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O poema-piada modernista é uma manifestação clássica de comicidade no Brasil do século XX, e Oswald de Andrade, o seu grande representante. No capítulo dois, afirmei que

Pau-Brasil é o livro que marca a brevidade e a oralidade como fatores inovadores, mas que o

dito “poema-piada”, stricto sensu, seria de fato constituído em Primeiro Caderno do Aluno de

Poesia, quando a concisão atingiria o seu ápice, conciliada a uma gratuidade temática que não

se via em sua primeira antologia (ANDRADE, 1974, p. 163): fazenda

O mandacaru espiou a mijada da moça

145 Falando sobre Luiz Gama, o crítico afirma, na Modo de Usar & Co., que o poeta “dedicou-se a uma escrita

crítico-satírica e de escárnio invectivo que, muito além do modernismo do Grupo de 22 (tantas vezes infantilmente celebratório), segue, como nos melhores textos destes gigantes do século XIX, a mostrar a inviabilidade crônica do projeto de nação no qual as elites estúpidas deste país ainda insistem, às custas da exclusão de tantos. São autores ética e esteticamente conscientes de seu momento histórico, mestres formais e de estilo, sem qualquer noção infantilizada de "independência estética" da Literatura sobre a História” (2011b). Critica, ainda, dos

modernistas, sua ingênua busca por um “mito de fundação”, preferindo autores como Machado de Assis, Raul

Pompéia, Sousândrade e outros que, em vez disso, compuseram “crônicas do afundaço”. Buscar desconstruir a mitificação que alguns modernistas possuem é deveras salutar, e é louvável ampliar o conceito de modernidade no país para além daquele reduzidíssimo tempo-espaço. Domeneck, porém, para fazer isso, parece precisar desqualificar, de certo modo, aquela geração da Semana, que a sua maneira inegavelmente causou uma revolução ao mainstream da cena literária nacional.

Neste tipo de produção poética, a ausência de um jogo com o significante, ou de uma maneira de fundir, à oralidade do discurso, um padrão formal ou alguma elaboração linguística mais complexa (como o chiste), acaba fazendo dela uma obra cômica, mas não inserida na tradição satírica de que vimos falando. Evidentemente, não há aqui depreciação, mas a constatação de que havia um outro objetivo, uma outra proposta para aquele momento, que exigia mais informalidade e soltura dos versos. Na década de 40, porém, com a publicação de

Poemas Menores e Cântico dos Cânticos para Flauta e Violão, vê-se um estilo diferenciado

(op. cit., p. 177):

MENSAGEM POÉTICA AO POVO BRASILEIRO América do Sul

América do Sol América do Sal

Poema que ficou famoso pelas menções de Décio Pignatari e Haroldo de Campos, e o fato de ambos considerarem-no um tipo de antecipador do Concretismo, ele opera um chiste pela exploração metonímica de palavras parônimas, como se viu diversas vezes com Paes. Em um ensaio acerco do poeta paulistano, Haroldo percebe a recorrência de tais recursos pelo livro: “O procedimento estilístico que parece ter maior incidência no Cântico é a técnica de repetições, seja o andamento anafórico e paralelístico, seja a simples reiteração topológica de palavras iguais e parônimas” (1974, p.64). Não há apenas condensações chistosas, como no exemplo acima, mas também textos mais longos, em que sinuosas teias rímicas e rítmicas são traçadas, levando ao leitor ao prazer do jogo formal (op. cit., p. 183-184):

No fundo do poço No cimo do monte No poço sem fundo Na ponte quebrada No rego da fonte Na ponta da lança No monte profundo Nevada

Entre os crimes contra mim

Maria Antonieta d’Alkmim

Felicidade forjada nas trevas Entre os crimes contra mim Sol de montanha

Não quero mais as moreninhas de Macedo Não quero mais as namoradas

Do senhor poeta Alberto d'Oliveira Quero você Não quero mais

Crucificadas em meus cabelos Quero você

Não quero mais A inglesa Elena Não quero mais A irmã da Nena Não quero mais A bela Elena Anabela Ana Bolena Quero você

Toma conta do céu Toma conta da terra Toma conta do mar Toma conta de mim Maria Antonieta d'Alkmin E se ele vier Defenderei E se ela vier Defenderei E se eles vierem Defenderei

E se elas vierem todas Numa guirlanda de flechas Defenderei

Defenderei Defenderei

Cais de minha vida Partida sete vezes

Cais de minha vida quebrada Nas prisões

Na primeira estrofe, o quiasmo “no fundo do poço” e “no poço sem fundo” tem sua musicalidade reforçada por rimas internas em /po/, como “ponte” e “ponta”, e externa (“profundo”), tudo isso em redondilhas menores de ritmo martelado, facilmente identificável. Ao longo do poema, repetições, anáforas (“toma conta do”) e rimas difíceis, a partir de nomes próprios, fazem com que o significante chame tanto a atenção quanto o conteúdo lírico, adicionando um componente lúdico ao texto.

Oswald, portanto, foi mais “satírico”, no sentido do manejo do significante com uma proposta cômica e/ou prazeirosa, quando deixou de lado o poema-piada propriamente dito, já

em seus derradeiros escritos poéticos. Dentro do que se convenciona chamar de Modernismo, é o nome que melhor propõe uma comparação com Paes, o que foi extensamente feito no capítulo anterior. Já com relação ao humor irônico de um Mário de Andrade ou principalmente de Drummond, apesar de haver momentos levemente chistosos ou com algum jogo linguístico, suas comicidades parecem ser predominantemente situacionais, vindas mais da hábil manipulação semântica das palavras que de efeitos formais, sendo assim de outra ordem retórica. É por isso que o autor de Pau Brasil é considerável responsável, por boa parte da crítica, por toda uma matriz poética de brevidade e coloquialidade em nossa literatura, que passa pelos concretos, por Paes e diversos outros autores de sua geração, chegando à Tropicália e seus desdobramentos.

Benzer Belgeler