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David Viñas (1995), no livro Literatura argentina y política, demonstra que Mármol propositadamente desenvolve um contraponto entre Rosas e Amalia, entre os hábitos selvagens e os civilizados. Esta estrutura dicotômica no decorrer da narrativa choca-se com a visão romântica de integração, defendida pelos participantes da geração de 37 logo nos primórdios do movimento.

A habilidade e a necessidade de adequar à realidade argentina à ideologia romântica importada da Europa fez com que tanto em termos subjetivos quanto em termos reais esta integração não ocorresse, já que o intelectual argentino via no elemento autóctone, fosse ele a natureza ou a população nativa, um impedimento para se alcançar o progresso.

Da mesma forma, Rosas, pelo apoio que dava a tais grupos e pela adoção de um regime de governo que seguia um modelo “tirânico”, era culpado por protelar o desenvolvimento da nação.

Jitrik (1966) chama a atenção para o fato de que, na Argentina, os ideais românticos europeus foram adaptados como forma de atender aos projetos nacionais:

Se os românticos seguissem esses impulsos tributários, teriam de aceitar que o pampa, por exemplo, representava esse âmbito propício para os heróis byronianos, o campo de ação mais adequado ao desejo de solidão e de primitivismo que perseguia aos prestigiosos poetas europeus. E com os pampas todo o demais, incluído Rosas como necessária e evidente realização humana de um conjunto de ideais românticos solidamente provados. (JITRIK, 1966, p. 47) 34

O pensar na natureza como espaço livre das desvantagens da civilização e o homem nativo como bom selvagem se chocavam com a realidade argentina, na qual a natureza era “refúgio de um atentado permanente contra a cultura” (Ibidem, p. 49), assim como era uma ameaça ao triunfo da missão civilizadora do intelectual romântico.

Quando se inicia a leitura de Amalia já não há mais espaço para o diálogo e a conciliação. Conforme David Viñas (1995), o enfrentamento vivido na Argentina da segunda metade do século XIX, entre burguesia progressista e o feudalismo rural, entre a civilização da cidade e a barbárie do campo, pode ser explicado a partir de determinantes geográficos e da tradição nacional.

34 No original: Si los románticos hubieran seguido esos presuntos impulsos tributarios, habrían tenido que encontrar que las pampas, por ejemplo, representaban ese ámbito propicio para los héroes byronianos, el campo de acción más adecuado al deseo de soledad y de primitivismo que perseguia a los prestigiosos poetas europeos. Y con las pampas todo lo demás, incluído Rosas como necesaria y evidente realización humana de un conjunto de ideales románticos sólidamente probados.

Segundo ele, tais conflitos ocorreram por causa da grande extensão territorial desprovida de núcleos urbanos que impedia o desenvolvimento de hábitos sociais e que acabava gerando o surgimento de tipos humanos como o “gaucho”, o “bárbaro”. Por outro lado, a existência de núcleos urbanos produziria a formação de hábitos civilizado e do homem culto, habitante natural da cidade.

Na verdade, o que encontramos nesta perspectiva é a crença de que o comportamento do indivíduo depende do meio (grupo racial-cultural) do qual ele é originário. Desprovido do livre arbítrio, o homem estaria condenado a um comportamento desvalorizado pela sociedade culta, por causa de fatores sobre os quais não teria nenhuma influência.

A partir da compreensão desta proposição, é possível criar uma hierarquia de valores, através da qual um grupo novamente estaria submisso a outro. Neste caso, os habitantes da cidade estariam em um patamar mais elevado que os do campo, pois guardariam os valores de civilização desenvolvidos em seu interior.

A cidade latino-americana como analisou Rama (1984) desde os seus primórdios no século XVI representou “um sonho de uma ordem”35 que visava transportar para o espaço físico urbano a concepção de organização social hierárquica. Ao conseguir concretizar na estrutura de formação das cidades a hierarquia de poder percebida de maneira abstrata na sociedade, os grupos que detinham este poder buscavam perpetuar seu poder reproduzindo nas cidades, espaço físico, a estrutura social, econômica e cultural que era imposta à sociedade.

