas relações com estes.

As entrevistas aconteceram ao longo do primeiro semestre de 2006, em sua grande maioria, no Centro de Evangelização da missão de Brasília, onde foram entrevistadas 15 pessoas, dentre sacerdotes, membros da CV e CA, de ambos os gêneros e pertencentes a todas as etapas de formação da Shalom.

Ao traçar o perfil dos freqüentadores da Comunidade que participam de suas atividades regularmente, em especial da missão de Brasília, percebe-se que a grande maioria é composta por jovens, com faixa etária variando entre 18 a 30 anos. Em relação aos membros da Comunidade, encontramos o mesmo perfil. No entanto, há pessoas com mais de 30 anos, chegando até aos 60 anos. Destaca-se que são poucos os jovens com menos de 18 e que geralmente fazem parte da Obra.

Quanto à formação familiar, observando principalmente aspectos religiosos, percebemos que a maioria é de formação católica e por isso teve iniciação religiosa católica durante a infância e a adolescência. Parte deles participou desde pequeno em atividades como catequese, grupos jovens,

pastorais e outras comunidades. Para aqueles que tiveram este tipo de formação, a entrada e adaptação na Comunidade foi mais tranqüila, pois a experiência anterior facilitou a aceitação de suas regras e práticas.

Outras pessoas, apesar de ter a família católica, não eram participante ativas da Igreja, e acompanhavam a família apenas quando solicitado, seja na missa dominical ou em alguma festividade.

“M in h a m ã e m e c h a ma v a p r a ir à mi s s a , e n t ã o eu i a à mi s s a d e p o is d a c ri s ma t o d o o d o mi n g o ma i s p o r ca u s a d a m in h a m ã e d o q u e p o r u m c o mp r o mi s s o me u . ” (t re c h o d e e n tr e v is t a – n o v i ç o 1 , C A)

Outros ainda relataram que, apesar de não terem família religiosa, receberam formação moral não muito distante da moralidade cristã.

Em relação à vida pregressa, podemos observar que aqueles que não possuíam experiência religiosa anterior ao ingresso na Shalom tiveram uma maior dificuldade de compreensão e adaptação às regras estabelecidas na Comunidade e assim, empenharam maiores esforços em sua formação e no desapego das coisas do mundo sendo deste modo, mais difícil o processo de adaptação e adequação da vida à Comunidade enquanto que para aqueles que possuíam histórico de participação mais efetiva nas atividades da Igreja, a compreensão das regras deu-se mais rapidamente e o processo de adaptação funcionou mais como uma correção de pequenos detalhes, principalmente na formação do hábito de oração diária e constante.

Independente da formação anterior, grande parte dos membros da Shalom passou por experiências fora da Igreja Católica, seja ela com o “mundo” ou em outras religiões. Estas experiências se tornaram um fator fundamental na decisão tomada por eles de entrar na Comunidade e aderir as suas regras e formas de vida. Eles passaram a perceber como algo negativo aquilo que viveram, repudiando essas práticas e se dedicando com maior intensidade à sua opção religiosa. Hoje, estas experiências vividas são utilizadas como exemplo para outros sobre a possibilidade de mudança de vida e desta forma, no auxílio daqueles que se encontram com dificuldades em adaptar-se.

As experiências em outras religiões são do mesmo modo repudiadas, principalmente em se tratando de religiões não cristãs. Em casos extremos estas experiências são tidas como traumáticas.

