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De forma a ter uma perspectiva abrangente da imprensa protestante no Brasil, convém estabelecer outros pontos do percurso das edições73, ou seja, as etapas

percorridas pelo objeto impresso, desde sua concepção74. Cabe, então, agora que acabamos de apresentar os centros editoriais, investigar o roteiro de difusão dos impressos que estes punham em circulação. Ao ampliarmos a análise para a circulação desta literatura confessional, percebemos que se torna muito mais extensa, abrangendo várias regiões de língua portuguesa.

Pode-se dizer que, nas primeiras décadas da distribuição de impressos protestantes no país, o Brasil estava inserido num circuito mais amplo de difusão desta imprensa. Desde os primórdios da publicação e distribuição em português pelas Sociedades Bíblicas, em 1819, que não apenas o Brasil, mas Portugal e suas

colônias na Ásia e África receberam as mesmas edições75. Temos evidência desta

amplitude de circulação pelas indicações em alguns dos folhetos de que os depósitos de literatura protestante localizavam-se nas seguintes cidades: Depósitos

em Portugal – Lisboa, Porto, Funchal, Ponta Delgada. África: S. Vicente de Cabo Verde, G.H. Agnew – Inhambane [Moçambique]. Brazil – Rio de Janeiro76. A circulação dos impressos protestantes entre as áreas lusófonas permanece ainda no início do século XX, como se pode atestar pelo folheto O cura e o protestante, que em 1903 atingia a sua terceira edição, sendo encontrado nas livrarias evangélicas de Lisboa, Porto, Ponta Delgada e S. Vicente de Cabo Verde77.

Igualmente, pode-se perceber por outros indícios a circulação dos mesmos textos protestantes a um só tempo no Brasil e em outros países. O livro O Peregrino

ou A Viagem do Cristão, que Robert Kalley traduziu para o português e fez imprimir,

foi editado por este missionário no Brasil, mas também seguiram cem exemplares para Illinois, onde havia uma comunidade de madeirenses, à qual todos os

73 DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourette. Mídia, cultura e revolução. São Paulo: Companhia das

Letras, 1990, p. 112.

74 Como mencionado na Introdução, Darnton entende este circuito desde o autor/editor até alcançar

as mãos do leitor; aqui, porém, abstemo-nos de analisar o papel dos leitores.

75 GIRALDI, op. cit., p. 33.

76 AVISO Importante que interessa a todos. S/L: s/n, s/d. Centro de Documentação e História Rev.

Vicente Themudo Lessa.

77 COLEÇÃO Folhetos Evangélicos. Centro de Documentação e História Rev. Vicente Themudo

exemplares foram vendidos. Parte dos madeirenses auto-exilados estabeleceu-se em Trinidad e Tobago, tendo também eles recebido cópias do referido livro. Esta mesma comunidade recebeu uma coleção em português de Salmos e Hinos, da qual o reverendo da comunidade, John Law, mandou fazer cópias e distribuir entre os membros. A edição de Salmos e Hinos organizada por Robert Kalley no Rio de Janeiro, em 1861, foi publicada, também, em Portugal, Illinois e Trinidad e Tobago, para uso das congregações protestantes78.

Similarmente, as obras de um ex-padre convertido ao protestantismo, Vitor Coelho de Almeida, além de serem publicadas e espalhadas por todo o Brasil, circularam em Portugal79 . Um outro exemplo desta circulação transnacional encontra-se com O Século, jornal fundado em Natal em 1895, que chegou a ter assinantes em Portugal80.

Um outro título a ter circulação para além das fronteiras do Brasil foi o de Sarah Kalley, esposa do missionário Robert Kalley. Segundo Cardoso, o livro de Sarah, A alegria da casa, teve sua circulação ampliada para outras áreas como Trinidad & Tobago, Illinóis (Springfield e Jacksonville) e Portugal (Ilha da Madeira e Lisboa)81.

