1. BÖLÜM
2.3. Vatan Kavramı
2.3.2. Coğrafya Dersi Öğretim Programında Vatan Kavramı
Conforme discutido na introdu¸c˜ao, a preocupa¸c˜ao constante em rela¸c˜ao `a forma com que se fala no sentido de sempre haver a inten¸c˜ao – ainda que
provavelmente na maior parte das vezes inconsciente (Bargh & Chartrand,
1999) – de acomoda¸c˜ao ao que se imagina ser o esperado nas diferentes
situa¸c˜oes comunicativas pode gerar inova¸c˜oes provenientes de d´uvidas dos
falantes em rela¸c˜ao ao que ´e correto gramaticalmente. Sendo assim, olhar para tais desvios deve auxiliar na compreens˜ao de como nosso conhecimento lingu´ıstico ´e alterado atrav´es da experiˆencia com a l´ıngua. Nesse sentido, retomo a discuss˜ao a respeito de estudos recentes sobre hipercorre¸c˜ao para demonstrar a importante intersec¸c˜ao entre esses estudos e a gram´atica baseada no uso.
Aprovac¸˜ao social e hiperacomodac¸˜ao
lingu´ıstica da classe m´edia baixa que, em ascens˜ao social, procura falar
como os falantes de prest´ıgio da classe m´edia alta (Labov, 1972). Como
resultado de uma avalia¸c˜ao errada do que ´e correto gramaticalmente e com o objetivo de evitar erros, esses falantes inseguros adotam as novas formas hipercorrigidas, passando a utiliz´a-las de modo generalizado em contextos em que os falantes de prest´ıgio n˜ao as utilizariam. Segundo Labov, entre os hipercorretores originais est˜ao as m˜aes e professoras, que desempenham um papel central na propaga¸c˜ao das novas formas entre falantes mais jovens. Dada a forma supergeneralizada como padr˜ao, falantes que s˜ao frequentemente expostos a esses usos hipercorrigidos crescem com a intui¸c˜ao de que tais usos s˜ao gramaticais independentemente de sua classe social, n˜ao apresentando a mesma inseguran¸ca lingu´ıstica inicial dos hipercorretores que resultou na emergˆencia da forma hipercorrigida.
Para Hock & Joseph (1996 in Boyland 2001), um outro fato que precisa
ser considerado ´e o de que a corre¸c˜ao expl´ıcita pode impactar as cren¸cas que os falantes tˆem a respeito de quais formas lingu´ısticas s˜ao corretas. Esses autores investigaram um caso cl´assico de hipercorre¸c˜ao no inglˆes – uso de you and I em posi¸c˜ao de objeto, como em:
(1) ‘The possible misunderstanding between you and I’.
Ao dizer que a forma between you and I ´e um exemplo cl´assico de hipercorre¸c˜ao, os linguistas est˜ao dizendo que se trata de um uso n˜ao-padr˜ao que eles acreditam ser proveniente de um erro de c´alculo em rela¸c˜ao ao que ´e correto gramaticalmente. Embora a constru¸c˜ao you and I como objeto seja gramatical para alguns falantes, prescritivamente falando a constru¸c˜ao you and I ´e gramatical apenas como sujeito.
Conforme prop˜oem Hock & Joseph (1996 inBoyland 2001), falantes jovens
que crescem sendo corrigidos ao dizer algo como “Charlie and me went to the movies”, generalizam essa corre¸c˜ao expl´ıcita de tal modo que passam a acreditar que a forma Charlie and me ´e sempre incorreta prescritivamente. Assim, como consequˆencia da frequente corre¸c˜ao expl´ıcita, a ideia de que a forma you and I ´e a correta vai se solidificando de uma forma tal que esses
falantes passam a acreditar que a forma ´e a correta em todos os casos. Segundo Boyland, nesse cen´ario que faz parte da explica¸c˜ao padr˜ao do fenˆomeno de hipercorre¸c˜ao existem 3 categorias de falantes: o hipercorretores originais da classe m´edia baixa, os falantes da classe m´edia alta que falam a l´ıngua-alvo e a gera¸c˜ao mais jovem que adquire a nova variedade vernacular. N˜ao ´e discutida, portanto, a possibilidade de que falantes de prest´ıgio podem ser afetados ou podem participar da hipercorre¸c˜ao, constituindo assim uma quarta categoria: a de falantes de prest´ıgio que hipercorrigem.
