Em inúmeros países, diferentemente do Brasil nos aspectos que tratam da formação, existem vários níveis de formação de intérpretes para surdos, que atuam em espaços diferenciados. Existe formação para estes profissionais, desde o nível secundário ao nível de pós-graduação. Concordamos com Quadros (2004, p. 51), ao afirmar que a variação nos
níveis de qualificação dos intérpretes é reflexo do desenvolvimento sócio-cultural da comunidade surda e que é o envolvimento e desenvolvimento da comunidade surda que proporciona e suscita a emergência em formar intérpretes. Para pensarmos em intérpretes de Libras e sua formação, é necessário perceber o nível e possibilidades de participação da comunidade surda, na sociedade. Para Quadros (2004, p. 51), o nível de atuação da comunidade surda na sociedade é que vai implicar e determinar o sucesso ou não, da implementação de programas para formação de intérpretes.
O desenvolvimento dos intérpretes, como afirma Quadros, está relacionado entre outros aspectos, com a aceitação da Língua de Sinais na sociedade e na educação dos surdos, com as oportunidades sociais e educacionais oferecidas às pessoas surdas, com o reconhecimento do intérprete como profissional e com as atitudes das pessoas surdas e ouvintes quanto à necessidade dos serviços dos intérpretes. Nos países da Europa, a formação do intérprete de Língua de Sinais já está formalizada há muitos anos e, nos Estados Unidos, também foi implementado programa de Mestrado em interpretação, especificamente na Universidade Gallaudet, fato este que só corrobora a afirmação exposta anteriormente em que a valorização e formação dos intérpretes reflete diretamente o nível de desenvolvimento e atuação da comunidade surda na sociedade. Sendo a Gallaudet uma universidade específica para surdos, certamente o profissional intérprete precisa ter formação para acompanhar o desenvolvimento da comunidade surda e estar de acordo com as necessidades e expectativas desta comunidade em relação às exigências que esses espaços requerem em termos de atuação profissional.
No Brasil, a formação do intérprete de Língua de Sinais tem se dado por muito tempo de maneira informal, em espaços diferenciados, desde instituições religiosas à convivência com a comunidade surda, sem uma formação melhor organizada e freqüente (LACERDA, 2009, p. 30). Em muitos lugares deste imenso Brasil, muitos intérpretes continuam desenvolvendo suas atividades ao mesmo tempo em que interagem com os surdos, ou participam de espaços onde podem aprender, sem ter uma formação específica e apropriada para embasar sua prática. Com o respeito que as Línguas de Sinais conquistam a partir de 1980 nas sociedades, a presença dos surdos em vários ambientes antes impossibilitados, demanda também a presença do intérprete, que vai sendo percebido em muitos espaços sociais. Mesmo com o movimento e as políticas de inclusão que se estabelecem nas sociedades, dos encontros e determinações legais em torno do reconhecimento e promoção da igualdade de oportunidades, das legislações e declarações em termos de marcos legais para promoção e garantia da acessibilidade, é apenas com o decreto
5626 que aqui no Brasil vem se falar realmente em formação específica para esse profissional em instituições de ensino, o que antes, como afirma Lacerda, era tarefa das Associações de Surdos.
O intérprete de Língua de Sinais, sendo o profissional que tem a função de interpretar de uma língua para outra, o que foi dito, ao atuar em diferentes espaços tais como, conferências, comunidades, tribunais, mídia, de acompanhamento ou ligação, médico, delegacias, escolas, cartórios entre outras. Enfim, em vários espaços que as pessoas surdas transitam e que seja necessária sua atuação para mediar a comunicação com as pessoas ouvintes. Assim, para transitar nestes espaços de forma adequada, este profissional precisa de uma formação que possa embasar sua prática, que possibilite momentos de reflexão sobre sua atuação e espaços para troca de conhecimentos e experiências.
