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What Your Child Eats Really Does Make a Difference

Esta seção analisa o déficit habitacional no Chile, destacando a evolução recente de

suas componentes e as regiões administrativas do país. Essa análise é feita com base em

um conceito de déficit distinto do usualmente empregado no Chile, mas que permite a

comparação direta com os dados do Brasil. Antes de analisar as estatísticas, portanto, é

necessária uma breve discussão sobre a metodologia empregada.

A metodologia oficial de estimação do déficit habitacional do Chile foi elaborada

pelo Ministerio de Viviendas y Urbanismo (MINVU) e parte de um conceito bastante

simples: déficit é “a quantidade de moradias que faltam para satisfazer as necessidades

de uma determinada população” (MINVU, 2007, p.4). Analiticamente, se separa o défi-

cit habitacional em dois: o quantitativo e o qualitativo. O déficit quantitativo se refere às

carências de unidades habitacionais aptas para suprir as necessidades da população. Es-

se número reflete a necessidade de se construir novas unidades habitacionais. Já o défi-

cit qualitativo se refere à existência de aspectos materiais, espaciais ou funcionais que

são insuficientes em uma porção do parque habitacional existente. Para supri-lo, é ne-

cessário apenas o melhoramento ou a ampliação de moradias já ocupadas.

O conceito de déficit habitacional quantitativo se divide em três componentes: (i)

moradias irrecuperáveis; (ii) moradias com mais de um domicílio; e (iii) famílias secun-

dárias adensadas e economicamente independentes. As moradias irrecuperáveis se refe-

rem àquelas que não cumprem condições mínimas de qualidade e habitabilidade. A ne-

cessidade de reposição considera toda moradia semipermanente ou de material deficitá-

rio, incluindo cabanas, barracas e moradias móveis (trailer e carroças). As moradias

com mais de um domicílio indicam a existência de dois ou mais grupos de pessoas que

têm um orçamento alimentar independente. Operacionalmente esta situação, também

denominada coabitação ou “adensamento externo”, se define como o excedente de do-

micílios em relação ao parque de moradias. A última componente do déficit quantitativo

se refere às unidades familiares conviventes que necessitam de uma nova moradia por

estarem em situação de adensamento e dispõe de uma relativa autonomia econômica.

Essa componente é também denominada de “adensamento interno”.

A metodologia oficial de estimação do déficit no Chile difere da brasileira em al-

guns pontos importantes. Primeiro, o Chile utiliza o conceito de moradias com mais de

um domicílio. A Pesquisa Nacional por Amostra de domicílios (PNAD), cujos dados

dão origem à estimativa do déficit habitacional brasileiro, não considera a divisão de

moradias em domicílios e de domicílio em famílias, como no caso da pesquisa do Chile.

A metodologia brasileira considera apenas famílias conviventes, ou seja, mais de uma

família vivendo juntas em um mesmo domicilio. Portanto, o conceito chileno não é pas-

sível de aplicação no Brasil.

O segundo ponto se refere ao fato de que, no Brasil, o adensamento excessivo de

moradores considera apenas as moradias alugadas e que estão na área urbana; no Chile

não há essa distinção. Outra divergência é a fração de moradores por dormitório consi-

derada como inadequada. No Chile, a razão é de 2,5 ou mais pessoas por dormitório; no

Brasil, é mais de 3 moradores por dormitório. Além disso, no Chile se considera o nível

de dependência econômica nessa componente: estão no déficit apenas as famílias com

dependência moderada, que é dada pela razão entre dependentes e membros ativos da

família. Esse indicador deve ser menor ou igual a 2,5 dependentes por membro ativo.

Para uniformizar as estatísticas de déficit do Chile com os indicadores brasileiros,

foi empregada uma metodologia hibrida, adaptada da metodologia brasileira formulada

pela Fundação João Pinheiro (FJP), a qual é apresentada em detalhes no Capítulo 3 des-

ta dissertação. A principal mudança com relação à metodologia da FJP foi a retirada da

componente ônus excessivo com o pagamento de aluguel. Essa escolha se deu em razão

de uma questão econométrica. Como se emprega a renda das famílias para medir o ônus

com aluguel, não é recomendado utilizar a própria renda (ou qualquer uma a ela corre-

lacionada) como variável explicativa dessa componente do déficit, visto que isto poderia

levar a estimativas enviesadas.

