Um recorte específico sobre os conceitos de tempo real aplicados ao jornalismo, que estão difusos nos trabalhos revisados, é essencial para avançarmos na proposta deste trabalho, tendo em vista a profusão de definições encontradas na bibliografia e os sentidos muitas vezes díspares que assumem. Em sua tese de doutorado, Brandão (1999) utilizou inicialmente um conceito amparado na Ciência da Informação, que identifica tempo real com um tipo de informação eletrônica. A expressão significaria um ―termo genérico utilizado para designar todos os sistemas ou serviços de informação em que ela [a informação] é armazenada ou distribuída por meio de um suporte magnético ou óptico e que, portanto, pode ser lida por computador‖ (RECODER; ABADAL; CODINA, 1995, p. 17, apud BRANDÃO, 1999, p. 15).
A definição é considerada insatisfatória por Brandão ao não fazer uma distinção técnica entre tempo real e on-line, o que é relevante para o foco de seu trabalho, conforme assinala. Assim, a pesquisadora propõe como conceito de tempo real a ―informação sendo transmitida enquanto está acontecendo o fato, transmissão simultânea ao acontecimento‖
(1999, p. 15), ao passo que o conceito de informação on-line significa ―uma informação que está em rede, mas não necessariamente simultânea ao acontecimento‖ (1999, p. 15). A distinção nos parece apropriada, mas não esgota a discussão sobre o significado de tempo real e suas dimensões no âmbito da prática jornalística.
Pulitti (2013) adota como referência a abordagem de Kucinski (2004), que considera a denominação ―tempo real‖ inserida na categoria dos conceitos-fetiche, ou falsos conceitos, associada ―a uma suposta nova modalidade de jornalismo, chamada também de online‖ (2013, p. 94). O pressuposto é que se tenta dar conotação de novidade a um processo considerado muito antigo de transmissão ao vivo, que sempre caracterizou o rádio, o telégrafo e seus derivados, como o telex e o fax. Moretzsohn (2002) também cita o telex para comparar o ritmo da produção de notícias nos serviços em fluxo contínuo às antigas agências noticiosas que enviavam informações aos jornais por esse meio. A autora, no entanto, faz uma ressalva importante: ―(...) a considerável diferença de que, então, o jornal reuniria aquele material para depois processar a informação, e agora a relação é diretamente com o público‖ (2002, p. 131). A observação de Moretzsohn (2002) é realmente crucial para entendermos a magnitude dos processos envolvidos nos serviços informativos em fluxo contínuo voltados para o mercado financeiro, que se posicionam no ambiente digital por excelência. O fato de estarem em rede e acessíveis ao consumidor final da notícia jornalística, no formato textual escrito, os difere da lógica de transmissão ao vivo do rádio e da televisão, para citarmos dois suportes que estão também diretamente disponíveis ao público. Estabelece-se uma relação com o receptor baseada na leitura, o que pressupõe técnicas jornalísticas textuais para relatar as informações de forma concomitante aos acontecimentos, como indica a definição adotada por Brandão (1999). As plataformas digitais estão preparadas para a transmissão de áudio e vídeo, como acontece rotineiramente nos sites de internet, mas não focamos esse aspecto no nosso trabalho e sim a produção jornalística baseada na escrita.
Adghirni e Moraes (2007), no texto intitulado Instantaneidade e memória na pesquisa sobre jornalismo online, destacam a nova forma de temporalidade midiática oferecida pelo suporte internet, que é a informação permanente. Nos meios profissionais do jornalismo, tornou-se corrente a expressão ―em tempo real‖ para designar essa nova temporalidade, que as autoras preferem nomear como informação em fluxo contínuo. A justificativa é que, matematicamente falando, seria impossível transmitir uma informação textual via internet no exato momento em que o acontecimento se produz. ―É preciso um certo tempo para elaborar, digitar e disparar o mecanismo tecnológico que vai distribuir a informação, mesmo que sejam
segundos depois do fato ocorrido‖ (2007, p. 237). As autoras chamam atenção para os processos que favorecem a fabricação artificial da realidade.
Com a informação em fluxo contínuo, estamos em permanência num sistema interativo. Um mesmo produto informativo é reiterado em diferentes ritmos aproximados, dando a impressão de renovação de conteúdos nem sempre verdadeira. Pode se tratar, em alguns sites noticiosos, de uma ilusão de fluxo contínuo. A mesma notícia pode voltar no decorrer de uma hora com um novo título, como se fosse uma informação nova. Esse ritmo de notícias em ―torneira aberta‖, sem interrupção, trabalha simultaneamente com a novidade e com a repetição para manter os públicos atentos (tanto no rádio quanto na internet em tempo real). Há uma fabricação artificial da novidade, num ritmo de ondas marítimas, como num vai e vem de vagas na praia, sem que se possa definir exatamente onde começa uma nova notícia e onde termina a notícia velha. A única referência de princípio está na indicação da hora, do minuto, do segundo na tela, ao lado do título da notícia que desfila numa sucessão permanente de acontecimentos num fluxo interminável (ADGHIRNI; MORAES, 2007, p. 240).
