Apresenta-se na Figura 6 o boxplot da série de precipitação total mensal referente ao período de 1974-2014. Por meio deste observou-se que o período chuvoso inicia no mês de outubro, intensificando-se no período de novembro a março e reduzindo a partir do mês de abril. Com relação às médias verificaram-se os maiores valores nos meses de janeiro, fevereiro (verão) e março (outono). Notou-se pouca dispersão nos dados durante os meses de inverno (junho, julho e agosto) que são os meses que constituem o período seco no município analisado.
Os meses de maio (outono) e setembro (primavera) apresentaram-se menores amplitudes das informações, revelando a pouca variabilidade da precipitação nestes meses, enquanto que as maiores variabilidades concentraram-se nos meses de outubro, novembro (primavera), dezembro, janeiro, fevereiro (verão), março e abril (outono).
Observaram-se à existência de valores distantes da média mensal (outliers) nos meses de dezembro, nos anos de 1998, 2008 (valores acima da média) e 1996 (valores abaixo da média), em janeiro no ano de 2004 (acima da média) e em fevereiro nos anos de 1980 e 1992 (acima da média). Nos meses de outono notou-se um total de 6 (seis) valores extremos, sendo que o maior foi registrado no ano de 1989. Nos meses de inverno, constataram-se valores atípicos somente no mês de julho, com destaque para o ano de 1975 (maior valor), que podem ser atribuídos a eventos
extremos de precipitação, normalmente associados aos sistemas de mesoescala ou convecção local. Na primavera observaram-se outliers (acima da média) nos meses de outubro e setembro, nos anos de 1976 e 2002, respectivamente.
Figura 6. Boxplot mensal da série de precipitação total correspondente ao período de 1974-2014 do município de Bom Jesus (PI)
Com base nos totais mensais, não fica clara a influência da variabilidade interanual do Pacífico (ENOS) na ocorrência de meses chuvosos (outliers) apresentados na Figura 6. Contudo, estudos recentes (Oliveira et al., 2014) mostram que o ENSO atua diretamente na intensidade da chuva diária sobre o NEB; entretanto, faz-se necessária uma análise mais aprofundada sobre essa relação, bem como analisar o papel do oceano Atlântico no regime de chuva da região.
Na Tabela 3 são mostrados os resultados do teste de Mann-Kendall (Z) para cada mês e para o total anual para valores totais de precipitação, assim como para os
valores máximos. Além do valor Z são apresentados nível de significância estatística do teste e o coeficiente angular. Para os valores totais de precipitação, a maioria dos meses: fevereiro (verão); abril (outono); junho, julho, agosto (inverno); setembro, outubro e novembro (primavera) apresentaram-se tendência negativa. Dentre os mesmos apenas os meses de junho (inverno) e outubro (primavera) apontaram redução com significância estatística, com valor-p igual a 0,0236 e 0,0092, respectivamente. Por outro lado, para os meses de janeiro e dezembro (verão); março e maio (outono), verificou-se uma tendência positiva; entretanto apenas o mês de dezembro (verão) apresentou-se significância estatística, considerando um nível de 10% (valor-p = 0,0670).
Tabela 3. Aplicação do teste não paramétrico de Mann-Kendall (Z) nos valores acumulados mensais de precipitação e nos valores máximos diários acumulados do município de Bom Jesus, PI (1974 a 2014)
+ nível de significância 0,1; * nível de significância 0,05; ** nível de significância 0,01
Esses resultados apontam tendências de redução nos totais pluviométricos no período seco (junho) e no início do período chuvoso (outubro). E tendências de aumento no período chuvoso (dezembro). Resultados semelhantes foram analisados
Valores acumulados Valores máximos
Mês Teste Z valor-p Coef. Angular (mm) Teste Z valor-p Coef. Angular (mm) Jan 0,12 0,8941 0,123 -1,74 0,0543+ -0,600 Fev -0,54 0,5839 -0,519 -1,56 0,1157 -0,459 Mar 0,78 0,4282 0,870 0,31 0,7442 0,129 Abr -0,30 0,7531 -0,345 -0,14 0,8796 -0,065 Mai 1,03 0,2956 0,250 0,78 0,4273 0,104 Jun -2,26 0,0236* 0,000 -2,26 0,0236* 0,000 Jul -0,73 0,4643 0,000 -0,69 0,4885 0,000 Ago -1,61 0,1067 0,000 -1,61 0,1067 0,000 Set -1,17 0,2409 -0,006 -0,78 0,4295 0,000 Out -2,59 0,0092** -1,717 -2,55 0,0103* -0,695 Nov -1,48 0,1359 -1,611 -1,64 0,0993+ -0,363 Dez 1,82 0,0670+ 1,362 0,82 0,4024 0,246 Anual -1,01 0,3052 -3,981 -1,07 0.2836 -0,244
por Blain (2011), ao estudar tendências, periodicidades e persistência temporal presentes nas séries decendiais de precipitação pluvial em Campinas (SP). Segundo o autor resultados como estes mostram mudanças nos padrões do clima da região, demonstrado pelo atraso da retomada da estação chuvosa. Além disso, em um estudo sobre o NEB, Oliveira et al. (2014) mostraram um aumento da sazonalidade da precipitação, ou seja, aumento de chuva no período chuvoso e diminuição no período seco. No caso específico de Bom Jesus PI, a redução se deu em junho (seco) e em outubro (transição entre o período seco e chuvoso), e o aumento se deu em dezembro, que já pode ser considerado como período chuvoso para a região; portanto, concordando com os resultados de Oliveira et al. (2014).
