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Para Brown (2007) o plantio de cana de açúcar para a produção de biocombustível é possível somente em países que dispõem de extensas áreas agrícolas. Em países como o Brasil, aonde essa cultura vem sendo disseminada, o cultivo poderá ocorrer em regiões de áreas de florestas nativas. A crítica dos ambientalistas baseia-se o avanço da cultura da cana, que vem ocorrendo em áreas de florestas nativas. Tal afirmação sustenta-se na hipótese de que com a expansão da cana de açúcar para áreas de outras culturas (a soja, por exemplo) essa poderá ocupar áreas de florestas. Já no sudeste Asiático, Malásia e Indonésia (os principais produtores de óleo de Palma), a floresta está sendo substituída pela produção do biodiesel. Brown aponta que dentre as maiores ameaças, a produção do etanol no Brasil e o biodiesel no sudeste asiático, pode ser o desencadeador de agravantes perdas da biodiversidade. O presidente da Earth Policy Institute, afirma que o Brasil deve diversificar sua matriz energética e optar por fontes como a solar e a eólica, pois possuem potenciais a serem explorados.

A ocupação econômica desordenada da monocultura da cana de açúcar pode causar graves problemas ambientais, visíveis no Estado de São Paulo, bem como ser cenário do desmatamento descontrolado da Amazônia nas próximas décadas. Muitas vezes, há complexos trade-offs neste assunto, a exemplo da polêmica questão da queima da cana de açúcar. A queima é usada para viabilizar a colheita manual, porém, apresenta balanços desfavoráveis a sua prática: espalha fuligem nas cidades próximas, acentuando problemas respiratórios em épocas de seca; afeta a saúde dos trabalhadores; e, reduz o balanço favorável de carbono da cana.

A colheita 100% mecanizada resolveria boa parte dos problemas socioambientais decorrentes da queima da cana de açúcar, mas na área social seria a responsável pelo desemprego dos trabalhadores da lavoura. Hoje no Brasil existem cerca de 250 mil cortadores de cana, muito deles migrantes de regiões do semi-árido nordestino e do Centro-Sul do país. Esses, muitas vezes, deslocam-se de suas regiões para trabalharem durante o período da colheita da cana.

No atual cenário internacional, faz-se necessário discutir o desenvolvimento desse novo paradigma ambiental pela lógica do desenvolvimento social, da mitigação do aquecimento global e produção dos biocombustíveis - uma vez que estas temáticas estão intrinsecamente correlacionadas. No Estado de São Paulo, maior produtor do país, a meta de cada trabalhador é cortar entre 10 e 15 toneladas de cana por dia; os trabalhadores recebem R$2,92 por tonelada de cana cortada e empilhada. Segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cosmópolis (SP), atualmente o piso salarial é de R$ 475,00 por mês e para receber esse valor, os trabalhadores têm que cortar uma média de 10 toneladas de cana por dia.

Com o desenvolvimento da pesquisa no setor sucroalcooleiro, a cana de açúcar transgênica vem ganhando mais espaço no cultivo da monocultura. Mais leve e com maior nível de sacarose, a cana transgênica significa mais lucros para os usineiros, porém maior esforço dos trabalhadores para conseguir o mesmo nível de renda. Segundo pesquisa do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as 10 toneladas cortadas eram conseguidas em 100m² de cana, hoje são necessários 300m² para somar 10 toneladas.

Esse padrão de exploração tem causado sérios problemas de saúde e até a morte dos trabalhadores. Entre 2004 e julho de 2008 foram registradas 21 mortes por exaustão no corte da cana; só em 2005, outras 450 mortes de trabalhadores foram registradas pelo MTE nas usinas de São Paulo. As causas destas mortes são assassinatos; acidentes no precário transporte para as usinas; em consequência de doenças como parada cardíaca; câncer; trabalhadores carbonizados durante as queimadas, entre outras.

