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Dissemos ser a língua um sítio descontínuo porque pensamo-la desde os corrimãos da différance derridiana, no in-abarcante fluxo de múltiplas diferenças de sentido que

percorrem o signo, desterrando-o de sua suposta fixidez significativa68. Nessa direção, a revisitada concepção de vontade de poder69 (Wille zur Macht) instaura-se abrigando um polimorfismo interpretativo, ao qual se presta claramente a escritura nietzschiana. Muitos hermeneutas puseram-se a considerá-lo arvorando distintas e dissonantes ilações, uma vez que o próprio cunhador da expressão não se ocupou, ao menos de maneira clara, em delimitá-lo: trata-se de mais uma de suas muitas sementes para a posteridade. Destacam-se entre as leituras contemporâneas desta concepção nietzschiana, aquelas promovidas por Martin Heidegger, Gilles Deleuze, Wolfgang Müller-Lauter e Michel Haar.

Antes de examinar as apreciações destes autores, atinemos para o fio condutor com o qual pretendemos nos alinhar, indiretamente sugerido por Tracy Strong ao apontar insuficiências em will to power, versão inglesa de Wille zur Macht: “a língua inglesa tende a obscurecer um ponto importante. Em alemão, ‘vontade de poder’ é Wille zur Macht. Macht, no entanto, está relacionado a machen, que significa ‘fazer’ e assim dar forma”70. Scarlet Marton amplia tal raciocínio ao justificar o uso da tradução ‘vontade de potência’, e infere a possibilidade de entender “o vocábulo Macht, associado ao verbo machen, como fazer, produzir, formar, efetuar, criar”, para então assegurar que “enquanto força eficiente, a vontade de potência é força plástica criadora. É o impulso de toda força a efetivar-se e, com isso, criar novas configurações em relação com as demais”71. Esta mesma percepção já tinha sido delineada num comentário anterior da autora em Nietzsche: Das Forças Cósmicas aos

Valores Humanos, onde se compreende que “a todo instante, a vontade de potência, vencendo

68 Nas palavras do próprio Derrida, “designamos por différance o movimento conforme o qual a língua, qualquer

código ou sistema de referências em geral, se constitui ‘historicamente’ como tecidos de diferenças. ‘Constitui- se’, ‘produz-se’, ‘cria-se’, ‘movimenta’, ‘historicamente’, etc., para ser ouvido além da linguagem metafísica na qual são tomadas todas as implicações” (DERRIDA, Jacques. Marges de la Philosophie. Paris: Les Editions de Minuit, 2003. p. 12/13.).

69 Entre as traduções ‘vontade de potência’ e ‘vontade de poder’, optamos pela última, sem, contudo, negar a

legitimidade de uso da primeira. Hodiernamente, os intérpretes brasileiros de Nietzsche fornecem-nos plausíveis justificações para traduzir Macht por ‘potência’ ou ‘poder’, alertando-nos para que nos acautelemos, respectivamente, sobre a incompatibilidade daquela com o conceito aristotélico de potência, e da não vinculação do último com o domínio exclusivamente político (Cf. MARTON, Scarlett. A terceira margem da interpretação. In: Extravagâncias: ensaios sobre a filosofia de Nietzsche. 2. ed. São Paulo: Discurso Editorial & Unijuí, 2001. p. 214/215, nota n° 2; Cf. nota n° 1 de Oswaldo Giacoia Júnior, na tradução de A Doutrina da Vontade de Poder

em Nietzsche de Wolfgang Müller-Lauter, p. 51; Cf. nota n° 26 de Paulo César de Souza, na tradução de Além do Bem e do Mal, p. 221/222.). No mais, escolhemos vontade de poder por arriscarmos um fluxo semântico

vinculante entre poder e força, pensados sempre na perspectiva da multiplicidade como que resguardando uma carga praticamente imponderável de significações que lhes são convergentes: vigor, robustez, pujança, energia, afeto, domínio, intensidade, viveza, saúde, capacidade, possibilidade, suportabilidade, aptidão, resistência, influência, impulso, ímpeto, estímulo, incitamento, abundância, apropriação, eficiência, entre outros. Deixamos claro que a ocorrência da tradução de Wille zur Macht por ‘vontade de potência’ no corpo do texto será apenas resultante de citações ou menções a comentadores.

