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O termo “comportamentalista”, oriundo de “behaviorista”, é amplamente difundido entre os estudiosos do Empreendedorismo, para demarcar o campo de pesquisas que analisa o comportamento para o Empreendedorismo e a personalidade do empreendedor a partir de atributos humanos e psicológicos, como criatividade, inovação e motivação. Vale aqui destacar que, apesar da nomenclatura, o termo não é empregado unicamente para representar a posição dos teóricos da Psicologia. Pelo contrário, ele é adotado para expressar a opinião de sociólogos, administradores, enfim, de todos os cientistas que se interessam em estudar o fenômeno do Empreendedorismo sob a perspectiva do comportamento humano.

O material bibliográfico analisado para a confecção deste subitem apresenta Max Weber e David C. McClelland como os precursores da Escola Comportamentalista. Porém, enquanto McClelland é citado em praticamente todos os livros, Weber é mencionado apenas na obra de Fernando Dolabela (e de passagem). Na realidade, Weber aparece, de maneira mais intensa, nas teses, dissertações e artigos que abordam o tema de forma crítica. Os apologistas, de maneira ampla, incluindo-se Dolabela, limitam-se a afirmar que Weber “[...] identificou o sistema de valores como um elemento fundamental para a explicação do comportamento empreendedor [...]” (FILION, 1999, p. 8), sem, no entanto, deixar claro o que essa alegação significa.

Max Weber nasceu em Erfurt, na Alemanha, em 21 de abril de 1864. Filho de um jurista e político influente do Partido Nacional-Liberal, teve em seu lar a oportunidade de conviver com muitos políticos e intelectuais. Cursou Direito na Faculdade de Heidelberg, interrompendo o curso somente para prestar o serviço militar, e realizou estudos em História, Economia, Filosofia e Teologia, construindo uma sólida formação acadêmica.

Em 1889, Weber defendeu sua tese de doutorado que versava, a partir dos casos de Pisa e Gênova, sobre as disposições legais de um sistema judiciário, baseado no antigo direito romano, que regulamentavam as ações mercantis. Depois disso, realizou outros importantes estudos, tendo escrito a sua mais famosa obra, A ética protestante e o espírito do

capitalismo, no formato de dois extensos artigos, nos anos de 1904 e 1905. Quando morreu, em 1920, vítima de pneumonia, estava no auge de sua carreira acadêmica e prestes a publicar o livro Economia e sociedade (SANT‟ANNA, 2004).

Weber é frequentemente lembrado no campo do Empreendedorismo como fundador ou influenciador de perspectivas teóricas de cunho comportamentalista e funcionalista (BARTHOLO; SOUZA NETO; DELAMARO, 2005). Ainda que, de acordo com os autores, a recepção da obra de Weber pela Sociologia norte-americana tenha resultado em um enquadramento da sua teoria aos cânones funcionalistas:

[...] ali foi identificada uma referência ao sistema de valores ético-

econômicos como elemento fundamental para a explicação do comportamento empreendedor. Referência norteadora para as diversas abordagens comportamentalistas, descritivas de identidades e características dos agentes empreendedores que dominaram o campo de estudos acadêmicos sobre o empreendedorismo até o início dos anos 1980, sendo as mais comuns: inovação, liderança, flexibilidade, capacidade de aprendizagem prática, capacidade de correr riscos calculados, perseverança, independência, autoconfiança e necessidade de realização. É com base nisso que se formulam diversas tipologias (BARTHOLO; SOUZA NETO; DELAMARO, 2005, p. 25-26, grifo dos autores).

Conforme esses autores, mesmo que “as tipologias” sejam úteis para a compreensão do sistema de valores e do comportamento dos empreendedores, não foi possível estabelecer um perfil genérico (tipo ideal) do empreendedor, isso porque, se o Empreendedorismo deve ser entendido como um fenômeno cultural, essa análise precisa ser sempre contextualizada. Ainda assim, para os autores, a teoria weberiana auxiliaria na construção de uma concepção de Empreendedorismo mais abrangente, isto é, que tornasse possível comportar diferentes interpretações de acordo com o contexto, deixando de ser um discurso exclusivo e excludente. Para Bartholo, Souza Neto e Delamaro (2005), as inquestionáveis contribuições weberianas, entendidas de forma crítica e criativa, podem auxiliar na construção de interpretações que considerem as diferentes configurações de modernidade, permitindo uma melhor compreensão, por exemplo, da constituição do Empreendedorismo brasileiro.

