• Sonuç bulunamadı

CAPITAL MARKETS BOARD

Institutional structure of the Turkish capital markets is depicted in the diagram below;

I. CAPITAL MARKETS BOARD

Desse modo, há uma relação importante entre a sociedade civil caracterizada pela aparência e o espetáculo, pois os costumes corrompidos da sociedade são mostrados como um teatro em que todos devem contemplar para bem julgar o tempo presente. Rousseau utiliza-se da expressão para melhor criticar os jogos de aparência da sociedade do Antigo Regime. A apparence também é encenada nos spectacles.

Teriam essas extravagâncias alguma causa na queda do Antigo Regime? O povo, enfim, teria descoberto todo o teatro político sustentado pela corte? Ou esses espetáculos perderam a sua eficácia e não mais foram capazes de ludibriar o Terceiro Estado? Ou ainda, em dado momento, os protagonistas eram incapazes de exercer bem o seu papel social? Tocqueville (1979) credita às extravagâncias da corte um dos motivos que levou ao crepúsculo do Antigo Regime. Demasiadamente entretida com os seus jogos, festas

nos salões corroborados pelos privilégios de direito, a aristocracia foi incapaz de observar a Revolução que estava em ebulição. Para Tocqueville (1979, p. 354):

Dedicava-se de boa vontade a estes jogos para passar o tempo e desfrutava tranquilamente de suas imunidades e de seus privilégios dissertando com serenidade sobre o absurdo de todos os costumes estabelecidos. É surpreendente constatar a estranha cegueira com a qual as classes altas do antigo regime contribuíram para a sua própria ruína. Mas poderia ter havido alguma advertência36?

Ribeiro (2002) nos apresenta uma possível resposta para a pergunta de Tocqueville (1979). Para Ribeiro (2002), faltou sedução, habilidade, “fascínio” a Luís XVI, artimanhas políticas capazes de encantar por meio da espetacularização as partes descontentes. A etiqueta, por intermédio das regras de “civilidade”, não foi observada como deveria pelo sucessor de Luís XIV e Luís XV.

Por exemplo, contrariando os inúmeros conflitos de Luís XIII com a alta nobreza francesa a mando de Richelieu, Luís XIV sentiu a necessidade de organizar bailes com atos cênicos a fim de que a sua corte pudesse seduzir os nobres. Como o pai, Luís XV também soube manter a atenção dos burgueses de Paris sem que fosse preciso agir com truculência quando a etiqueta cumpria seu objetivo. Conforme Ribeiro (2002, p. 109-110. Grifo do autor):

Luís XIV gosta de dançar; uma das cenas sublimes em sua corte é quando el- rei dança, sozinho, para a nobreza vê-lo. Seu sucessor, Luís XV, é famoso pela destreza com que cortava os ovos quentes, de uma só colherada, na refeição matinal; vinha a burguesia de Paris vê-lo aos domingos. Já Luís XVI, no dizer da camareira de sua rainha, Mme. Campan, perdeu o trono e a vida por não saberem, ele e Maria Antonieta, dar a devida importância à etiqueta: a esse conjunto de regras cujo sentido político está em intimidar, pelo fascínio, os possíveis rebeldes.

O poder que a espetacularização da vida política tem sobre os agentes envolvidos é verdadeiramente emblemático. A corte do Antigo Regime nos leva a crer que representar, viver de aparências faz parte da própria condição humana. Parece que para Luís XIV deu certo, já que ele conseguiu com sucesso se manter no poder. Sem dúvida,

36 TOCQUEVILLE, Alexis. O antigo regime e a revolução. São Paulo: Abril Cultural, 1979 (Os

o rei era o fiel da balança, pois fazia a ponte entre uma nobreza e a realeza quando aquela se sentia, por algum motivo, insatisfeita com a coroa.

Nada mais nada menos que Voltaire exaltava os tempos de Luís XIV como um dos últimos tempos mais iluminados e felizes da história da França, na sua obra O século

de Luís XIV (1751). É verdade que Voltaire não atribuiu absolutamente ao personagem

de Luís XIV todos os méritos pelo sucesso do século XVII francês, mas também não é menos verdade que esse pensador tinha real admiração pelo “Rei Sol”. Um dos motivos eram as encantadoras futilidades presentes na corte e na pessoa do próprio regente. Conforme Voltaire (1958, p. 79):

Luís XIV deu à sua corte, como ao seu reinado, tanto esplendor e magnificência, que os mínimos detalhes de sua vida parecem interessar à posteridade, da mesma maneira por que eram objeto da curiosidade de todas as cortes da Europa e de todos os contemporâneos. O esplendor de seu governo manifestava-se nas mínimas ações. Há maior avidez, sobretudo na França, de conhecer as particularidades dessa corte, do que as revoluções de alguns outros estados37.