“ .. . c o me c e i a t e r d o r d e ca b e ç a , mi n h a mã e c o m eç o u a f ic a r p re o c u p a d a , a í f i z u m a b a te r i a d e e x a m es , n u n c a d a va n a d a . Ao me s m o te mp o m e u p a i e s ta v a a n d a n d o n a u mb a n d a , e ss a s c o is a s a s s im e el e v e n d o q u e n ã o d a v a n a d a , me l ev o u lá , f o i u ma d a s p i o re s ex p e r i ên c i a s d a mi n h a v i d a . A m u lh e r p a s s a n d o p ip o c a n a m in h a c a b eç a , s a í d e l á d o q u a r ti n h o p ra d e s ma i a r, p o r q u e a mu l h e r d iz i a q u e er a ma l o l h a d o e e u a c h a v a q u e er a d e me d o , e n t e n d eu , m u it o m e d o , a i m in h a m ã e n ã o g o st o u d e le t e r me le v a d o , em b o r a te n h a i d o ju n t o .” (t r e ch o d e e n t re v i st a , n o v iç a 2 – CV)

Observando a missão de Brasília acerca da forma como os membros tomaram conhecimento da Comunidade, podemos perceber que esse acesso está em fase de expansão. Por ser uma missão pequena e participar e realizar poucas atividades, apenas agora está começando a ter maior visibilidade dentro da Arquidiocese. O primeiro contato dos membros com a Comunidade foi na maioria das vezes, através de amigos, família ou namorado, mas também ocorre pelas atividades promovidas pela Comunidade nas paróquias ou diocese.

“M eu a m ig o , e r a d a co m u n id a d e d o Pa d r e G eo v a n e , e f o i p ro F ó ru m ( Ca r is má t i co d a S h a l o m) , em Fo r ta l e z a , o f ó r u m d a c o mu n i d a d e , e q u a n d o c h eg o u n e s se fó r u m l á , e le v i u u m a r e v is t a v o c a c io n a l e tr o u x e f o l d er d a v o ca ç ã o e u m a fi c h a vo c a c i o n a l, p o r q u e n a h o r a q u e e le v i u , e l e a c h o u q u e e r a a m in h a c a ra . ” (t r e ch o d e e n t re v i s ta , n o v i ça 2 – CA) “Qu a n d o o S h a l o m c h e g o u n ã o t in h a n i n g u é m q u e to c a s s e , n ã o t in h a m ús i co . N ã o v e i o n e n h u m mú s i co p r a c á , n a fu n d a ç ã o d e Br a s íl ia , a í q u a n d o e le s v i r a m u m m in i s té r i o d e mú s ic a jo v e m, f o i a p ri me i r a c o i sa q u e e l es fi z e ra m , f oi l á a tr á s e co n v e r s a r a m d e le v e e ta l , e a í a g e n te a ca b o u e n tr a n d o d e c a b e ç a n o n e g ó c i o .. .” ( tr e ch o d e e n t re v i s ta – n o v i ço 1 , CA )

Após o primeiro contato com a Shalom, a motivação que leva as pessoas a quererem participar da Comunidade e se interessarem por este tipo de vida comunitária é bem variada e depende daquilo que elas buscam na prática

religiosa. A primeira motivação e que chama muita atenção é a presença da juventude dos membros da Shalom manifestada com alegria brincadeiras e diversões. Independente da idade, todos os membros da Shalom, são alegres, agitados, tratam-se uns aos outros com brincadeiras e de forma animada, porém respeitosa.

“Qu a n d o e u t iv e o me u p r im ei r o c o n t a to ( co m o S h a lo m ) e u m e e n c a n te i , p o r q u e a s s i m, ti n h a jo v e n s ig u a i s a mi m, a té m es m o jo v e n s d a mi n h a id a d e , e ra s im p le s , q u e v i vi a a q u i lo q u e e u g o s ta v a d e v iv e r , e a q u i lo a l i ta v a me e n ca n t a n d o . ” (t re c h o d e e n tr e v is t a, c o n s a g r ad o – C A)

Este tipo de comportamento traz um outro fator de motivação para a aproximação e permanência de novos membros na Comunidade, a acolhida: A chegada de pessoas novas é sempre motivo de alegria, e estas são sempre recebidas com muita atenção e carinho. O primeiro contato do grupo com os novatos é de conquista, apresentando a eles a possibilidade de formar novas e verdadeiras amizades e assim, serem vistos e ouvidos. A maioria das pessoas tem grande carência afetiva por isso, se motiva com a possibilidade de viver em um ambiente tão receptivo e alegre como o que lhes é apresentado ali.