A segunda modificação consiste em considerar o total das famílias conviventes de

forma isolada. Os cômodos alugados ou cedidos, também chamados de cortiços, e que

pela FJP são somados às famílias conviventes para compor o conceito de coabitação,

foram somados à componente chamada de “habitação precária”. Essa escolha está em-

basada na ideia de que as moradias em cortiço estão mais próximas das condições de

moradias precárias do que da que prevalece nos domicílios em que há famílias convi-

ventes. Por fim, vale mencionar que a adição do conceito de famílias conviventes (famí-

lias que vivem com outras num mesmo domicílio) eleva as estimativas de déficit em

relação à metodologia oficial do Chile, que considera como coabitação a multiplicidade

de domicílios em uma única habitação. O Quadro 2.1 apresenta um resumo das variá-

veis utilizadas para a estimação do déficit habitacional.

Quadro 2.1 Conceitos utilizados para a estimação do déficit habitacional

Componentes Especificação

Habitações Precárias Famílias que estão em pelo menos uma das três categorias a seguir:

(i) Moradias improvisadas Locais e imóveis sem fins residenciais que servem como moradia alternativa (imóveis comerciais, embaixo de pontes e viadutos, carcaças de carros abandonados, barcos, cavernas, entre outros). (ii) Domicílios Rústicos São aqueles sem parede de alvenaria ou madeira emparelhada.

(iii) Cômodos alugados ou cedidos Corresponde à moradia em cômodos alugados ou cedidos, também conhecidos como cortiços, cabeça de porco, etc.

Adensamento excessivo de pessoas por dormitórios

São as casas ou apartamentos alugados, localizados na área urbana, onde vivem mais de três pessoas por dormitório.

Famílias conviventes Total de famílias que vivem em um mesmo domicílio.

Déficit Habitacional Total de famílias que estão em ao menos uma das componentes acima.

A Tabela 2.7 apresenta a evolução do número de famílias no déficit habitacional e

suas componentes entre 1996 e 2009. Nota-se que 2006 foi o ano que apresentou o mai-

or número de famílias no déficit habitacional: 1,07 milhão, que equivale a 20,1% do

total de famílias (déficit relativo).

Tabela 2.7. Número de famílias no Déficit Habitacional, 1996 a 2009

Ano Famílias em moradia

precária Famílias em moradia com adensamento excessivo Famílias conviventes Famílias no déficit habitacional Total de famílias Domicílios Déficit relativo* (%) Chile 1996 147.915 39.166 711.172 880.629 4.334.620 3.623.448 20,3% 1998 164.615 51.670 745.667 936.600 4.522.690 3.777.023 20,7% 2000 166.608 35.384 822.220 999.670 4.723.832 3.901.612 21,2% 2003 116.835 31.004 898.422 1.030.027 5.028.826 4.130.404 20,5% 2006 78.717 29.262 975.828 1.070.418 5.312.894 4.337.066 20,1% 2009 66.859 33.066 941.377 1.025.644 5.626.867 4.685.490 18,2% Variação (%)** -5,9% -1,3% 2,2% 1,2% 2,0% 2,0% -2,1%

Fonte: Elaboração própria, com base Encuesta Casen (vários anos). (*) Déficit relativo = número de famílias no déficit sobre o

número total e famílias; (**) no caso do déficit relativo, trata-se da diferença em pontos percentuais entre 1996 e 2009.

Durante esse período, o déficit absoluto no Chile apresentou um crescimento anual

médio de 1,2%, enquanto que o déficit relativo caiu 2,1 pontos percentuais no período.

Essa queda no déficit relativo ocorreu entre 2006 e 2009, quando houve redução do dé-

ficit absoluto e o forte crescimento do número de famílias. Na trajetória de 13 anos, o

número de famílias em moradias precárias caiu em média 5,9% ao ano, enquanto que

para as famílias em adensamento excessivo, a queda média foi de 1,3% ao ano. Por ou-

tro lado, houve crescimento das famílias conviventes que cresceram 2,2% ao ano entre

2006 e 2009.