A teoria da acomoda¸c˜ao comunicativa (Giles & Williams, 1992) estende
o modelo de hipercorre¸c˜ao de modo que este passa a incluir o uso de hiper- corre¸c˜ao devido a raz˜oes pragm´aticas, independentemente de inseguran¸ca ou de cren¸cas metalingu´ısticas. De acordo com essa proposta, falantes mudam sua fala para enfatizar ou minimizar as diferen¸cas sociais entre eles e seus interlocutores, em uma esp´ecie de escolha consciente com fins interacionais. Assim, ao admitir que falantes em geral tendem a aproximar seu jeito de falar ao jeito de falar de seu interlocutor quando acreditam que essa ´e a estrat´egia mais apropriada para o alcance de seus objetivos interacionais, a teoria de acomoda¸c˜ao comunicativa estende a no¸c˜ao de hipercorre¸c˜ao e admite que falantes normalmente classificados como falantes de prest´ıgio tamb´em fazem usos hipercorrigidos.
O fato de que falantes de prest´ıgio hipercorrigem ´e interessante uma vez que, de acordo com a proposta inicial de hipercorre¸c˜ao, os falantes de prest´ıgio s˜ao os modelos para os hipercorretores. Isto ´e, os falantes que teoricamente utilizam o padr˜ao-alvo dos hipercorretores tamb´em tˆem um padr˜ao ao qual procuram se conformar.
Interessada em investigar as propostas sobre a hipercorre¸c˜ao e seus limites,
Boyland (2001) atenta para o fato de que um modelo como a teoria de
acomoda¸c˜ao comunicativa n˜ao oferece uma explica¸c˜ao sobre como falantes de prest´ıgio passam a ver determinadas formas como corretas ou aceit´aveis, j´a que esse modelo explica apenas mudan¸cas na performance e n˜ao na competˆencia.
Boyland, que tamb´em investigou o emprego do sintagma you and I em posi¸c˜ao de objeto, confirmou a existˆencia de uma quarta categoria envolvida no processo de hipercorre¸c˜ao: a de falantes de prest´ıgio que utilizam formas
Aprovac¸˜ao social e hiperacomodac¸˜ao
n˜ao-padr˜ao embora acreditem que estejam usando as formas prescritas. Entretanto, enquanto a teoria da acomoda¸c˜ao oferece uma explica¸c˜ao em termos de pragm´atica e de for¸cas psico-sociais, Boyland oferece evidˆencias de que processos cognitivos baseados em frequˆencia produzem o que normalmente se chama de hipercorre¸c˜ao, processos esses que explicam as mudan¸cas nas intui¸c˜oes dos falantes. Uma pista ´e o fato de estar envolvida a adi¸c˜ao de uma constru¸c˜ao de origem externa na gram´atica individual do falante – mesmo j´a possuindo uma determinada forma padr˜ao em sua gram´atica, esse falante gradativamente passa a aceitar uma outra forma que desempenha a mesma fun¸c˜ao. Tal fato sugere que uma teoria atraente capaz de explicar essa aceitabilidade gradual precisaria explicar porque constru¸c˜oes altamente frequentes s˜ao adicionadas `as suas gram´aticas. Uma teoria como essa, para Boyland, seria capaz de n˜ao apenas explicar o uso hipercorrigido, mas inclusive intui¸c˜oes hipercorrigidas.
A possibilidade de que a exposi¸c˜ao frequente a determinadas constru¸c˜oes pode mudar a gram´atica de um falante foi investigada e confirmada por Luka
& Barsalou (1998 in Boyland 2001), em um dos poucos estudos a respeito
das mudan¸cas dos julgamentos gramaticais entre falantes adultos. Segundo os autores, cada vez que um falante ´e exposto a uma determinada constru¸c˜ao, essa constru¸c˜ao soa mais natural para este falante, que se torna mais propenso a utiliz´a-la. Ou seja, independentemente da classe social, `a medida que os falantes a sua volta usam a constru¸c˜ao hipercorrigida, a probabilidade de que falantes de prest´ıgio adotem esse uso aumenta.
