O hip hop, enquanto movimento artístico-cultural, se consolida nos EUA nos anos de 1980, principalmente na cidade de New York, no bairro do Bronx. Entretanto, as manifestações que o compõem (dança de
rua, rap, grafite, etc), já existiam separadamente desde o fim dos anos de 1960.
O período que entrecruza o nascimento e a consolidação do hip hop é marcado por mudanças no cenário político e econômico dos EUA. Embora o mesmo não tenha, em seu início, nenhuma conotação político- ideológica, não é possível desconsiderar o contexto em que é gerado, em cujo sentido se torna importante fazer referência a tal realidade, mesmo que de forma breve e superficial.
Os EUA passavam, no período acima assinalado, por uma grave crise política por conta do escândalo Watergate17 e a renúncia do presidente Richard Nixon em decorrência daquele fato; neste mesmo período ocorre a derrota militar do país, na guerra do Vietnã, em 1975.
Com a ascensão do presidente Ronald Reagan em 1981, uma onda de conservadorismo invade os EUA, aderindo ao projeto de desregulamentação estatal trazido pelo neoliberalismo, ocasionando aumento do desemprego, que assolou principalmente a população afro- americana e latina. Em seu governo, Reagan quebrou o poder dos sindicatos e dizimou a política de bem-estar social keynesiana, vigente até então.
Para compreender o fenômeno em questão, faz-se necessário, pois, atentar para as múltiplas conexões da vida. Daí, a importância de proceder por integração e correspondência entre o “microcosmo e o
17 Um dos fatos mais marcantes da história dos Estados Unidos, o Watergate, foi o
termo utilizado para nomear o escândalo na política norte-americana ocorrido na década de 1970, quando o Partido Republicano, partido do presidente Richard Nixon que comandava o País naquela época, invadiu as instalações do rival Partido Democrata. A origem do termo que nomeia o escândalo provém da localização da sede do Partido Democrata, o Edifício Watergate em Washington. Durante investigações jornalísticas o caso foi rigorosamente estudado. Os jornalistas empenhados pela verdade descobriram que tal invasão tinha ligações com o presidente Nixon que buscava se reeleger nos
Estados Unidos. (Disponível em
macrocosmo”, que reflete uma “harmonia conflitual global”18 (MAFFESOLI,
1998a).
Proceder por integração implica em considerar que o hip hop e a dança de rua que dele advém (no qual os jovens são protagonistas ou adjuvantes), inserem-se numa globalidade que se encontra em movimento. Não há uma lógica que dirige as sociedades; essas são atravessadas por várias correntes que se encontram e se separam, mas há uma correspondência entre elas em que um dos elementos repercute nos demais e vice-versa.
Essa correspondência ajuda a compreender os valores polidimensionais que “agitam” nossas sociedades e que estão inevitavelmente presentes nos grupos de dança de rua, numa relação de interdependência, conexão, unicidade com aqueles valores, base, portanto, da pluralidade social. Neste sentido, as coisas ficam juntas, mesmo sendo contraditórias o que, para Maffesoli (2007a), consiste na “ordem interior” que se exprime através do “vitalismo social” que se expressa pela “opacidade”, “astúcia”, “duplicidade”, “mecanismos de silêncio”, “claro/escuro”19
, o que assegura a conservação da socialidade. A busca do conhecimento do todo com suas diversas e diferentes dimensões, bem como a conjunção do particular ao universal (e vice- versa) são, pois, fundamentos importantes para a compreensão do dinamismo vigente na atual sociedade, partindo dos jovens e suas interações, compondo aspectos determinantes da pesquisa e análise realizadas.