Destaque-se que os membros da Comunidade se comportam da mesma forma que aqueles que não freqüentam a Comunidade, não mudam, criando assim um estereótipo angelicalmente falso. Assim, a brincadeira, animação e intimidade no lidar uns com os outros não são envoltos de uma falsa santidade, o que para os recém chegados é acalentador, pois demonstra que para seguir a Igreja, não é necessário mudar seu caráter e tornar-se uma pessoa extremamente séria e “chata”, nem de seguir o estereótipo de católicos tradicionalmente tidos como carolas. Por fim, o comportamento das pessoas da Shalom transmite autenticidade, sendo fácil de ser aceito e seguido pelos novos membros.

“El e s ( S h a l o m) e ra m mu i to h u m a n o s , s e m a q u e l a co i s a a n g e li c a l. .. n o S h a lo m n ã o , n o S h a lo m é mu i to n o c h ã o , t o d o o mu n d o é mu i to e s p ir i tu a l , c la r o , ó b v io , m a s t u d o mu i t o é m u it o h u ma n o .” ( tr e c h o d e e n tr e v is t a – n o vi ç o 1 , C A)

A vida em oração determinada pela Shalom também é alvo de atenção dos novatos, principalmente daqueles que já têm experiência religiosa. A Comunidade tem uma estrutura que ensina e possibilita a pessoa a aprender a rezar, criar uma rotina de oração diária individual e comunitária e a se aproximar de Deus. Desta forma, para aqueles que participam de Igreja, mas não se satisfazem com aquilo que ela oferece em suas atividades regulares e, por isso, procuram algo mais, a Comunidade conquista pelo seu perfil de oração, ensinamentos e regras de comportamento bem definidas.

“O q u e c h a mo u a a t e n ç ã o n o S h a lo m é q u e v a i a c o n te c e n d o c o m v o c ê n a tu r a l me n t e, é o a u t o - co n h e c i me n to , é o a p r e n d e r a re z a r , a p r e n d er a , v a mo s d iz e r a s s im , a p r e n d e r a p e d i r a De u s , a o r a r , a o r a ç ã o , a q u el a o r a ç ã o c o n te mp l a t iv a , o r a ç ã o v a mo s d iz e r a s s i m, e s s a p a r te c rí t ic a d a h i st ó r ia , d o j ei t o d o S h a l o m r ez a r , a q u e l e mé t o d o d a le c t io d iv i n a , d a o r a ç ã o , d a c o n t e mp l a çã o , d a m e d it a ç ã o , a q u il o a l i me ch a m o u m u it a a t e n ç ã o .” ( tr e ch o d e e n t re v i s ta , c o n sa g r a d o - C A)

Conforme podemos perceber nos relatos, ao conhecerem a Comunidade, as pessoas se encantam, pois ao participarem de grupo de oração, FB, lazer e outras atividades, são respeitadas e incentivadas colaborando e aprendendo com tudo, inclusive do vocacional. Deste modo, no início de cada ano há uma grande especulação para saber quem irá participar do vocacional, como se todos aqueles que participam da Obra tivessem necessariamente que ser vocacionados.

No vocacional, as atenções não são menores, acrescentando ali o status de ser um vocacionado. Ao se tornar vocacionado, inicia-se uma série de responsabilidades antes não vivenciadas, pois ao serem convidadas as pessoas devem começar a viver conforme as novas orientações. Todo início de ano um grande número de pessoas passa a participar do vocacional. Uma conseqüência disso é que alguns entram no vocacional mais pela motivação que recebem dos amigos ou por interesses outros do que por sua finalidade em si. Depois que percebem o que realmente é o vocacional, existem dois caminhos; ou levar a

sério e seguir os estudos e trabalhos inerentes ao título ou sair, voltando à rotina anterior, com a possibilidade de retornar anos depois.