70 STRONG, Tracy B. Friedrich Nietzsche and the politics of transfiguration. Berkeley: University California

Press, 1988. p. 234.

71 MARTON, Scarlett. A terceira margem da interpretação. In: Extravagâncias: Ensaios sobre a Filosofia de

resistências, se auto-supera e, nessa superação de si, faz surgir novas formas. Enquanto força eficiente, é, pois, força plástica criadora”72. Marton coloca essa hipótese filológica como um risco no qual pode incorrer. Todavia, se nisso há um perigo, vivê-lo não constituirá uma objeção a Nietzsche, pelo contrário, tentar compreendê-lo ou experimentá-lo soa como típico compromisso nietzschiano.

Se admitirmos Macht (poder) provindo de machen, e isso em razão da nítida correspondência fonético-ocular entre verbo e substantivo, do ponto de vista semântico parece-nos razoável estabelecer uma correlação central: identificar em machen designações semelhantes às encontradas em schaffen. A simbiose exeqüível entre tais verbos precisa ser depreendida no modo como Nietzsche considera a própria efetividade, e, por meio dele, instaura seu afastamento crítico de toda forma de mecanicismo e das teorias finalistas e/ou escatológicas de ‘elucidação’ da natureza, tão caras à modernidade. Nietzsche expõe a tendência moderna em instituir visões definitivas acerca dos diversos âmbitos de atuação do discurso filosófico e científico, sendo assertório na seguinte atestação em que alude à hipótese darwinista: “me parece mesmo que já se apossou de toda fisiologia e teoria da vida, com prejuízo dela, já se entende, ao lhe retirar uma noção fundamental a de atividade”73.

Na sentença, o suposto olvido moderno da concepção de atividade (Aktivität) no teorizar acerca da vida afigura-se pondo em xeque qualquer fala final sobre a mesma. A nosso ver, a tarefa de direcionar uma interpretação à noção de atividade, tarefa que brota da supramencionada conclusão nietzschiana, incita-nos a discutir porque ela é reputada pelo filósofo um conceito fundamental (Grundbegriff). Ainda no mesmo excerto da Genealogia da

Moral, Nietzsche concomitantemente elabora um diagnóstico e aponta sua visão:

colocou-se em primeiro plano a ‘adaptação’, ou seja, uma atividade [Aktivität] de segunda ordem, uma reatividade [Reaktivität]; chegou-se mesmo a definir a vida como uma adaptação interna, cada vez mais apropriada, a circunstâncias externas (Herbert Spencer). Mas com isto se desconhece a essência da vida [Wesen des Leben], a sua vontade de poder;

72 MARTON, Scarlett. Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos. 2. ed. Belo Horizonte: Editora

UFMG, 2000. p. 70. E ainda, no mesmo parágrafo, “é o que revela a própria expressão Wille zur Macht; o termo

Wille entendido enquanto disposição, tendência, impulso e Macht associado ao verbo machen, fazer, produzir,

formar, efetuar, criar” (MARTON, Scarlett. Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos. Op. cit. p. 70.).

73 KSA 5, Zur Genealogie der Moral. p. 315/316 (GM. p. 67, II § 12. Grifo do autor.). No original: ja er scheint

mir schon über die ganze Physiologie und Lehre vom Leben Herr geworden zu sein, zu ihrem Schaden, wie sich vom selbst versteht, indem er ihr einen Grundbegriff, den der eigentlichen A k t i v i t ä t, eskamotirt hat. Note-se que Nietzsche originalmente não enuncia apenas que a noção de atividade é retirada no sentido de ter sido ‘deixada de lado’ nas teorizações fisiológicas modernas, ele menciona um escamotear (eskamotirt hat), um encobrir, um ‘tirar de circulação’ sem que se perceba. Ora, isso remete conjeturalmente à tomada de posição da tradição moderna no tocante à hiper-estimação e conservação da perspectiva dominante (mecanicismo, darwinismo).

