O gênero literário “utópico” é inaugurado pelo emblemático romance A Utopia, de Sir Thomas Morus, ainda no longínquo ano de 1516. O trabalho de Morus na criação de sua ilha imaginária perfeita irá inspirar dezenas de autores, como Campanella, Rabelais e Francis Bacon a
44WIKIPÉDIA – A Enciclopédia Livre - http://pt.wikipedia.org/wiki/Interdisciplinaridade , acessada em 12/04/2005.
45Carta de Transdisciplinaridade - Adotada no Primeiro Congresso Mundial da Transdisciplinaridade, Convento de
Arrábida, Portugal, 2-6 novembro 1994 - Url: http://www.suigeneris.pro.br/edvariedade_cartrans.htm , acessado em 18/07/2005.
escreverem narrativas utópicas de base histórica. Esses chamados “utopistas históricos” contribuíram com as reinvindicações utópicas presentes em suas obras para inúmeros avanços sociais, como a igualdade entre os sexos, a organização social do trabalho, a medicina preventiva e o lazer construtivo. Para Nelson Marques (2004) quase todas as realizações da humanidade, nos campos científico, religioso ou político, estão de alguma forma impregnadas pelo pensamento utópico, “cabendo às utopias o papel de traçarem o perfil do futuro”46. Os termos utopia ou eutopia – do grego u (bom) e topos (lugar) – significam assim o lugar onde tudo está bem, designando uma sociedade perfeita ou, mais exatamente, tendente à perfeição. O ganhador do prêmio Nobel da Paz (1985), Bernard Low, afirmou que “só aqueles que vêem o invisível podem realizar o impossível”.
A utopia se manifesta pela invenção de um outro mundo, re-elabora a imagem mítica dos reinos da abundância, do bem estar, físico e espiritual, da ordem e da organização, tenta elaborar um novo futuro, propondo modelos de sociedades alternativas, comunitárias muitas vezes, sem os vícios daquelas reais, ou mesmo propondo plataformas de ação política em cidades ideais, ou ilhas paradisíacas (MARQUES, 2004: 17).
O surgimento da ficção científica como gênero literário acontece ainda no Renascimento, com o aparecimento de narrativas descrevendo mundos utópicos, como no livro incompleto A Nova Atlântida, de Francis Bacon, escrito em 1638. A obra tratava de uma futura eutopia cristã, baseada em novos fundamentos da ciência e manutenção da estrutura familiar. A partir do Século XV, dezenas de romances de FC utópica ou distópica serão escritos, o termo distopia surge como expressão que define uma anti-utopia, a descrição ficcional de uma sociedade futura que é vista como o inferno na Terra. Como salienta Marques, essas histórias terão como temas fundamentais: o desenvolvimento tecnocientífico, a relação com as máquinas, as catástrofes bélicas e ambientais, revelando a preocupação com um possível descontrole tecnológico.
Dentre as dezenas de romances de FC utópica e distópica escritas até o fim do Século XIX e elencados por Nelson Marques em um interessante ensaio intitulado A Utopia e a Ficção Científica, destacamos alguns trabalhos em ordem cronológica. An Enquiring Concerning Political Justice, de 1793, escrito pelo inglês William Godwin, eutopia anarquista e otimista na qual a tecnologia aumenta os bens de produção; Le monde tel qu´il será, de 1846, escrito pelo francês Emile Souvestre; o romance é uma antecipação da notória história Brave New World, de Aldous Huxley, apresentando inquietações relacionadas a um mundo mecanizado e sem alma. Mellonta Tauta, do notório escritor de horror gótico norte-americano Edgar Allan Poe. Escrita em 1849, a obra fazia uma sátira de um futuro com grandes avanços tecnológicos, mas onde o individualismo e a democracia se foram. Les cinq cents millions de la Bégum, obra de Julio Verne editada em Paris em 1879. Nelson Marques (2004:24) destaca o tema desse romance altamente distópico que enfocava o emprego da ciência no militarismo e destruição massiva com supremacia racial, podendo ser visto como uma antecipação visionária do Nazismo. Já A Glance at the Twentieth Century, obra editada em 1881 pelo escritor norte- americano Henry Hartshorne, tratava de uma eutopia futura, com alta tecnologia, democratização e enriquecimento espiritual.