Alguns espaços nos quais os intérpretes de Língua de Sinais atuam e que se faz necessário uma formação específica, dentre os mais complexos está o espaço educacional e, sobre essa atuação, refletiremos mais adiante em outro tópico. Para perceber como acontece o trabalho do intérprete em vários espaços e a importância dessa atuação para o desenvolvimento e atendimento de forma adequada, urge entendermos a necessidade de um amplo conhecimento por parte deste profissional, principalmente quando atua em momentos oficiais como seminários, atendimento de ordem jurídica, consultas médicas, momentos estes que requerem deste profissional um conhecimento amplo para favorecer sua atuação de maneira adequada. Recai sobre esse profissional uma responsabilidade ética e uma postura que, muitas vezes, não pode ser efetivada em virtude do desconhecimento das maneiras adequadas para desenvolver sua profissão.
A história da atuação dos intérpretes de Libras no Brasil e os espaços em que esses profissionais atuam mostram que, dependendo do local onde ele é necessário, uma gama de conhecimentos são necessários para que possa efetivamente desenvolver bem sua função. Para os intérpretes que atuam especificamente nas instituições religiosas, o conhecimento das questões que permeiam este ambiente, relacionado com o conhecimento da Língua de Sinais, é fundamental para que possam realizar as interpretações com maior segurança. Quanto aos intérpretes que atuam em conferências, é esperado um conhecimento amplo em relação aos aspectos tratados nestes espaços específicos e um nível de conhecimentos gerais que contribui para seu desempenho de forma mais adequada. Os intérpretes que atuam em consultas médicas, delegacias, espaços jurídicos, além do conhecimento do vocabulário destes contextos, exige-se dele uma atitude ética, uma responsabilidade e uma postura mais centrada em sua atuação. Uma interpretação mal feita ou a impossibilidade de desenvolver bem sua
tarefa pode causar prejuízos sérios aos surdos, e a pretensão de comunicar algo que o surdo possa ter fica prejudicada quando o intérprete não domina os conhecimentos necessários de determinados contextos. Um aspecto que merece atenção é a parceria que precisa existir entre os intérpretes, principalmente em momentos em que apenas um não é suficiente para realizar a interpretação de uma palestra, por exemplo. Neste momento, é fundamental existir, como bem apresenta Fernandes (2003, p. 85), a parceria com outro intérprete.
A partir destas colocações, podemos inferir que independente dos espaços em que vá atuar, os intérpretes de Língua de Sinais precisam reconhecer a necessidade de parcerias e momentos de trocas de experiências, contribuindo assim para um crescimento em suas atuações e percebendo a complexidade que envolve os contextos nos quais desejam atuar.
Portanto, especificamente no Brasil, desde as décadas de 80 e 90, os intérpretes atuavam com os surdos numa relação de caridade e assistencialismo. Ao desenvolver suas atividades de forma voluntária, predominando o desejo de ajudar o surdo, eram dificultadas as possibilidades de contratação de seus serviços e, conseqüentemente, o desconhecimento por parte da sociedade da necessidade de se profissionalizar tal atuação. Essas posições foram importantes para a constituição da identidade destes profissionais, mas, com o desenvolvimento da comunidade surda e a expansão dos espaços de atuação do intérprete, começam a surgir na década de 90 os primeiros cursos de formação para Intérpretes de Língua de Sinais (ILS), com a preocupação de uma profissionalização. Os primeiros cursos, como afirma Quadros, incluíam aulas de libras e lingüística contrastiva, como o curso realizado em 1997, oferecido pela Feneis em parceria com a UFRGS. A década de 90 representou um período histórico na constituição e atuação do ILS, representando a transição de um espaço de atuação informal, para uma atuação profissional, já que existiam instituições promovendo formação para os ILS. Quadros afirma que a década de 90 caracteriza a invenção do “profissional” que passa a ser nomeado como Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais, por meio de documentos existentes na Feneis e por meio de publicações. Outro momento considerado marcante na história da formação dos ILS no Brasil é a partir do ano de 2002, quando ocorre o reconhecimento da Língua de Sinais com a publicação da Lei 10.432 e, posteriormente, em 2005, com o decreto 5626 que trata da regulamentação de Lei 10.432, representando um marco para a comunidade surda brasileira e viabilizando a formação dos ILS e indicando caminhos para a contratação destes profissionais.