com isso não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas formas, interpretações e direções, forças cuja ação necessariamente precede a ‘adaptação’; com isto se nega, no próprio organismo, o papel dominante dos mais altos funcionários, aqueles nos quais a vontade de vida aparece ativa e conformadora.74

O claro não assentimento à interpretação darwinista-spenceriana impele Nietzsche a pensar outra acepção do ‘acontecer fisiológico’, ou melhor, da própria vida. Ela envolveria uma imprescindível diferenciação entre as noções de reatividade e atividade, uma distinção entre a vida pensada como teleologicamente orientada para a autoconservação, a adaptação, o ajustamento, e a vida interpretada como vontade de poder. Na condição de ‘essência da vida’ a vontade de poder é, sobretudo nos derradeiros escritos de Nietzsche, remetida às forças, posto que não há a força (e tampouco a vontade de poder), porém uma infinidade de forças perfazendo todo o acontecer. Destarte, “o um não é”75 na medida em que qualquer unidade é conformação entre forças. O vínculo entre dominação e atuação ativa da vida por meio de forças assenhoradoras (os ‘mais altos funcionários’) em contínua relação com outras forças, abre caminho para o entendimento da noção de atividade aqui aventada.

Ao apreciar o sentido nietzschiano da corporeidade, Deleuze afirma a irredutibilidade concernente às forças, justificando-a pelo caráter múltiplo e indeterminável de suas colisões, resistências e entrechoques, motivações estas que discricionariamente estatuam corpos. Experimentando interpretar a tensão constitutiva dos corpos, o autor francês aponta duas qualidades julgadas originais por exprimirem as relações inter-forças: “num corpo, as forças superiores ou dominantes são ditas activas, as forças inferiores ou dominadas são ditas

74 KSA 5, Zur Genealogie der Moral, p. 316 (GM. p. 67, II § 12. Grifo do autor.). Paulo Cesar de Souza traduz a

passagem ‘neu-auslegenden, neu-richtenden und gestaltenden Kräfte haben’, dando-nos a entender que Nietzsche adjetiva as referidas forças (Kräfte) como criadoras uma vez que estabelecem novas formas, interpretações e direções. Na passagem, Nietzsche cita Herbert Spencer, filósofo inglês influenciado pelas hipóteses evolucionistas de Charles Darwin, desde onde compreende todas as atividades humanas. A respeito dos encontros e desencontros entre Spencer e Nietzsche, veja-se MARTON, Scarlett. Nietzsche: das forças cósmicas aos valores humanos. 2. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000. Capítulo IV, p. 133-166.

75 MÜLLER-LAUTER, Wolfgang. A doutrina da vontade de poder em Nietzsche. São Paulo: Annablume, 1997.

p. 75. Ainda consoante Müller-Lauter, “Nietzsche sempre tem em vista multiplicidades fáticas de vontades de poder, que, respectivamente, significam um no sentido de simplicidade ou estabilidade, todavia são formações complexas e incessantemente mutantes, sem constância, nas quais ocorre uma contraposição de quanta de força em variadas graduações” (MÜLLER-LAUTER, Wolfgang. A doutrina da vontade de poder em Nietzsche. Op. cit. p. 80). Outrossim, em sua interpretação da filosofia de Nietzsche, Gilles Deleuze faz coro com esta perspectiva ao inferir que a unidade corpórea ou orgânica só pode ser admitida enquanto unidade “de um fenômeno múltiplo, ‘unidade de dominação’” (DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Porto: Rés-Editora, 2001. p. 63.). Alexander Nehamas chega às mesmas conclusões, destacando a ênfase nietzschiana na percepção da atividade: “Ao negar que ‘a vontade existe tal como uma coisa’, Nietzsche está tentando cortar relações com essa ideia ligada às nossas noções comuns de querer e desejar. Ao considerar como simples partes de uma atividade contínua, permanente, a que são essencialmente e não apenas causalmente relacionados os eventos que até agora entendíamos como atos de vontade, ele quer ressaltar a própria atividade” (NEHAMAS, Alexander.

