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Para Gaiger (2004, p. 373), a economia solidária que hoje se difunde e se fortalece, não só no Brasil, mas no mundo, não são empreendimentos recentes:

O solidarismo econômico entre trabalhadores vem de longa data e materializa-se num conjunto heterogêneo de experiências de diferentes proveniências, em época e lugar, a formar uma história por fios que se entrelaçam em determinados momentos, história da qual a economia solidária é por assim dizer mais um episódio, com um notável poder de revitalização dos ideais emancipatórios, de politização e de convergência das suas diversas expressões concretas.

A desigualdade e a competição são elementos gerados pelo modo de produção capitalista, que divide a sociedade entre proprietários dos meios de produção e a classe que não dispõe de capital e vive segundo a venda de sua força de trabalho.

A fase que a economia solidária está passando é de transição, pois se questiona a desvinculação do modo de produção exclusivamente capitalista para uma organização da produção mais voltada para o trabalho, trazendo a emancipação do trabalho como contraponto ao capital. Assim pensa Oliveira (2004, p. 236, 237):

Tomam-se como pressupostos básicos a contradição fundamental identificada por Marx e a perda de legitimidade do sistema do capital, ambas reveladas pelo crescente desemprego e precarização do emprego, e pelo esgotamento da possibilidade de que esse metabolismo social atenda às necessidades materiais e culturais da humanidade... A diretriz básica para tal é que os espaços a serem construídos deverão conter novas formas de organização da produção, dentro de uma lógica de inclusão, cujo princípio seja a autogestão e a cooperação no trabalho, mais distante possível da órbita de dominação do capital.

A economia solidária não é somente uma resposta ao mercado de trabalho, mas reflete uma nova visão social do processo produtivo. Ela traz à tona valores que não fazem

parte do capitalismo e que parecem até esquecidos por todos, como a solidariedade, a democracia, o respeito pela natureza e pelo homem. A economia solidária tem uma característica fundamental que é a liberdade de ação que determina as melhores formas de agir frente às dificuldades enfrentadas pela população dos excluídos.

Para Souza; Cunha e Dakuzaku (2003, p. 8), “a economia solidária vai além, portanto, do cooperativismo, abrangendo outras formas de organização econômica, mas com a mesma orientação igualitária e democrática”. A economia solidária abrange toda e qualquer forma de agrupamento de trabalhadores excluídos do processo de trabalho assalariado para gerar emprego, renda e inclusão social.

Diante da atual forma de organização da economia, que parte do capital e faz com que o desenvolvimento das nações esteja apenas voltado para o crescimento econômico, deixando de lado o ser humano, gerando concentração de riquezas e deixando a grande maioria da população em desigualdades profundas como miséria, desemprego e exclusão social, Arroyo e Schuch (2006, p. 24) pondera que o cooperativismo:

Surge para se contrapor a este movimento neoliberal o movimento contínuo e crescente da economia solidária, em que a organização social se dá no sentido oposto ao da organização capitalista atual, ou seja, ocorre da base para o topo da sociedade com o objetivo de propiciar a melhoria da qualidade de vida da população, como produto de um processo de desenvolvimento integrado e sustentado da sociedade. A economia solidária é um projeto de economia com base no trabalho e não no capital, como no capitalismo. Seria, então, uma nova forma de organização da economia que visa ao homem como prioridade, deixando a forma de exploração do ser humano como se este fosse um material como força de trabalho. A economia solidária pode ser de grande porte, como o citado em Mondragón, ou em pequenos empreendimentos espalhados pelo mundo.

O modo de produção da economia solidária difere do capitalismo com relação ao seu princípio básico da propriedade, que na economia solidária se caracteriza como coletiva. Na empresa solidária os sócios têm participação igualitária nas decisões e na divisão da receita obtida. O objetivo prioritário dos participantes da empresa solidária é promover a economia solidária tanto para gerar trabalho e renda a quem precisa, fazendo sua inclusão, como também para difundir que é possível um modo democrático e igualitário de organizar atividades econômicas.

Oliveira (2004, p. 340, 341) define seis indicadores para conceituar um empreendimento de economia solidária: autogestão, democracia direta, com a escolha de

dirigentes, e sua alternância e renovação, participação efetiva, ações de cunho educativo, cooperação no trabalho e distribuição igualitária dos resultados e benefícios.

Na administração da empresa solidária, diferente da administração de empresas capitalistas que têm uma hierarquia onde quem está no topo toma as decisões e as comunica à base da empresa, na empresa solidária todos participam das decisões. É a autogestão. A forma como isso acontece varia de caso para caso, alterando segundo o tamanho da empresa solidária, sua complexidade, sua organização. A autogestão tem como pressuposto básico a participação igualitária.

Para Souza; Cunha e Dakuzaku (2003), as experiências de economia solidária ”vêm sendo interpretadas como forma de resistência à marginalização social e também prenúncio de um novo modelo de desenvolvimento econômico”, ressaltando a importância no contexto econômico e social da economia solidária como uma nova maneira de inclusão social.

Gaiger (2004) e Oliveira (2004) afirmam que a proliferação da promoção da economia solidária se dá devido ao cenário macroeconômico de acumulação capitalista associado à crise do trabalho assalariado que geram o desemprego e a exclusão social, levando a sociedade excluída a buscar alternativas de inclusão no processo.

Benzer Belgeler