A partir do Decreto 5626 de dezembro de 2005, o MEC em convênio com a UFSC, realizou a nível nacional o Prolibras, exame de Proficiência que objetiva certificar Instrutores e Professores de Língua de Sinais e Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais,
representando um tratamento diferente por parte do governo no que se refere a essa área de atuação e dos profissionais que já atuavam, porque, a partir de 2006, puderam ter um certificado que os reconhecia como fluentes e capazes de atuar em contextos de nível médio e superior. Outro momento especial para os ILS foi a criação no ano de 2008 do Curso de Graduação Bacharelado em Tradução e Interpretação de Libras/Português, oferecido pela UFSC em parceria com várias Instituições de Ensino Superior, abrangendo diversos estados brasileiros, o que representa um momento histórico para os profissionais que já atuam e agora podem contar com uma formação que embase sua prática. Contudo, essas formações não têm conseguido abranger a quantidade de intérpretes que precisam de uma formação adequada e que não têm acesso a esses cursos, ocorridos em alguns estados, e, mesmo nos Estados que oferecem a formação, o número de intérpretes que tem acesso não chega a 10% dos ILS que atuam nos diversos espaços necessários de atuação e diversos níveis de educação.
Aspecto importante a ser destacado também é o surgimento recente de cursos de especialização em Língua de Sinais a distância, promovidos por Instituições de Ensino Superior Particulares, que têm certificado “Especialistas”, sem o devido conhecimento necessário para atuar de forma adequada. Nesse contexto, pessoas que sequer conhecem minimamente a Língua de Sinais estão participando de curso para se tornarem especialistas. Esta colocação é baseada em experiência pessoal, quando participamos de um destes cursos, realizado por uma universidade de Santa Catarina, na modalidade a distância, no qual apenas as avaliações eram feitas presencialmente, neste caso na cidade de João Pessoa. Ao participar das primeiras aulas, percebemos que muitas pessoas ali presentes não sabiam nem o alfabeto manual, todavia, iam receber um certificado de especialista em poucos meses. Não podemos ser ingênuos de pensar que muitos dos que freqüentam estas aulas estão interessados em uma qualificação adequada, que realmente possa contribuir para um respaldo teórico metodológico que complemente seus conhecimentos. Ouvimos de muitos presentes nesta primeira aula que, hoje, o mercado exige no mínimo especialistas, principalmente para atuar no ensino da Língua de Sinais, e que este é um mercado em ascensão onde o que importa é o titulo que se possui. Outros, que atuavam como intérpretes e não conseguiram aprovação no Prolibras, afirmaram que apenas precisavam do certificado, porque tinham consciência de que o curso não teria como especializar ninguém na forma como se realiza (a distância). Assim, estavam praticamente comprando um título, já que consideravam que o conhecimento necessário para atuar já possuíam, faltando-lhes apenas a titulação exigida pelo mercado. Este é um fato preocupante em termos de formação profissional e, muitas vezes, pela situação e contextos nos quais muitos intérpretes estão inseridos, recorrem a esses “cursos” que minimamente
contribuem para uma formação de fato, necessária e urgente nos diversos espaços de atuação dos ILS brasileiros.
Com todo esse movimento de inclusão e a presença dos surdos em espaços cada vez mais diferenciados, tornou-se mais visível a presença do ILS e o aumento significativo de ações e políticas lingüísticas em torno da Língua de Sinais e das implicações que essa prática ocasiona. Portanto, a profissão dos ILS está num momento histórico de estruturação e, certamente, a Lei nº. 12.319, de 1º de Setembro de 2010, embora com todas as discussões surgidas a partir dos vetos dos artigos que tratavam da formação em nível superior, representa uma vitória em termos de reconhecimento dos profissionais ILS e da importância deste cargo, para consolidar uma categoria que por décadas atuou de maneira informal e que agora tem o reconhecimento de sua profissão, para qual existe uma demanda significativa no mercado de trabalho, que engloba desde os espaços públicos, a área especifica da educação e a comunidade de um modo geral.