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A Constituição de 1988, fruto de intensos processos de mobilização social – que incluíram movimentos de defesa dos direitos da mulher e da criança, apresenta pela primeira vez a Educação Infantil como direito universal das crianças de 0 a 6 anos (ROSEMBERG, 2002b): o acesso a creches e pré-escolas é considerado direito da criança, dever do Estado e

opção da família.

Com a promulgação da nova Constituição, a Coordenação de Educação Infantil do Ministério da Educação (COEDI/ MEC), estabelece diretrizes gerais sobre a política para o segmento, afastando-se do modelo não formal e a baixo custo e propondo metas de expansão com atendimento de qualidade. O documento Política Nacional de Educação Infantil, publicado em 1993, estabelece, entre outras coisas, a equivalência de creches e pré-escolas e a formação equivalente para os profissionais de ambas as instituições.

Tais proposições, conforme Rosemberg (2002b), foram elaboradas num período em que os organismos internacionais pouco atuaram na área de Educação Infantil em nosso país, contando com a participação de pesquisadores, movimentos sociais e usuários, num processo

que representou um avanço na direção da democratização desse segmento de ensino no Brasil. A autora ressalta, contudo, que a implementação de tais propostas foi interrompida com a assunção ao poder do Governo Fernando Henrique Cardoso, o qual incorporará as determinações político-econômicas do Banco Mundial – o que, no tocante à Educação Infantil, representa “(...) a retomada da proposta de programas ‘não formais’ a baixo investimento público de EI para crianças pequenas pobres” (idem, p.42).

Em meio a tal contexto, é promulgada a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) em 1996. Embora traga em seu bojo uma concepção liberal de educação e tenha caráter mais propriamente indicativo do que prescritivo, em pouco alterando efetivamente a situação das escolas públicas brasileiras (SAVIANI, 1997), é forçoso reconhecer que do ponto de vista da história da Educação Infantil a LDB/96 traz avanços importantes. Primeiramente, na medida em que institui a Educação Infantil como primeira etapa da Educação Básica. Além disso, a Lei conserva o princípio da equivalência entre creches e pré-escolas, determinando – pela primeira vez – a inserção das creches nos sistemas de ensino municipais.

Diante de tal quadro, para Martins (2005), deve-se analisar a situação atual da Educação Infantil no Brasil considerando os avanços presentes na LDB em vigor – bem como na elaboração do documento de Política Nacional de Educação Infantil e Fundamental pela Coordenação Geral de Educação Infantil do MEC em 20039, porém reivindicando o estabelecimento de relações claras e objetivas entre as propostas contidas na legislação e as bases materiais que possam lhe dar sustentação.

1.2.1. Ensino Fundamental de 9 anos: a criação de um pré-ciclo?

9

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Infantil e Fundamental. Política Nacional de Educação Infantil: pelos direitos das crianças de zero a seis anos à Educação. Brasília, MEC/SEIF/COEDI/CPE, 2003.

Cumpre, por fim, mencionar a Lei Federal n.11.114/2005, que institui a obrigatoriedade da matrícula de crianças de 6 anos no Ensino Fundamental, aumentando para 9 anos o tempo de escolaridade obrigatória e estabelecendo como prazo para adequação dos sistemas de ensino o ano de 2010. Sem pretender uma análise definitiva a respeito da questão, apresentaremos alguns elementos para reflexão acerca de seus determinantes e efeitos.

Primeiramente é preciso destacar que a perspectiva de aumentar o número de anos do ensino obrigatório já se apresenta como meta do Plano Nacional de Educação – anteriormente, portanto, à promulgação da referida Lei Federal (ALVES, 2006).

Conforme indica Alves (2006), o Ensino Fundamental de 9 anos já é uma realidade na maioria dos países da América do Sul. Além disso, segundo relatório10 do Conselho Nacional de Educação (CNE), o Ensino Fundamental de 9 anos já se encontrava parcialmente implantado em diversos municípios localizados em 22 Estados do país e no Distrito Federal. Em Minas Gerais, por exemplo, até maio de 2005, 680 municípios haviam implantado o sistema11. Em março deste ano, o número de municípios brasileiros a adotarem o sistema ultrapassa mil12. Uma das justificativas apresentadas para a promulgação da medida é, dessa forma, a padronização do ensino em todo o território nacional13. A esse respeito, vale destacar, contudo, que com a implementação do FUNDEF (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério), a inserção de mais alunos nas escolas de Ensino Fundamental representou, para os municípios, a oportunidade de receber mais verbas, colocando-se muitas vezes em primeiro plano a questão do financiamento da educação em detrimento de questões político-pedagógicas.

