As transformações na paisagem física e a tentativa de mutação da paisagem social do Rio de Janeiro no limiar do século XX fizeram da cidade o maior emblema visual da nova ordem política e cultural que se organizava com a República. Sobre o novo papel da
Capital Federal, comenta Nicolau Sevcenko, na obra História da vida privada no Brasil: “... esse papel de metrópole-modelo recai sem dúvida sobre o Rio de Janeiro, sede do governo, centro cultural, maior porto, maior cidade e cartão de visita do país...”. 207
De modo geral, foram as crônicas publicadas no periodismo carioca desta época e a geração de intelectuais por elas responsáveis que legitimaram as variações da urbe em nome da higiene, do progresso, da beleza. Mais adiante, no mesmo texto, Sevcenko complementa sobre a intelectualidade do momento:
Nenhuma impressão marcou mais fortemente as gerações que viveram entre o final do século XIX e o início do XX do que a mudança vertiginosa dos cenários e dos comportamentos, sobretudo no âmbito das grandes cidades. O Rio passa a ditar não só as novas modas e comportamentos, mas acima de tudo os sistemas de valores, o modo de vida, a sensibilidade, o estado de espírito... 208
Desde o início de seu trabalho, a salubridade e a profilaxia do Rio de Janeiro foram as bandeiras de Bilac. E para ver sua cidade querida melhorada e, ao menos, próxima daquilo que seria seu modelo de perfeição: Paris, tudo era válido, principalmente abusar das imagens imponentes e vigorosas para caracterizar ou mesmo criticar o Rio de Janeiro.
Ao lançar mão de imagens exageradas e amplificadas sobre a Capital Federal, Bilac não só pretendia enaltecer aquela terra, que de fato, a despeito de todas as mazelas, era extremamente exuberante e exótica, como igualmente desejava, utilizando desse recurso, chamar a atenção para o seu texto e sua mensagem. Representações que engrandecem de forma exagerada determinada paisagem, ser ou mesmo situação exposta, além de serem um mecanismo lingüístico eficiente para tornar o texto atraente à leitura, são principalmente um modo de se transmitir ao leitor a mensagem de maneira mais incisiva, em virtude da linguagem excessivamente densa e extremada.
Crônicas permeadas de representações hiperbólicas foram uma constante na produção bilaquiana. Com o intento de incentivar o público leitor da Gazeta de Notícias a refletir sobre os problemas da cidade ou ainda somente exagerar os benefícios promovidos pelas reformas urbanas, o poeta fez deste recurso lingüístico um aliado sólido durante sua jornada em prol do progresso e da civilização.
207 SEVCENKO, Nicolau (org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1998. v 3. p.
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Em texto de julho de 1899, por ocasião da visita oficial da comitiva argentina, representada pelo presidente Roca, o cronista mostrava-se animado com a oportunidade de ver a Capital Federal com ares mais festivos, pois, de acordo com sua opinião, a cidade normalmente parecia “triste como um túmulo” devido a suas constantes epidemias e, sobretudo, à falta de saneamento. Bilac chegou a compará-la a uma casa constantemente fechada, desabitada e abandonada e com isso não se conformava, visto que o Rio de Janeiro, que sempre fora uma cidade rica em belezas naturais e, principalmente, abençoada por um clima quente e ensolarado, deveria atrair e não afastar os moradores e seus visitantes:
O Rio de Janeiro está, quase sempre, assim... Cidade macambúzia, cidade de dispépticos e de mesentéricos. Sebastianópolis parece estar sempre carregando o luto de uma grande catástrofe. Já alguém notou que o carioca anda sempre olhando para o chão, como quem procura o lugar em que há de cavar a própria sepultura. 209
Realmente as inflexíveis epidemias de febre amarela, tuberculose e peste bubônica assolavam fundamentalmente as camadas mais humildes da população, entretanto, Bilac fez um esboço altamente exorbitante do sentimento que assolava a cidade. Não afirmamos que tal exagero seja um equívoco, pois é de fácil confirmação que, no limiar do século XX, os surtos epidêmicos devastavam rotineiramente a população. Mas o cronista sabia disto, e não era sua intenção informar, através de sua produção, a humilhante condição sanitária carioca, mesmo porque os jornais diariamente traziam os óbitos causados pelas febres assassinas. Ao representar, através de hipérboles, a desordem urbana e a tristeza decorrente dela, o escritor tentava advertir os leitores, por meio do excesso de linguagem, para a precariedade da cidade e assim talvez convencê-los da necessidade urgente de medidas profiláticas. Apesar de verdadeiramente a cidade estar repleta de contaminados, Bilac engrandecia o real estado urbano ao usar vocábulos intensos como mesentéricos e dispépticos ao se referir aos doentes, e também relacionar a situação da Capital Federal a imagens de caos e luto. O cronista arrematou seu julgamento afirmando, mais uma vez, o porquê da constante amargura que assola o Rio de Janeiro:
E por que não és tu sempre assim, uma feira franca do riso e do pagode? Talvez porque o nosso temperamento seja realmente mais sujeito à melancolia do que à jovialidade? Não! há quem diga que a nossa tristeza depende exclusivamente da nossa imundície.
