• Sonuç bulunamadı

Serão analisados fatores condicionantes de natureza linguística e extralinguística, conforme descrição abaixo:

Condicionamentos linguísticos

a) continnum oralidade /escrita17

Como partimos da hipótese de que o fenômeno linguístico estudado teve início da fala para escrita, analisaremos dados de fala e textos escritos. Testaremos a hipótese de que a quantidade de dados das variantes conservadora e inovadora são proporcionais ao grau de formalidade do texto.

Além disso, acreditamos que, nos textos escritos de ampla circulação, ocorra uma revisão que tende ao uso da norma padrão até na representação da fala, como em: (32) – Eu amo-o. Não deixem esses policiais levarem-no para a Inglaterra. (DNM18

05/02/1974)

(33) então o trabalho do meu avô era ir buscá-los {os doentes} à lancha era vir do arco da calheta buscar_portanto_ele dava uma viage [viagem] (FNC-C-1-H)

O exemplo (32) transcreve a fala de uma brasileira, veiculada em um jornal português. Observemos que, segundo a norma brasileira, provavelmente, uma jovem com pouca escolarização não usaria tais clíticos, sobretudo em posição enclítica. Por essa razão, controlamos diferentes gêneros textuais dos dados escritos para observarmos

17Para trabalharmos com e noção de continuum, nos dados de escrita, controlamos três gêneros textuais

com diferentes graus de formalidade. Dessa forma, nesta tese, o continuum segue o seguinte esquema: FALA > ESCRITA [ENTREVISTA] > ESCRITA [NOTÍCIA] > ESCRITA [EDITORIAL].

18 As notações dos exemplos dizem respeito ao jornal e à data de circulação. Desse modo, DNM diz

respeito ao Diário de Notícias da Madeira, DN ao Diário de Notícias, jornal lisboeta e JB ao Jornal do Brasil, periódico carioca.

se grau de formalidade e propósitos comunicativos distintos influenciam o uso de uma variante em relação à outra.

b) Propriedades semânticas do OD

Levaremos em consideração se o objeto direto faz alusão a um referente humano ou não; a esse referente serão atribuídos os traços semânticos [+/- humano], conforme os exemplos abaixo, respectivamente:

(34) – Mas eles são meus compatriotas, se eles lutam com dificuldades, eu não haveria de ajuda-los?

(35) Tive que abandoná-lo [o carro] na estrada e fui pedir boleia. (DNM – 21/01/1970)

Nossa hipótese é que os pronomes ele e lhe teriam alargado o seu domínio nos sistemas em que variam com o, por seu caráter referencial estariam ligados ao traço [+ humano], enquanto a anáfora, por não ser um item referencial, teria influência do traço [- humano] para seu uso. Baseamo-nos na escala de referencialidade de Cyrino, Duarte e Kato (2000) e no estudo de Freire (2005) sobre o acusativo e o dativo anafórico de terceira pessoa.

c) tipo da forma verbal:

Será testado se a natureza morfológica do verbo influencia na mudança linguística. Para tal, optamos pela tipologia adotada por Duarte (1989), a qual diferencia formas simples, como em (36), de formas compostas, em (37), no condicionamento das variantes.

(36) – Não, não avisei ϕ. Apenas alertei o meu clube que não poderia deslocar-me no último fim de semana a Lisboa. (DNM – 02/02/1994)

(37) O projecto humano de construção do mundo é solidário e comum. E é como POVO que temos de construí-lo. (DNM 01/01/1975)

Nossa hipótese é que construções menos gramaticalizadas, como as perífrases verbais, formam um paradigma mais propício ao uso de novas variantes em um determinado domínio funcional, enquanto as formas simples compõem um paradigma mais fechado a mudanças linguísticas e, ao fazer uso de formas inovadoras, o falante torna a sentença mais marcada.

d) posição do pronome

Uma vez que há diferença nas normas brasileira e portuguesa, no que se refere à posição pronominal, conforme os exemplos (38) e (39), testaremos se a mudança de posição interfere na escolha de uma das variantes. Esse grupo de fatores diz respeito, em primeiro momento, apenas aos clíticos, pois apenas essas variantes têm a possibilidade de mudança de posição em relação ao verbo.

(38) – Não mais o [o padrinho de casamento] encontrei depois do almoço. (DNL – 07/01/1970)

(39) Simplesmente, o tempo de antena é bastante caro e os alemães não estão dispostos a financiá-lo para não abrir precedentes. (DNL – 16/01/1975)

O português brasileiro, por suas características fonológicas que enfraquecem os clíticos (KATO (1993) e NUNES (1993)), teria, segundo as nossas hipóteses, como as variantes com maior frequência o ele para contextos de uso mais marcados e a anáfora zero para contextos menos marcados, a fim de evitar ênclise. No português europeu insular, o uso do lhe com função acusativa de terceira pessoa é uma opção de um sistema pronominal enclítico.

Condicionantes extralinguísticos

a) período histórico19

Por analisar uma mudança linguística, faz-se necessária a seleção de sincronias distintas da língua portuguesa. Assim, optamos pelos seguintes espaços de tempo, considerando-se o período referente a meio século, ou seja, as últimas cinco décadas:

• Década de 70 • Década de 80 • Década de 90

• Primeira década dos anos 2000 • 2011 a 2016

Nossa hipótese é de que a não marcação da categoria caso aumentou com o passar do tempo, tornando o paradigma desse domínio funcional cada vez mais estável, uma vez que, conforme Lehman (1995 [1982]), o grau de variabilidade paradigmática menor e a possibilidade de escolher signos diferentes para uma função tornam-se menos frequentes ao passo que a mudança linguística avança.

b) Localidade

• Brasil (Rio de Janeiro) • Portugal continental (Lisboa) • Portugal insular (Funchal)

Nossa hipótese, ancorando-nos em estudos que consideram os mesmos espaços geográficos como Viana (2011) e Bazenga (2015), é que a frequência de produção do clítico será maior no PE, tanto na fala quanto na escrita. O pronome pleno será amplamente utilizado na fala brasileira e o lhe na madeirense. No que se refere aos

dados do Funchal notaremos uma frequência, relativamente alta, em comparação com os dados de Lisboa, das variantes estigmatizadas e consideradas como “brasileirismos”.

c) sexo20 do informante

Uma vez que, na hipótese clássica da sociolinguística laboviana, mulheres são mais conservadoras quando há valoração social das variantes, as mulheres tenderiam a se esquivar das variantes estigmatizadas e usar aquelas que gozam de prestígio social.

• Masculino • Feminino d) Faixa etária

Para a análise da mudança em tempo aparente, investigaremos o grau de influência do fator faixa etária na variação e mudança linguística. As idades serão traçadas de acordo com as faixas etárias informadas nos dados de fala, conforme recorte do corpus selecionado, a saber:

• Faixa A: 18 a 35 anos • Faixa B: 36 a 55 anos • Faixa C: 56 a 75 anos

Pautados em Labov (1994), nossa hipótese é de que, ao investigarmos a mudança em tempo aparente, o sistema de casos dos pronomes pessoais na relação entre PB e PE insular caracteriza uma mudança em geral, enquanto, no PE continental já haveria uma estabilidade linguística.

e) Nível de escolaridade

• Ensino Fundamental • Ensino Médio • Ensino Superior

Observando o efeito na escolarização, nossa hipótese é de que a anáfora tenha o

status de variante de prestígio, sendo a estratégia adotada por falantes mais escolarizados e os pronomes ele e lhe sejam menos comuns em pessoas com maior escolaridade, pautando-nos em estudos como Silva e Scherre (1996) e Votre (2012).

Benzer Belgeler