Psicologia histórico-cultural ou sócio-histórica, fundada por Liev S. Vygotsky (1934/1891), na década de 1920, tem como fundamentos as ideias de Marx (1983) sobre o pensamento dialético, apresentando nova concepção de desenvolvimento humano e cognição humana. A respeito da influência de Marx na obra de Vygotsky, Pino (2000) reflete que Vygotsky se preocupa em analisar o processo e não o produto final, enfatizando a dimensão histórica e social do desenvolvimento psíquico: “a própria história é uma parte real da história da natureza, da transformação da natureza em homem” (MARX, 1972:96). E, portanto, “é o homem - natureza e história dessa natureza – quem confere a esta, sua dimensão histórica” (PINO, 2000:35).
A expressão “desenvolvimento cultural” foi acunhada por Vygotsky e ainda é utilizada pela Escola Russa de Psicologia para referir-se ao desenvolvimento cognitivo do ser humano. A teoria central formulada por ele é que a estrutura e o desenvolvimento dos processos psicológicos surgem pela atividade prática mediada simbólica e culturalmente pelas linguagens, de acordo com o desenvolvimento histórico das condições materiais de produção de determinado grupo social. Essa perspectiva de análise e compreensão psicológica do desenvolvimento cognitivo humano é chamada “abordagem ou enfoque histórico-cultural do desenvolvimento”. Segundo essa abordagem, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores ou formas superiores de atividade mental (memória mediada, ações voluntárias, pensamento abstrato e imaginação criativa) só poderiam surgir do trabalho coletivo dos seres humanos a partir da articulação entre o uso de ferramentas fabricadas e pelo uso de instrumentos psicológicos ─ os signos. Tais ferramentas são construções culturais das quais a linguagem falada e escrita seriam as mais importantes (JAPIASSU, 1998:02).
Dessa maneira, as funções psicológicas inferiores (os reflexos de ação e os instintos, por exemplo) seriam superadas pelas formas superiores e, assim, as emoções e a cognição humana seriam reelaboradas pela assimilação da cultura na qual o sujeito se insere e atua ativamente. As estruturas da percepção, a atenção voluntária e a memória, as emoções, o pensamento, a linguagem, a resolução de problemas e o comportamento assumem diferentes formas, de acordo com o contexto histórico da cultura, suas relações e suas instituições.
A partir da perspectiva histórico-cultural do desenvolvimento humano, proposta por Vygotsky, é possível conceber o processo de conhecimento como produção simbólica e material, construída interativamente em uma relação sujeito- sujeito (mediadores) ─ objeto. Por sua vez, tendo a atividade humana um caráter essencialmente social e simbólico, tal perspectiva compreende a constituição do sujeito com seus conhecimentos e formas de ação, em sua relação com outros, no espaço da intersubjetividade (SMOLKA; GOÉS, 2003:07).
Uma das principais asserções da teoria de Vygotsky é a compreensão da atividade mental como processo sociogenético, exclusivamente humano, resultado da aprendizagem social, da interiorização de signos sociais e da interiorização da cultura e das relações sociais. Para Blanck (1996), esse processo ocorre durante o curso do desenvolvimento ontogenético, tal como ocorre nas atividades das crianças com os adultos, os transportadores da experiência social. As atividades sociais, de maneira geral, facilitam a interiorização de esquemas sensório-motores, importantes no domínio dos significados sociais, sendo que o processo de interiorização das funções mentais superiores é histórico por natureza.
O psicólogo e pesquisador norte-americano, Tomasello, retoma e atualiza as teorias de Vygotsky e Leontiev sobre a influência da cultura na evolução da cognição humana e apresenta como hipótese que “a transmissão cultural ou social na espécie funciona em escalas de tempo e magnitudes bem mais rápidas que as da evolução orgânica” (TOMASELLO, 2003:04). Ele afirma que não houve tempo suficiente na evolução da espécie para que os humanos modernos “inventassem e conservassem complexas aptidões e tecnologias no uso de ferramentas, complexas formas de comunicação e representação simbólica, e complexas organizações e instituições sociais” (TOMASELLO, 2003:04). E Tomasello propõe que há uma espécie de “evolução cultural cumulativa” que explicaria as formas mais complexas de artefatos
e práticas sociais humanas, incluindo a fabricação de ferramentas, a comunicação simbólica e as instituições sociais (TOMASELLO, 2003:05).
O autor propõe uma interdependência de processos filogenéticos, ontogenéticos e históricos para a formação da cognição humana. Segundo ele, certas habilidades cognitivas e sociocognitivas humanas se desenvolvem durante o primeiro ano de vida da criança e favorecem a sua interação com indivíduos simbolicamente competentes. Como consequência dessa interação e da aquisição de um repertório simbólico (linguagem simbólica), ocorrem alterações significativas nessas habilidades, possibilitando novas formas de interação cultural, que, por sua vez, retroagem sobre essas habilidades, modificando-as e assim por diante. Dessa maneira, os processos sociais e culturais transformam habilidades cognitivas básicas em habilidades cognitivas muito sofisticadas e complexas, que são as denominadas, por Vygotsky (1928/1996), como “funções psicológicas superiores”, que são base da estrutura social da personalidade humana.
Para Vygotsky (1928/1996), o aspecto característico da psicologia humana e a base do salto qualitativo dessa para a psicologia animal são constituídos pela “internalização” “das atividades socialmente enraizadas e historicamente desenvolvidas” (VYGOTSKY, 1928/1996:63).
O processo de internalização, para ele, consiste em uma série de transformações e dá-se inicialmente por uma operação representada por uma atividade externa que vai sendo reconstruída internamente. Outro aspecto importante explicitado pelo autor é o movimento do processo que se dá a partir das relações interpessoais que serão transformadas em um processo intrapessoal: as funções no desenvolvimento da criança aparecem, primeiro, no nível social (interpsicológicas) e, depois, no nível individual (intrapsicológicas). Esse é um processo complexo, resultado de uma série de eventos ocorridos ao longo o desenvolvimento.
É importante também assinalar que a relação do outro (implicado em toda a relação social) também é entendida nessa teoria como objeto de internalização. O papel do outro na constituição cultural do homem é sempre lembrado por Vygotsky e tem um sentido muito profundo, fazendo dele a condição do desenvolvimento cultural. “O outro é o portador da significação (mediadora universal), lugar simbólico da humanidade histórica” (PINO, 2000:66). Por sua vez, esse mecanismo de
significação é veiculado e produzido pela "palavra do outro" (o que é internalizado é a significação das coisas, não as coisas em si mesmas).
Se toda relação social é uma relação de um eu e um outro, “sua internalização implica na conversão de dois numa unidade em que o outro permanece sempre presente como um “não eu”, um estranho essencial" (WALLON, 1975:159). E um indivíduo social, para Vygotsky, seria um “ser em si (de natureza biológica), para os outros (que tem significação para os outros) e que adquire significação para si mesmo”2.
3.2 CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM, LEITURA E ESCRITA PARA A