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Para atuar em ações que envolvem disputa pela guarda dos filhos, o Poder Judiciário, representado pelos profissionais que aqui nos referimos como os operadores do direito, é conduzido a manejar suas operações profissionais em consonância com as características e diretrizes éticas de cada profissão.

Em algumas situações, as áreas interdisciplinares se integram-se e se identificam tecnicamente nos aspectos comuns. Contudo, é possível distinguir posicionamentos discordantes entre as diversas áreas de atuação profissional como a magistratura, promotoria, advocacia, Psicologia e assistência social. Por um lado, as divergências ou as diferenças são naturais da especificidade de cada profissão. Todavia, é delicada a interlocução entre as ciências humanas, jurídicas e sociais, uma vez que chegam a ter algum tipo de conflito, por divergirem sobre determinado fato e se manifestarem de formas adversas. É a realidade objetiva e legalista do Direito e a subjetividade dos sujeitos abordada no campo das ciências humanas e sociais.

O Judiciário tem por missão realizar diferentes julgamentos sobre diferentes processos; cabe, portanto, a cada juiz, interpretar e analisar numa dentro de uma conduta ético-cultural condizente com aquela ação. Entretanto, a interpretação é individual, referenciada nas leis, o

que corrobora com diferentes sentenças ou resultados. Por exemplo: uma causa pode ter julgamento diverso se for analisada por magistrados diferentes. Há situações em que os juízes titulares das Varas não podem dar prosseguimento nas ações que acompanharam desde a petição inicial, consequentemente, quando outro juiz assume e dá prosseguimento aos trabalhos, em nova aérea de atuação, com experiências construídas em outros setores, provenientes das áreas criminais, por exemplo, podem ocorrer interpretações diversas do litígio familiar e da disputa pela guarda dos filhos. Assim, compreender um novo lugar do homem/pai no exercício da guarda, se considerados o viés e a cultura conservadora, tem sido tarefa difícil. Conforme os dados obtidos, os juízes revelaram postura peculiar na condução das avaliações dos pais em disputa de guarda. Analisam o depoimento de cada uma das partes em juízo; a forma como cada pai ou mãe conduz suas funções parentais; o grau de maturidade; o envolvimento ou não com o uso de substâncias químicas e abuso de álcool; e, sobretudo, os laudos psicossociais.

A promotoria amplia os aspectos relativos às necessidades básicas, atribuindo especial atenção ao cuidado, afeto, zelo, e à conduta moral.

Este dado é aquilatado no depoimento dos pais e no levantamento do estudo psicossocial. A maturidade dos pais é um dado importante para o exercício do encargo de guarda. “Problemas com o uso ou não de drogas e o histórico de vida familiar são fundamentais na análise dos processos de guarda.” (E11)

Quando, independentemente das possibilidades materiais, esse(a) filho(a) recebe o cuidado, o afeto, a prioridade de atenção, o zelo, o encaminhamento escolar oficial e moral/familiar e até espiritual para melhor se desenvolver, dentro do contexto social em que está inserido e das limitações que esse contexto encerra.

(E10)

Compreendemos que o trabalho de um advogado consiste em atender aos interesses do cliente. Torna-se o representante legal de cada um dos pais, ou dos dois, se for o caso. Ter habilidade, sensibilidade para trabalhar com as dificuldades das famílias em litígios carece de preparo e do entendimento das relações socioafetivas para conduzir um trabalho de qualidade.

Um dos advogados entrevistados afirmou que, para aceitar um caso, levou em consideração a avaliação prévia, evidência e necessidade da criança receber cuidados de ambos os pais.

Um dos aspectos que mais observo é em que nível o bem-estar da criança é prioridade para mãe/pai e quais os argumentos que são usados para desqualificar o outro. (E7)

Observamos que, como esse profissional tem dupla formação (direito e Serviço Social), são mais evidentes alguns cuidados sociais. A formação ampliada possibilita um olhar também mais ampliado, que destaca a importância da participação de ambos os pais nos cuidados da criança.