Vale destacar ainda algumas eutopias de conquista da vida eterna através da ciência, provando que o vislumbre dessas possibilidades imortalistas tecnocientíficas foi primeiramente
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imaginado por escritores de FC ainda no século XIX, antecipando os ideais transhumanistas de pensadores pós-humanos como Vernon Vinge e artistas como Natasha Vita-More. Uma delas é History of a world of immortals without a God: Translated from an unpublished manuscript in the library of a Continental University, do autor irlandês James William Barlow. Publicado sob o pseudônimo de Antares Skorpios, o romance trata de uma sociedade futura baseada numa vida cíclica contínua, sem reprodução e nem morte. Outro curioso exemplo é o livro Can a Man Live Forever?, escrito pelo norte americano J. Emile Hix e publicado em 1898. Curiosamente nesse romance eutópico a vida eterna foi conquistada através da substituição do sangue por água destilada.
Ainda sobre a questão da imortalidade com bases na ciência, saltando para a década de 30 do Século XX, o escritor de ficção científica norte-americano Neil R. Jones publica em julho de 1931, na revista Amazing Stories, o conto O Satélite Jameson, no qual um professor chamado Jamenson passa milhares de anos preservado em uma região congelada do espaço, para depois ser resgatado por um grupo de alienígenas que o reavivam e recuperam seu cérebro instalando-o posteriormente em um corpo mecânico e imortal. Esse conto serviu de inspiração direta para Robert C. W. Ettinger, um médico e professor universitário de Michigan, escrever o ensaio Perspectivas da Imortalidade (1962) que deu origem ao movimento dos criogenistas ao propor o congelamento e conservação de nossos corpos a temperaturas muito baixas após a morte, visando uma reanimação futura possibilitada pelos avanços da medicina. Ettinger tornou-se notório nos EUA e é conhecido como o pai da criogenia, tendo fundado também o Cryonics Institute e a Immortalist Society. O autor sempre fez questão de relatar a influência do conto de ficção científica de Neil R. Jones sobre sua concepção, só depois de sua leitura tornou-se um fervoroso estudioso da criobiologia.
Para mim ficou instantaneamente óbvio que o autor não compreendera o ponto principal daquela idéia! Se a imortalidade é atingível através dos cuidados de avançados alienígenas que restauram um corpo humano, por que então qualquer um não poderia ser congelado e esperar que mais tarde seu corpo fosse recuperado por nosso próprio povo? (ETTINGER, 1962).
Apesar desse curioso caso de FC científica eutópica, o Século XX será marcado por grandes romances de FC distópica, com vislumbres altamente tenebrosos e negativistas do futuro, nos quais a tecnologia passa a ser um instrumento de dominação e terror global. Marques (2004:17) destaca alguns dos principais escritores dessas distopias: Zamiatin, Huxley, Bradbury, Clarke, Lem, entre outros. Alguns deles, como Arthur Clarke e George Orwell, juntamente com dois outros escritores de utopias e distopias da FC do Século XIX, Julio Verne & H.G.Wells, serão lembrados pelo caráter antecipatório e visionário de suas obras. O mesmo pode ser dito da obra de dois escritores de grandes distopias da cibercultura: Phillip K. Dick e William Gibson. Independente de seu caráter eutópico ou distópico a função utópica marcada pela fascinação pelo impossível confrontada com a realidade é um dos motores da história da humanidade. Remetendo-se ao filósofo E.M.Cioran, Nelson Marques destaca o caráter básico das utopias, marca essencial das histórias de FC eutópica e distópica:
A maioria das utopias estimula a reflexão crítica sobre uma determinada época: seu projeto imaginário, seu ideal, é sempre concebido em função dos valores dominantes na sociedade do autor. A idéia básica da maioria das utopias é a de criticar o presente pensando em como mudar o futuro (MARQUES, 2004: 17).