Outro problema do setor é o trabalho escravo. Prática ainda comum no setor, os trabalhadores são aliciados por intermediários ou “gatos”, que selecionam a mão de obra para as usinas. Estes, muitas vezes, também são os donos dos caminhões ou ônibus que realizam o transporte para as usinas. Os trabalhadores contraem a dívida com o transporte (em grande parte, clandestino, chamado de “excursão”) que custa em média R$ 200,00 por trabalhador que migrante. Dados da Pastoral dos Migrantes estimam que cerca de 200 mil trabalhadores migrantes trabalhem somente no Estado de São Paulo no período da safra da cana, laranja e café. No setor canavieiro, o número por safra é estimado em 40 mil. Entre novembro de 2007 a novembro de 2009, durante operação do Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo, da Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, foram liberadas 1.468 pessoas em condições análogas a escravidão. Todos esses trabalhadores estavam vinculados a Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool (CBAA), autuada nos diferentes estados do país: Mato Grosso do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. Somente na cidade de Sidrolândia (MS) 1011 trabalhadores, dentre os quais, 831 eram indígenas, foram liberados do trabalho escravo. Outro exemplo, desta vez em Campos dos Goytacazes (RJ), 280 pessoas, entre elas quatro adolescentes (três com 16 anos e um com apenas 13) e 22 mulheres, foram libertadas de área que produzia cana de açúcar para a Usina Santa Cruz (CAMARGO; HASHIZUME, 2007).

Associado as regiões dos canaviais, encontram-se as chamadas “cidades- dormitórios”, onde os trabalhadores migrantes vivem em cortiços, barracos ou nas “pensões”. Apesar da situação precária, os custos com moradia e alimentação são muito acima da média paga pela população em geral. Tanto os alojamentos das usinas

quanto as “pensões” são barracos ou galpões improvisados, superlotados, sem ventilação ou condições mínimas de higiene.

O corte mecanizado se tornou referência para a quantidade cortada pelos trabalhadores nas lavouras de cana em todo o Brasil. Essa subiu de 5 a 6 toneladas por dia para cada trabalhador na década de 80, para 9 a 10 toneladas por dia na década de 90. Hoje, já se registra uma exigência das usinas de 12 a 15 toneladas por dia, principalmente em regiões onde o ritmo das máquinas se tornou referência de produtividade. O não cumprimento da meta frequentemente significa que o trabalhador será dispensado e colocado em uma lista que circulará por diversas usinas, o que o impede de voltar a trabalhar na safra seguinte. Um estudo apresentado por pesquisadores da Universidade Metodista de Piracicaba e do Centro de Referência de Saúde do Trabalhador, Erivelton Fontana de Laat e Rodolfo Vilela, respectivamente, mostra uma situação assustadora quanto às condições físicas em que ficam os cortadores de cana, em 10 minutos o trabalhador derruba 400 quilos de cana, desfere 131golpes de podão, faz 138 flexões de coluna, num ciclo médio de 5,6 segundos cada ação. O trabalho é feito em temperaturas acima de 27º C com muita fuligem no ar e ao final do dia terá ingerido mais de 7,8 litros de água, em média, desferido 3.792 golpes de podão e feito 3.994 flexões com rotação da coluna. A carga cardiovascular é alta, acima de 40%, e em momentos de pico os batimentos cardíacos chegam a 200 por minuto (LAAT, E.; VILELA, R.A.G., 200?)

A mecanização da colheita da cana de açúcar vem aumentando e preocupando os trabalhadores, uma vez que tem o desemprego como sua principal consequência. Em São Paulo, em dez anos, de 1997 a 2007, o avanço foi de 4% para 40%. O relatório da missão internacional apontou dados preocupantes da União das Indústrias de Cana de Açúcar (ÚNICA):

[...] com a mecanização serão desativados todos os 189 mil postos de trabalho manuais em São Paulo até a safra 2010/12. Por outro lado, serão criados 55 mil postos em funções mecânicas e, possivelmente, outros 20 mil nas usinas. Ou seja, o desemprego atingirá, no mínimo, 114 mil trabalhadores somente em São Paulo até a safra 2020/2021.

A incorporação de novas tecnologias no setor canavieiro aprofundou a dinâmica de exploração do trabalho, através de formas precárias de arregimentação, contratação, moradia, alimentação etc. As colheitadeiras funcionam em áreas planas e contínuas, mas causam maior compactação do solo e prejudicam as mudas que deveriam rebrotar. A mecanização gera super exploração do trabalho porque cria novas exigências como o corte rente ao solo (para maior aproveitamento da concentração de sacarose) e a ponteira da cana bem aparada. Isso aumenta o esforço dos trabalhadores e a jornada de trabalho. Com a mecanização do setor, foi transferido para os trabalhadores o corte da cana em condições mais difíceis, onde o terreno não é plano, o plantio é mais irregular e a cana é de pior qualidade.

Benzer Belgeler