A validação do modelo de referência proposto é dividida em duas fases. A primeira, de caráter geral, prevê a realização de pesquisa de campo; a segunda fase da validação tem um foco restrito a algumas fases do PDP e realiza uma análise do cálculo dos impactos ambientais no ciclo de vida realizado pelo Centro Ceramico Bologna sobre a realidade italiana, identificando as peculiaridades da situação brasileira e evidenciando a influência do cálculo do ACV na metodologia de projeto de produtos cerâmicos.
A escolha do uso de pesquisa de campo se justifica com base em algumas considerações.
A aplicação prática do modelo em empresas é considerada inviável, por limitações de tempo, de custos e de condições objetivas. A aplicação integral da metodologia exigiria um período mínimo de dois a três anos ou mais, dependendo da vida útil do produto escolhido como base da aplicação. Paralelamente, os custos para o pesquisador relacionados com a validação seriam elevados, exigindo repetidas viagens ao exterior (Itália) e ao sul do Brasil, para a implementação e o acompanhamento do modelo proposto. Além disso, dependeria da disponibilidade de uma ou mais empresas em adotar um novo modelo de gestão, o que envolveria mudanças e alterações da própria estrutura interna, com consequências impossíveis a serem avaliadas a priori e custos dificilmente previsíveis.
Por outro lado, a tendência recente do uso de pesquisa de campo para gerar e validar propostas de modelos é ampla e crescente.
Vários autores têm arguido sobre a metodologia de pesquisa em Gestão de Operações, sustentando e confirmando a validade do estudo de caso para pesquisas; entre os principais podem se lembrados: Voss, Tsikriktsis e Frohlich (2002), Forza (2002), Yin (2005), Boyer e Swink (2008), Coughlan e Coghlan (2002), Craighead e Meredith (2008). Sousa e Voss (2008).
No caso específico da presente tese, a pesquisa de campo utilizada para a validação do modelo proposto é configurada como estudo de múltiplos casos, de tipo longitudinal. É baseado em entrevistas com integrantes da alta diretoria de empresas selecionadas do setor, incluindo produtores e colorifícios, na Itália e no Brasil, que podem ser consideradas figuras de notório saber na área de pesquisa envolvida. As entrevistas devem-se desenvolver com a apresentação do modelo de referência proposto, sua discussão e a coleta de opiniões, sugestões e comentários dos entrevistados, quanto à aderência ao tema tratado, lacunas ou presença desnecessária de fases e atividades, vantagens e desvantagens, aplicabilidade e possíveis benefícios derivantes. A aplicação em ambos os países objeto da pesquisa procura fornecer validade geral e mais ampla ao modelo proposto.
Esta modalidade é condizente com quanto realizado por Zancul (2009) e confortada pelos trabalhos conduzidos por Calvosa (2011), Guizze (2011) e Salgado (2011), ente outros, para as respectivas teses de doutoramento.
Quanto aos aspectos operacionais da pesquisa, as referências são, ainda, os textos de Cauchick Miguel et al. (2010) e de Gil (2010), que sugerem um roteiro para a condução de estudo de caso; as indicações podem ser estendidas à presente pesquisa de campo, fornecendo o necessário embasamento metodológico.
No caso específico da aplicação da teoria à presente tese, os modelos propostos por Cauchick Miguel et al. (2010) e por Gil (2010), apesar de algumas diferenças, podem ser considerados alinhados e comparáveis.
A partir dos conceitos dos autores citados, a sequência de trabalho escolhida prevê as etapas a seguir e visualizadas na Figura 6.1:
a. definição da estrutura conceitual teórica, com mapeamento da bibliografia pertinente;
b. planejamento da pesquisa de campo, selecionando as unidades de análise, os meios de coleta e de controle e desenvolvendo o protocolo de coleta dos dados; c. execução de visitas e registro das opiniões;
e. formatação do relatório final.
Figura 6.1 – Sequência para condução da pesquisa de campo
A primeira etapa, de definição do referencial teórico do trabalho de campo, se considera completada nos itens 6.1 e 6.2.
A segunda etapa, de planejamento do trabalho de campo, prevê a opção de “múltiplos casos”, buscando validade mais ampla dos resultados; os casos são longitudinais24, investigando situações atuais. As intervenções de campo previstas são seis, abrangendo dois produtores e um colorifício, tanto na Itália quanto no Brasil. Este dimensionamento permite um aceitável compromisso entre tempo de execução, custos e possíveis resultados.
Vale a consideração que a análise de diversas fontes permite a triangulação, técnica iterativa para verificar a convergência das fontes, com o objetivo de corroborar os resultados. A escolha se justifica, ainda, considerando que o modelo de referência proposto envolve atividades de projeto realizadas nos produtores e nos colorifícios. A realização dos estudos em ambos os países abrangidos pela pesquisa, permite alcançar uma maior generalização da validação.
Quanto à técnica adotada, consiste de entrevistas abertas (questões e sequência predeterminadas, mas com ampla liberdade de resposta) baseadas na apresentação da teoria proposta e coletando opiniões dos envolvidos sobre a aderência às práticas correntes, possíveis deficiências ou excessos de fases e atividades, vantagens e desvantagens do modelo proposto.
24 “Um estudo de caso longitudinal investiga o presente, ...” Cauchick Miguel et al., 2010, p.133.
DEFINIR ESTRUTURA CONCEITUAL- TEÓRICA PLANEJAR A PESQUISA DE CAMPO EXECUTAR VISITAS E REGISTRAR OPINIÕES ANALISAR OS RESULTADOS GERAR RELATÓRIO FINAL
O desenvolvimento do protocolo prevê a formalização das regras das entrevistas, explicitando o roteiro, o contexto ou definição das fontes e os meios de controle. O protocolo é apresentado no Apêndice C.
Para a realização da terceira etapa do processo, o registro dos dados, é prevista a gravação das entrevistas, quando possível, garantindo maior precisão na análise posterior, além de anotações de campo.
A execução da quarta etapa, de análise dos dados, deve incluir o resumo das evidências principais e a consolidação dos resultados alcançados, destacando convergências e divergências identificadas.
A quinta e última etapa envolve a geração do relatório final, sintetizando etapas e registros, visando demonstrar a aderência da tese proposta às evidências práticas levantadas no trabalho de campo.
Considerando a segunda etapa do processo de validação, a análise do cálculo de impactos ambientais relacionados com o ciclo de vida do produto, será avaliado o impacto dos produtos italianos e comparado qualitativamente com a realidade brasileira, buscando identificar a importância do uso do ACV na metodologia de projeto. Para completar a avaliação, será proposta uma aplicação de perfil ambiental, baseado na análise de um produto existente, calculado antes e depois de uma revisão técnica do mesmo produto, visando à redução dos impactos ambientais. A avaliação dos impactos permitirá uma comparação dos resultados das duas realidades industriais e extrair informações importantes para o objetivo secundário da presente pesquisa, a geração de diretrizes estratégicas para o setor cerâmico brasileiro.