“.. . a í e u e n tr e i n o vo c a c i o n a l, me u p r im e ir o a n o d e v o c a ci o n a l fo i a q u i, n ã o l e mb r o o a n o , f u i p ro v o c a ci o n a l t o d in h o ma i s p o r i s s o n é , i a l á e to c a v a e t oc a v a e to c a v a . Aí n o s e g u n d o a n o d e v o c a ci o n a l f o i ma i s o u me n o s n a in é r c ia d o n e g ó ci o , to d o m u n d o q u e e u c o n h e c ia t a v a lá . Al g u ma s p e ss o a s c o me ç a r a m a s e t o c a r e vi v e r m a is a d i me n s ã o d a Co m u n id a d e e s a ír a m e e u c o n t in u e i s em e n te n d e r n a d a , a t é q u e n o t er c e ir o a n o d e vo c a c i o n a l, f o i e m 2 0 0 3 , c a iu a f ic h a t ot a l , d o c a r is m a e t a l , já vi e r a m o u tr o s p e s s o a s p r a cá , m u it a c o i s a a c o n t ec e u . Eu l em b r o d e e u m e d ec i d ir e m n ã o p a r t ic i p a r d o v o ca c i o n a l, a i e u d i s s e: ´ n ã o Fe r n a n d o eu q u e r o f a z er s ó s e e u se n t ir m es m o ’; e le f a lo u ´ n ã o , tu d o b e m` . Eu r ez e i d o fi m d o a n o a té o c o me ç o d o o u t r o a n o , e u f a l ei : ´ n ã o Fe r n a n d o , q u e r o m es mo o v o c a c io n a l ` , a i e u f iz eu r e ze i b e m d i re i ti n h o , f u i o u v in d o d e De u s . .. ” ( tr e ch o d e e n t re v i s ta – n o v i ço 1 , CA )

Nos relatos, as pessoas colocam o vocacional como uma fase de muita dificuldade, pois é necessário adequar sua vida àquilo que as regras estabelecidas exigem. É o momento de deixar pra traz tudo aquilo que eles fazem na vida mundana e que não convém à vida em oração. Neste período, eles devem além da vida em oração, adequar as roupas, a postura, a forma de se relacionar e as opções de vida afetiva, profissional e familiar. Este é o momento de forte transformação, onde ou ela se adapta ou abandona o vocacional.

Quando questionados acerca das mudanças de hábitos, os entrevistados destacaram que nas relações com amigos modificaram a maneira de falar e os conteúdos das conversas, diminuindo a conversas frívolas e de cunho sexual e erótico. Outro ponto a observar é a forma de se vestir, principalmente para as mulheres que deixam de usar roupas curtas, blusas de alça, biquíni, transparência. O que muda não é só em relação ao seu próprio vestir, mas àquilo que valoriza e acha bonito. Os ambientes e espaços para diversão que freqüentam são modificados, deixam de ir a bares, shows, e modificam a forma

de administrar e gastar o dinheiro ao deixar de gastar com supérfluos e bens desnecessários à vida. “M u d a n ça d e v e s ti me n t a , mi n h a s v e s ti me n t a s e r a m mu i to ma i s d e c o ta d a s , m ui to m a is e x tr a v a g a n t e s. M o d o s d e f a la r , mo d o s d e s er p o r t a r em fe s t a s. Nã o q u e h o j e e u n ã o v á a fe s t a s, e u v o u a to d a s a s fe s t a s q u e m e c o n v id a r e m, m a s e u s ei a t é o n d e p o s s o i r, q u a l o e q u i lí b r io , e u me d i vi r to s e m ca i r n o p e ca d o , e n tã o t ud o mu d o u , c o n s e g u e t e r u ma v id a ma i s e q u il i b ra d a . ” ( t re c h o d e e n tr e v is t a, c o n sa g r a d a – CA)

Como falado anteriormente, para aqueles que já tinham contato com a Igreja de forma engajada, foi leve e simples a mudança de hábitos, sendo necessário apenas adaptar alguns aspectos que ainda estavam fora dos padrões da Comunidade. Neste sentido, a entrada na Comunidade representou muitos ganhos, pois conquistaram amigos para partilhar os mesmos hábitos e não perderam coisas, pois estas não faziam parte de suas vidas.

