Entendendo-se que a noção dos Estados Paradoxais só foi desenvolvida a partir de uma experiência clínica específica que se montou sobre e em dialética com certas bases teóricas, considera-se importante contextualizar o estágio de Atendimento Psicoterapêutico Conjunto Pais-Crianças, realizado na Clínica Psicológica da UFU, modelo de atendimento no qual foi possível a observação dos Estados Paradoxais.
O estágio supracitado pretende atender a uma clientela específica; crianças de 0 a 3 anos de idade com risco de sofrimento mental grave. Assim, a pesquisa aqui apresentada limita-se aos casos de crianças que se encontram entre os 0 e 3 anos (até no máximo 4 anos de idade). Ressalva-se, contudo, que não é possível ainda o estudo longitudinal e a observação dos desdobramentos ocorridos na condição paradoxal apresentada tanto na posição da criança como na dinâmica familiar para além do tempo limite do atendimento proposto. Além disso, são crianças geralmente encaminhadas por outras instituições ou profissionais da saúde, nas quais foi observado algum sinal de que algo não estaria indo bem nas origens de seu psiquismo, indicando aí possibilidade de se encontrar uma psicopatologia em andamento.
No modelo do atendimento, segue-se a aplicação da Técnica de Intervenções Terapêuticas Conjuntas Pais-Filhos postulada por Marisa Mélega, cujo foco inicial é a interação dos pais nas funções materna e paterna visando à criação de condições para a comunicação entre os membros da família pela circulação da palavra para promoção de novas configurações e rearranjo da construção significante (Paravidini, 2006). Assim, a condição do sujeito na posição de imobilização (condizente à patologia, como visto anteriormente) poderia ser desfeita para outra condição.
que prioriza a intervenção na família no tempo de constituição do sujeito (este, que se faz no exercer das funções parentais). Esta visão possibilita ao clínico a postura de um olhar sobre e o desenvolver de uma compreensão acerca dos elementos intersubjetivos integrantes na clínica.
Para além da ampliação da clínica do intra para o inter-psíquico pela inclusão do olhar e intervenção na família, o atendimento psicoterapêutico conjunto, nos moldes em que é proposto, traz a relevância da função de observação. Neste modelo, adotou-se a bi-partição da função terapêutica nas funções de intervenção e observação, havendo um terapeuta destinado a cada uma destas funções (Paravidini, 2006). O mais importante a se enfatizar aqui é que a função do observador em ação no setting analítico amplia a condição de escuta de tudo aquilo que circula dentro da sessão. A saber, comunicações verbais e não-verbais, sensações experimentadas, atuações ou representações lúdicas, mudanças no lugar transferencialmente ocupado pelos membros da família e pelos próprios terapeutas. Desta forma, a rede de significação se potencializa e elementos que possivelmente não seriam postos em circulação são tomados em consideração.
Além desta dinâmica presente no setting analítico, a escuta é colocada sob circulação da palavra em um segundo momento, que é a discussão do caso em supervisão. Neste tempo, os elementos não passíveis de pensamento e elaboração podem então ganhar status de representação, de sentido.
Tal campo propício ao estabelecimento de uma ampla rede significante em operação na clínica permite aos terapeutas conceberem e trabalharem com a complexidade condizente à subjetividade. Torna-se possível a visão da clínica para além da sintomatologia apresentada pela criança e para além dos limites do setting analítico. É desta forma que o diagnóstico não consiste apenas como nosologia e que as influências da contemporaneidade na dinâmica familiar e na própria constituição do sujeito são incluídas na escuta dos casos.
Há ainda outra característica relevante no modelo de atendimento em discussão. Neste, destacando-se as funções de observação e intervenção referentes ao terapeuta, articulam-se diagnóstica e intervenção em um processo dialético constante. Citando Mélega, Paravidini (2006) considera dois fatores presentes no modelo de atendimento: as atitudes mentais para abordar o objeto, remetidas à observação (na posição de quem não sabe e precisa observar e pensar para conhecer) e o modo de intervir, que seria a tentativa por aclarar as condutas observadas no vínculo mãe-criança, a intervenção propriamente dita.
No movimento de compreensão dos casos, incluindo aqui os Estados Paradoxais, especialmente no momento da supervisão, é notável como a diagnóstica deixa de ser estanque e passa a se articular aos elementos da dinâmica familiar observados. Ela se torna mais um dos elementos circulantes na produção de sentido, que é tomado não como fechamento, mas como possível leitura e ancoradouro à terapêutica.1
Por vezes, o processo adquire tamanha proporção que há a necessidade de parar para observar o próprio movimento de construção efetivado. Talvez uma das funções desta pesquisa estivesse neste sentido de resgate da história daquilo que se construiu para poder fazer avançar naquilo que ainda não se consegue responder, ou melhor, nos pontos de entrave deste processo – recortando-se os Estados Paradoxais como um dos sentidos produzidos nesta clínica. Logicamente, não se tece a ilusão de que a resposta virá como um fechamento de questão, pois o que está posto nesta clínica (referindo-se tanto ao modelo de atendimento quanto à concepção dos estados paradoxais) é o movimento. Mas aclarar o movimento também faz parte do processo.
Ora, concebe-se a partir destas colocações, que a noção dos Estados Paradoxais está intrinsecamente ligada ao modus operandi de uma clínica. Observa-se que esta montagem
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Tal colocação não situa nem a diagnóstica, nem as teorias que a fundamentam como superficiais ou menos importantes. O diagnóstico diferencial é, por exemplo, modelo base e influente no tratamento dos casos. Entretanto, o que se marca aqui é o caráter de circulação dos elementos – sejam estes teorias ou observações clínicas – para a produção de sentidos, deixando de serem tomados sob uma condição enclausurante ao sujeito.
psíquica já foi notada em situações externas ao atendimento psicoterapêutico conjunto, entretanto não foi tomada como uma clínica possível. Exemplo disso ocorre quando os casos entendidos por Paradoxais chegam à clínica da UFU classificados por médicos neurologistas ou psiquiatras como um nível não severo de autismo, ou até mesmo um transtorno global não especificado.
Segue-se agora o relato da singularidade observada no arranjo dos Estados Paradoxais considerando as vivências transferenciais no setting analítico e a articulação intersubjetiva nas produções da criança, de sua família e de seu tempo, a contemporaneidade.