Durante o trabalho no canteiro de obras, alguns mu tirantes do empreendimento Brasilândia B23 não cumpriram as normas dos limites máximos de faltas do Regulamento de obras. O regulamento que foi elaborado pela associação e assessoria técnica, baseado nas diretrizes da CDHU, estabelecia um número máximo de 5 faltas consecutivas dos mutirantes em canteiro de obras aos finais de semana, ou alternadas injustificadas. Havia, pelo Regulamento, a possibilidade de justificar as faltas180 e também da reposição destas em até 30 dias. O não cumprimento desta norma pelo mutirante poderia levá-lo à exclusão do grupo alvo. Os mutirantes que ultrapassaram as 5 faltas consecutivas permitidas e sem justificativas ou reposição, sofreram a exclusão do grupo. O processo de exclusão no conjunto ocorreu conforme o Regulamento do empreendimento. A exclusão poderia ser feita somente com o referendo dos mutirantes em Assembleia Geral e Extraordinária. Desta forma, a votação daqueles que não cumpriram as regras quanto ao número máximo de faltas foi feita na Assembleia e em todos os casos, houve a efetivação da exclusão pelo motivo de 5 faltas consecutivas e injustificadas.
A comercialização e a ocupação das unidades habitacionais é outra diretriz presente nos documentos anexos do Convênio. Após a conclusão das obras do empreendimento, a CDHU celebrará os instrumentos de compra e venda com os mutirantes titulares. A destinação de cada unidade habitacional será feita " segundo critério previamente aprovado pelos mutirantes e registrado no Regulamento de Organização do Trabalho no Canteiro de Obras pela Associação."181
Apesar da associação poder estabelecer os critérios para a escolha da unidade habitacional pelos mutirantes, a CDHU propõe uma regra geral para a destinação das unidades habitacionais, sendo esta a de " sorteio público em Assembleia convocada para este fim. Possuem preferência na escolha de unidades habitacionais as famílias titulares que possuam portadores de deficiência ou idosos."182
Conforme prevê o Regulamento de Obras do empreendimento, foi definido em Assembleia Geral os critérios do sorteio e a CDHU aprovou mediante apresentação da Ata de
180
Segundo a diretriz da CDHU para a elaboração do Regulamento no que diz respeito à exclusão, do qual a Associação aderiu no seu Regulamento, são consideradas faltas justificadas as ocorridas por motivos de saúde- comprovada com atestado médico- óbitos, casamentos e judicial.
181
Anexo I – Diretrizes básicas para a implementação de convênios firmados com associações comunitárias no âmbito do programa pró – lar mutirão associativo. 2003, p.8
182
Assembleia enviada pela Associação. Em 10 de dezembro de 2006, a associação realizou, no canteiro de obras, o sorteio das unidades habitacionais. O critérios estabelecidos com os mutirantes e aprovados pela CDHU após o envio da Ata, foi o da pontuação, que se dividiu da seguinte forma: Pontuação por participação, pontuação por horário e presença no mutirão; pontuação por presença em Assembleia; pontuação por dedicação e atividades desenvolvidas no canteiro e pontuação por cooperativismo. Os mutirantes poderiam ter pontuação em todos estes critérios, e aquele que obtivesse maior número de pontos no final do empreendimento teria preferência na escolha do apartamento.
A participação em atividades fora do horário de trabalho em canteiro determinado pelo Regulamento de Obras contava pontos para o mutirante:
Durante o período da obra, existiram situações em que houve a necessidade da participação e ajuda dos mutirantes, fora do horário do mutirão, como por exemplo a vigilância dos prédios em dias sem atividades de mutirão (...) a pontuação de cada atividade foi determinada conforme a necessidade do momento da obra, estabelecida entre 5 e 25 pontos.183
A vigilância do conjunto habitacional deveria ser feita pelos próprios mutirantes, a CDHU não dispunha de uma equipe de segurança e não se responsabilizava pelos materiais empregados na obra, e também não previa no orçamento do convênio o repasse para este serviço. Sendo assim, cabia à associação dispor deste serviço, e a saída encontrada foi atribuir pontos àqueles mutirantes que participavam da obra fora do horário estabelecido no regulamento de obras, o que causava maior esforço das famílias do que o previsto na construção das moradias.
A mesma pontuação era válida para os mutirantes que cumpriram os horários de trabalho dentro do canteiro de obras, conforme o Regulamento. Já a participação e o desempenho dos mutirantes nas atividades desenvolvidas em canteiro, como por exemplo naquelas organizadas pelo técnico social da assessoria Técnica, foi availada pela associação com uma contagem de pontos que variava de 1 a 10.184
A participação dos mutirantes nas Assembleias conta como outro item para a somatória dos pontos. Para a associação, a Assembleia é " um dos momentos mais importantes do
183
Ata de Assembleia enviada à CDHU para sua aprovação dos critérios de pontuação para o sorteio das unidades habitacionais, 2006.