Este projeto racionalizador e sistemático propôs ignorar a diversidade cultural existente no continente para moldar os homens a responderem de maneira eficaz as necessidades administrativas, militares, comerciais e religiosas impostas pelo progresso e pela própria sociedade dos que dela faziam parte.

35 RAMA, Angel. 1984, p. 23

Se o domínio das cidades foi exercido sobre seus moradores é certo que a influência do espaço destinado a elas também foi sentido pelas outras partes do território do qual faziam parte. Assim, coube às cidades serem foco de referência para o que se idealizava para o resto dos territórios que estavam sob a influência delas. “Ainda que isolada dentro da imensidão espacial e cultural, alheia e hostil, competia às cidades dominar e civilizar seu contorno, o que primeiro se chamou ‘evangelizar’ e depois ‘educar’.” 36

Contudo, também no espaço urbano havia uma gradação, que determinava aquelas que eram mais ou menos civilizadas. O critério para tal classificação era determinado pela herança colonial, considerada um empecilho para o progresso. Assim, herança espanhola, “gaucho” e índios se constituíam em representantes da barbárie frente à civilização, que, em último termo, ficava reduzida a Buenos Aires e, mais amplamente falando, ao conflito entre América e Europa.

No momento da narrativa, a cidade de Buenos Aires, símbolo da civilidade, encontra- se ocupada pela barbárie. A rua se constitui como espaço dos sem cultura, da destruição das vidas, dos bens e da dignidade humana. Em Mármol “o horror é sólido, interior. Qualquer um dos concidadãos que se roçam nas ruas todos os dias pode de imediato, transformar-se para o outro (o próximo) em delator, em traidor, em monstro”. 37

Dessa forma, em Amalia, Mármol deixa de abordar os ambientes externos, as ruas, por exemplo, e retratando a realidade, passa a ter como foco principal o interior das residências das famílias mais abastadas, espaço onde o leitor passa a ser testemunha do exílio imposto aos opositores do governo de Rosas.

Como afirma Sommer em Ficções de Fundação, “o herói doméstico de Mármol sabe que a luta se dá no interior, dentro do eu/outro e dentro da cidade que praticamente era o

36 RAMA, Angel. 1984, p. 37.

37 En Mármol el horror es sólido, intestino. Cualquiera de los conciudadanos que se rozan en las calles todos los dias puede, de pronto, convertirse para el otro (el prójimo, el próximo) en delator, en traidor, en monstruo. LOJO, Maria Rosa. 1994, p. 79

país.” 38 Assim, a casa se transforma em um microcosmo representativo da nação, onde está reduplicada, em um estágio menor, a cisão social representada pela oposição entre o centro e a periferia, os unitários e os federais, Buenos Aires e as províncias, a cultura letrada e a oral, os brancos e os não brancos, a civilização e a barbárie.

A escolha da mudança espacial, segundo Lojo (1994), está no fato de José Mármol compreender que ao dar aos não brancos, escravos e “gauchos”, poder de fala, Rosas “subverte” a hierarquia natural, identificada com a classe social. O homem corrompido pela barbárie desestabilizaria a ordem divina presente na natureza, enquanto que o homem culto (Eduardo Belgrano) a respeitaria, refinando-se.

Assim, surgem duas Buenos Aires. Uma negativa, perigosa e instável, constituída no espaço externo, que se caracterizaria como domínio da barbárie, personificada em Rosas. E a outra, representada pela casa de Amalia, na verdade é Paris, o refúgio onde a população culta pode usufruir da civilidade.

Como afirma Gaston Bachelard (2005), “a casa é o nosso canto do mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos... se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz.”39

Por esta razão, existe a diferença entre a casa de Rosas e a de Amalia. Na primeira, a leitura é conduzida por um narrador onisciente (característica estilística comum ao Romantismo). O texto não esclarece quem é o dono da casa, mas a presença de um homem vestido de negro, cor ligada ao maligno, indica a presença do “ditador”.

38 SOMMER, Doris. 2004, p. 113 39 BACHELARD, Gaston. 2005, p. 24

Sentado em posição meditabunda, o leitor é levado a conhecer uma de suas características, a inteligência. Ele não descansa, durante todo o seu tempo planeja de maneira calculista todas as suas ações.

