• Sonuç bulunamadı

“They will go as they came”

[...]o trabalhar é sempre uma dimensão coletiva, mesmo que se desenvolva por um único trabalhador. (SILVA, BARROS E LOUZADA, 2011, p.194)

Muitos são os estudos que, tomando por base o quadro teórico-metodológico do ISD, abordam o trabalho do professor (BRONCKART 1999, 2007, 2008; MACHADO 2004, 2007;

23 Para se aprofundar em questões relativas à profissionalização do docente de Língua Inglesa, ver tese de doutoramento de Quevedo-Camargo (2011).

51 CRISTÓVÃO, 2008; ABREU-TARDELLI e CRISTÓVÃO, 2009), entretanto, a relevância da nossa pesquisa reside no fato de não haver muitos trabalhos que se debrucem sobre o gênero profissional professor particular de idiomas (PPI), como afirmamos na introdução deste trabalho (cf., p.7).

Parece-nos simplório definir o PPI meramente como um profissional que ensina a língua inglesa, sem vínculo empregatício, sem direitos trabalhistas, como férias remuneradas ou 13º salário, que tem oscilação constante em seu orçamento e que, de forma autônoma, desempenha sua docência ao largo das instituições de ensino. Assim como também é simplista caracterizar o professor de escola de idiomas como um profissional que tem uma renda fixa e direitos trabalhistas assegurados e que lida com instâncias, como uma coordenação pedagógica, por exemplo, que pode promover constantes processos de supervisão e avaliação do seu trabalho. Alinhando-nos aos objetivos que nos propusemos a investigar e com o intuito de ressaltar alguns traços característicos que moldam esse gênero profissional, pensamos em algumas situações que cercam a docência do professor de inglês, como por exemplo, as pessoas com quem dialoga, as principais facilidades e impedimentos do seu trabalho, de que forma as prescrições e os impedimentos estão presentes e se o professor que atua em escolas se sente irremediavelmente subjugado às normas da escola ou se consegue enxergar espaço para transgredi-las quando julgar necessário. Entendemos que nossas colaboradoras acabarão por se referir a essas situações ao longo das suas entrevistas. Importante ressaltar que concordamos com o conceito da Clínica da Atividade expresso na epígrafe que escolhemos para abrir esta subseção porque não percebemos o professor particular como um profissional solitário, apartado da coletividade24.

A respeito do caráter supostamente solitário de algumas atividades, Clot (1999) nos apresenta o exemplo da condução de trens nos subúrbios parisienses. Ao enfocar o trabalho do condutor do trem, o autor nos diz que, por mais paradoxal que pareça, o condutor não está sozinho na cabina, e a presença invisível daqueles com quem trabalha não cessa de se manifestar. Para Clot, a atividade real do condutor “é demarcada pelas ressonâncias longínquas ou muito próximas da atividade do outro” (p.111). Mais adiante, Clot volta a fazer referência a este exemplo para dizer que sua proposta de metodologia e análise se difere dos métodos clássicos, uma vez que estes trabalham com um grande número de sujeitos numa só

52 situação, enquanto a sua proposta é trabalhar com um só sujeito em várias situações encadeadas. Esta perspectiva muito interessa à nossa pesquisa que busca investigar o trabalho do professor em dois contextos de ensino diferentes.

Aprofundando um pouco mais a questão do coletivo no indivíduo, Clot (2010) admite que “a questão das relações entre o individual e o coletivo na atividade é uma das mais difíceis a resolver” (p.165). Apresenta-nos, porém, alguns encaminhamentos com o intuito de melhorar nossa compreensão. O autor nos diz, por exemplo, que apesar de ser fonte importante da atividade individual, o coletivo de trabalho não é sedentário e sua função migra para cada sujeito. Se o coletivo de trabalho se constitui, de início, como objeto de apropriação para a atividade individual, a posteriori, ele deve se tornar meio para o desenvolvimento da ação de cada um. Clot complementa seu raciocínio afirmando que a função do coletivo se altera no desenvolvimento da atividade individual e que essa migração funcional é que torna possível o desenvolvimento da atividade pessoal (op.cit.,p.176). Sendo assim, o coletivo está no interior do indivíduo e aí se desenvolve em função das trocas exteriores no trabalho coletivo. É nesta perspectiva de Clot, que o nosso PPI encontra resposta para o questionamento-título desta nossa subseção.

Nesse ponto da discussão, queremos destacar o posicionamento de Bronckart (1998) acerca da temática das representações sociais, coletivas e individuais. Para o autor, os seres humanos possuem uma capacidade de conhecimento do mundo no qual eles estão mergulhados e conservam vestígios internos ou representações de suas interações com esse mundo. A função de adaptação ao meio se dá de uma forma específica e particularmente eficiente, pois se apoia em unidades representativas delimitadas (imagens mentais, ideias, sentimentos, etc.) que se organizam em um sistema de pensamento (ou sistemas de operações mentais). Uma vez que esse sistema está disponível em cada ser humano singular, as representações que ele organiza podem, em uma primeira análise, ser qualificadas como individuais. Entendendo, porém, que os conhecimentos humanos se desenvolvem e se transmitem de uma geração para a outra, pode-se dizer que as representações de mundo permanecem para além da vida do indivíduo, e se conservam em um outro lugar que não no organismo em si, mas numa consciência coletiva, onde ficam conservadas por meio da língua. De acordo com Saussure (1916 apud BRONCKART, 1998), essa consciência coletiva, mantida por intermédio da língua, seria o lócus privilegiado das representações coletivas e a base sobre a qual os conhecimentos humanos se conservam, transmitem e transformam.

53 Julgamos oportuno apresentar esse posicionamento de Bronckart (1998) uma vez que os discursos das nossas professoras, ora estão impregnados por valores da ordem da individualidade, ora se mostram alicerçados em ideias que são claramente de cunho social e coletivo.

Como afirmamos na introdução deste trabalho (cf.,p.8) e julgamos relevante reforçar, nossa própria trajetória de migração de uma ambientação de ensino-aprendizagem (PEI) para o outro (PPI) foi a nossa motivação para realizar este estudo.

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