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2. KURAMSAL ÇERÇEVE

2.3. COĞRAFYA ÖĞRETİMİNDE KULLANILAN MATERYALLER

Entender o computador como um suporte multimodal de escrita implica percebermos o quanto os gestos, comportamentos, enfim, todo o aprendizado de sua usabilidade reflete na maneira como o sujeito se relaciona com o texto escrito.

Para fazermos essa análise, vamos nos pautar em dados retirados de trechos de diálogo e de entrevistas correspondentes a aulas diversas com o intuito de reforçar aquilo que acreditamos ser a contribuição desse suporte para a alfabetização.

Este primeiro trecho de transcrição ocorreu na aula quando os alunos fizeram a atividade de colorir a letra do próprio nome e de digitá-lo junto ao desenho da letra colorida. Segue a transcrição:

[...]

[A aluna ME, ao desmanchar o que tinha feito com a borracha, desfez o contorno da letra do nome dela. Quando foi colorir a letra de novo com o baldinho, acabou colorindo toda a tela.]

Aluna ME: Nossa, Julianna!! O que houve?!

Pesquisadora: No caso aqui, ME, você desfez o contorno da letra e, na hora de colorir de novo com o baldinho, manchou tudo.

Aluna ME: E agora?!

Pesquisadora: É só desfazer; clica na setinha [aponto.] [Ela clica.]

Pesquisadora: Pronto! Aluna ME: Ufa!

[...]

Esses dados revelam aspectos do exercício de fazer e desfazer, nessa fase em que as crianças da pesquisa se encontram. É muito comum os alunos de seis anos fazerem a atividade em sala de aula, utilizando o lápis, “manchando” ou “borrando” o papel com algum traço indevido.

Normalmente, a criança, quando passa por essa situação, não gosta muito; costuma, inclusive, começar o trabalho de novo em outra folha só para não ficar com o trabalho escolar “cheio de marcas”.

No computador, quando acontece de o aluno “manchar” o espaço virtual onde se encontra a sua atividade escolar, basta dar um clique para que tudo se desfaça, como se nada do que foi feito antes tivesse existido e, com isso, somem as marcas do processo de produção da atividade.

Essa diferença decorrente do uso de suportes variados remete ao que Chartier (2002, p. 114) já havia constatado em relação à postura do leitor diante de suportes de texto experimentados ao longo dos tempos: desenrolar o rolo, abrir o códex, etc. Ou seja, com a mudança de suporte e, consequentemente, com o uso de novas ferramentas de escrita com potenciais distintos, o novo gesto (clicar, no caso) é apenas a “ponta do iceberg”, se pensarmos em tudo o que está por trás dele.

Clicar nessa situação vivida pela aluna ME significou limpar aquilo que a incomodava no seu trabalho escolar, pois, ao desmanchar com a borracha virtual (sem ter muito domínio da usabilidade com o mouse), acabou desfazendo a letra inicial do seu nome. No entanto, essa limpeza torna opaca a referência da atividade que ela vinha desenvolvendo e não se pode dizer que isso não traga efeitos na forma de utilização da memória. O fato é que o trabalho final em que aparece a letra do nome da aluna ME colorida não revela a dificuldade com a usabilidade do mouse pela qual passou no desenvolvimento da atividade. Veja o trabalho final:

Fonte: Blog da turma Madureira Horta.

Podemos notar que há resquícios ainda da dificuldade inicial em lidar com o mouse na última ponta da letra do nome da aluna ME à direita. Como ela voltou a usar a borracha virtual outras vezes ao colorir, deixou em uma dessas vezes o

contorno aberto, o que fez com que a cor usada nessa parte da letra se espalhasse para o resto da página. Mas como não havia “atrapalhado” totalmente a atividade, ME resolveu deixar essa tarefa dessa forma mesmo.

Quando os alunos descobriram que poderiam clicar e desfazer aquilo que não os agradava ou que estava “errado”, como aconteceu com ME, a reação de todos foi igual a da ME: “Ufa!”.

Se fosse no papel manuscrito, certamente esse trabalho ficaria com todas as marcas das alterações e mudanças realizadas ao longo do desenvolvimento da atividade. No entanto, no espaço virtual, o resultado final vem sem mancha alguma para alívio do alunado.