Além de ser a componente responsável pela redução mais lenta do déficit habitacio-

nal, as famílias conviventes têm a maior participação no total. A proporção média dessa

componente em relação ao déficit total foi de 85%. Em 2009, as famílias conviventes

responderam por 92% do déficit total. Esse resultado indica um traço marcante do Chi-

le, distinto de outros países. No Brasil, as famílias conviventes respondiam por cerca de

70% do total em 2009.

Deve-se ter em mente que há muitas famílias que compartilham uma moradia, mas

que não tem a intenção de constituir um domicílio exclusivo. Dividem a moradia por

vontade própria ou necessidade. Segundo Patricia Poblete Bennett25, há muitas famílias

no Chile que vivem com parentes por não terem condições de constituir um domicílio

próprio. Essas famílias não deveriam ser consideradas no déficit habitacional, pois a

25

A Sra. Patricia Poblete Bennett foi ministra do Ministerio de Viviendas y Urbanismo do Chile no go-

verno Bachelet. Ela foi entrevistada para a realização desta dissertação. A íntegra da entrevista, que abor-

dou vários aspectos da política habitacional chilena, é apresentada no Anexo 2.5.

construção de uma moradia não resolveria o problema. A entrevistada ilustra seu racio-

cínio com um exemplo simples:

Como no hay problemas para obtener una vivienda en Chile, el allegamiento

muchas das veces no tiene a ver con la posibilidad de no tener acceso a la vi-

vienda. Tiene que ver con que esa familia no puede generar una vivienda. Mi-

ra el ejemplo de una pareja que una hija tenía una guagua – una bebe como

dicen usted – y otra hija vivía con su pareja en la misma casa que los padres.

Esas familias postulaban 3 viviendas: padre una y cada hija una. Generalmen-

te, vivían todos en una e arrendaban las otras dos viviendas. Eso ocurre por-

que las hijas no eran sustentables para vivir solas; entonces siguen allegados.

Esa familia no quiere vivir sola porque no tiene los recursos. La hija que tiene

una guagua no la puede dejar sola, tiene que dejar con su madre, por lo tanto

no tiene capacidad de vivir sola. Hay madres viudas que viven con sus hijas o

hijos y eso no tiene a ver con la situación económica. El nivel de allegamien-

to en esa clase de ingresos tiene que ver con la sustentabilidad de las familias

allegadas y con la voluntad de dos familias vivir juntas. (Anexo 2.5)

De fato, informações levantadas na Encuesta Casen de 2009 confirmam esse fenô-

meno. Das mais de 941 mil famílias que moravam na residência de outras famílias, 577

mil (ou 61,3%) alegaram razões econômicas para a coabitação. Cerca de 20% das famí-

lias nessa situação alegaram costume familiar ou preferência por moradia compartilha-

da. A mesma pesquisa acrescenta que uma parcela minoritária (42,2%) das famílias

conviventes tinha intenção de constituir domicílio próprio nos próximos três anos. A

maioria, formada por 544,3 mil famílias, não tinha intenção de constituir moradia pró-

pria e, portanto, não constitui demanda como argumentou Patricia Poblete Bennett. Ou-

tra estatística que reforça os argumentos da entrevistada é o número de famílias convi-

ventes secundárias que têm imóvel próprio ou que estão pagando crédito hipotecário:

eram 287,5 mil em 2009, o que corresponde a 30,5% das famílias conviventes.26

Uma outra razão para famílias dividirem a mordia é o compartilhamento de bens du-

ráveis de consumo, uma hipótese sugerida por Garcia e Rebelo (2002) para o caso brasi-

leiro. Essa razão não é revelada pelas famílias, mas se infere dos dados da Encuesta

Casen. A propriedade de bens duráveis de consumo é muito mais frequente nas famílias

principais do que nas secundárias. Por exemplo, 91,6% das famílias principais tinham

geladeira em 2009. Essa frequência cai para 6,9% no caso das famílias secundárias, o

que revela que elas estão utilizando a geladeira da família principal.