Seguindo tal orientação, é oportuno considerar o avanço tecnológico quando do surgimento do hip hop nos EUA enquanto elemento
18 Maffesoli assinala que o equilíbrio da sociedade se dá através da convivência com o
heterogêneo. Nele, a harmonia integra desarmonia e dor
19 “O vitalismo postula a existência de uma criatividade popular, uma criatividade do
senso comum, mesmo que seja uma criatividade instintiva, que serve de substrato para a diversidade da criação social” (MAFFESOLI, 2005b, pág. 14)
impulsionador do mesmo. Com sua propagação ocorre a transferência do sistema analógico para o digital levando as pessoas a trocarem os aparelhos toca-discos por cd´s, provocando barateamento dos primeiros. Na substituição de aparelhos analógicos para digitais, as pessoas punham nas ruas seus aparelhos e discos “velhos”; os jovens que estavam desempregados utilizavam, então, esses “lixos eletrônicos”, de onde faziam suas músicas e passaram a usá-los de maneira diferente da usual.
Tal realidade configura transformações não só no âmbito local; ao contrário, está associada ao surgimento de um novo modo de desenvolvimento, o informacionalismo, apresentando uma sociedade que passa por um processo de reestruturação, ainda que continue a ser capitalista (CASTELS, 1999). Assim, o informacionalismo, apoiado pela revolução tecnológica nas tecnologias da informação, remodela a base material da sociedade causando grandes mudanças sociais, a exemplo do que foi assinalado acima.
O informacionalismo, segundo Castels, é fruto da existência de um novo paradigma, o tecnológico que, por sua vez, tem como base a tecnologia da informação. Este paradigma surge nos anos 70, nos EUA, no contexto de crise do capitalismo mundial e foi a base fundamental para a reestruturação socioeconômica dos anos 80; sua expansão pelo globo se dá em apenas duas décadas, fenômeno jamais visto comparado com as revoluções industriais anteriores20.
Tal reestruturação econômica provoca, nos EUA, a redução dos serviços sociais, fruto da política adotada por Reagan, crescendo assim as disparidades sociais, aumentando também a violência e o consumo de drogas nos bairros mais pobres. A reurbanização das grandes cidades norte-americanas também é outro fator impulsionado pelas mudanças
20 Segundo Castels, a primeira revolução industrial ocorre no final do século XVIII com o
surgimento da máquina a vapor, a fiadeira e traz consigo transformações no modo de fazer da época; a segunda revolução industrial ocorre no final do século XIX com a descoberta da eletricidade, do aço, do telégrafo e do telefone; a terceira revolução industrial começa a partir da década de 70 com a difusão das tecnologias da informação
estruturais transformando imóveis velhos em condomínios de luxo, restringindo a população mais pobre (negros e latinos) às áreas residenciais.
A revolução tecnológica cria, portanto, uma nova economia: informacional, global e em rede. Informacional, porque a competitividade e a produtividade das empresas e instituições dependem da capacidade dessas de lidar com a informação; é global, porque as atividades se organizam em escala global e é em rede porque a produtividade e a concorrência se dão numa rede de interações.
Nessa economia global há uma interdependência dos mercados financeiros, subordinados aos ditames das agências capitalistas privadas que promovem políticas de liberalização, desregulamentação e privatização do comércio e dos investimentos. Para Castels (1999, p.147), “a globalização dos mercados financeiros é a espinha dorsal da nova economia global”. Neste sentido, a quantidade e a qualidade de tecnologia disponível, o nível de conhecimento, e os recursos humanos de alta qualificação, constituem a fórmula da competitividade na atual lógica capitalista.
Em tal conjuntura, de um lado as empresas de caráter mundial produzem suas normas particulares, indiferentes aos contextos em que se inserem; os espaços se transformam para atender aos imperativos globais que, apesar de suas particularidades, as empresas que neles se instalam têm configuração transnacional. Por outro lado, no processo de reestruturação capitalista ocorre o aumento das disparidades das riquezas. Sob o domínio de um mercado que se autorregula, continentes inteiros são declarados supérfluos, ocorrendo uma polarização, tanto interna de cada país quanto internacional, aprofundando a distância entre os países situados no centro do mundo e os da periferia (CHESNAIS, 1996).
Tal cenário contribuiu para a consolidação do hip hop enquanto linguagem musical e movimento cultural, tendo o rap21 (união das duas palavras rhythm and poetry), como seu expoente.