É realmente de se estranhar o fato de que o povo não reagia aos encantos da corte, quando antes queria imitá-los. As multidões não ficavam revoltadas com o luxo e a ostentação do monarca juntamente com os aristocratas. Isso se deve à ignorância do povo e/ou à sutileza do monarca? Voltaire não deixa escapar esse detalhe: Luís XIV parecia conhecer os anseios populares quando estes eram visíveis apesar de que o modelo político era caracterizado pelo poder absoluto dos reis (absolutismo). Portanto, o poder político em nada dependia dos anseios populares, conforme a clássica definição de Luís XIV em relação a si próprio: L’État c’est moi – “O Estado sou eu”.

Essa autodefinição parece consagrar toda uma suntuosidade de um monarca que clamava para si mesmo a glória, a honra e o destino da França, colocada em suas mãos. Ele era a França radiante. Embora objetivamente seus súditos soubessem que um homem só não abarcasse todo um reinado, parece que havia por trás dessa ideia um jogo de sedução capaz de ludibriar e empalidecer as tensões existentes entre a corte e a burguesia sem, contudo, se esquecer do povo. O rei sabia dosar os prazeres com os seus trabalhos, as aparências com o labor, conforme Voltaire (1958, p. 86):

Sem esses trabalhos, ele não teria sabido reinar, e se os prazeres magníficos da corte constituíssem um insulto à miséria do povo, seriam certamente odiosos; mas o mesmo homem que dava tais festas, dera pão ao povo na carestia de 1662; mandara vir o trigo que os ricos compravam a preço vil e distribuiu-o às famílias pobres à porta do Louvre; restituíra ao povo três milhões em impostos.

Não sabemos até que ponto Voltaire romantizou essa situação, mas, mesmo assim, é interessante perceber como Luís XIV colocava a máscara do Estado para unir em torno de si os elementos conflitantes, com o intuito de se manter no poder. Em volta de Luís XIV se resignavam as divisões e insatisfações, pois, como vimos, no plano social, havia a divisão da sociedade por estamentos, em que se distinguiam as ordens privilegiadas pelo nascimento e camadas desfavorecidas. Conforme mencionado, a burguesia, mesmo em ascensão, não era considerada parte da nobreza a não ser que pagasse um alto preço pelo título de nobreza.

Na vida social e intelectual, era perceptível a intolerância religiosa e filosófica que no século XVIII tornou-se ainda mais voraz. O Estado e a Igreja intervinham na vida das pessoas, não permitindo a liberdade de religião ou convicção filosófica e política. A nobreza e o clero, sustentáculos do Antigo Regime, permaneciam com enormes regalias, enquanto que a burguesia ascendente e os camponeses estavam à margem das decisões políticas, embora, como outrora destacado, a burguesia gradativamente se tornasse detentora do poder econômico, proveniente do acúmulo de capitais proporcionado pelo mercantilismo.

Qual a relevância em se mencionar a moral cristã que dá forte ênfase à culpa e à consciência do indivíduo para esse contexto em discussão? É de se estranhar o fato de que os costumes aparentes da aristocracia arrastassem boa parte dos cristãos, terminando por envolver também eclesiásticos e clérigos que, ao incorporar a falsidade, tornaram-se menos piedosos cristãos do que nobres cortesãos. Segundo Revel (2009, p. 188):

Alguns são modestos, como a classe em que se ensina a regra do jogo, a igreja, a rua. Um é prestigioso e logo serve de referência a todas as condutas: a corte, cujo modelo se impõe a todos na segunda metade do século XVII. No entanto, uma nova exigência religiosa redobra esses modelos mundanos. A civilidade era pueril e honesta; torna-se então cristã. Não que até esse momento negligenciasse os deveres da religião e a eminência de seus exercícios: mas doravante eles também devem ser submetidos às normas da aparência.