Há também mudança de hábitos em relação aos aspectos psicológicos como, por exemplo, o exercício da paciência para esperar as coisas acontecerem ou para aprender aquilo que é necessário.

Outro caso é em relação ao egoísmo, libertando-se da preocupação consigo mesmo valorizando o ato de dar mais atenção ao próximo, de se envolver mais com as outras pessoas, ouvindo-o e ajudando-o, independente de ser da Comunidade, da família ou até mesmo de estranhos.

“Er a mu i t o me n o s p re o c u p a d o c o m a s o u t r a s p e s s o a s , m u it o me n o s a t en t o a s o u t r a s p e s so a s , D eu s v a i mo l d a n d o .” (t r e ch o d e e n t re v i s ta – n o v i ço 1 , CA ) Em relação à família também houve crescimento na relação, com maior respeito e compreensão aos familiares e na tentativa de levar Deus a eles através de exemplos e aconselhamentos.

“M eu r e la c i o n a me n to c o m mi n h a f a mí li a , d e i ma i s v a l o r, q u a n t o a g e n te p e rd e d á m a is v a l o r, e n tã o e u m u d ei mu i t o , a c h o q u e me u s e n ti d o d e vi d a , a ch o q u e m u d o u i ss o , e n t ã o m u d o u t o d o o r es t o .” (t re c h o d e e n tr e v is t a, n o v i ç a 2 – C V)

“S a i d o me u tr a b a l h o p r a p o d er m e d ed i c a r a o s m e u s fi lh o s , cu i d a r d o s m eu s f i lh o s , p o r q u e n a mi n h a c a b e ç a j á s e n ti a q u e n ã o a d i a n t a va n a d a t ra b a l h a r e d e i x a r o s m e u s t es o u r o s e m c a s a a b a n d o n a d o s . ” ( t re c h o d e e n tr e v is t a , co n s a g r a d a – C A)

Percebemos também, que após se ingresso na Comunidade o novo membro criou nova forma de relacionar-se com Deus, onde destaca-se uma relação íntima e pessoal com Ele com uma rotina de oração diária.

Outra questão a destacar nas entrevistas é que na organização do tempo, há a dificuldade em compatibilizar todas as responsabilidades pessoais e as orações diárias. Para os estudantes, isso acontece de uma forma mais tranqüila, mas para quem trabalha há uma dificuldade maior, principalmente em se tratando dos membros da CA.

“Ho j e n ã o é t ã o c o mp l i ca d o p o r q u e e u n ã o t ra b a l h o , n e m fa ç o es t á g io n e n h u m, e n tã o e s tá tr a n q ü i lo p o r q u e e u s ó es t u d o n u m t u r n o n a Un B, o u d e m an h ã e a n o i te , o u só a n o i t e, s ó d e ma n h ã , o u s ó a t a r d e . En t ã o s em p r e so b r a u m tu r n o d o d i a p a r a p o d er r ez a r , e a í e u fa ç o mi n h a s d u a s h o r a s . Qu a n d o e st a v a f a z e n d o c u r s in h o , e r a a ma n h ã to d a n o c u r s in h o , a í eu a lm o ç a v a e a t ar d e e u r e za v a l o g o a s d u a s h o r a s o u s ó u ma h o r a e a o u t ra h o r a r e z a v a d e p o is . To d a s a s n o it e s a q u i n o S h a lo m p r a t ic a m en t e , a p a r t ir d e s e te e me i a e st o u a q u i to d a a v i d a . A m is s a , o u m e io - d i a e q u i n z e o u se i s e me ia d a t a r d e .” ( tr e ch o d e e n t re v i s ta – n o v i ço 1 , CA )

