• Sonuç bulunamadı

GEREÇ VE YÖNTEMLER

İSTATİSTİKSEL ANALİZ

C: Cinsiyet, E: Erkek, K: Kadın,

[...] Ele era sujo e vil e tinha o hábito de cuspir quando estava nervoso. Ele tinha um estilo arrogante e geralmente falava muito pouco. Quando ele falava, era de uma maneira bem rude a qual contava com o uso liberal de epítetos portugueses. O fato de uma colônia de cristãos intelectuais adotar tal jovem é o testemunho da nossa marca de intelectualismo. Foi Mizuoka quem saudou Yōgu como uma espécie de bom selvagem. Isto foi o que a raça

189 japonesa, desenfreada pela sociedade de uma ilha compactada de seu passado, pôde produzir141(YAMASHITA, 1992, p. 28).

A descrição de Yōgu sugere a imagem estereotipada de um indivíduo bárbaro, deslocado e totalmente desprovido de qualquer cultura. Este sujeito necessita ser civilizado, catequizado, aculturado, conforme os ditames de uma sociedade autodenominada intelectual e civilizada. A figura de Yōgu causa estranhamento e até repúdio na maioria dos colonos de Esperança. Ele até poderia ser impedido de entrar na comunidade, porém, pelo fato de Esperança estar sustentada nos pilares da religião cristã percebe-se a necessidade de provar a capacidade de “enquadrar” esse outro nos seus moldes. O discurso hegemônico carrega no seu bojo a ideia de manter o outro à margem da sociedade; o sujeito diferente é sempre descrito com adjetivos depreciativos. Somente desvalorizando o indivíduo é que se justifica a sua suposta civilização ou catequização, por aqueles que se consideram superiores.

A presença de Yōgu sempre incomodou a todos da comunidade, principalmente Kantaro Uno. Ao questionar Yōgu sobre o motivo que o levou a vir para Esperança, este simplesmente responde ironicamente que está se escondendo e acrescenta: “Lugar melhor? Esperança, uma adorável colônia cristã de japoneses intelectuais e comunistas142 (p. 31).

Nesse comentário, podemos perceber que Yōgu toma a posição do outro, ele tem consciência de ser diferente dos demais colonos. Isto não significa que ele se sinta inferior, mas diferente no seu ponto de vista. As dicotomias civilização versus barbárie, bom versus mau tem no personagem Yōgu o protagonista que representa sempre o lado negativo. Ou seja, enquanto ele é o bárbaro, os colonos de Esperança são os civilizados; enquanto ele é o bandido ou vilão, Kantaro Uno é o mocinho. Saburo, melhor amigo de Ichiro, era o único que cultivava certa admiração por Yōgu. Ele o via bem diferente de seu irmão Kantaro, na sua opinião um tirano e dissimulado, Yōgu era sua inspiração de herói perfeito com caráter e estilo único.

Gradativamente Yōgu é despido de sua roupagem selvagem até chegar ao ponto em que perde totalmente e literalmente a sua voz. O processo de catequização e aculturação de Hachiro Yōgu inicia na propriedade de Takeo Okumura. Este inicia o “tratamento” impondo algumas regras de civilidade ao jovem bárbaro: antes de entrar na casa ele deve deixar todas

141

[...] He was dirty and mean and had a habit of spitting when he was nervous. He swaggered about and generally said very little. When he speak, it was in a rough crude manner which relied on a liberal use of Portuguese epithets. That a colony of Christian intellectuals could adopt such a young man is testemony to our brand of intellectualism. It was Mizuoka who welcomed Yōgu as a sort of noble savage. This was what the Japanese race, unfettered by the tight island society of their past, might produce.

142

190 as armas do lado de fora. Aos poucos Okumura o convence a andar apenas com uma pistola, a tomar banho todos os dias, fazer a barba, pentear os cabelos, entre outras regras básicas da boa educação. Okumura, na visão de Ichiro, consegue milagrosamente e pelas graças de Deus, domesticar o jovem selvagem. Todas as noites as mulheres de Esperança se revezam para a vigília na casa dos Okumura, carregando a bibília elas rezam para expelir o mal do alienado. Aos poucos a conversão do jovem é testemunhada por todos da colônia. Percebendo essa mudança, Kantaro Uno o envia para o Japão. Yōgu retorna no exato dia do casamento de Haru com Kantaro; não suportando a ideia de perder a amada, resolve fugir de Esperança. Seu novo retorno causa outro alvoroço, desta vez, Hachiro Yōgu está irreconhecível, nada lembra o jovem arrogante de outrora, ele não consegue falar e nem reconhece qualquer pessoa. A única pessoa e o único nome que balbucia é Haru. Percebemos que no processo de catequização o jovem Yōgu perde a própria identidade.