Na avaliação do CNE, a antecipação da obrigatoriedade da matrícula e freqüência à escola de Ensino Fundamental a partir dos 6 anos e a conseqüente ampliação da escolaridade

10

Referente ao processo de número 23001.000157/2005-43, disponível em www.aprofem.com.br.

11

Segundo reportagem da Folha Online de 17 de maio de 2005: www.folha.uol.com.br/folha/educacao.

12

Jornal Nota 10, disponível em www.nota10.com.br/jornal_impresso/marco_2006.

obrigatória são “antigas e importantes” reivindicações no campo das políticas públicas de educação. Trata-se, segundo o referido relatório, de uma política afirmativa da equidade social. Para Duran (2006):

Neste sentido, o ensino fundamental de nove anos vem cumprir com a responsabilidade social de incluir as crianças das camadas mais pobres da população, há tanto tempo alijadas de um processo educacional mais comprometido pedagogicamente com sua formação e aprendizagem. Esta seria uma forma de resgatar a dívida social acumulada durante tantos anos, deixando fora da escola obrigatória justamente a parcela da população que mais precisa dela para atualizar o seu capital cultural. (p.342)

A argumentação da autora sustenta-se em sua compreensão da escola como uma instância necessária de democratização intelectual e política. Também Alves (2006) compreende a escola como única instituição da sociedade moderna potencialmente capaz de socializar a cultura letrada e o patrimônio cultural da humanidade; nesse sentido, entende o movimento de antecipação do ingresso das crianças na escola como parte de uma ‘tendência saudável de ampliação do tempo escolar’.

Mas, nesse sentido, perguntamo-nos: o fortalecimento dos sistemas de educação infantil não poderia, da mesma forma, contribuir para o processo de socialização do patrimônio cultural humano e democratização intelectual e política? A despeito da complexidade de determinações das mudanças em questão, acreditamos que o cenário atual não deixa de reafirmar, mais uma vez, a histórica posição de subalternidade da educação infantil em relação aos demais sistemas de ensino e a ausência de identidade do ensino infantil como educação escolar.

Além disso, podemos nos perguntar: espera-se que o conteúdo da primeira série seja antecipado em um ano? Não parece ser essa a proposta. Na verdade, um dos grandes questionamentos que vem sendo feitos à nova medida – talvez o principal deles, refere-se à ausência de uma proposta pedagógica clara. Não há ainda clareza acerca do conteúdo pedagógico pertinente a esta nova série do Ensino Fundamental. Ela passa a compor os “Anos Iniciais” ou o primeiro ciclo do segmento; no entanto, parece despontar a tendência de

constituição de uma espécie de ‘pré-ciclo’: em Curitiba, por exemplo, a nova série vem sendo chamada de ‘Etapa Inicial’; em outros municípios, de ‘Classe de Alfabetização’ ou mesmo de ‘Sala de 6 anos’. Se já não havia suficiente entendimento da natureza do trabalho a ser realizado na Educação Infantil, tal medida vem certamente confundir ainda mais o professor.

Segundo o CNE, no relatório supracitado, a adequação do projeto pedagógico escolar à nova medida deve se efetivar mediante estudos e debates realizados de forma criteriosa. Entendemos, contudo, que tais estudos e debates deveriam ter sido esgotados anteriormente à instituição da mudança.

No tocante à presente investigação, como sinalizado anteriormente, optamos pela manutenção da faixa etária de 0 a 6 anos, tendo em vista que os autores pesquisados compreendem a idade pré-escolar como fase que inclui o sexto ano de vida, apontando o início da idade escolar aos 7 anos. Esperamos que esse estudo possa também contribuir, nesse sentido, para a reflexão acerca do trabalho pedagógico a ser realizado com as crianças de 6 anos no Ensino Fundamental.

Benzer Belgeler