Mais uma vez, ao deslocar para a falta de salubridade e para o descaso com a saúde pública todas as razões da agonia que acompanha os cariocas, Bilac criou uma idéia aumentada da situação em questão. Realmente eram necessárias medidas sanitárias no Rio de Janeiro, porém, seria a falta delas o principal motivo da aflição e tristeza do povo? E a população estaria, de fato, tão infeliz como pintava a crônica bilaquiana? É realmente difícil de acreditar que uma cidade inteira, conforme ditava Bilac, encontrava-se tão consternada por causa de sua aparência física e de sua limpeza que chegava a ter vergonha e melancolia tão exacerbadas.
Hipérbole é a disposição lingüística que tende à manifestação demasiada da natureza das coisas. O recurso, naturalmente, pode ser usado na tentativa de se manter um sentido persuasivo no texto devido a sua alta carga emotiva, decorrente das proposições exageradas que defende. Bilac, em crônica de 1900, recorreu novamente à linguagem hiperbólica para tocar o sentimento do leitor. Fazendo uma comparação escancarada entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires, a crônica, indiretamente, intensificou os elogios aos nossos vizinhos de fronteira, enquanto fez colocações pouco lisonjeiras sobre nosso desenvolvimento.
Tu és filha amada da Natureza; para te fazer feliz, a Sorte quis abrigar-te à sombra do veludo verde das mais belas montanhas da terra, e estendeu aos teus pés o tapete ondulante das mais formosas águas e abriu sobre ti a glória fulgurante do mais lindo pedaço do firmamento. Para Buenos Aires, a Natureza foi uma seca e implacável madrasta: deixou-a como órfã, abandonada e triste na torturante melancolia de uma planície infinita, sem a sombra de um outeiro, sem a frescura de uma sebe verde, com os pés banhados na água lodosa de um rio escasso. E tudo quanto a deserdada hoje possui é obra da sua coragem, do seu desesperado esforço, do seu rude labor sem tréguas. 210
À primeira vista, percebemos forte apelo emotivo no texto. Bilac enaltecia nossa natureza exuberante em comparação com a aridez da região portenha. Entretanto, não era a intenção do cronista adular nossa sorte inata e riquezas naturais com seus comentários hiperbólicos. Na medida em que lemos o texto, percebemos que a realidade vista pelo poeta era outra. Ele queria, verdadeiramente, nos dizer que, apesar da pouca riqueza ambiental e escassos recursos naturais, Buenos Aires se fez uma grande capital, superando suas falhas e dificuldades; graças à coragem, ao trabalho e à determinação em se tornar grandiosa. Já cariocas, ao contrário dos argentinos, sempre tiveram à disposição todo o expediente natural
para que se tornassem civilizados e desenvolvidos, mas pouco disso aproveitavam. Nossas matas férteis, nossas águas abundantes e clima ideal pouco foram relevantes para melhorar nossa condição. Bilac deixava assim evidente nossa preguiça em melhorar a situação urbana, apesar de termos recebido generosamente um ambiente tão favorável ao trabalho e ao progresso:
Quando tu quiseres ser uma cidade decente, que assombro não serás, Sebastianópolis, respondendo com um pouco de trabalho à generosidade com que Deus te tratou?!