Embora menos usual, também é possível encontrar referências que afirmam a presença do pensamento weberiano na abordagem economicista, mais especificamente na construção da teoria de Schumpeter. Na leitura proposta por Martes (2010), existe uma aproximação entre Weber e Schumpeter em relação à teoria da ação e ao método

(individualismo metodológico68 e tipo ideal). A autora afirma que o conceito de empreendedor desenvolvido por Schumpeter se baseia fortemente em uma teoria da ação que possui suas raízes em Weber e, nesse sentido, o empreendedor schumpeteriano deve ser entendido como um tipo ideal weberiano, isto é, como uma construção teórica e não como uma simples descrição empírica.

[...] por um lado, a tipologia de ação social weberiana nos ajuda a compreender o sentido (socialmente mediado) que o empreendedor atribui à sua própria ação. Por outro lado, acredito ser adequado trabalhar com o conceito de empreendedor schumpeteriano como um tipo ideal weberiano, ou seja, construção de uma tipologia analítica. Isso significa que a categoria „empreendedor schumpeteriano‟, peça chave no seu modelo explicativo, deve ser tomado não como uma descrição empírica, e sim como uma construção teórica (MARTES, 2010, p. 265).

Mesmo sendo citado com bastante parcimônia pelos autores que trabalham com a educação para o Empreendedorismo no Brasil, como Filion ou Dolabella, é marcante a influência do pensamento weberiano sobre os estudiosos do Empreendedorismo e não apenas dos comportamentalistas.

Conclui-se que, embora Weber não tenha tomado o Empreendedorismo como objeto de análise, a sua sociologia compreensiva trouxe importantes contribuições para esse campo de estudos ao refletir sobre “[...] o conflito fundamental do século XIX: inovação

versus tradição” (MARTES, 2010, p. 257, grifo do autor).

Filion (1999) cita Max Weber como um dos primeiros comportamentalistas a se interessar pelos empreendedores, mas afirma que foi David C. McClelland, psicólogo norte-americano, nascido em 1917, professor das Universidades de Wesleyan, Harvard e

Boston, quem realmente iniciou os estudos do novo campo e muito contribuiu com eles. McClelland iniciou os seus estudos após Elton Mayo,69 por meio das suas experiências em Hawthorne,70 ter mudado a visão de empresa que existia à época. O caráter

68 Martes (2010) esclarece que, para Schumpeter, o Individualismo Metodológico tem valor prático-instrumental e pode ser usado para abordar fenômenos coletivos, em que a ação individual é a unidade de análise.

69 O cientista social e médico australiano George Elton Mayo (1880-1949) foi professor e diretor do Centro de Pesquisas Sociais da Universidade de Harvard e um dos fundadores da Teoria das Relações Humanas, movimento que se opunha ao enfoque meramente tecnicista dado às organizações pela Teoria Clássica da Administração. Destacou-se por ter evidenciado a importância de fatores não econômicos na motivação dos operários.

70 Conjunto de experiências realizadas pelo Conselho Nacional de Pesquisas dos Estados Unidos, coordenadas por Elton Mayo entre os anos 1927 e 1933, em uma fábrica da Western Electric Company, com o propósito de analisar a relação entre as variáveis “eficiência dos operários” (produtividade) e “condições de trabalho” (estrutura). A pesquisa estendeu-se à fadiga, acidentes no trabalho, rotatividade do pessoal e ao efeito das

mecanicista, dado especialmente por Taylor e Fayol71 no início do século XX, que privilegiava os fatores técnicos, os métodos de trabalho, os recursos materiais, a disciplina, a centralização e a organização da empresa, foi substituído por um foco no pensamento, no sentimento e no comportamento dos indivíduos e dos grupos, justificado pelo fato de que esses elementos estariam ligados à produtividade e ao desempenho das empresas.