Neste sentido, os membros da CV são privilegiados, pois possuem tempo previsto e especialmente reservado para oração. Cabe ressaltar aqui, que todos são orientados a não colocar como prioridade o trabalho ou estudo, mas sim, as práticas de oração e atividades da Comunidade.

“Ag o r a e u me s in t o ma i s r e sp o n s á v e l d e v i v en c i a r es s e c o mp r o mi s s o ( es t a n d o n a CA) . D u r a n te me u p e r í o d o n a CV a p r ó p r ia e s t ru t u r a me l ev a v a a v iv e r c a d a co i s a , h o je e u p r e c is o o r g a n i z a r a mi n h a v id a e p o r u ma d ec i s ã o p e ss o a l e u b u s ca r a o r a ç ã o e o s o u tr o s c o mp r o mi s s o s. ” ( t re c h o d e e n tr e v is t a, c o n sa g r a d a – CA, e x - CV )

“.. . e r a m u it o d e so r g a n i z a d a , a í a g o r a eu t e n h o h o r á ri o p a r a tu d o , p a r a a c o rd a r , p a r a d o rm ir , p a r a re z a r , i s s o fo i u m h á b i to q u e m u d o u e p ra m im fo i m ui to b o m , m e o rg a n i z a r , t e r d i s c ip l in a . Ac h o q u e c er t a s re s p o n s a b i li d a d e s c re s c e r a m, p o rq u e e u n u n c a tr a b a l h e i, s ó es t u d a v a ” ( tr e c h o d e e n t r e vi s ta , n o v iç a 2 – CV) “No in í c io e r a u m p o u c o d i fí c il , p o r q u e e u vi a j o mu i t o , vi a j a va mu i t o , d e p o is e u c h e g u ei a c o n c lu s ã o , eu t r a b a lh a v a a t é 8 h d a n o it e 9 h d a n o it e , d e p o is eu c h e g u ei a c o n c lu s ã o d e q u e s e o me u tr a b a l h o e s tá me ti r a n d o d e D eu s , a q u il o a li n ã o é l ic i to . ” ( t re c h o d e e n tr e v is t a , c o n s a g ra d o - CA )

Os Conselhos Evangélicos

Após esta apresentação dos aspectos mais relevantes percebidos durante as entrevistas, bem como os temas levantados nos questionamentos realizados, observamos um aspecto que se mostrou relevante e de relativa dificuldade para todos os entrevistados que é a vivência dos conselhos evangélicos. Este destaque se dá tendo em vista que ele não era percebido, antes das entrevistas, como fator importante na vivência dos membros da Comunidade. Deste modo, iremos agora analisar separadamente e de forma mais detalhada cada conselho e o que representa cada um dentro da doutrina da Igreja e do Shalom.

Os conselhos evangélicos são três: obediência, pobreza e castidade. A sua vivência e a prática é proposta da Igreja para todos os cristãos, porém, é próprio da vida consagrada a profissão pública destes conselhos, de forma que estes se tornem orientação para suas práticas cotidianas. Sendo assim, os três conselhos são importantes na vida dos membros da Shalom que, como forma de vida consagrada, exige os três votos de seus membros.

