O Nível Morfossintático está relacionado à operação de Codificação. Por meio dessa operação, o Nível Morfossintático, que apresenta suas próprias unidades de análise, é responsável por receber informações pragmáticas e semânticas relevantes, respectivamente, disponíveis nos níveis Interpessoal e Representacional, e organizá-las em uma única representação estrutural, que será, em seguida, convertida em uma estrutura fonológica no Nível Fonológico. Como podemos observar, o Nível Morfossintático é “alimentado” pelos níveis Interpessoal e Representacional, funcionando como input para o Nível Fonológico, que, por seu turno, fornece input ao Componente de Saída (output), onde acontece a articulação.
Face a essa relação entre os níveis Interpessoal e Representacional e o Nível Morfossintático, muito do que ocorre no Nível Morfossintático é motivado, sendo governado por três princípios básicos: (i) Iconicidade; (ii) Integridade do Domínio; (iii) Estabilidade Funcional.
A Iconicidade relaciona-se aos níveis mais altos, como a ordenação dos Estados- de-Coisas, que estão ligados à experiência física e mental dos indivíduos. A Integridade refere-se à preferência por unidades que, juntas nos dois primeiros níveis, podem ser justapostas umas às outras no Nível Morfossintático. Por último, a Estabilidade Funcional diz respeito ao fato de que os constituintes com a mesma especificação sejam colocados na mesma posição em relação às outras categorias (HENGEVELD; MACKENZIE, 2008, p 284 - 286).
Com relação à representação estrutural do Nível Morfossintático, temos o seguinte esquema, apresentado na página adiante:
Figura 6: Organização do Nível Morfossintático na GDF
Fonte: Adaptado de HENGEVELD; MACKENZIE (2008, p. 219).
No nível morfossintático, a unidade linguística é analisada em termos de sua composição sintática e morfológica, não havendo uma distinção rígida entre esses dois aspectos, uma vez que os princípios utilizados na formação de palavras são os mesmos para a formação de frases e orações. No Nível Morfossintático, a descrição linguística é feita com base nas seguintes unidades hierarquicamente ordenadas: Expressão Linguística (Le), Oração (Cl)15, Sintagma (Xp) e Palavra (Xw). Ainda, conforme Hengeveld; Mackenzie (2008, p. 291 - 292), podemos distinguir, dentro de cada Palavra, Morfemas (Xs) e Afixos (Aff).
Uma Expressão Linguística (Le) é definida como qualquer conjunto de, pelo menos, uma unidade morfossintática, podendo ser composta por Orações, Sintagmas e Palavras. Ao introduzir a Expressão Linguística como a categoria hierarquicamente mais alta no Nível Morfossintático, a GDF cria a possibilidade de lidar com expressões linguísticas não apenas oracionais, mas também não oracionais, sem um núcleo verbal.
Esclarecemos, ainda, que as unidades que compõem a Expressão Linguística podem apresentar uma relação de dependência ou não, tais como: dependência mútua entre orações e sintagmas (relação de equiordenação), dependência de uma unidade apenas (relação de cossubordinação - entre orações - e relação de extraoracionalidade – entre sintagmas), não dependência (relação de coordenação – entre orações – e relação de enumeração – entre palavras).
A Oração (Cl) é considerada pelos autores como uma categoria universal no que diz respeito à estrutura morfossintática. É definida como um agrupamento de um ou
15 Ou Cláusula (Clause).
mais Sintagmas, e possivelmente Palavras, caracterizado por um padrão para a ordenação dos Sintagmas (ordenação Sujeito-Verbo-Objeto, ou Sujeito-Objeto-Verbo, ou Verbo-Sujeito-Objeto, por exemplo) e por expressões morfológicas de conexão (como concordância e regência, por exemplo).
O Sintagma (Xp) se caracteriza por ter um núcleo (item lexical) que é transmitido a partir do Nível Interpessoal ou do Nível Representacional ao Nível Morfossintático. Entre os tipos de Sintagmas, os autores destacam: o Sintagma Verbal (Vp), o Sintagma Nominal (Np), o Sintagma Adjetival (Ap), o Sintagma Adverbial (Advp) e o Sintagma Adposicional (Adp). Ainda de acordo com os autores, não há uma correspondência biunívoca necessária entre os tipos de Sintagmas e as classes de lexemas correspondentes em uma dada língua. É possível que uma língua tenha uma classe de lexemas altamente flexível, podendo ter uma variedade de tipos de Sintagmas.
A Palavra (Xw) pode ter uma estrutura morfossintática altamente complexa, especialmente em línguas polissintéticas. Pode ser composta por Morfemas (Xm), como também pode, exatamente como qualquer outra camada de análise morfossintática, encaixar camadas superiores, como Sintagmas e Orações.
Ressaltamos, ainda, que o “mapeamento” entre as unidades do Nível Interpessoal e do Nível Representacional no Nível Morfossintático se dá com base em três tipos de Alinhamento: (i) alinhamento interpessoal: a organização morfossintática reflete a organização do Nível Interpessoal, em termos das funções pragmáticas (Tópico, Foco etc.) e das propriedades referenciais das unidades linguísticas (definitude, especificidade etc.); (ii) alinhamento representacional: a organização morfossintática reflete a organização do Nível Representacional, no que diz respeito às funções semânticas (Ator, Beneficiário etc.) e à designação delas (animacidade, pessoa etc.); (iii) alinhamento morfossintático: a organização morfossintática tem sua própria estruturação em termos das funções sintáticas (Sujeito, Objeto) e da complexidade dos constituintes (Palavras, Sintagmas, Orações), não sendo um “espelho fiel” da organização do Nível Interpessoal ou do Nível Representacional (HENGEVELD; MACKENZIE, 2008, p. 317).
Um caso que ilustra bem o alinhamento morfossintático é a ordenação dos constituintes na oração. Na GDF, podemos reconhecer, pelo menos, três posições: a inicial (pI), a medial (pM) e a final (pF). Tais posições podem refletir a complexidade estrutural de uma oração. É o que ocorre, por exemplo, com as orações subordinadas, em que a oração dependente aparece, geralmente, na posição final da construção, em
razão de sua complexidade estrutural. O exemplo (9), a seguir, demonstra isso:
(9) É uma pena que ele tenha ido embora16.
Lembramos que, como o Nível Morfossintático pode refletir unidades dos níveis Interpessoal e Representacional, as orações subordinadas são classificadas, no Nível Morfossintático, em termos das camadas interpessoais ou representacionais. Assim, uma oração subordinada pode corresponder a Moves, Atos Discursivos, Conteúdos Comunicados (Nível Interpessoal) ou a Conteúdos Proposicionais, a Episódios, a Estado-de-Coisas (Nível Representacional).
No que diz respeito às relações internas da oração, a marcação de pessoa, por exemplo, pode ser feita, segundo os autores, por meio de referência cruzada (quando a marcação de pessoa no verbo é suficiente) e de concordância (quando a marcação de pessoa é expressa por uma unidade livre, lexical ou pronominal).
A seguir, apresentamos uma síntese conclusiva que resume os aspectos mais importantes abordados neste capítulo.