O dogma da ciência administrativa passou a ser, então, por cerca de 20 anos, representado pela lógica da Teoria das Relações Humanas: trabalhador feliz = bom

trabalhador = produtividade e desempenho das organizações. Estudos posteriores revelaram que não se podia comprovar a hipótese de que empregados satisfeitos produziam mais. Além disso, a teoria foi bastante criticada pela sua concepção ingênua e romântica de operário, pela escassez de variáveis de estudo, pela superficialidade das suas conclusões e impossibilidade de generalizar os resultados por conta da pequena amostra. Dessa forma, essa abordagem caiu em descrédito e os pesquisadores logo voltaram sua atenção para a análise de variáveis como: motivação, necessidade, conflito. Esse movimento marcou a formação de uma nova corrente teórica, batizada de Comportamental.

No contexto das teorias que marcaram o desenvolvimento desse novo campo de estudos e que se inter-relacionam com a evolução do conceito de Empreendedorismo, destacam-se as obras de Henry A. Murray e David C. McClelland.

Murray (2008) descreveu um modelo detalhado das necessidades humanas e o processo motivacional. Baseado na compreensão de que tais necessidades são elementos que atuam nos processos motivacionais e medeiam o comportamento humano ao longo de toda a vida das pessoas, o autor organizou uma lista contendo as 20 necessidades que ele acreditava

condições de trabalho sobre a produtividade do pessoal. A experiência mostrou que, além da remuneração e das condições de trabalho, outros elementos também influenciavam a produtividade. Revelou a importância do grupo sobre o desempenho dos indivíduos (Referência elaborada com base em Caravantes, Panno e Kloeckner (2005), Lacombe e Heilborn (2003) e Chiavenato (2006)). Conforme Saul (2004, p. 238), essa experiência ocorreu no sentido de “[...] encontrar as condições ideais de controle e manipulação do fator humano na produção”.

71 Taylor e Fayol foram, respectivamente, os precursores da Administração Científica e da Teoria Clássica da Administração. O engenheiro norte-americano Frederick Winslow Taylor (1856-1915) revolucionou o sistema produtivo no início do século XX ao propor a introdução de métodos científicos na administração industrial, fato que lhe rendeu o título de Pai da Administração Científica. Sua abordagem, que estudava a empresa a partir do “chão de fábrica”, buscava incrementar a produtividade do trabalhador por meio da racionalização do trabalho dos operários e pelo somatório da eficiência individual. O engenheiro francês Jules Henri Fayol (1841-1925) enfatizava a estrutura da organização como fator para se alcançar a eficiência. Diferentemente de Taylor, Fayol analisava a empresa a partir da ótica da estrutura organizacional e das funções do nível diretivo. Foi ele quem destacou as seis funções básicas da empresa (administrativas, técnicas, comerciais, financeiras, segurança e contábeis). Ambos se preocupavam com o aumento da produtividade da organização e acreditavam que esse objetivo poderia ser alcançado por meio da remuneração e da oferta de condições de trabalho adequadas aos operários (Referências elaboradas com base em Caravantes, Panno e Kloeckner (2005), Lacombe e Heilborn (2003) e Chiavenato (2006)).

serem comuns às pessoas (embora nem toda pessoa apresente todas essas necessidades): humilhação (abasement), realização (achievement), afiliação (affiliation), agressão (aggression), autonomia (autonomy), contrarreação (counteraction), defesa (defendance), deferência (deference), domínio (dominance), exibição (exhibition), autodefesa – física

(harmavoidance), autodefesa – psíquica (infavoidance), altruísmo (nurturance), ordem

(order), entretenimento (play), rejeição (rejection), sensitividade (sentience), sexo (sex), apoio (succorance) e compreensão (understanding).72 Murray (2008) afirmou que essas necessidades podem surgir dos estados internos do organismo humano (como fome ou sede), ou a partir de estímulos externos que induzem à ação (relação com o ambiente).

