• Sonuç bulunamadı

(S.A.A.S.) ou mesquita do Brás

Quadro 7: Uma sexta-feira na mesquita do Brás

Recebi o convite para participar da oração na mesquita do Brás com entusiasmo. Após um longo percurso de entrevistas e atividades culturais no PEC, Ali me convidou para acompanhá-lo à mesquita.

Encontramo-nos no metrô Brás. Vestido com uma bela túnica de algodão vinda da Turquia, presente de seu padrinho na mesquita, caminhamos pela rua Barão de Ladário, local de intenso comércio de roupas. Quanto às minhas vestimentas, Ali disse para não me preocupar, já que a mesquita estava acostumada a receber não muçulmanas e tinha lenços e roupas adequadas ao ritual para emprestar.

No caminho, chamava atenção a quantidade de pessoas que Ali cumprimentava. Era uma sexta-feira, dia com significados especiais para muçulmanos e, diante de meus desconhecimentos, Ali me explicava tais significados. Em suas palavras:

eu posso decorar, eu tenho quase todo o Alcorão decorado, pois gosto de ler, mas a melhor pregação é na convivência. Eu não posso falar de amor se eu sou egoísta. Como você conhece uma pessoa? Convivendo com ela. Quando você tem um amigo, você o convida na tua casa pra conhecer teu núcleo. Eu falo para a pessoa: na mesquita ninguém vai te fazer nada. Venha conhecer a mesquita, a casa de Deus. Alá não é o Deus do muçulmano, é a palavra árabe que significa Deus. Só isso. E as pessoas, quando vão, gostam. É uma coisa muito calorosa, né?

São costumes diferentes, rituais diferentes. Quando você chega para a reza na mesquita, a primeira coisa que deve fazer é se lavar, é a ablução [rito de purificação] que a gente faz: lava as mãos até os cotovelos, lava o rosto, o cabelo atrás das orelhas, lava os pés. Nós acreditamos que temos que chegar com o corpo limpo para depois purificar a nossa alma. E as pessoas acham estranho, mas começam a ver que não somos bicho de sete cabeças.

Sempre convido as pessoas para irem sexta-feira à mesquita que é nosso dia sagrado, porque começou a revelação do Alcorão ao profeta Mohamed numa sexta-feira. A gente assiste à pregação do xeique e tem a reza do meio-dia. Lá dentro é tudo em árabe, mas você tem tradutor simultâneo. E depois se faz a reza que é muito linda, a reza eu gosto muito. É um do lado do outro, não se deixa nenhum espaço livre, os cotovelos tem que se tocar, para não deixar entrar nenhuma tentação e para demonstrar que nós não somos uma religião, somos uma nação. Todos rezando da mesma forma, e da forma que Deus ensinou, que é a prostração.

Quando você se inclina durante a reza, alguma coisa acontece. Acontece uma reação mental. Você está sendo submisso. Para o muçulmano significa submisso a Alá, você não faz nada se ele não permitir. E são cinco vezes ao dia porque nossa mente se dispersa muito rápido.

local, repleto de lojas de roupa, era muito familiar a Ali, pois seus donos frequentavam a mesquita. Dali já tinham surgido algumas ideias de negócios, como a possibilidade de abrir uma empresa de colocação de zíper em jeans. Ali avaliava as perspectivas, pois seu principal desejo era trabalhar com suas habilidades culinárias e abrir um restaurante. Por enquanto, fazia trabalho de tradução, respondendo à demanda da comunidade muçulmana no Brasil: tradução de obras de divulgação do Islã da língua árabe para o português e do espanhol para o português.

Chegamos à mesquita, e, por alguns minutos, Ali procurou por uma das mulheres que me acompanharia, pois nos separaríamos a partir dali. São diferentes os locais da reza para homens e mulheres. Fui muito observada, neste meio tempo, pois era a única mulher sem véu! E Ali parecia tenso, para que eu logo fosse direcionada ao local adequado. Bem, passando esse pequeno desconforto, seguimos para as nossas salas de oração, como ele já havia me explicado.

Fui direcionada ao banheiro para a ablução, limpeza do corpo antes da reza. Recebi o véu, saia e blusa, de modo que pudesse cobrir todo meu corpo. Em silêncio, durante o sermão do xeique, os olhares cruzavam-se e “trabalhavam” incessantemente. O Alcorão, exposto no centro da sala, era alvo de um pequeno curioso, e pacientemente sua mãe o buscava repetidas vezes para que voltasse ao local da reza. Fui gentilmente convidada a integrar-me à oração, mesmo não sabendo realizar os gestos corretamente. Terminada essa parte do ritual, acompanhei as mulheres no almoço. A maioria se conhecia e trocava notícias do dia a dia.

Ao final do almoço, saí da mesquita para encontrar Ali. Ele estava com um grupo de homens e pediu que eu aguardasse, enquanto conversava ora em árabe, ora em português, sobre as necessidades da mesquita e algumas oportunidades de trabalho.

O encontro que pudemos presenciar na mesquita era ao mesmo tempo um ritual religioso e um importante momento de trocas, ao possibilitar o fortalecimento da dimensão singular e, ao mesmo tempo, a dimensão coletiva do sentido do pertencimento.

A invisibilidade e desqualificação social (PAUGAM, 1999; 2003) vivenciadas em situação de rua adquiriram novos contornos, e a descendência turca e a possibilidade em expressar-se em árabe foram também facilitadores nessa aproximação com a comunidade muçulmana.

Em 2011, através de contato com um dos irmãos frequentador da mesquita, conseguiu tratamento para o câncer. Este foi realizado na França com financiamento da

mesquita, por meio de um protocolo de estudo. O tratamento foi eficaz!

Além do contato com um ser superior, que se tornou fundamental nos últimos anos, segundo a avaliação de Ali, o engajamento político e a participação nesta rede transnacional de trocas que se desenvolve em torno da mesquita devolveram a ele um lugar social forte, ainda que a solidão e as dificuldades financeiras estejam, a todo o momento, tensionadas. O retorno ao albergue, no final de 2011, foi inevitável para que conseguisse se estruturar novamente.

Foi trabalhar no Rio de Janeiro, transferido pela Google. Ao término do trabalho retornou a São Paulo. Dormiu algumas noites na mesquita e logo após retornou ao albergue por alguns meses, enquanto procurava novas oportunidades de trabalho e moradia. Vale aqui uma discussão importante.

Quando nos referimos a pessoas em situação de rua, trabalhamos nosso imaginário em uma determinada direção e que regularmente corresponde à pessoa que dorme nos logradouros públicos, está mal vestida, suja, pedindo esmolas, puxando carroça, entre outros estereótipos. Ao longo dos anos de trabalho com este grupo social, deparamos inúmeras vezes com pessoas que viviam, para usar uma boa metáfora, tentando não escorregar no “pau de sebo”. No agenciamento entre trabalho, moradia e rede de relações, algo deixava de funcionar e a pessoa necessitava acionar novamente o albergue e, até mesmo, a morada na rua.

Acreditamos ser interessante que tal fato receba certo destaque, pois, além de ter marcado fortemente a experiência do Projeto Metuia neste campo, a situação parece ser mais invisibilizada diante das políticas públicas. Pessoas neste perfil, não raro, são tachadas de “folgadas” e “preguiçosas”, quando acessam os serviços da assistência social, e vivem fortemente o sentimento de fracasso, quando retornam ao albergue ou às casas de convivência, por exemplo.