A casa-labirinto, composta de corredores interligados, pouco iluminada, desprovida de mobiliário ou adereços, geometricamente descrita, oferece elementos para compreender a personalidade doentia de seu dono, muito mais preocupado em fazer o mal do que com o bem-estar. Além disso, pode-se observar seu caráter prático e econômico.

O suspense e a ansiedade são sentimentos constantes durante todo o período em que o leitor é levado a percorrer a casa de Rosas. Sem conhecer o interior do imóvel, fica a sensação de que algo nos espera no próximo corredor ou cômodo. Assim também se poderia descrever o clima de insegurança vivido, nas ruas da cidade de Buenos Aires, por todos aqueles contrários ao governo.

Em oposição a este cenário, está a casa da Amalia. Seu quarto, descrito em detalhes por Mármol, é apresentado como um ambiente de diversos matizes de cores. O dourado, o azul, o verde, o prateado e, principalmente, o branco criam a sensação de calma, segurança e ordem superior.

Pode-se afirmar que ainda que a casa de Amalia esteja situada em Buenos Aires, ao cruzarmos a porta de entrada, a narrativa é transportada para a Europa, mais especificamente Paris, espaço natural da civilização procurado por tantos jovens da época, ávidos por estarem em contato com a “modernidade”.

Refúgio para Eduardo Belgrano e Daniel Bello, a casa seria como um oásis onde os dois fugitivos, em contato com os elementos da civilização avançada, recuperariam as forças para novamente tentarem fugir para o verdadeiro exílio. O ambiente acolhedor (“parecia acolchonarse sobre algodones al pisar sobre él”) e ricamente decorado (estambres dorados, bordados de hilo de plata) não afasta a artificialidade criada pela inserção de tantos produtos

estrangeiros (tapiz de Italia, tapafundas de Cambray, gasa de Índia). A europeização deste espaço, ainda que seja explicável dentro do contexto da época, nada mais seria que uma sombra platônica, tão etérea e falsa que não resistirá às investidas da barbárie.

Ao comparar-se as duas casas, é importante que se perceba a disposição das janelas, única ligação com o exterior, presentes nas duas descrições. Na casa de Rosas elas estão voltadas para fora, para a rua (“Esta habitación recibía las luces por dos ventanas, cubiertas de celosías, que daban a la calle”). Já na casa de Amalia, elas se voltam para o interior da própria casa (“Las dos ventanas que daban al pátio de la casa...”).

No primeiro caso, a casa de Rosas está constantemente aberta para receber a barbárie, representada pelos “gauchos”, negros e índios. O ditador precisa deles, pois fundamentou seu poder no apoio desses grupos. Assim, a casa é freqüentada por populares que tanto vão pedir favores, como denunciar possíveis opositores.

Como o espaço é negativizado quando tem ligações com os federais, também as pessoas que o freqüentam serão. Na construção das personagens federalistas observa-se um discurso naturalista, através do qual os fenômenos psíquicos são subordinados aos fisiológicos, as personagens são descritas pela sua patologia e o narrador vai enfatizar seu comportamento instintivo, freqüentemente comparando-as a animais. O Naturalismo é uma extensão do Realismo que só viria a ser teorizado a partir de 1865.

O Determinismo, teoria científica norteadora do Naturalismo, é muito marcante no texto. De acordo com ela, o ato humano não é livre, mas influenciado por três fatores: meio, raça e momento histórico. O ambiente da casa do ditador, mais do que influcienciar a pessoa, a desumaniza, posto que quem freqüenta esse meio necessariamente é zoomorfizado pelo discurso de Mármol. Os federalistas não são humanos, são animais,

No segundo caso, a casa de Amalia deve caracterizar-se pela discrição. Lá se escondem dois fugitivos e, por isto, deve-se proteger da entrada de qualquer bárbaro. Além

das personagens representantes da civilização, no romance também se observa a presença de “gauchos”. Entretanto, numa rara aliança entre os dois grupos, a representação do segundo é bem diferente daquela que se refere aos relacionados a Rosas. Fermín e Pedro são exemplos do “gaucho civilizado”, possuidor dos dotes positivos do homem do campo (serenidade, alegria, valor, obediência e fidelidade).

Benzer Belgeler