Isso significa que a religião cristã foi submetida à política do Antigo Regime, porquanto o alto clero, em grande parte, era escolhido por causa dos títulos de nobreza que determinadas famílias possuíam, bem como à moral das aparências, pois o que estava em evidência eram as máscaras e os subterfúgios os quais se podia sorrateiramente utilizar como regras do saber viver.

O anticlericalismo do século XVIII não perdoou as incoerências e intolerâncias do clero católico. A figura do padre foi sumariamente ridicularizada devido a toda sorte de privilégios e mentiras que caracterizou boa parte desse segmento. Absorver os costumes da aristocracia, bem como suas regalias, contradiz os princípios morais do cristianismo, que prega o desapego às coisas terrenas por meio do sacrifício da cruz que todo cristão deveria assumir. Ademais, o mandamento do amor ao próximo deveria ser observado para além de qualquer intolerância religiosa e liberdade de pensamento, atitude muito distante dos estados confessionais católicos e protestantes da época. Para Schlegel (2009, p. 64): “As grandes instâncias da sociedade – a justiça e o direito, a saúde, o ensino – são mais ou menos exercidas pelas Igrejas ou controladas por elas”38.

A aliança entre o trono e o altar iniciada ainda na Idade Média mantinha seu curso nas monarquias absolutistas. Isso implica que, por muito tempo, o clero estava envolvido demais com o poder para se voltar aos ensinamentos da Igreja primitiva; quando não, a própria corte era composta por setores do clero. Conforme Elias (2001, p. 107):

Os círculos clericais, acima de todos, tornam-se os divulgadores dos costumes da corte. O controle das emoções e a formação disciplinada do comportamento como um todo, que sob o nome de cidade se desenvolveram na classe alta como fenômeno apenas secular e social, como consequência de certas formas de vida social, apresentam afinidades com tendências particulares no comportamento eclesiástico tradicional. A civilidade ganha um novo alicerce religioso e cristão. A Igreja revela-se como tantas vezes ocorreu, um dos mais importantes órgãos da difusão de estilos de comportamento pelos estratos mais baixos.

Devemos aqui ponderar que não se trata de afirmar que todo o cristianismo a partir de então foi constituído por pessoas falsas e mentirosas. Não é isso. Civilidade não é necessariamente sinônimo de aparências. Mas, o parecer encontrou no ideal de civilidade terreno fértil para crescer e se desenvolver em meio a esse contexto. Assim, fazer silêncio

38 SCHLEGEL, Jean-Louis. A lei de Deus contra a liberdade dos homens. São Paulo: Martins Fontes,

na ora da missa ou culto, a forma de se ajoelhar ou manusear a Bíblia podem, sim, ser consideradas formas de civilidade.

No entanto, ser ator ou comediante no momneto da missa ou culto, falar para as pessoas ensinamentos em que não se acredita, imiscuir-se com o poder político a troco de privilégios de ordem sob a máscara da santidade, perseguir, matar e confiscar em nome da justiça evangélica são atitudes que mostram que as aparências também se adaptaram ao cristianismo, embora ambas são morais completamente estranhas uma à outra. O complexo caso do padre Jean Meslier sintetiza bem o conflito no qual vivia o cristianismo, segundo Souza (1993, p. 28), (em nota): “Meslier, para espanto de seus paroquianos, deixou um testamento no qual dizia que sempre fora ateu e pedia perdão por tê-los enganado durante todo o tempo em que lhes pregara a religião cristã”39.

Visceralmente unida ao status quo do Antigo Regime, a queda do catolicismo na França foi inevitável, vindo a ressurgir após a Revolução, não com a pompa do absolutismo. O esquecimento de sua origem na comunidade judaica a partir de Jesus Cristo fez com que a Igreja pagasse um alto preço durante a Revolução Francesa. Nos primeiros fôlegos da Revolução, o objetivo era o de que não sobrasse pedra sobre pedra das antigas estruturas. Antes violenta com seus adversários, a Igreja também pagou o preço com a mesma moeda durante a Revolução. De acordo com Schlegel (2009, p. 65):

Na realidade, para explicar a violência revolucionária, podemos apontar sobretudo para a própria religião, isto é, para a Igreja católica, religião do Estado sob o Antigo Regime. Por um lado, seus vínculos com o poder – um poder absoluto, despótico – foram muito fortes, e seu destino parece portanto ligado ao da monarquia: um poder deslegitimado arrastará o poder religioso em sua queda. Por outro lado, nos conflitos internos que abalaram essa Igreja, principalmente o conflito entre jesuítas e jansenistas, podemos dizer que os “rigoristas” venceram a partida na opinião pública, por um paradoxo que não é tão raro assim.