reactivas”76. A diferença hierárquica entre as forças dá-se pela qualificação destas em conformidade com a sua quantidade, donde dimana sua condição de ativa ou reativa. Às forças reativas atrela-se a disposição de permanência de sua quantidade e manutenção de mecanismos e fins produzidos em vista dessa constância. Em conseqüência, o significado nietzschiano da reação acompanha “os arranjos mecânicos e utilitários, as regulações que exprimem todo o poder das forças inferiores e dominadas”77.

Ainda à luz da corporeidade, Deleuze exprime a dificuldade de caracterização das forças ativas por escaparem à apreensão da consciência. Com isso, também é demarcada a condição mesma de toda consciência enquanto configuração de forças reativas e último desenvolvimento do orgânico no homem: ela consiste no cultivo da memória, e por sua vez, de um sem-número de funções reativas (hábito, conservação, reprodução, adaptação, entre outras). Nietzsche ilustra com peculiar linguagem poética o freqüente pôr-se reativo da consciência nos antípodas da diligência, sinônimo de atividade: “a diligência e a consciência são freqüentemente antagonistas, porque a diligência quer colher os frutos ainda verdes na árvore, enquanto a consciência os deixa pender muito longamente, até caírem e se destroçarem”78. Logo, o exercer-se das forças ativas é reputado o constituinte não-consciente da “grande razão”79 que significa corpo (uma vasta polifonia locupleta e dissonante). A interpretação deleuzeana arremata: “apropriar-se, apoderar-se, subjugar, dominar são as características da força ativa. Apropriar-se quer dizer impor formas, criar formas explorando

as circunstâncias”80.

Quanto ao exame do conhecimento e à percepção de verdade como ficção perspectivística, resulta igualmente pertinente a distinção aqui operada entre ativo e reativo, uma vez que coloca a noção nietzschiana de atividade nas raias da figura da vontade de poder. O abarcamento torna-se nítido num apotegma de 1887, onde Nietzsche assegura que

a verdade não é, portanto, algo que estivesse aí, que se encontra, se descobre – mas algo que consiste em ser criado [schaffen] e que dá nome a um

processo, ainda mais para uma vontade de dominação que não possui em si

qualquer fim: inserir verdade, tal como um processus in infinitum, um ativo

determinar [actives Bestimmen], não enquanto um tornar-se consciente de

algo que esteja ‘em si’ firme e determinado. É uma palavra para a ‘vontade de poder’81.

76 DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a filosofia. Op. cit. p. 63. Grifo do autor. 77 DELEUZE, Gilles. Ibidem p. 64. Grifo do autor.

78 KSA 2, Menschliches, Allzumenschliches. p. 331 (HDH. p. 278, § 556.).

79 KSA 4, Also sprach Zarathustra. p. 39 (ZA. p. 60, I – Dos desprezadores do corpo.). 80 DELEUZE, Gilles. Ibidem p. 66. Grifo nosso.

Note-se que Nietzsche não tenciona pôr termo à significação da vontade de poder, pois a última asserção evoca todo o argumento na condição de mais uma de suas expressões; desconstrói a concepção de verdade como o desde-sempre-dado, tão estimado pela tradição, advogando uma espécie de inversão: verdade é uma criação, uma interpretação, um rebento produzido por um determinar ativo e ininterrupto da dinâmica processual da vontade de poder. Esta insere, instaura, compõe e neste sentido domina, dirige, comanda – não há a consideração a qualquer objeto como realidade primeira, ou a um tipo de subjetividade, seja cartesiana ou transcendental-kantiana. Nesse sentido, “vida é constitutivamente ação, atividade. A ação, a atividade de, desde si mesma, vir a ser o (interesse) que é”82. Retornando a Deleuze, divisamos que sua óptica da vontade de poder afirma um original pluralismo nietzschiano articulado a uma ideia de organismo interessada na multiplicidade de forças nomeadamente ativas e reativas, desbravando suas infindas relações de poder para nelas reconhecer o locus da diferença no filósofo alemão83.