Há mães (e pais) que acham que só tem um jeito de cuidar da criança e ela ficar bem: o seu, e desqualificam o outro por ele ser diferente. Mas, se há a “falta” do afeto do outro pai, pelo seu filho, se há relatos de preocupações referentes à saúde, educação, lazer e habitação, busco fazer com que o meu cliente entenda a necessidade da criança de receber cuidados de ambos e de ser mantida longe de disputas que não se referem a ela, propriamente dita e sim ao desgaste da relação dos adultos. (E7)

Um dos advogados considera as condições pessoais e o nível intelectual dos pais como critérios para assumir a guarda dos filhos.

(...) principalmente pela conduta demonstrada, pelo nível de instrução da pessoa, pelo apego com o ascendente dentre outros fatores do caso concreto. (E8)

A Psicologia demonstra que seu trabalho é alicerçado numa escuta especial aos envolvidos, e que não é de sua competência qualificar os genitores, mas verificar a disponibilidade que cada um oferece na preservação da convivência familiar mantendo um ambiente estável e seguro.

A qualificação para esse munus pauta-se em uma detida avaliação psicológica

(estudo psicológico), dentro dos requisitos propostos pela ciência psicológica, ou seja, mediante uso do instrumental técnico e ético previsto nas resoluções e códigos da categoria. (E5)

No trabalho da Psicologia, não compete ao profissional s qualificação dos genitores, mas, a partir da escuta de todos os envolvidos, observar o grau de envolvimento, desejo e disposição dos genitores para preservar os filhos, oferecendo-lhes um ambiente estável e seguro que favoreça seu desenvolvimento. (E4)

Os assistentes sociais participantes expressam o desenvolvimento de seu trabalho com habilidades peculiares, da escuta, do acolhimento, favorecendo um diálogo conjunto com os pais, buscando identificar, com alguma segurança, qual deles apresenta melhores condições de cuidar do filho, atendendo às demandas básicas, como saúde, educação, lazer, afeto, carinho, etc. Isso pode reverter para um parecer equivocado ou não. Inicialmente, porque já existe uma direção prévia na condução do trabalho; e também, como já está instituído que a mãe é que tem condição de cuidar dos filhos, há uma definição apriorística do caso que mantém o pai em segundo plano.

Geralmente a guarda materna, possivelmente pela influência cultural, que mantém o mito de que a mulher/mãe revela-se mais apta a exercer os cuidados com a prole. (E2)

Os pais devem promover condições para continuar atendendo às demandas básicas dos filhos, (...) além de promover o convívio da criança ou adolescente com ambas as referências, maternas e paternas. (E2).

Quando o amor, as preocupações com o bem-estar dos filhos tomam a tônica das reflexões é possível identificar com maior segurança qual dos pais apresenta melhores condições de cuidar do filho. (E3)

Na atualidade, a modalidade de guarda mais deferida é a guarda unilateral, pois em sua grande maioria há entre os genitores um litígio exacerbado, impossibilitando o diálogo e favorecendo o litígio. Neste sentido, os juízes, no intuito de garantir os interesses da criança, evitando colocá-la em risco, deferem a guarda unilateral, regulamentando visitas e fixando os alimentos. (E1)

Creio que os tribunais ainda são muito conservadores e machistas. (E3)

Nessa perspectiva, vale lembrar que o campo jurídico é responsável pela aplicação da lei, por estabelecer limites, para estorvar que as mães e os pais tenham determinadas as funções parentais, de acordo com os seus interesses. Essa função deveria fixar a aplicação de um equilíbrio, no excesso de poder parental que um dos pais possa vir a exercer quando detentor da guarda unilateral.

De forma consoante, os profissionais com formação em Direitose incumbem, por meio da lei, de decidir a ação. O campo de atuação é estruturado de forma legalista, centrado num determinado poder da área que domimam. E sse poder, de certo modo, está associado ao poder soberano, ao império do biopoder, amparado por uma instrumentalidade que se organiza para controlar a vida dos indivíduos. Pensamento difundido por Michel Foucault (2008), em várias de suas obras, que remetem a todos os tipos de poder.

Em diversos momentos, há sobreposição, complementação de táticas que diferem, nas ações do Direito, do Serviço Social e da Psicologia, por não ocorrerem de forma amistosa. O direito atua de forma legalista, o Serviço Social e a Psicologia fundamentam-se nas legislações, mas, sobretudo, estruturam o seu trabalho dentro do campo das relações afetivas, visando, principalmente, ao bem-estar das famílias e dos filhos.