Além disso, ressalta-se a existência de flutuação da precipitação pluvial na escala mensal, na qual indicou a redução pluvial em alguns meses e por um aumento em outros. Esse é um resultado importante, sob o aspecto agrometeorológico, em razão de que, as estratégias para o planejamento e zoneamento agrícola é conduzido a partir do potencial de atendimento hídrico mensal, que levam em consideração os estágios do cultivo.
De maneira geral, para o caso da soja no município de Bom Jesus (PI), tem-se o seguinte calendário agrícola: estágio inicial (novembro), estágio de desenvolvimento (dezembro/ janeiro), estágio médio (fevereiro/ março), estágio final (abril), sendo que a definição desses estágios varia de acordo com as condições climáticas de cada região, que geralmente inicia-se a partir da estação chuvosa, constituindo-se uma época ideal para o desenvolvimento da cultura. Segundo a FAO (1995), o desenvolvimento da cultura da soja está condicionado a diversos fatores ambientais, sendo a água o principal fator responsável pela alteração no seu rendimento produtivo.
A Embrapa Soja (2008) alertou que a necessidade de água para a cultura da soja (Glycine max (L.) Merrill) aumenta com o desenvolvimento da planta e atinge o máximo durante o estágio médio (7,0 a 8,0 mm diários), reduzindo após esse estágio. Sendo que na fase de germinação (estágio inicial), a semente da soja deve absorver no mínimo 50% de seu peso em água para garantir uma boa germinação, visto que nesta fase o conteúdo de água no solo não deve exceder a 85% do total máximo de água disponível e nem ser inferior a 50%.
Sob o ponto de vista agrometeorológico, considerando o calendário agrícola local, e com base no quadro de condições favoráveis para a germinação da semente da soja, a tendência de redução de chuva no período de transição (outubro) ou, em outras palavras, o atraso da estação chuvosa, e o aumento significativo em dezembro, sugere-se, para a área em estudo, um melhor planejamento da época da semeadura, com vistas a atender as exigências hídricas no solo para um melhor desenvolvimento da cultura. Ressalta-se ainda que tendências negativas de precipitação, ainda que não seja estatisticamente significativa, apresentam uma redução de chuva que podem, no futuro, contribuir para a ocorrência de secas agrícolas, cuja característica principal é a baixa umidade do solo sendo, portanto, insuficiente para repor as perdas por evapotranspiração dos vegetais (BLAIN, 2009).
Para os dados de precipitação total anual o teste (Z) indicou uma tendência de redução (Z = -1,01), porém sem significância estatística (Tabela 3).
Ainda na Tabela 3, é possível analisar a tendência dos valores máximos de precipitação para cada mês e anual. Pelo teste Mann-Kendall, verificou-se uma tendência negativa com significância estatística nos meses de junho (inverno) e outubro (primavera). Para os meses de janeiro (verão) e novembro (primavera), a tendência de diminuição nos valores máximos de precipitação mensal apresentou significância somente ao nível de 10%, com valor-p igual a 0,0543 e 0,0993, nesta ordem.
Especificamente, a diminuição da precipitação em janeiro (início da floração) pode não ser tão prejudicial para o cultivo da soja, pois é sabido que o desenvolvimento da cultura da soja pode ser afetado tanto pelo déficit, quanto pelo excesso hídrico. Segundo Schöffel et al. (2001), o efeito do excesso hídrico sobre a cultura depende da fase fenológica de desenvolvimento que a planta se encontra, sendo que, a produção do vegetal tende a ser maior, quando o excesso hídrico ocorre ao longo do período vegetativo (estágio de desenvolvimento), do que se ocorresse no período reprodutivo (estágio médio), pois neste estágio de desenvolvimento a planta possui maior tolerância à saturação hídrica no solo.
Por outro lado, vários autores entre eles Barni (1973, 1978), Bergamaschi e Berlatto, (1973), e Schöffel et al. (2001) mostraram que o período reprodutivo (estágio médio) é o mais sensível ao excesso hídrico no solo. A causa atribui-se à queda
abundante de flores e legumes, como consequência, a produtividade final do vegetal pode ser reduzida em 53%.
Na escala anual, por meio do teste de Mann-Kendall verificou-se uma tendência negativa (Z = - 1,07) dos valores máximos de precipitação anual, porém sem significância estatística (valor-p = 0.2836).