A obediência é uma característica própria ao cristão. Este deve ser “obediente e dócil”, conforme o Catecismo da Igreja Católica (CIC). Submeter- se ao próximo, dentro da Igreja é visto como algo bom, principalmente quando se trata das relações políticas, de trabalho e na Igreja. Conforme o Catecismo:

“O d e v e r d a o b e d iê n c ia i mp õ e a t o d o s p re s t a r à a u to r i d a d e a s h o n r a s a e la d e vi d a s e c er c a r d e r es p e i to e , co n f o r me se u mé r it o d e g r a ti d ã o e b en e v o l ê n ci a a s p e s s o a s i n ve s t id a s d e a u to r i d a d e .” (C IC 1 9 0 0 )

No Shalom, há um reforço daquilo que é dito pela Igreja acerca da obediência. As pessoas são orientadas a respeitarem as autoridades políticas e do trabalho, em alguns casos são orientadas a se submeterem aos companheiros de trabalho. Há relatos de pessoas que, ao terem problemas nas relações dentro do ambiente de trabalho, se submeteram como forma de demonstrar humildade, buscando reforçar e acentuar sua opção religiosa.

Além do ensinado pela Igreja, na Shalom há ainda questão da obediência às suas regras e autoridades. Durante todo o processo de formação são passadas aos membros as regras da Comunidade, do mesmo modo são apresentadas as justificativas da existência de tais regras. Para a CA, no início do postulantado 1, há um ritual de entrega das regras e estatutos da Comunidade e a partir daí, os postulantes passam a possuir completamente as regras que norteiam a Shalom. As regras da Comunidade, como podemos imaginar, são responsáveis por boa parte das dificuldades de adaptação e vivência dentro da Comunidade.

“To d o m u n d o d iz q u e o ma i s d if íc i l é a o b e d i ên c i a , p o r q u e v iv i a n a s u a l ib e r d a d e, t in h a s e u s co m p r o mi s so s , d e re p e n t e v o c ê p a s s a a o b ed e c e r a p e ss o a s q u e v o c ê n u n c a v i u n a v id a . .. J á im a g in o u to d o mu n d o mo r a n d o j u n t o a b a g u n ça é mu i to g r a n d e , a o b e d i ê n ci a é fu n d a m e n ta l .. .. No s p r im e ir o s a n o s e u n em fu i d e so b e d i e n te , a ch o q u e p e l a mi n h a id a d e , p o rq u e e u m o ra v a c o m m e u s p a is a in d a , e n tã o d e s o b e d iê n c i a n ã o fo i tã o d i f íc i l” (t r e ch o d e e n t re v i s ta , n o v i ç a 2 – C V) “ Al g o q u e p a r a mi m e r a mu i to d i fí c il , q u e a i n d a é , é a q u e s tã o d a o b e d iê n c ia . .. p o r e u se r a s s im , a o m e sm o te m p o em q u e s o u ca l mo , e u s o u mu i to a g it a d o . E n tã o e u n ã o c o n s ig o v e r a s si m, t u d o ce r t in h o , p r in c i p a lm en t e e m r el a ç ã o à o b e d iê n c i a . Qu a n d o s e fa l a n a o b e d iê n c ia e u s e mp r e te n h o q u e st i o n a d o mu i to . .. a lg o d e n t r o d e m im q u e se l e v a n ta q u e n ã o me l e va a o c a mi n h o ce r t o , s ó me l e v a a o ca m in h o e r r a d o , e n t ã o a s si m, a o b e d iê n c i a é a l g o

m ui to d i f íc i l. Ho j e d e n t r o d a Co mu n i d a d e , D e u s m e d e u a g ra ç a d e s a b e r li d a r m ai s c o m a o b e d i ê n ci a . ” ( t re c h o d e e n tr e v is t a, c o n s a g r ad o – C A)

No entanto, o que mais oferece dificuldade na vivência da obediência é a postura diante das autoridades. A hierarquia estabelecida, o esquema de acompanhamento e a formação demandam dos membros da Shalom a prática da obediência de forma cotidiana e clara a todos. Obedecer à outra pessoa, com experiências de vida e pensamentos diferentes nem sempre é aceito facilmente. A dificuldade torna-se maior quando esta pessoa é um estranho ou pouco conhecido havendo pouca ou nenhuma intimidade. Ressalta-se aqui, que todos têm um acompanhador ou formador e que este deve participar de decisões que são em muitos casos pessoais e muito íntimas.