A mesma religião cristã estava em crise por toda a Europa devido à própria incapacidade de fornecer uma unidade política, bem como em ser coerente com uma moral há muito desacreditada, devido à corrupção de seus membros, fanatismo, intolerância, desterros, confiscações de bens e propriedades acompanhados de excessos e abusos de toda ordem. A consequência da crise religiosa foi o surgimento de sistemas

políticos e orientações morais secularizados nos quais a razão tinha uma importância central, pois foi a ela que muitos pensadores passaram a acreditar e a fundamentar suas crenças.

É por isso que, para se aprofundar no pensamento religioso de Rousseau, Wright (1963)40 propõe um olhar atento aos problemas que a fé cristã vivenciava naquele

contexto. Cenário no qual predominava um caos na espiritualidade cristã devido a um sem número de credos, bem como a infidelidade e corrupção de seus membros. Para Wright (1963, p. 150):

No tempo em que Rousseau escreveu havia possivelmente menos cristianismo entre os pensadores em Paris que havia outrora ou que já poderia ter havido, em qualquer parte do mundo Ocidental. Quarenta anos antes a mãe do regente tinha escrito que: “Não há uma centena de pessoas em Paris, padres inclusive, que possuam uma autêntica fé”41.

O crepúsculo da Igreja na França abriu uma crise no catolicismo nesse país sem precedentes. Ela e o cristianismo foram alvo dos intelectuais do Iluminismo que findou com o surgimento de uma nova ordem cosmológica na qual se exigia uma nova compreensão de natureza humana, de sociedade, Estado e religião, muito embora houvesse já uma defesa contundente do materialismo e do ateísmo defendida por filósofos como Diderot. Nesse caso, não estava em questão uma reestruturação do cristianismo a partir das origens do cristianismo por parte da grande maioria dos intelectuais e filósofos. Havia uma necessidade de superação dessa religião revelada. Portanto, haveria de se pensar em alternativas racionais para o cristianismo, o que levou grande parte dos intelectuais para o deísmo e o ateísmo e, portanto, a uma negação veemente do judaísmo e do cristianismo. Rousseau não pensava dessa forma.

A temática do ser e do parecer no Antigo Regime nos fizeram entender de que maneira a aparência e a verdade foram compreendidas nessa época histórica. Os segmentos que compunham essa sociedade, independentemente da sua posição na pirâmide social, foram absorvidos pelos costumes cortesãos cognominados de “ethos

40 WRIGHT, Ernest Hunter. The Meaning of Rousseau. New York: Russell & Russell, 1963.

41 At the time when Rousseau wrote there was possibly less Christianity among thinking men in Paris than

there had ever been, or may ever yet have been, in any quarter of the Western world since the establishment of the religion. Forty years earlier the mother of the Regent had written that ‘There are not a hundred persons in Paris, priests included, who possess a real faith (WRIGHT, 1963, p.150).

aristocrático”. As regras do “saber viver” se impunham a todos, demonstrando que o todo submetia as suas partes na medida em que as ações eram determinadas pela aprovação do público. Pouco valia a intenção ou a convicção do indivíduo. O que deu margem para que a mentira e a falsidade se transformassem em regras de conduta no grande teatro no qual se transformou a sociedade, a ponto de a sobrevivência de um regime depender da maneira como o regente se utilizasse ou não de etiquetas.

O que é de se estranhar é que boa parte dos cristãos se deixasse levar por essas regras de conduta pautadas nos privilégios e falsidades quando arraigados ao poder político. Atitudes que chocaram os intelectuais, de modo que surgiu uma ideia de sociedade e de Estado com a presença de uma religião secularizada, quando não se pensava em um Estado sem a presença da religião. As incoerências aliadas à intolerância dentro do cristianismo provocaram uma profunda crise na cristandade. A ponto de se acreditar que a religião deveria ser reformada, ou mesmo extinta da sociedade. Temática que desenvolveremos no capítulo seguinte.

Benzer Belgeler