Nesse sentido, Esperança encarnando a civilização, a modernidade e o progresso vence e esmaga o outro na figura de Yōgu, personificando a barbárie, o atraso, a alienação. A pesquisadora Heloísa Toller Gomes, sobre o mito do Bom Selvagem, explica que nas narrativas do Novo Mundo “os bons efeitos da cristianização dos povos do Novo Mundo”, são percebidos no triunfo dos selvagens (GOMES, 2007, p. 52). Ou seja, os selvagens foram evangelizados, tornando-se civilizados e portadores de uma nova roupagem, conforme o imaginário ocidental. A denominação “bom selvagem”, acrescenta Gomes, ganhou notoriedade com o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Embora nas obras de Rousseau seja difícil encontrar literalmente tal denominação, alguns temas instigam reflexões acerca das desigualdades entre os homens (GOMES, 2007, p. 53). Na visão de Rousseau o homem nasce bom, porém, a sociedade o corrompe. Através dessa ideia, somos incitados a refletir sobre o papel educador de uma sociedade dita civilizada e moderna; uma vez que ao invés de “corrigir” o homem, esta não consegue nem educá-lo nem conduzi-lo à felicidade. A nostalgia da inocência perdida é aclamada por Rousseau, como pondera Gomes:

[...] Porém Rousseau não queria apenas criticar negativamente sua própria civilização: a definição de alguém com um grau zero de organização social e política, os primitivos, justificaria posteriores afirmações de legitimidade, baseadas na aplicação correta dos princípios por ele deduzidos e defendidos (GOMES, 2007, p. 53).

191 Yamashita traz à tona o mito do bom selvagem na pele do personagem Yōgu. Ele é o primitivo cujas características de pureza, ingenuidade, falta de maleabilidade cultural e intelectual, coabitam uma sociedade de apanágio superior, cultural, intelectual e singularmente cristã. Entre o desfecho de um final feliz e um nada feliz, trágico, nostálgico, Yamashita parece ter optado pelo trágico-nostálgico. Trágico, porque o bom selvagem perdeu sua identidade: Yōgu não reconhece nem a própria mulher, Kimi, nem a seus filhos, nem a si mesmo. Nostálgico, porque a energia do bom selvagem foi amalgamada e apagada por uma sociedade crente na sua superioridade. Enquanto ele não (re)encontra o seu Self selvagem, Haru é o espelho no qual Yōgu se reconhece e se conforta.

Para decepção de Kantaro Uno, sua esposa Haru é o fio condutor que trará a memória de Yōgu de volta. O despertar tem início numa das ocasiões em que Yōgu corre nu na casa de banho feminino. No alvoroço, Haru joga uma bacia de água com shampoo sobre Yōgu, e o faz parar de correr. Nesse momento, Kantaro acredita que uma lembrança distante despertou em Yōgu. Ao se lembrar do nome Haru, Yōgu deixa explícito a todos da comunidade o amor que sempre nutriu por ela:

[...] Naquele momento, acredito que Yōgu captou alguma memória distante. Não importa o que seja, a memória foi forte, e Yōgu a agarrou com voracidade. Pouco a pouco, tudo estava voltando. Haru. Haru. Sim, esta era a mulher chamada Haru. Um sorriso de felicidade se espalhou pela face de Yōgu assim que ela o arrastou da casa de banho. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Yōgu a olhou e sussurrou as primeiras palavras desde que ele havia retornado à esperança. “Haru?” ele perguntou. “Haru.” 143

(YAMASHITA, 1992, p. 140).

O mito do Bom Selvagem nem sempre protagonizou o autóctone ou o selvagem ou mesmo o primitivo, como sendo aquele subalterno, puro e passivo. Conforme historiciza Heloísa Toller Gomes (2007), o modernismo brasileiro celebrado pelo “Movimento Antropofágico” agita e abala as estruturas rígidas das hierarquias culturais:

143

[...] In that moment, I suppose Yōgu caught sight of some distant memory. Whatever it was, the memory was a potent one, and Yōgu grasped it hungrily. Little by little, everything was coming back. Haru. Haru. Yes, this was the woman called Haru. A smile of happiness spread over Yōgu‟s face as she dragged him from the bathhouse. Before she could say anything, Yōgu looked at her full in the face and whispered the first words he had spoken since he had returned to Esperança. “Haru?” he asked. “Haru”.

192 [...] As respectivas criações literárias de Mário e de Oswald de Andrade (entre alguns outros modernistas brasileiros e latino-americanos, cumpre lembrar) representam desvios, alternâncias, divergências, subversões, quanto ao tratamento dicotômico do selvagem. Este não está a serviço da ideologia dominante, nem é mais visto em seu estado pretensamente puro (como nos precursores setecentistas ou nos românticos), mas, em lugar disso, mostra-se “contaminado” desde os primeiros encontros, ou embates, com os civilizados (GOMES, 2007, p. 56).

A contaminação do selvagem desde seu primeiro contato com os ditos civilizados, possibilitou minar as dicotomias maniqueístas do Bem versus Mal. Desse modo, o mito do Bom Selvagem é desconstruído, exaurido e desmitificado. A perda de memória e atitudes infantis de Yōgu possibilitam reflexões acerca da eficácia do mito do Bom Selvagem, uma vez que a catequização do jovem selvagem apenas o fez retornar ao ponto zero de sua essência.

Benzer Belgeler