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A história, aí, apresenta-se com intenções morais e patrióticas.

(GLÉNISSON, 1999, p. 17). Para os romanos era importante considerar que seu destino estava ligado aos deuses, pois estas nobres origens legitimavam seu poder sobre outros povos e servia como propaganda de suas qualidades.

(FUNARI, 2011, p. 81). E a realização de festas era uma forma tradicional de demonstrar a potência, a importância e a soberania de Roma e de seus Imperadores.

(GONÇALVES, 2002, p. 18)

A historiografia romana, assim como a grega, privilegiou os grandes feitos dos homens ilustres. Não havia a preocupação de abordar temas relacionados ao cotidiano do povo. Mesmo não tendo sido narrada em forma de poemas epopeicos, a fundação de Roma também estava rodeada de explicações míticas. As festas cívicas romanas também guardavam similaridades com as gregas. Ambas exploravam a concepção cíclica do tempo. As romanas, no entanto, não davam tanta importância ao debate filosófico. O objetivo era abordar temas políticos e, a partir deles, estimular a exaltação patriótica.

Os principais historiadores romanos foram Tito Lívio (59-17d.C) e Tácito (55?- 120d.C?). O primeiro “quer propor aos seus concidadãos o glorioso passado de Roma para fazê-lo amado e admirado” (BESSELAAR, 1973, p. 15), além de “soerguer a moralidade dos contemporâneos mediante as lições de tempos idos” (idem, ibidem, p. 15). Ele tentou despertar o sentimento patriótico em seus contemporâneos por meio da narrativa dos grandes episódios da história romana. O segundo “deforma sistematicamente a história, ao concebê-la como um conflito de personalidades, exageradamente boas e exageradamente más” (COLLINGWOOD, 1989, p. 55).

O trabalho de Tito Lívio consistiu em reunir documentos tradicionais da história primitiva de Roma e em fundi-los numa única narrativa contínua – a história de

Roma. Foi a primeira vez que se realizou uma coisa deste gênero. Os romanos – serenamente confiantes na sua superioridade em relação a todos os outros povos e no seu monopólio das únicas virtudes merecedoras de tal nome – consideravam a sua história como a única digna de ser contada [...] sua narrativa da história

antiga de Roma está demasiada e profundamente impregnada de elementos fabulosos. (COLLINGWOOD, 1989, p. 52 e 56, grifo nosso).

Durante o período em que esses historiadores escreveram, não havia uma separação nítida entre o sagrado e o profano na sociedade romana. As festas cívicas tinham caráter religioso e, por sua vez, os atos oficiais do Estado também estavam associados a atos religiosos como rituais, oferendas e preces a divindades.

Se assim for, consideramos pertinente ver os cultos cívicos romanos como o resultado de esforços repetidos para apropriar, reger e mobilizar o poder de cultos e divindades particulares, tradições rituais, símbolos e crenças que os acompanhavam. Vista por este ângulo, a religião romana se torna um instrumento de poder dessas elites cívicas e elemento de fundamental importância para a criação e a manutenção da unidade imperial [...] os rituais religiosos romanos podem ser analisados como mecanismos que sacralizavam o ordenamento político e social. (BELTRÃO, 2010, p. 43 e 82).

O culto ao imperador e a exaltação ao patriotismo se misturavam à adoração aos deuses. “Os romanos souberam muito bem utilizar suas festas como formas de conseguir o apoio das divindades para seus intentos e garantir a legitimação dos soberanos” (GONÇALVES, 2008, p. 30). Isso explica o fato de “no calendário de 354, as festividades ocupavam cento e setenta e sete dias” (ALMEIDA, 1994, p. 63). Alguns dos espetáculos eram acompanhados por grandes banquetes que, quase sempre, eram encerrados com a prática de orgias.

As festas serviam de cenário para a apresentação das boas qualidades, da imagem idealizada do soberano. Nos momentos festivos, ele era a imagem da generosidade, ao promover distribuições de dinheiro e/ou alimentos, da força, ao ser aclamado pelas legiões e pela plebe urbana de Roma ou das cidades provinciais, do pontificado, ao realizar importantes ritos religiosos, responsáveis por garantir o apoio das divindades à continuidade do Império. (GONÇALVES, 2002, p. 17).