Os padr˜oes dos resultados sugerem que a mudan¸ca da intui¸c˜ao associada `a hipercorre¸c˜ao pode ocorrer n˜ao apenas na transmiss˜ao descont´ınua de gera¸c˜ao para gera¸c˜ao, mas, em vez disso, ocorrer em fun¸c˜ao de uma mudan¸ca na representa¸c˜ao mental dos falantes do dialeto de prest´ıgio. A frequˆencia de exposi¸c˜ao al´em de ser uma explica¸c˜ao vi´avel para casos de hipercorre¸c˜ao, pode ser um dos fatores que aceleram o progresso de propaga¸c˜ao de formas hipercorrigidas.
Al´em de pesquisar as atitudes dos falantes em rela¸c˜ao `as constru¸c˜oes inves- tigadas, Boyland tamb´em realizou um estudo que pudesse oferecer evidˆencia quantitativa de que a frequˆencia tem, de fato, um efeito observ´avel no com-
portamento gramatical. Assim, visando a descobrir se a frequˆencia pode ser uma explica¸c˜ao vi´avel para casos de hipercorre¸c˜ao ou ainda se pode ser um dos fatores que aceleram o progresso de hipercorre¸c˜ao, Boyland realizou um estudo de corpus e constatou que um fator determinante de quando uma forma de prest´ıgio vai se espalhar para contextos n˜ao-padr˜ao ´e sua frequˆencia em seu contexto original. Assim, segundo ela, quando a hipercorre¸c˜ao ocorre, a variante que preferencialmente ´e supergeneralizada ´e a mais frequente.
Assim, o estudo de Boyland tem duas contribui¸c˜oes importantes: (i) ele confirma a existˆencia de uma quarta categoria – a de falantes de prest´ıgio que hipercorrigem; e (ii) oferece evidˆencias de que processos cognitivos baseados em frequˆencia s˜ao capazes de alterar a intui¸c˜ao lingu´ıstica desses falantes.
Ao propor que os falantes de prest´ıgio come¸cam a usar a forma nos contextos n˜ao-padr˜ao sob influˆencia dos padr˜oes lingu´ısticos de outros falantes, a meu ver, Boyland est´a partindo de uma ideia de gram´atica dinˆamica baseada no uso, admitindo que a gram´atica individual de cada falante ´e remodelada constantemente e sofre efeitos de frequˆencia.
O fato de Boyland concordar que a hipercorre¸c˜ao normalmente motivada socialmente ocorre, embora seu estudo demonstre que considerar a frequˆencia de uso ´e indispens´avel para o estudo da propaga¸c˜ao de formas hipercorridas, sugere que, assim como Croft, ao ver da autora, os quatro mecanismos de sele¸c˜ao propostos pela teoria de sele¸c˜ao de enunciados estariam envolvidos no
processo de remodela¸c˜ao das gram´aticas individuais (ver se¸c˜ao 1.2).
Com base nos achados de Boyland acerca de processos cognitivos rela- cionados `a frequˆencia de uso, para evitar a ideia de escolha consciente que vem associada ao termo hipercorre¸c˜ao, inova¸c˜oes gramaticais percebidas como “exageros” ser˜ao tratados neste estudo como exemplos de hiperacomoda¸c˜ao (overaccomodation). Conforme discutido por Coupland et al., quando os falantes parecem estar fazendo mais ajustes do que aqueles necess´arios ou apropriados para a intera¸c˜ao, ainda que suas inten¸c˜oes sejam positivas, es- ses falantes acabam, muitas vezes, por ser avaliados de forma negativa por
seus interlocutores (Coupland et al. 1988 in Zuengler 1991: 239). Partindo,
portanto, de um conceito mais relacionado a estrat´egias comunicativas, neste estudo o termo hiperacomoda¸c˜ao ´e empregado no sentido de que falantes,
O significado social da variac¸˜ao lingu´ıstica
influenciados pelas formas mais frequentes a que s˜ao expostos, acabam por estender os padr˜oes frequentes a contextos n˜ao-padr˜ao.