A historiografia oficial aponta o Glentanner como o primeiro navio a aportar na Guiana com imigrantes chineses. A viagem de 134 dias começou em 1.° de setembro de 1852, no porto de Amoi e terminou em Georgetown146, em 12 de janeiro de 1853.
Importante que se diga o Glentanner revelou o primeiro resultado de um processo, iniciado bem antes. Com a dificuldade em obter mão-de-obra da Índia para as plantations, fazendeiros da Guiana resolveram trazer trabalhadores da China, operação vista por Lai Look como mais onerosa147. Procópio debita o insucesso dessa imigração às revoltas e à fama de vingativo do coolie148.
Essas viagens dos indentured labourers tiveram características em comum, dentre as quais se destacam as condições degradantes de transporte e a elevada mortalidade. Contribuiram para isso a ausência de água fresca, a comida inapropriada e as doenças: cólera, disenteria e diarréia.
141 MANGRU, op. cit., p. 36.
142 Político e fundador do moderno estado guianense. 143 Diplomata e homem de estado.
144 Educador e acadêmico.
145 Coolie, palavra originaria do mandarim; em vernáculo, significa força ou trabalho amargo. Traduz, em poucas palavras, o sofrimento imposto a esses imigrantes.
146 CRAWFORD, op. cit., p. 9
147 LOOK LAI, Walton. The Chinese in the West Indies: a documentary history, 1806-1995. Stephensons Litho Press Ltd. Jamaica, 1998, p. 2.
148 PROCÓPIO, Argemiro. Modelo Dissociativo: uma saída para a crise brasileira. Jornal de Brasília, Brasília, 5.12.1982
Por exemplo, no segundo navio a aportar, Lord Elgin, a mortalidade chegou a inacreditáveis 44,8%, em virtude de comida estragada. No Royal George, quarta embarcação a chegar, morreram 49 pessoas, por causa da falta de ventilação e da superlotação do barco. Em alguns navios, como o Norwood e o Mystery, atribuíram-se os óbitos ao consumo excessivo de ópio. Na viagem do Prides of the Ganges (1866) houve motim por causa do arroz estragado149.
Muitas viagens transcoreram com tranquilidade. O Whilwind, que aportou em 1860, sete anos após o início da imigração, trouxe as primeiras chinesas, objeto de curiosidade e interesse local. Em outra viagem dessa mesma embarcação (1861), chegaram as primeiras prostitutas chinesas150.
O recebimento desses pioneiros marcou-se por particular frieza. Nos primeiros anos a perplexidade foi a tônica. Os chineses enfrentaram desconfianças, críticas e elogios. Na colonia, os trabalhadores tiveram pouco tempo para se acostumar ao clima e alguns foram levados às fazendas tão logo chegaram151. Lá sofreram com a língua, a alimentação, e sobretudo, as condições de trabalho provocaram nesses imigrantes uma grande desilusão. Muitos fugiram, alguns se suicidaram e outros sucumbiram diante das duras condições de vida e dos ganhos irrisórios152.
Apesar das dificuldades, a capacidade de trabalho do chinês se destacou, obtendo elogios: “Um tipo de gente muito útil, aptos, inteligentes e bem dispostos.”153 Para outros: “Os chineses são os melhores trabalhadores desta fazenda, pela força e resistência são iguais aos africanos (...) São alegres, dispostos e satisfeitos.”154
Entretanto, esses encômios logo cessaram. A inteligência, que inicialmente rendeu admiração aos chineses, permitiu que eles, mais que qualquer outro grupo de imigrantes, compreendessem os termos de seus contratos de trabalho e ficassem frustrados com as injustas condições a que estavam sujeitos. Deteriorando, rapidamente, as relações existentes
149 CRAWFORD, op. cit., p. 9. 150 LOOK LAI, op. cit., p. 256.
151 CLEMENTI, Cecil. The Chinese in British Guiana. Ed. The Argosy Company Ltd. 1915, p. 12. 152 CRAWFORD, op. cit., p. 28.
153 BUTTS, 1853 apud CLEMENTI, op. cit., p. 17., 154 BASCOM, 1853 apud CLEMENTI, op. cit., p. 17.
com a plantocracia, que preferia trabalhadores mais submissos e dóceis. Dessa forma, o fluxo imigratório de chineses para a Guiana praticamente cessou em 1866, treze anos depois de seu início. Após essa data, apenas dois navios de imigrantes chegaram (1874 e 1879)155.
Entre 1853 e 1879, a Guiana Britânica recebeu quase quatorze mil imigrantes chineses.156 Em 1900 a população chinesa caiu para menos três mil pessoas, em grande parte devido à dificuldade na formação de famílias157, apenas 17% dos imigrantes eram
mulheres158. Muitos homens se viram forçados a achar esposas ou coabitar com mulheres de outra raça, afastando-se da cultura chinesa. Outros imigraram para países vizinhos, bem como para os Estados Unidos da América, Canadá e Reino Unido.
Ao término do contrato de trabalho, muitos chineses se estabeleceram no comércio159, em Georgetown, e prosperaram. Ingressando, posteriormente, na classe média
guianense, como proprietários de lavanderias, restaurantes e supermercados.
Parte desse grupo deixou a Guiana no grande êxodo que se seguiu à independência. Atualmente, os guianenses de origem chinesa não chegam a 1% da população. O censo de 2002, último realizado, apontou somente 1.395 chineses na Guiana e desses 646 eram nascidos na China, ou seja, estrangeiros.160
Em virtude disso, várias associações chinesas, que datavam do início do século 20, entraram em declínio, como a Loja Maçônica Chinesa – fundada em 1907, sob a denominação de Templo Silencioso –, o Esporte Clube Chinês – de 1931 – e a igreja anglicana Saviour’s Chinese Church – de 1939 –, esta última atualmente não ostenta mais o nome chinês em sua denominação161, como verifiou o autor em visita ao local.
A contribuição chinesa se deu em vários campos, destacando-se a indústria aurífera com Ho-a-Shoo e diamantífera com Evan Wong que foi também o primeiro concessionário da
155 CRAWFORD, op. cit., p. 41. 156 LOOK LAI, op. cit., p. 251. 157 Ibid., mesma página. 158 CRAWFORD, op. cit., p. 52. 159 LOOK LAI, op. cit., p. 251.
160 Disponível em: <http://www.statisticsguyana.gov.gy/census.html> Acesso em: 10 jun. 2011. 161 Disponível em: <http://www.sdnp.org.gy/chinese/church.html> Acesso em: 10 jun. 2011.
exploração de bauxita.162 Os chineses se destacaram nos estudos, como habitual, formaram
advogados, médicos e engenheiros.
Essa organização da comunidade chinesa e o respeito que angariou na sociedade guianense permitiram que um de seus membros, Raymond Arthur Chung, magistrado de excelente reputação, fosse eleito pela Assembléia Nacional como o primeiro Chefe de Estado da Guiana. Permaneceu no cargo de Presidente e Comandante em Chefe das Forças Armadas de 17 de março de 1970 até 6 de agosto de 1980, quando uma alteração constitucional atribuiu funções executivas ao cargo, que passou a ser ocupado por Forbes Burnham, até então primeiro-ministro.
Arthur Chung também foi o primeiro descendente de chineses a presidir um país não- asiático. Gozou de grande respeito na Guiana até seu falecimento ocorrido em 23 de junho de 2008, aos 90 anos.163