Muitos autores, especialmente aqueles ligados à newstream, sustentam que o desinteresse que a doutrina do direito internacional desenvolveu em relação à teoria tem origens no espírito pragmático que envolveu a disciplina especialmente após a II Guerra Mundial. Esse espírito pragmático teria desviado o foco dos especialistas para a resolução de problemas concretos da realidade internacional, mas, por conseqüência, teria feito gerar uma disciplina facilmente manipulável por interesses particularistas que se arrogavam defensores da universalidade.
A atitude da doutrina do direito internacional em relação à história não foi diferente. O pragmatismo excessivo não apenas estimulou a perda de uma identidade nutrida do passado
– o que revela a pouca produção bibliográfica sobre temas históricos -, mas gerou muitas vezes uma equivocada compreensão sobre o passado, que eram aptas a produzir falsas imagens da doutrina e da prática de séculos precedentes – como demonstra a pesquisa de David Kennedy sobre a imagem que os internacionalistas fizeram do direito internacional no século XIX.
Tendo o pragmatismo atingido tanto a teoria como a história do direito internacional, ele produziu também como efeito uma desvinculação entre a pesquisa histórica e a elaboração teórica da disciplina. Todavia, esse não é um fenômeno exclusivo do direito internacional. Interessante trazer, dessarte, um pouco do quadro no âmbito das relações internacionais, para demonstrar isso. Por muito tempo houve um descompasso entre historiadores e teóricos fundado muito mais em falsas percepções e incompreensões sobre o papel de cada um.
John Gaddis, em um artigo extremamente didático sobre o diálogo entre historiadores e teóricos das relações internacionais, colocou muito bem o problema.
Para Gaddis, muitos teóricos das relações internacionais desprezam a história das relações internacionais ao argumento de que os métodos históricos não seriam suficientemente dotados de cientificidade. Daí porque se tem criado um verdadeiro abismo entre especialistas em relações internacionais (particularmente aqueles que lidam com aspectos teóricos) e especialistas em história.
O discurso científico clássico desenvolveu-se no sentido de que algo, para ser considerado ciência, deve proporcionar ao menos duas coisas: explicar (ou seja, dizer por que as coisas acontecem da maneira que acontecem) e predizer (deve proporcionar pelo menos alguns meios para antecipar como as coisas acontecerão no futuro). No entanto, essa concepção de ciência, transplantada para o ramo das ciências humanas, nunca alcançou um alto grau de precisão, porquanto nesse campo se lida com a consciência humana, que se comporta de maneira diferente a como se comportam moléculas, correntes de ar ou objetos
celestes. A esse problema de precisão, as ciências sociais tentaram equacioná-lo negando a sua existência. Daí porque tantas teorias em diversas áreas tentaram interpretar a consciência e o comportamento humano como fenômenos naturais, por exemplo. Para Gaddis, tais tentativas são, ao mesmo tempo, reducionistas, pois atribuem ao comportamento humano duas ou três causas, sem levar em consideração que as pessoas agem movidas por razões as mais complexas possíveis; tendem a ser estáticas, pois desprezam que o comportamento humano pode variar com o tempo; tendem a reivindicar uma aplicação universal, desconsiderando que diferentes culturas reagem a situações similares de maneiras diversas. Agindo dessa maneira, os cientistas sociais se distinguem dos historiadores que, embora sejam bons em explicar, resistem a fazer previsões e são notoriamente ineptos ao apresentar suas descobertas para servirem de instrumento para tomadores de decisão. Ele afirma que essa forma de agir, por parte dos cientistas sociais, nos levou a um “reino platônico de formas ideais que tem pouco a ver com o mundo real” (GADDIS, 1996, pp. 33-36). E o mais impressionante, continua Gaddis, é que essa tendência das ciências sociais se funda numa idéia ultrapassada do método científico – não mais abalizada nem mesmo por cientistas da natureza -, gerando, para utilizar uma analogia de um famoso termo de Freud, uma “inveja da física” (GADDIS, 1996, p. 37).
Dando como exemplo a geologia e a biologia (que poucos ousam desafiar o caráter de cientificidade), o autor afirma que ambas atribuem a certas conseqüências múltiplas causas e levam em consideração o papel da contingência na análise da realidade. Tais ciências, embora consigam descrever a realidade, não são hábeis para prever o que acontecerá, mas nem por isso perdem o caráter científico. Biologia, geologia, e também história, seriam o que o autor chama de ciências do processo e não ciências estruturais. A equivalência com a história seria correta pois, para esta: causas múltiplas agem em determinada situação, o tempo passa, os padrões coexistem com as singularidades, a quantificação não se torna necessária e a
explicação é bem mais precisa que a previsão. Portanto, a história também seria científica. (GADDIS, 1996, pp. 38-39).
Gaddis então demonstra que os principais postulados do argumento científico defendido pelos cientistas sociais não mais se mantêm incólumes nas “ciências duras” – onde se incluem, por exemplo, as ciências naturais. E a história, longe de estar alheia ao discurso científico, pode servir mesmo como uma ponte entre as novas “ciências duras” e as “velhas ciências sociais” (GADDIS, 1996, pp. 41-45).