O modo com o qual Nietzsche apresenta sua interpretação de todo acontecer também esteve ‘à mão’ para Heidegger. Admite-se inclusive a relevância histórico-filosófica das conferências heideggerianas sobre o filósofo em questão em termos de abertura a um caminho de consolidação de sua obra no século XX, até então freqüentada basicamente em círculos literários. Em suas primeiras preleções sobre a vontade de poder, Heidegger lança uma de suas conclusões sobre o status da filosofia nietzschiana nas fronteiras da modernidade: “no pensamento da vontade de poder, o pensar metafísico alcança previamente o seu acabamento”84. É assim concebida fundamento da totalidade ôntica, e, portanto, principium a partir do qual o real é depreendido. Heidegger entende o obscurecimento de uma autêntica preocupação filosófica com o ser em nome do clamor pelo ser do ente (cogitado desde os pensadores gregos como constância daquilo que se presenta) enquanto triunfo de seu

82 FOGEL, Gilvan. Conhecer é criar: um ensaio a partir de F. Nietzsche. São Paulo: Discurso Editorial, 2003. p.

117.

83 Numa concisa nota de Nietzsche e a Filosofia (p. 65), Deleuze reconhece a originalidade da Weltanschauung

nietzschiana, comparando-a para fins de distinção com a concepção de pluralismo do filósofo e escritor britânico Samuel Butler (1835-1902), a qual julga conservadora por manter a primazia da memória e do hábito na dinâmica das forças. Entretanto, em Diferença e Repetição, assegura posição de destaque para este autor ao referir-se à obra Erewhon, romance que promove uma sátira da sociedade vitoriana: “Graças a Samuel Butler, descobrimos o Erewhon como aquilo que significa, ao mesmo tempo, o ‘parte alguma’ originário – e o ‘aqui- agora’ deslocado, disfarçado, modificado, sempre recriado” (DELEUZE,Gilles. Diferença e Repetição. Lisboa: Relógio D'agua, 2000. p. 9, Prólogo.). Frisamos apenas que a leitura deleuzeana enaltece as qualificações ativo e reativo no movimento das forças, por ver nelas o sentido de todo diferençar-se em Nietzsche, compreensão da qual lançará mão quando da construção de sua filosofia da diferença.

84 HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Op. cit. 1 v. p. 374. E finaliza: “Nietzsche, o pensador do pensamento da

vontade de poder, é o último metafísico do Ocidente” (HEIDEGGER, Martin. Ibidem. 1 v. p. 374. Grifo do autor).

olvidamento. Dessa perspectiva, alinha toda metafísica ocidental conferindo ao filósofo de Zaratustra o derradeiro lugar na fila: “Nietzsche quer o devir e o que vem a ser como o caráter fundamental do ente na totalidade. No entanto, ele quer o devir precisamente e antes de tudo como o que permanece”85. Portanto, infere que o pensamento nietzschiano soma-se àqueles que ratificaram a necessidade de fazer referência a um fundamento perene.

Não obstante com isso Heidegger ressalte o correlato vida-vontade de poder-devir, e nos propicie uma rota interpretativa da noção nietzschiana de atividade, deve-se estar atento ao diapasão hermenêutico que elabora em seu debruçar-se sobre Nietzsche. Mormente, a conclusão extrema a que chega: pensar a vontade de poder como vontade calculante de valores e consumação da história da metafísica do sujeito86. Com isso, Heidegger fará de Nietzsche “o grande hospedeiro de desertos”, o responsável pela “perfeição e o cumprimento do niilismo”87. No entendimento heideggeriano, ao insistir na imposição de perspectivas em todo o atuar da vontade de poder, Nietzsche defenderia que “o ‘mundo’, não é outra coisa senão uma criação da ‘ação’ da própria vida”88; e, se não estivermos equivocados, o fato de destacar a expressão ação no contexto da frase remete à problematicidade implícita no modo de pensar a própria dinâmica em função da qual o mundo vem a ser. Ação parece indicar um mover-se da vida enquanto fundo donde dimanam ‘representações’, o que faria de Nietzsche um filósofo da representação.