A Tabela 2.8 apresenta o déficit habitacional e suas componentes por regiões admi-

nistrativas do Chile em 2009. O déficit habitacional chileno é relativamente mais inten-

so nas regiões ao norte do país: Tarapacá, Antofagasta e Atacama. Vale mencionar, con-

26

As questões que detalham as razões da coabitação e a intenção de constituir moradia exclusiva no futu-

ro próximo foram incorporadas à Encuesta Casen apenas em 2009. A PNAD incorporou essas questões

desde a pesquisa de 2007.

tudo, que é nas regiões mais populosas, região metropolitana de Santiago, que se con-

centra a maior parcela das famílias no déficit, (42% do déficit total). As componentes do

déficit habitacional seguem distribuição semelhante. Quase 62% dessas famílias que

moravam em adensamento excessivo estavam na região metropolitana de Santiago.

Quando se analisa as componentes em termos relativos ao total de famílias, nota-se que

a precariedade é mais comum nas regiões de Antofagasta e Atacama, áreas que também

se destacam pela elevada convivência de famílias.

Tabela 2.8. Déficit habitacional e seus componentes, por regiões, 2009

Região Famílias em moradia

precária Famílias em moradia com adensamento excessivo Famílias conviventes Famílias no déficit habi- tacional Total de famílias Domicílios Déficit relativo* (%) I - Tarapacá 1.143 1.370 30.537 32.740 152.217 121.680 21,5% II - Antofagasta 4.084 1.713 47.344 52.339 173.628 126.284 30,1% III - Atacama 2.646 927 16.179 18.594 85.342 69.163 21,8% IV - Coquimbo 3.620 371 39.853 43.644 241.158 201.305 18,1% V - Valparaíso 6.473 727 95.584 101.771 592.549 496.965 17,2% VI - Libertador O Higgins 5.016 865 48.916 54.290 298.218 249.302 18,2% VII - Maule 3.238 381 47.638 50.837 340.545 292.907 14,9% VIII - BíoBío 8.097 2.813 108.028 118.019 668.889 560.861 17,6% IX - La Araucania 3.425 1.354 34.063 38.423 303.272 269.209 12,7% X - Los Lagos 4.498 1.453 59.367 64.668 399.333 339.966 16,2% XI - Aisén 62 282 3.330 3.672 31.541 28.211 11,6% XII - Magallanes 11 205 6.254 6.452 51.636 45.382 12,5%

XIII - Región Metropolitana 24.546 20.605 404.284 440.195 2.288.539 1.884.255 19,2%

Total 66.859 33.066 941.377 1.025.644 5.626.867 4.685.490 18,2%

Fonte: Elaboração própria, com base na Encuesta Casen (2009). (*) Déficit relativo = número de famílias no déficit sobre o número

total e famílias.

Os dados mostram, portanto, uma dinâmica de redução da precariedade e do aden-

samento, com elevação da convivência familiar. Do ponto de vista regional, vê-se um

déficit relativo maior nas regiões mais pobres do país, que ficam ao Norte. Vale obser-

var, contudo, que essas regiões tiveram historicamente menor acesso tanto ao crédito

como ao subsídio.

O Gráfico 2.5 (a) ilustra a relação entre o déficit habitacional relativo e o acesso ao

subsídio para as 13 regiões administrativas do Chile e a média nacional. Essa relação

indica que quanto maior a percentagem de famílias com acesso ao subsídio em uma

região, menor a proporção de famílias que pertencem ao déficit habitacional. Por exem-

plo, Antofagasta é a região que tem o maior déficit habitacional relativo, ao mesmo

tempo em que é a região que registrou a menor porcentagem de famílias que adquiriram

imóveis com ajuda de programas de subsídio. O Gráfico 2.5 (b) ilustra uma relação se-

melhante, desta vez entre o déficit habitacional relativo e o acesso ao crédito. Essa outra

relação sugere que quanto maior a percentagem de famílias com acesso ao crédito em

uma região, menor a fração de famílias pertencentes ao déficit habitacional.

Gráfico 2.5. Déficit habitacional relativo, acesso ao crédito

e ao subsídio, (%) das famílias, 2009*

(a) (b)

Fonte: cálculos próprios com base na Encuesta Casen 2009. (*) Até 2009.

Benzer Belgeler