“Na mi n h a r e a l id a d e , a o b e d i ê n c ia é u m d e s a fi o m a io r p o rq u e v o cê te m q u e es t a r a li c o m a o u t r a p es s o a e te m q u e ve r De u s n a q u e l a a u to r i d a d e, v e r D eu s n a q u e la p e s s o a . Ta m b é m n o s e n ti d o d e v o cê s e r a u to r i d a d e d e o u t r a p e ss o a . ” (t re c h o d e e n tr e v is t a – n o v i ç o 1 , C A)

Para a Igreja, a pobreza tem como principal modelo o próprio Cristo, que veio ao mundo e viveu nestas condições toda a sua existência. No entanto, a prática da pobreza não é um simples abdicar das posses materiais, vai mais além, é dedicar a vida a Deus em sua plenitude e esperar d’Ele o pão de cada dia, seja este pão fruto do trabalho pessoal ou da doação e benevolência de outros.

Na Shalom é dada ênfase a outra dimensão da pobreza, o “ser o terceiro”. Neste sentido, Deus é o primeiro, reafirmando a necessidade de doação de vida à Ele e a confiança de que tudo Ele irá providenciar. O irmão é o segundo, a doação de vida a Deus se evidencia na doação aos irmãos, observando e procurando saciar suas necessidades. Assim sendo, o indivíduo se torna o terceiro, administrando aquilo que recebe de Deus com sobriedade. Conforme os Escritos da Comunidade:

“A so b r i e d a d e n o ve s t ir , n o co m e r, d e v e s e r u ma m a r ca d a p o b r e z a e m n ó s . Nã o d i g o q u e n ã o t e n h a mo s n o ss a s d iv e r sõ e s e l a ze r e s , ma s a o n o s s o m o d o , r ev e s t id o s d e n o s sa p o b r e z a , d e n o s s a s im p li c id a d e s e m s e r mo s e s c ra v o s d e le s ,

c o n si d e r a n d o -o s c o mo a c r é s c im o s d e D e u s. O q u e vi v e mo s e o q u e q u er e m o s n o s é d a d o p el o S e n h o r e , s e n d o d a d o p o r Ele , é o q u e p r e c is a m o s e o q u e n o s b a s ta . ”

Como destaca Moysés, três aspectos são fundamentais na vivência da pobreza: o comer, o vestir e o divertir. No comer, a pobreza não se manifesta apenas quando há escassez, mas e, sobretudo quando há fartura, pois nesta situação é necessário saber administrar, demonstrando a verdadeira pobreza. No vestir, o exagero pode levar a não demonstração da ação e vontade de Deus sobre a pessoa e ser percebido pelo vestir e não pelo comportamento austero e cristão é contrário à prática da pobreza. Na diversão, é importante evitar o exagero e perceber que é possível se divertir sem ostentação, com criatividade.

“Na C V e xi s te u m p r in c í p io d e q u e tu d o q u e v o c ê te m é c o m u n it á r io , e n tã o t em a lg u n s b e n s q u e eu a d m in i s tr o . A q u a n ti d a d e d e r o u p a s q u e m e c a b e . .. Es s a s c o i s a s a ss i m, x a mp u s s ã o co l o c a d o s e m c o mu m , a n ã o s e r q u e e u t e n h a n e ce s s i d a d e, t e n h o a l e r g ia a a l g u ma co i s a .. . Na CA te m b e n s q u e sã o me u s , ma s a q u il o a l i e u t e n h o p a r a q u e e u p o s s a vi v e r s e mp r e n u m e s ta d o d e d i g n id a d e . .. N a CA eu a c h o q u e p o s s o v er a p o b r e z a d e u ma f o rm a a s s im , v a i d e p e n d e r ma i s