A vontade de poder é pensada por Nietzsche como fundamento perene? Como o permanente, o idêntico a si mesmo, o sempiterno? Como resposta à pergunta que é o ‘ser do ente’? Em que sentido tal concepção revelar-se-ia o suprassumo da subjetividade herdada de Descartes? Na tentativa de uma apreciação crítica dos argumentos heideggerianos, recorramos a uma senha oferecida pelo próprio Nietzsche na seguinte afirmação: “não existe ‘ser’ por traz do fazer, do atuar, do devir; ‘o agente’ é uma ficção acrescentada à ação – a ação é tudo”89. Primeiramente, segue-se da interpretação que fazemos desta sentença que vida e vontade de

85 HEIDEGGER, Martin. Ibidem. 1 v. p. 508. Grifo do autor.

86 Nos termos deste filósofo: “o pensar em termos de valor forma parte essencial da identidade da vontade de

poder, de modo que esta é subjectum (com base em si, subjacente ao todo). A vontade de poder se desvela como a subjetividade que se distingue por pensar em termos de valor” (HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Barcelona: Ediciones Destino, 2000. Vol. II, p. 221. Grifo do autor.).

87 CRAGNOLINI, Mónica. Nietzsche por Heidegger: contrafiguras para uma perda. Cadernos Nietzsche. São

Paulo: GEN-USP, n. 10, p. 11-25, 2001. p. 15. Neste frutuoso artigo, Monica Cragnolini pontua precisamente o olhar heideggeriano acerca das figuras de pensamento nietzschianas: “o pensamento inaugurado por Nietzsche na idéia de vontade de potência como vontade calculadora desde o operar de uma subjetividade representativa constitui, para Heidegger, um pensar ‘enclausurador’. Esse pensar enclausura porque dá uma resposta definitiva e fechada acerca do ser do ente e, nesse sentido, não pode oferecer nenhuma opção diferente frente ao niilismo do ‘nada do ser’, exceto seu aprofundamento a partir de suas próprias idéias metafísicas” (CRAGNOLINI, Mónica. Nietzsche por Heidegger: contrafiguras para uma perda. Op. cit. p. 17).

88 HEIDEGGER, Martin. Ibidem. 1 v. p. 484. Grifo do autor.

poder não existem como fundamento (‘ser’), mas tão-somente como ausência de qualquer fundamento e reconhecimento dessa ausência, pois todo ‘por trás de’ (substrato) reenvia à lógica fundacionista da qual Nietzsche não se permite advogar. Em segundo lugar, a moderna filosofia do sujeito conserva a relação distintiva entre agente e ação, reputada fictícia por Nietzsche, mantendo-se entranhada nas teias da linguagem e da causalidade. Ação e atividade se equivalem. Um subjectum não cabe a uma efetividade como a-teleológico e plurívoco jogo de forças criador-destruidor, em que o devir não é a mera mudança de um estado a outro, mas palco de combate.

Conforme Heidegger, vontade de poder enquanto atividade é, fundamentalmente, instituição de valores, formas, interpretações, sendo o próprio valorar um calcular. É porque destitui a primazia do conceito tradicional de razão, aderindo aos impulsos ávidos por um plus de poder, que Nietzsche forjaria a constituição de uma subjetividade dominadora (o

Übermensch), a qual recrudesce o pensar calculador. Nisso vigeria o coroamento da

metafísica moderna, a epidemização do niilismo e o arvoramento do reinado da técnica sobre

Benzer Belgeler