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“(…) a organização em ciclos na EJA favorece e potencializa um dos pressupostos básicos da educação integral: todos os seres humanos são capazes de aprender, mesmo em ritmos e tempos diferentes; combatendo assim, as representações que alguns educandos trazem de que não tem mais “cabeça” para aprender e, propondo uma organização na unidade escolar que respeite os diferentes ritmos e tempos de aprendizagens.” BASUALDO, assessora de uma prefeitura paulista.

No Brasil do século XXI, a taxa de analfabetismo varia muito conforme a região geográfica (vide anexo III), a faixa etária e o sexo. Também é afetada pela estrutura setorial do emprego e pela competitividade do mercado de trabalho local. Portanto, as propostas pedagógicas de EJA devem necessariamente considerar tanto a diversidade do perfil sócio-econômico, étnico e de gênero destes grupos sociais, quanto sua

trabalhador, submetido às condições de subemprego, contratos temporários, desemprego, mobilidade no serviço, alternância de turnos de trabalho, cansaço.

Além disso, deve-se respeitar o saber próprio com o qual essa população chega à escola, elaborado a partir de suas relações sociais e de produção, bem como de seus mecanismos de sobrevivência. Orientada por esse reconhecimento, a escola pode construir uma ponte entre o saber que ela deseja proporcionar e contexto cultural do aluno trabalhador, a fim de evitar o desinteresse, os conflitos e a expectativa de fracasso que acabam ocasionando alta evasão.

A EJA não pode ser uma reposição da escolaridade perdida, como têm ocorrido com os cursos acelerados, de suplência ou de madureza. O suporte legal contemporâneo e a incrementação da formação pedagógica para esse setor permitem a construção de uma EJA com identidade própria, capacitada para oferecer qualidade de ensino e equivalência ao ensino regular, inclusive no que diz respeito ao acesso a certificados.

Enquanto não for assegurada a oportunidade de acesso e progressão com sucesso à escola fundamental na idade própria, a oferta de Ensino Fundamental e Médio para os jovens e adultos excluídos do sistema regular de ensino deve ser ampliada e mantida. Respaldada em modelos de atendimento que respeitem as necessidades concretas de vida dos estudantes, ela deve valorizar as características de aluno trabalhador, considerando, inclusive as características psicossociais do jovem e do adulto que nunca freqüentou a escola ou volta a ela. Para isso, a avaliação contínua e sistemática deve orientar a EJA.

Se o sistema educacional como um todo orgânico não tiver seu nível elevado dentro das linhas de ação referenciadas pelas Diretrizes, o direito ao ensino fundamental e médio completos continuará, por omissão, a ser negado aos alunos de EJA toda vez que as ações se restringirem à erradicação somente do analfabetismo na população adulta.

Quanto à formação do professor da EJA, há um grande número de docentes leigos em programas não governamentais. Já os programas governamentais exigem o curso de Magistério completo. Com relação ao Ensino Superior, identifica-se uma carência da disciplina EJA nos currículos dos cursos de Pedagogia e nas licenciaturas em geral. Portanto, conclui-se que tão grave quanto a taxa de analfabetismo e a baixa escolarização entre jovens e adultos é a formação precária dos professores.

Um dos caminhos possíveis para a solução desse quadro é investir em formação continuada específica para professores de EJA. Esse segmento não deve ser entendido por gestores e professores como uma extensão da faixa etária convencional de escolarização. Necessária também é a fiscalização que faça valer o previsto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais ao invés de se culpabilizar o professor pelo fracasso escolar, imobilizando-o, sem, no entanto, oferecer espaços formativos de discussão.

A Educação de Jovens e Adultos não deve ser revestida, convém lembrar, de uma missão salvífica, de que a educação funcionaria como uma alavanca do desenvolvimento e do progresso brasileiro, como pondera Cortella (2002, p. 131). Trata- se de uma idéia onipresente nos discursos dos economistas do Banco Mundial e dos

empresários, como evidencia-se no artigo “Telecurso 2000 revoluciona o ensino” (apud Llop, 1998, p. 11):

“Não adiantava investir apenas no treinamento dos funcionários. Era preciso reforçar a educação básica, dando aos trabalhadores condições de desenvolver sua capacidade de aprendizagem. (...) Se o trabalhador não tiver boa formação escolar, não será capaz de absorver os conteúdos dos programas de reciclagem e qualificação”.

Trata-se do otimismo ingênuo, uma vez que atribui à escola uma total autonomia e neutralidade que, por sua vez, são criticadas radicamelmente pelo pessimismo

ingênuo, segundo o qual a escola é, somente, um instrumento de dominação ideológica

das classes dominantes. Essa segunda concepção não radicaliza a análise, “e sim a

sectariza, ao obscurecer a existência de contradições no interior das instituições sociais” (Cortella, idem, p. 135). Já para os defensores do otimismo crítico, posição

adotada nesta pesquisa, a educação escolar e os educadores tem autonomia relativa, conforme também apontaram Bock A. e Aguiar (2003). O fundamental, nesta perspectiva, é a construção de espaços coletivos de novas formas da prática pedagógica.

4. O M

UNDO DO

T

RABALHO

Neste capítulo será analisado, em um primeiro item, o trabalho genérico, quais as formas que esse trabalho adquire sob o capitalismo; e a questão da mercadoria e seu fetiche. No segundo item, sem a pretensão de se apreender todos os vieses analíticos que cujas ciências como a História ou a Sociologia elaboraram acerca das mudanças estruturais e conjunturais contemporâneas, explanar-se-á de forma breve as formas de exploração do trabalho ao longo dos últimos dois séculos. Como ele se apresenta no Brasil e, sucintamente, quais relações contraditórias se estabelecem entre a educação e o trabalho, são os outros pontos tratados. O objetivo dessas discussões é fornecer subsídios para a análise das falas da estudante entrevistada, de forma a melhor se compreender o funcionamento do mundo do trabalho e o ideário neoliberal que se constituiu nesses movimentos históricos.

Benzer Belgeler