Outros especialistas em história e relações internacionais têm tentado construir um diálogo mais estreito entre história e teoria. Caroline Kenedy-Pipe e Barry Buzan e Richard Little têm empreendido esforços nesse sentido.
Para Kennedy-Pipe, a causa do distanciamento entre teoria e prática encontra-se propriamente no ambiente metodológico positivista que se desenvolveu na corrente prevalecente das relações internacionais: o realismo. O próprio liberalismo, como forma de se opor ao realismo, não conseguiu se afastar daquelas premissas metodológicas, perpetuando a sensação de afastamento. Portanto, o debate entre as principais correntes teóricas (mainstream) da Teoria das Relações Internacionais seria responsável pela distância entre teoria e história. A maneira de reduzir o distanciamento entre historiadores e teóricos seria voltar às bases da TRI e reconstruí-la a ponto de permitir o diálogo.
Para a autora, a chamada escola inglesa das relações internacionais seria um ótimo arcabouço para promover a interação. Mas não somente a Escola Inglesa. Todas as tentativas de se apartar do debate realismo/liberalismo estimulam a interação, na medida em que são buscadas explicações para a realidade internacional em outros ramos das ciências sociais. Assim, construtivismo e as teorias críticas – especialmente feministas - poderiam funcionar como meios propícios para se estimular a aproximação entre história e teoria (KENNEDY-PIPE, 2000, pp. 741-754).
Barry Buzan e Richard Little chegam a conclusões bastante semelhantes. Atribuem eles à tradição positivista, mas também behaviorista, que se desenvolveu na literatura de relações internacionais norte-americana, uma verdadeira obsessão por parte dos autores de querer considerar as relações internacionais como uma disciplina autônoma. Essa obsessão fez, no entanto, com que a TRI se afastasse fortemente da história, pois aquela não poderia ter seus métodos confundidos com os desta. Ou seja, concluem mesmo que a TRI negou a história para poder se afirmar nos Estados Unidos.
Já no Reino Unido, por sua vez, as coisas aconteceram de maneira diversa. Os autores britânicos, segundo Buzan e Little, sempre concederam um papel importante à história na fundamentação da Teoria das Relações Internacionais. No Reino Unido não se conseguia ver, por exemplo, como seria possível estabelecer padrões de comportamento idênticos entre as cidades-estado gregas e o mundo contemporâneo (BUZAN AND LITTLE, 2000, pp. 23-30).
Mas os dois autores vão um pouco mais longe que Kennedy-Pipe para estabelecerem algumas premissas que, segundo suas opiniões, influenciaram a concepção de sistema internacional e interferem sensivelmente na relação entre teoria e história das relações internacionais. Tais premissas – que os autores pretendem combater - seriam as seguintes: (a) presentismo: como sendo a preocupação apenas com questões políticas atuais e de história contemporânea; implica um alheamento por parte dos especialistas no que concerne à história; (b) a-historicismo: como significando não que o passado não interessa aos cientistas sociais, mas que estes devem buscar leis gerais que se apliquem tanto ao passado como ao presente; (c) eurocentrismo: como sendo a propensão para compreender a história do mundo e o passado e o presente da política mundial como se fossem meramente ramos da história européia e das formas westfalianas das relações internacionais; (d) anarcofilia: ou seja, a disposição para assumir que a estrutura do sistema internacional tem sido sempre anárquica, e que isso seria natural e (mais seletivamente) desejável; (e) estatocentrismo: como querendo
dizer sobre o modo de conceber as relações internacionais em que somente os Estados são atores ou os únicos atores relevantes (BUZAN E LITTLE, 2000, pp. 18-22).
Esforços desse tipo, como os encontrados na área das relações internacionais, têm sido pouco freqüentes entre os autores de direito internacional, até mesmo aqueles que possuem uma maior abertura à história, inclusive os chamados newstreamers.
Uma exceção a isso seria, talvez, Koskenniemi, que, na Introdução de The Gentle Civilizer of Nations, coloca a questão de que seu livro deve ser visto como uma continuação e uma resposta aos críticos de From Apology to Utopia, no sentido de que não basta descrever o direito internacional como um conjunto de práticas argumentativas – o que foi feito em From Apology to Utopia -; é preciso perceber por que os internacionalistas tomam determinadas posições e defendem certos argumentos em tempos e lugares diversos. Koskenniemi, no entanto, não elabora detidamente essa relação entre história e teoria.
De qualquer modo, seja nas relações internacionais, seja no direito internacional, há uma falta de familiaridade com as discussões mais recentes na historiografia. Como se verá, um diálogo entre teóricos e historiadores se dá de forma constante em ramos historiográficos como a história intelectual. As discussões sobre a necessidade de a história intelectual dar o chamado “giro lingüístico” é a melhor prova disso (JAY, 1982, pp. 86-110). A desatualização do debate é, portanto, a principal causa de estranhamento entre teóricos e historiadores – e, especificamente no direito internacional, tal causa é tão importante quanto o sentido pragmático que adquiriu a disciplina após a II Guerra Mundial. Apenas com o gradual desestranhamento entre teoria e história se poderá construir seja uma história das relações internacionais seja uma história do direito internacional mais teórica e historicamente consistentes.