Assim, pode-se dizer que, à medida que a criança em processo de alfabetização consegue perceber o potencial das ferramentas presentes em cada suporte (manuscrito, virtual), pode utilizar esse conhecimento para aprimorar sua produção final de texto. No entanto, isso nos obriga a pensar nos efeitos e interferências das ferramentas nas condições de produção da atividade escolar.

Na sequência, apresentaremos vários pequenos trechos de diálogos ocorridos na aula de cópia virtual de parte do livro Bichos são todos bichos, de Bartolomeu Campos de Queirós.

[...]

Aluna ME: Julianna, eu quero ir para cá. Pesquisadora: Para a linha de baixo, né?

Aluna ME: É; eu sabia, mas não me lembro mais. Pesquisadora: Clica aqui nesta tecla! [aponto] Aluna ME: É mesmo!! A tecla grande!!

[...]

Aluna IN: Julianna, [caminha em minha direção] a gente não entendeu como colocar a caixa de texto.

[Vamos ao grupo dela para dar as devidas orientações.] Pesquisadora: Clica aqui na caixa de texto [aponto na tela]. Aluna IN: Aaaaah, tá! Me lembrei agora.

Aluna GIU: Julianna, como solta espaço mesmo? Pesquisadora: Tecla aqui.

[Observo que o aluno TA está desatento.]

Aluno AR: Julianna, como coloca esse chapeuzinho aqui mesmo? Eu esqueci!!

Pesquisadora: Esse acento é o circunflexo, ok? Aluno AR: Ah é!

Pesquisadora: Aperta essa tecla aqui que tem a setinha. Aluno AR: Já sei!!

[Ele segura e clica no acento.] Pesquisadora: Legal! [...]

Quando fizemos a atividade de cópia virtual do livro Bichos são todos bichos, no segundo semestre de 2009, os alunos já haviam realizado a cópia do livro da nuvenzinha Flofi, no primeiro semestre do mesmo ano. Portanto, é natural que seja corrente no discurso das crianças expressões do tipo “Já sei!”; “Eu esqueci!”; “Não me lembro mais...”.

Sobre essa questão da memória, que aparece no discurso desses alunos, perguntamo-nos: E a memória do gesto usado para registrar a escrita? Permanece e se consolida? Podemos dizer que sim, pois, mesmo que a criança tenha pouca referência de como se registra a escrita no computador ou em qualquer outro suporte, o fato de ter nascido na “era digital” e conviver em uma sociedade que faz uso desse tipo de texto torna essa incorporação dos gestos de escrita algo mais tranquilo para os pequeninos.

E, na memorização do novo gesto, conhecimentos sobre o registro formal da escrita são adquiridos, ao mesmo tempo, pela criança. Isto é, na interatividade com o computador e sua usabilidade, a criança aprende sobre o registro formal da escrita (acentuação, pontuação, espaçamento, segmentação entre as palavras, dentre outros).

Para além desses elementos formais e discursivos, ressaltamos nesses trechos os gestos que os alunos têm que realizar para poder representar ou estruturar sua escrita na página virtual: para fazer o acento circunflexo – primeiro é preciso teclar no shift e no acento para depois teclar na letra; para passar para a linha de baixo – teclar enter; para soltar espaço na mesma linha – usar a tecla maior.

Evidentemente que no caderno os gestos são outros. Levando-se em consideração a multimodalidade envolvida no suporte e no seu uso, retomados na fala da professora que mais de uma vez observou as implicações do uso do computador no aprendizado da escrita dos alunos, acreditamos que a mudança de postura (e em algumas representações sobre a escrita que o suporte exige) contribua na percepção que as crianças constroem sobre a escrita, sobretudo em seus aspectos gráficos e de uso.

Nesse sentido, entendemos, assim como Novais e Bergamo (2009), que as ferramentas digitais podem se constituir como parte integrante do processo de alfabetização das crianças no espaço escolar. Voltamos a indicar que, sem dúvida, o suporte digital apresenta interfaces não só funcionais como também atrativas e

envolventes para a criança (NOVAIS; BERGAMO, 2009). Assim, mesmo sentindo estranhamento com a usabilidade de alguns recursos da máquina, em algum instante, as crianças demonstram curiosidade e muito interesse em aprender como registrar virtualmente a escrita.

4.2.2 Lentidão e Agilidade: repercussão nas interações e na produção de