Tais títulos eram utilizados, como acima se disse, por comunidades protestantes de países e territórios lusófonos e não-lusófonos (Trinidad e Tobago; EUA). O já referido Salmos e Hinos teve tiragem de 500 cópias em Illinois, a cargo do missionário José Joaquim Silvestre (brasileiro, amigo de Kalley), que tencionava distribuí-las às congregações de Springfield e Jacksonville82.

Quando se planejava a ação proselitista para o Brasil por meio dos impressos, pensava-se ao mesmo tempo em Portugal. Assim delineou o missionário britânico R. Holden, que, atuando no Brasil, esperava que a Sociedade de Tratados Religiosos de Londres se convencesse ainda da necessidade de empregar um ou dois homens

no Brasil e de Publicar folhetos e livrinhos, para serem vendidos no Brasil e em Portugal83. Por estas mesmas razões, a SBA remeteu de Nova York, entre 1842 e 1853, cerca de 9.500 Escrituras (a Bíblia ou o Novo Testamento) em português,

78 ROCHA, op. cit., p. 64, 70, 168 e 179.

79 NORTE Evangélico. Garanhuns: 20 de agosto de 1923, Ano XVI, N. 23, p. 3. Seminário

Presbiteriano do Norte. SPNB.

80 BEDA, op. cit., p. 37. 81 CARDOSO, op. cit., p. 17. 82 ROCHA, op. cit., p. 188. 83 Ibid., p. 277.

enviados a outros portos dos Estados Unidos, aos Açores e Madeira84.

Deve-se esclarecer que essa circulação dos referidos textos protestantes em língua portuguesa entre vários países deve-se, em parte, ao fato de que muitas famílias de madeirenses convertidos ao protestantismo decidiram abandonar a Madeira, assim como Robert Kalley, devido aos conflitos violentos com os católicos da ilha, entre 1846 e 1848. Estes madeirenses distribuíram-se pelo Atlântico, formando comunidades nos EUA, Portugal, Brasil e Trinidad e Tobago, o que propiciou os laços entre os mesmos, como dito há pouco. Compreende-se, assim, que pelos laços pessoais e pela partilha do mesmo idioma, teciam-se ligações entre os protestantes e missionários estabelecidos no Brasil e os de outras partes.

A presença dos protestantes madeirenses em Portugal, todavia, não é a única razão da atividade editorial e da circulação dos impressos protestantes naquele país. Na verdade, várias iniciativas de missionação no país buscavam a conversão da população portuguesa, tais como a das Sociedades Bíblicas, das juntas de denominações estrangeiras (as mesmas que enviaram missionários ao Brasil) e, inclusive, num segundo momento, a missionação partiu dos próprios protestantes do Brasil.

A inserção do protestantismo em Portugal tem início com os presbiterianos, por meio da missionação de um capelão escocês85, o qual, como costumava acontecer, à condição de pregador aliava a de agente da Sociedade de Tratados Religiosos (organizações destinadas à impressão de textos religiosos protestantes, cujo fim era a pregação protestante em várias partes do mundo) e da Sociedade Bíblica Britânica, dada a importância da distribuição de publicações protestantes como parte da atividade missionária86.

A igreja presbiteriana lusitana contou por vários anos com uma diversidade de pastores que se sucediam, a maior parte de portugueses (muitos dos quais convertidos no Brasil) ou escoceses, mas também alguns missionários oriundos do Brasil87. Um destes, o rev. Mota Sobrinho, deixou a Paraíba, onde dirigia uma igreja, e desembarcou em Lisboa em 1910. Dirigiria por mais de uma década a igreja e a

84 Ibid., p. 21.

85 O Rev. Robert Stewart, amparado pela Igreja Livre da Escócia. Cerca de quatro anos após o início

de suas atividades em Portugal, fundou a Igreja Presbiteriana Portuguesa (1870)

86 FERREIRA, op. cit., Vol. II, p. 168. 87 Ibidem, p. 170-2.

missão presbiteriana de Portugal88.