O que se mostrou mais interessante na intenção hiperbólica de Olavo Bilac é a imagem recorrente que ele usava para tornar mais decisiva a persuasão intentada. O cronista recorreu àquilo que temos de mais grandioso e reconhecido: nossa magnitude natural, para nos fazer ver que mesmo com tanto benefício gratuito nem assim conseguimos ser eficazes, civilizados e progredir. De fato, apesar de enaltecer nossas paisagens, a real finalidade de Bilac foi criticar o Rio de Janeiro, seu atraso urbano, descaso sanitário, e falta de amor ao que é nosso. Realmente tínhamos grandes recursos naturais, contudo, o poeta ainda assim os engrandecia para tornar mais evidente nossa apatia frente a tantas possibilidades de evolução.
Certamente o leitor percebia nas palavras de Olavo Bilac certo quinhão de extravagância - afinal, o escopo da mensagem hiperbólica não é a difusão de mera linguagem referencial, que busca a precisão e a objetividade, qualidades desejáveis num bom texto informativo – o que não é a crônica bilaquiana. A intenção da produção do escritor para a Gazeta de Notícias, muito mais do que noticiar determinado acontecimento, era comentar, muitas vezes subjetivamente, o cotidiano de sua cidade, e sempre que possível deixar indícios da necessidade de medidas profiláticas na melhoria da condição urbana e social da Capital Federal. Não obstante, a criação hiperbólica, como recurso de comunicação, por diversas vezes representou muito bem as intenções persuasivas de Bilac em prol da “Regeneração” carioca.
A intenção do cronista não era propriamente informar. Era antes exprimir um estado de alma, coisa que, em muitas situações, só se consegue com o desvio da linguagem usual e informativa. A hipérbole, quando manuseada por Bilac, constituía uma figura de linguagem com fortes tendências subjetivas e de convencimento. Em crônica de 1902, muito além do que apenas usar representações exageradas para persuadir o leitor, Bilac
recorreu à fantasia de um suposto sonho que lhe trouxe várias “revelações” acerca das necessidades urgentes na profilaxia carioca:
Eu, uma noite, sonhei que era prefeito municipal. [...] Sonhei que era prefeito e comecei a trabalhar. 211
Com a intenção primeira de literalmente varrer do Rio de Janeiro a sujeira que se espalhava, tratou de contratar um sem número de trabalhadores para dar cabo de um dos principais flagelos cariocas, o lixo:
Logo, numa chusma inumerável, vieram os pretendentes, em multidão maior que a das estrelas do céu e que das areias do mar. E a todos que chegavam, sem distinção, eu perguntava: “Sabe o senhor varrer uma rua?” Porque toda a minha preocupação era esta: varrer a cidade! E assim que tive organizado o meu exército de varredores, disseminei-os pela vastíssima extensão da cidade, e o trabalho formidável começou.
Entretanto, muito mais do que tentar deixar sua cidade querida mais limpa, o poeta, em seu devaneio fantástico, percebeu que a poeira da Capital Federal era tão extraordinariamente farta que os homens contratados para exterminá-la morriam exauridos de cansaço:
Gastavam-se vassouras, morriam esfalfados os varredores; vinham vassouras novas, novos varredores chegavam, e cada vez havia mais lixo! e cada vez aparecia mais cisco! e era um nunca mais acabar de imundícies remexidas!
Deste modo, Bilac subitamente acordou e voltou à dura realidade. Seu sonho lhe mostrara quão duro poderia ser a vida de um prefeito; pouco apoio da população no combate à sujeira, distúrbios populares que impediam e dificultavam os trabalhos da municipalidade, críticas e perturbações que desviavam a atenção do poder executivo para a questão mais iminente do período:
E eu , desesperado, pedi a minha demissão e ... acordei. Ah! ser prefeito não é cousa apetecível, decerto!