Partindo das necessidades definidas por Murray (2008), McClelland (1972) realizou estudos sobre a motivação psicológica e desenvolveu uma teoria baseada na crença de que essa variável contribui para o entendimento dos empresários e homens de negócios nos grupos sociais, bem como colabora para a compreensão do papel desses atores no desenvolvimento econômico. Suas pesquisas demonstraram que a motivação pode ser derivada das necessidades: de realização (Need for Achievement ‒ nAch), de afiliação (Need

for Affiliation ‒ nAff) e de poder (Need for Power ‒ nPow).

A necessidade de realização manifesta-se pelo desejo do indivíduo de ser excelente, melhor ou mais eficiente. Pessoas com alta necessidade de realização são aquelas que resolvem problemas, dominam tarefas complexas, estabelecem metas realistas para a própria realização, assumem riscos calculados e avaliam as suas realizações pessoais. A necessidade de afiliação reflete o desejo de interação social. Os indivíduos com essa preocupação procuram estabelecer e manter fortes relações interpessoais com os outros e colocam o relacionamento social antes das tarefas de realização pessoal. Por último, a necessidade de poder caracteriza-se principalmente pelo forte desejo de controlar os outros, de ser responsável pelos outros ou de influenciar o seu comportamento (MCCLELLAND, 1972).

O ponto fundamental das conclusões de McClelland (1972), que é incorporado sistematicamente às interpretações dos estudiosos do Empreendedorismo, é a sua percepção de que o sujeito empreendedor possui uma estrutura motivacional diferenciada das outras pessoas, marcada fundamentalmente por uma necessidade de realização. Para ele, na sociedade, somente uma minoria se envolve em atividades desafiantes e está inclinada a trabalhar com acentuada disposição para alcançar algo. O restante não se sente desafiado pelas oportunidades. Para o autor, esses indivíduos agem assim não porque tenham nascido

dessa forma (componente genético), mas porque aprenderam a agir assim (relação com o meio). Com isso, ele desmistifica a ideia de uma relação consistente entre Empreendedorismo e genética e reforça a opinião de que os traços que caracterizam os empreendedores estão ligados às necessidades humanas, que são aprendidas e adquiridas pelas pessoas ao longo de suas vidas. Essa visão abre espaço para a educação ser interpretada como fator de crescimento e desenvolvimento.

Apesar da amplitude e do prestígio que a teoria de McClelland (1972) recebeu, Filion (1999) apresenta algumas críticas a respeito dela, propostas por importantes pesquisadores do campo. Duas delas referem-se ao fato de McClelland (1972) ter se concentrado apenas nos executivos de grandes empresas e em certos setores da economia e não ter apresentado qualquer ligação entre a busca pela autorrealização e a decisão de criar, ser proprietário ou até mesmo gerenciar um negócio. Outras críticas apontam para o fato de que nenhum pesquisador encontrou, em seus trabalhos, indícios conclusivos da relação entre “necessidade de realização” e “sucesso dos empreendedores”. Beugelsdijk e Smeets (2008) também tiveram problemas com a hipótese de McClelland (1972), ao testá-la novamente. Afirmaram os autores que, em sua pesquisa, não encontraram apoio para a tese de McClelland (1972), o que os levou a concluir que a relação entre cultura empreendedora e desenvolvimento econômico deve ser repensada. Contudo, Filion (1999) afirma que o professor Jeffry A. Timmons descobriu uma relação positiva entre “treinamento para intensificar a necessidade de realização” e “abertura do próprio negócio”.

A partir das percepções de McClelland (1972), muitos teóricos laçaram-se na tentativa de explicar “quem é” e como se comporta o empreendedor. Algumas pesquisas buscaram expor as características e os traços de personalidade dos empreendedores, enquanto outras se empenharam para analisar as experiências e os atributos gerenciais deles. Apesar do esforço, esses estudos não conseguiram estabelecer um perfil psicológico conclusivo sobre o empreendedor. No melhor dos casos, eles sugerem características e comportamentos “desejáveis” para aqueles que ambicionam enveredar para o mundo do Empreendedorismo.

Benzer Belgeler