Findo o patrocínio oficial, quer da Junta de Nova York quer da igreja presbiteriana do Brasil, alguns líderes presbiterianos brasileiros resolveram fundar a

Sociedade Missionária Brasileira de Evangelização em Portugal. Com o apoio desta,

viajou a Portugal outro brasileiro, Pascoal Pitta, cuja atuação como missionário em Portugal durou quinze anos89 . O papel dos presbiterianos do Brasil como fomentadores desta confissão em Portugal encerrar-se-ia nos anos 194090.

Os batistas, por sua vez, demoram um pouco mais para estruturarem um trabalho. Os primórdios da confissão batista em Portugal deveram-se aos esforços particulares de um indivíduo, Joseph Jones, português, mas filho de ingleses,

membro influente da comunidade mercantil do Porto91. A Casa Publicadora Batista

Portuguesa, editora consagrada à publicação dos textos da denominação e que contava com uma congênere no Brasil, foi erguida em terreno doado por Jones92.

Os esforços coletivos e institucionalizados de proselitismo batista em Portugal, todavia, deveram-se à Convenção Batista Brasileira (CBB), que para lá enviou o missionário Jerônimo Teixeira de Souza (português convertido no Brasil) e, depois, Zacarias Taylor. A iniciativa daquele levou à fundação da primeira igreja batista portuguesa com o auxílio dos batistas do Brasil93. O missionário João Jorge,

igualmente português e convertido no Brasil, assumiu aquela igreja, por delegação da CBB, em 191194.

O papel das instituições protestantes brasileiras como difusoras da fé reformada em Portugal e a circulação no Brasil de textos editados naquele país demonstra que havia um circuito de mão dupla entre as duas nações, no que se refere ao proselitismo e o uso da editoração como meio de propagação do protestantismo. Além disso, há indícios de que as trocas recíprocas também se

88 Ibid., p. 192-9. 89 Ibid. p. 289-97. 90 Ibid., p. 419-24.

91 Embora tenha se tornado batista em 1871 (aos 23 anos de idade), sendo considerado o primeiro

português a professar esta confissão, apenas em 1888 Jones fundou a primeira igreja batista de Portugal, no Porto. Ligou-se, posteriormente, aos missionários batistas brasileiros, unindo a igreja que fundara à organizada pelos brasileiros (1912). Uma outra personagem a trabalhar individualmente para estabelecer a confissão batista em Portugal foi Reginaldo Young, que, tudo indica, era canadense. Atuou em Portugal entre 1905 e 1907, depois de uma passagem pelo Brasil. Não uniu os seus esforços aos do referido Joseph Jones ou dos missionários brasileiros por ser de um segmento batista distinto do daqueles. Deixou fundada uma igreja batista, também no Porto.

92 ANDRÉ, João Virgílio Ramos. A obra missionária em Portugal. Rio de Janeiro: JUERP, 1981, P. 17,

22-6.

93 Ibid., p. 27-8. 94 Ibid., p. 29, 31-40.

deram no campo da colportagem, pois foi solicitado a Kalley, desde a Escócia, que encontrasse no Brasil trabalhadores de boa capacidade, para atuarem como colportores em Portugal95. Este circuito estabelecido desde fins do século XIX ramificava-se para outras áreas lusófonas do Atlântico, como ficou demonstrado acima.

A maior abrangência geográfica do percurso dos impressos também se explica pela pluralidade das origens das edições protestantes a circulares no Brasil. Até a virada do século XIX, a missionação protestante (por estrangeiros e brasileiros) no país ainda dependia, em boa medida, das publicações feitas no exterior. Nas décadas iniciais do século seguinte, percebemos como a atuação das instituições estrangeiras é crescentemente coadjuvada pelos trabalhos editoriais e pela arrecadação de fundos realizada por convertidos brasileiros. No entanto, as iniciativas de protestantes estrangeiros e brasileiros conviveram durante todas as três décadas finais do período que estudamos.

Benzer Belgeler