A abordagem mais focada na esfera da internet, como é o caso de Adghirni e Moraes, impõe algumas restrições em relação aos noticiosos contidos em plataformas especialmente construídas para a transmissão de informação em tempo real para os mercados financeiros – estas dispõem de mecanismos tecnológicos muitos mais ágeis do que a internet aberta ao acesso do público em geral. As diferenças não se resumem aos aspectos tecnológicos e se estendem também às características de edição. Se, nos sites de internet, é comum o recurso à repetição de notícias que alimentam as home pages e também as páginas internas, nos serviços para o mercado financeiro o desenho editorial é diferente e pressupõe uma sequência cronológica mais estrita. Resta válido, no entanto, o ponto central do conceito de informação em fluxo contínuo que se instala no ambiente midiático digital, o mesmo em que se encontram os serviços de informação para os mercados financeiros.
A expressão ―tempo real‖ pode ainda ter outros significados, segundo as definições adotadas por Jorge (2013):
“Real time” foi muito usada pelos websites informativos como sinônimo de notícias frescas, obtidas minutos antes e colocadas na rede, nas páginas de sites noticiosos, de maneira quase imediata;
―Tempo real‖ seria a notícia que está acontecendo, a cobertura ao vivo, incorporando material gravado pouco antes (SEIB, 2001, p. IX). Nesse sentido, rádio e televisão transmitem em tempo real. O que a internet faz, ao transmitir informações logo que elas se desenrolam, ganhou outro nome mais próximo da realidade: “near time”, ou ―tempo próximo‖; e
―Tempo real‖ também pode qualificar o repórter que trabalha sob esse sistema, para um veículo com cobertura em tempo real (JORGE, 2013, p. 28-29).
Franciscato (2005) lembra que as redes de comunicação digital permitiram a troca instantânea de dados em velocidade tal que sistemas econômicos como o mercado financeiro
adotaram o tempo real como lógica de funcionamento, a partir da década de 1980. Em pouco tempo, como ele sublinha, a expressão tempo real constituiu-se como um sentido de senso comum ―para designar um agregado de práticas e saberes que giram em torno do uso da tecnologia com vistas à instantaneidade e à simultaneidade em áreas diversificadas‖ (2005, p. 235- 236).
Uma dessas áreas encontra-se na administração e gerenciamento empresarial, que tornou a expressão tempo real uma marca de eficiência e de qualificação para reduzir, ao máximo, o dispêndio de tempo envolvido no alcance de metas de produtividade. ―Esta ampliação do termo para além de fronteiras tecnológicas diretas representa a sua absorção como conteúdo e prática econômicos e socioculturais‖, afirma (2005, p. 236). A aplicação do conceito de tempo real na atuação voltada para a ―eficiência sistêmica‖ abre a oportunidade para o autor questionar a abrangência que essa noção vem adquirindo nas relações e práticas sociais.
No contexto que nos interessa mais de perto nesta dissertação, Franciscato (2005) adota duas dimensões de tempo real que, em alguma medida, tocam em aspectos abordados nas conceituações anteriores, mas trazem maior nitidez aos processos que estruturam os produtos pesquisados. A primeira noção é restrita a uma forma específica de produção e veiculação de programas de áudio e vídeo – o ―ao vivo‖ em transmissões de eventos ou na apresentação do noticiário, por exemplo. Trata-se da ―aplicação de um recurso tecnológico com vistas à produção de programas (formatos e conteúdos) ligados ao instantâneo‖ (2005, p. 238).
A segunda noção insere-se na dinâmica de produção de conteúdos em fluxo contínuo, ―particularmente no movimento de alimentação constante de notícias e sua fragmentação pela programação diária (às vezes nas 24 horas do dia), seja em rádio, televisão ou internet‖ (2005, p. 238). É essa segunda perspectiva, segundo ele, que define mais propriamente o novo fenômeno temporal. A exemplo de Adghirni e Moraes (2007), Franciscato (2005) chama atenção para a possibilidade de que o fluxo contínuo incorpore conteúdos que não tenham sido produzidos de forma efetivamente contínua. Em outro ponto de seu estudo, o autor refere-se ao ―jornalismo em tempo real atrelado ao fluxo contínuo de produção e veiculação de notícias‖ (2005, p. 245).
A partir dos estudos revistos, adotamos os seguintes conceitos que melhor expressam a realidade da produção dos serviços informativos voltados para os mercados financeiros, que são objeto da nossa pesquisa:
Cobertura jornalística em tempo real, como sinônimo de produção e transmissão de informação simultânea aos acontecimentos, da maneira mais próxima possível ao tempo do registro dos fatos;
Informação em fluxo contínuo como sinônimo de edição de conteúdos jornalísticos em sequência contínua, abrangendo tanto coberturas em tempo real como textos jornalísticos em tempo diferido, sem relação de simultaneidade com os acontecimentos; e
O conceito de jornalismo ao vivo, seguindo a classificação proposta por Franciscato, fica restrito às transmissões eletrônicas instantâneas, de áudio e vídeo.