Várias interpretações podem ser extraídas deste texto. Primeiramente, é muito evidente o apelo emocional que a crônica provoca ao ser amparada pela fantasia e imagens oníricas produzidas pela imaginação bilaquiana. A ficção fantasiosa que o sonho
representou por si só já, de certo modo, nos torna mais suscetíveis a aceitar a opinião exposta pelo autor durante o texto. Outra questão relevante foi a inserção de um todo hiperbólico, ou seja, neste texto não observamos apenas representações hiperbólicas isoladas, mas sim, notamos que, na passagem específica em que Bilac descreveu seu sonho, a narrativa inteira se configurou com nuances exageradas, imagens aumentadas e excessivas, como por exemplo, a seqüência de hipérboles manuseadas durante toda a descrição do sonho: vocábulos como “inumerável”, “multidão” e “exército”, remetem à idéia de grandiosidade pretendida por Bilac para amplificar não só a quantidade de sujeira da cidade como também o caos provocado por ela. O uso do termo “desesperado”, além de configurar exagero, contém sentido agressivo. Por meio da expressão, o autor daria vazão ao seu sentimento de impotência, aborrecimento e revolta frente ao lixo que a cada dia mais se amontoava nas ruas cariocas.
Entretanto, além de amplificar o valor da poeira que assolava a cidade, o cronista também pretendeu algo mais no seu texto. Para Bilac, a Capital Federal vivia um período deprimente. O lixo acumulado, metonímia de todos os problemas estruturais e sanitários do Rio de Janeiro, através deste sonho hiperbólico, foi trazido à luz com ênfase marcante, além de que, disfarçado sob a máscara da fantasia e do delírio, o desleixo administrativo foi exposto sem amarras.
Ao abusar de metáforas, personificações e perspicazes comparações, Bilac não se comprometeria diretamente com o poder público ao qual, no entanto, sempre esteve associado. Sua engenhosidade permitiu-lhe criticar e satirizar o atraso do Rio de Janeiro sem se arriscar com os altos escalões republicanos, que lhe foram sempre fiéis. Bilac, alinhado ao poder e às elites da Regeneração, lançava mão de sua crítica mordaz ao retrocesso intelectual, urbano e moral da cidade e não aos seus governantes. Do militante combatente contra o florianismo, pouco sobrou em suas crônicas dominicais, mesmo porque o poder público, principalmente no limiar do século XX, acenou-lhe com uma possibilidade de ascensão social e com meios para divulgar os ideais de civismo que foram sempre latentes em sua obra. Entre outros cargos, Bilac foi secretário-geral da 3ª Conferência Pan-americana em 1906, secretário do Prefeito Pereira Passos em 1907, delegado do Brasil na 4ª Conferência Pan-americana em Buenos Aires em 1910, secretário-geral da Liga da Defesa Nacional em 1915 e Sócio da Academia de Ciências de Lisboa, com direito a banquete em sua homenagem, em 1916.
Na Gazeta de Notícias, Bilac muito mais do que criticar a inoperância do governo, do qual sempre foi próximo, usava seus textos para defender as reformas urbanas. Sobre a crônica de Olavo Bilac, comenta Affonso de Carvalho:
[...] Bilac não se limitou a tecer crônicas que tivessem a duração das rosas. O cronista foge à futilidade e, como namorado da cidade, a sua terra natal, faz da sua pena prestigiosa um elemento de oportuna e eficiente cooperação à obra que, então, vem [sic] sendo realizada pelo Prefeito Passos e Oswaldo Cruz. 212
Se o momento das grandes transformações físicas e sociais fez da cidade e, conseqüentemente, da República, símbolos da nova ordem social e cultural, a sonhada melhoria urbana, instigada pelas imagens parisienses, não foi somente valorizada pelos avanços estruturais que trariam para a consolidação do regime. Acompanhar o progresso europeu, sintetizado nas reformas parisienses, era um meio de tentar alinhar o Brasil aos padrões europeus, o que, para a sociedade dominante, significaria a civilização. E Bilac, patriota e participante da vida dessa coletividade restrita, aderiu ostensivamente a esse processo de aburguesamento decorrente do ânimo regenerador e civilizador que tomou conta das elites nacionais. Paris era o símbolo máximo para Bilac e seus companheiros de faina jornalística; adorar a Cidade Luz era um dos mecanismos essenciais para se idealizar a imaginada regeneração carioca. Em crônica de 17 de junho de 1904, escrita na França, e comparando as diferenças entre as margens do Rio Sena; à direita, marcada pela modernização; e a orla esquerda, em oposição, distinguida pela tranqüilidade; Bilac elevou seu pensamento a Paris:
Paris é a margem direita, com seus palácios, com suas avenidas, com seus cafés refulgentes, com os seus hotéis luxuosos, com os teatros elegantes; Paris é o esplendor dos Campos Elíseos, é o luxo do Bois, é a blague de Montmartre, é o delírio e a festa perpétua dos boulevards, é a futilidade do prazer, é a prodigalidade dos que vêm esbanjar dinheiro nessa vasta Feira das Vaidades... 213
De qualquer modo, notamos, interligadas à exaltação de Paris, ao sonho da geração boêmia, a paixão pela sua cidade querida e a aspiração de vê-la, assim como a cidade-modelo francesa, urbanizada. A dualidade entre Paris e Rio de Janeiro na vida da intelectualidade do início do século fica clara na opinião de Nelson Líbero:
212 CARVALHO, Affonso de. Bilac: o homem, o poeta, o patriota. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1942.
p. 75.
Bilac pertenceu à geração de intelectuais de então, que se dizia possuidora de duas Pátrias: a pátria do nascimento que era a terra do coração e a pátria da inteligência, da cultura, do espírito sutil, da justa medida, da elegância, do bom gosto, da civilização, enfim, que era Paris.214
A leitura dos textos bilaquianos da seção “Crônica”, entre março de 1897 e novembro de 1908, convence-nos de que a produção serviu para orientar o público no sentido de adesão ao sistema, e evidencia-nos um Bilac doutrinador, afinado com o modelo de intelectual a serviço do poder. Olavo Bilac foi, sem dúvida, um dos sustentáculos da euforia reformista que se apossou do poder público e das elites no limiar do século XX, e suas crônicas, incessantemente, trabalharam em prol desse furor que contagiou a intelectualidade do período. As crônicas fizeram-no tomar posições públicas e lançar olhares críticos sobre a sociedade do Rio de Janeiro: reformas e revoltas, modernidade e apego às tradições, beleza e sujeira, riqueza e submundo carioca conviviam em tenso duelo de forças. Bilac transformou as tensões da Belle Époque carioca em leveza através de suas crônicas; por vezes ficcionalizou o momento eufórico e trágico de uma nação que se queria nova e moderna, por vezes, figurou o cotidiano de uma população que se queria civilizada.
214 LÍBERO, Nelson. Olavo Bilac: o homem e o amigo. Palestra feita em 11 de abril de 1960, no Museu de Arte
Considerações Finais
A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou a perfeição - é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. João do Rio in O Momento Literário.
Bilac fora um homem obstinado. Na juventude rebelou-se contra a família e contra a estabilidade que o futuro ofício da medicina poderia lhe propor para dedicar-se à sua grande paixão: a literatura. Depois da consagração como poeta com suas Poesias (1888), dedicou-se com afinco ao gênero que, juntamente ao verso, lhe traria muito mais do que louvores e fama; trar-lhe-ia o reconhecimento do público. A crônica foi o gênero literário que proporcionou a Bilac, através de colaboração nos grandes periódicos paulistas e cariocas do momento, o prestígio constante e diário tão raro em um país com escassez de leitores.
Interessante perceber que, através da observação atenta da colaboração bilaquiana nos mais variados periódicos, fica explícita como sua carreira de jornalista foi fortemente marcada pelos acontecimentos sociais, políticos e culturais que conturbaram a
nação. No auge da luta abolicionista, Bilac colaboraria na Cidade do Rio, jornal abertamente anti-escravocrata. O parnasiano também publicaria n’O Combate, em momento que tanto o jornal quanto Bilac não concordavam com os posicionamentos intransigentes do presidente Floriano Peixoto. E por fim, sua carreira como homem de jornal, já madura e livre dos furores juvenis, começava a se escassear quando a Revista Kosmos era a marca de um tempo