A título de exemplo, podemos citar três festas. A Augustalia era uma homenagem ao primeiro imperador romano Caio Júlio César Otaviano (63 a.C. - 14.d.C), que também ficou conhecido como Augusto (em latim Augustus: sagrado). Já a Saturnália era uma festa dedicada ao deus Saturno, deus romano do tempo. Era uma espécie de comemoração de fim

de ano em que os romanos renovavam suas esperanças por melhores colheitas ao se lembrarem dos tempos da "Idade de Ouro", imaginado como abastado. Por último, a Decennalia, que era uma comemoração dedicada aos dez anos de governo de um imperador.

Outro cerimonial interessante é o da apoteose do imperador. Nele, o Senado romano reconhecia a divinização de imperadores falecidos. Em 40 a.C., Júlio César (100-44 a.C.) foi o primeiro a ser considerado deus. Na festa de consagração, os romanos tinham a oportunidade de adorá-lo e demonstrar lealdade ao sucessor dele. Abaixo, dois autores comentam o assunto.

Durante o Império, a religião oficial ganhou o culto aos imperadores, uma espécie de religião cívica, que reverenciava os imperadores romanos que haviam sido declarados "santos", após a morte. Esse culto aglutinou, por muitas gerações, durante os três primeiros séculos d.C., as elites nas diversas áreas do Império. (FUNARI, 2011, p. 114)

A divinização dos Imperadores mortos se unia ao culto imperial, um importante fator de coesão política dentro do Estado romano. Mediante a dedicação de estátuas e as devoções, que eram muito mais prestações de homenagem do que adoração nas províncias ocidentais, as cidades e os súditos dos Imperadores demonstravam sua lealdade e seu comprometimento com a manutenção da ordem política vigente. (GONÇALVES, 2008, p. 42)

As festas mais populares continham atividades lúdicas e sociais. Nelas era comum a realização de jogos, apresentação de teatros, distribuição de alimentos, além de outros. Eram oportunidades para que o povo se distraísse e se apaziguasse. As festas também produziam uma imagem positiva do soberano e estimulavam a coesão social.

Os jogos seriam eventos necessários para manter o controle e o domínio do público, que se entreteria às expensas do Estado, não questionando, em troca, a ordem estabelecida [...] No império, os príncipes teriam a certeza de que os jogos eram um modo seguro de obter prestígio junto à população da cidade de Roma. A admiração do povo pelo soberano que oferecia tais eventos era um dos melhores caminhos para se conseguir o cumprimento das resoluções imperiais [...] Na cidade, as massas de desocupados teriam suas paixões desviadas e ocupariam seu tempo com o interesse pelos espetáculos. Esta prática os alijaria do processo político [...] Os espetáculos eram festejos destinados a criar uma harmonia social, indispensável sobretudo nos momentos de crise. (ALMEIDA, 1994, p. 8, 10, 21 e 56),

A luta de gladiadores foi um dos mais prestigiados entretenimentos populares promovidos pelo governo romano. A sanguinária diversão consistia na luta armada entre escravos treinados ou entre eles e animais ferozes. As pessoas se divertiam observando a

morte dos gladiadores derrotados. Os mortos eram oferecidos como sacrifício à honra dos deuses. Ao final, toda a encenação servia para exaltar a figura do imperador. A prática perdurou mais de sete séculos e o Coliseu foi a arena preferida para tais apresentações em Roma.

Isso pode servir para mostrar que a violência era cultural. “A gladiatura e sua organização envolviam distintas camadas sociais” (GARRAFFONI, 2005, p. 152). Muitas pessoas estavam direta ou indiretamente ligadas à realização dos eventos. E, por mais que alguns defendam que “os espetáculos antigos não podem ser historicamente entendidos a partir de sentimentos humanitários modernos” (GONÇALVES, 2008, p. 49), também não podemos sustentar uma visão comemorativa do período só porque o mesmo faz parte da formação histórica do Mundo Ocidental.

No próximo tópico, veremos exemplos de abuso da história ocorridos na Europa, especialmente na França, e no Brasil e como tais abusos contribuíram para a instauração e manutenção de festividades cívicas. A denúncia da violência fundadora de uma comunidade é a chave para a defesa dos direitos humanos no presente.

Benzer Belgeler