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mutirão, e a presença de todos é de grande importãncia, pois é neste momento que as decisões são tomadas." 185Para a contagem dos pontos dos mutirantes presentes, utilizou- se a lista de presença de cada Assembleia:
A cada Assembleia realizada registrou-se uma Ata para efetivas as decisões tomadas, e todos os presentes assinam a lista de presenças que é encaminhada à CDHU. Estas listas serão verificadas para definir a pontuação de cada mutirante titular. Este item soma de 5 a 25 pontos.186
O último critério para a contagem de pontos é o da "Pontuação por cooperativismo". Não fica claro na carta que foi enviada à CDHU, quais são as atividades que os mutirantes deveriam cumprir para que fossem pontuados por este critério. Na prática, todos os critérios ocorreram de forma distinta, e este último muitas vezes era confundido com " Pontuação por participação:
O item pontuação por cooperativismo diz respeito à ajuda mútua. A questão do bem comum sempre foi tratada e desenvolvida. Estes item faz parte do critério para a pontuação que varia de 5 a 25 pontos.187
Apesar da semelhança deste critério com o da pontuação por participação, em nenhum momento os mutirantes questionaram a associação qual atividade estaria inclusa neste critério. Além destes já previstos, a associação, mediante parecer do técnico social da assessoria técnica, elaborou outros critérios no decorrer da obra, na medida que achava necessário uma maior participação dos mutirantes no canteiro, quando estes mostravam-se desanimados, com faltas, atrasos e não empenho nos serviços. O critério de pontuação e as atividades do técnico social no canteiro de obras tinham como objetivo estimular o desenvolvimento do trabalho de todos os mutirantes no empreendimento.
A permissão para os mutirantes ocuparem suas unidades seria, segundo anexo do Convênio, autorizada pela CDHU, e somente poderá ser feita após a comercialização com a celebração dos instrumentos de compromisso de compra e venda.
185 Ibidem, p. 2. 186 Ibidem 187 Ibidem, p. 3
Após a ocupação das unidades, os mutirantes terão que organizar a administração do condomínio, e para isto a CDHU, segundo Anexo, irá " prestar orientação para a instituição da autogestão condominial". 188
O processo de ocupação das unidades do empreendimento Brasilândia B23 ocorreu em novembro de 2007, antes da sua entrega oficial. Pressionada pelos mutirantes, visto que o empreendimento encontrava-se com a maioria dos serviços de responsabilidade da Asssociação executados e pela demora da CDHU na formalização da entrega oficial, a associação estabeleceu um acordo com os mutirantes. O assunto foi discutido em Assembleia com a minha presença, e foi decidido que a ocupação daria-se aos poucos, três mutirantes a cada final de semana.
Esta decisão foi tomada também pois os serviços de distribuição de água, esgoto e energia elétrica estavam finalizados, segundo Breve,
Já tinha água e esgoto no condomíno. Não deixei ninguém entrar sem água e esgoto. Só mudaram em novembro em 2007. A água até hoje não está dividida, e o esgoto a infra- estrutura da CDHU que fez. A Associação deu uma autorização aos mutirantes e eles foram na Eletropaulo pedir ligação individual de luz. A mudança foi feita devido a demora da entrega dos serviços da infra pela CDHU. Dos serviços do mutirão, o que faltava eram os extintores, mas depois da entrada deles nós instalamos. Não deu para segurar a pressão dos mutirantes e tivemos que organizar a entrada em canteiro.
Os critérios de "pontuação" determinados pela associação e aprovados pela CDHU refletiam a conduta que a representante da associação mantinha com as famílias e inclusive com a assessoria técnica. Foram destinados o andar térreo para as as famílias que obtiveram a menor pontuação, sendo uma forma de "penalizar" aqueles que não participaram de todo o processo construtivo. O andar térreo era visto pelos moradores, através da influência do discurso da associação, como o local com menor qualidade para habitar. Sem nenhuma justificativa sobre a "desvantagem" dos apartamentos localizados no térreo, a "penalidade" imposta pela associação foi aceita pelos moradores, CDHU e também pela assessoria técnica, que não participou da elaboração destes critérios.
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Desta forma, encontramos conflitos em relação ao objeto final – a moradia – quando há um ambiente competitivo entre os mutirantes durante o processo construtivo pela busca de um bem comum. Ao tentarem atingir a pontuação máxima imposta pela associação, no momento que este processo ocorre, não é percebido, nem pela associação e nem pelos moradores, os significados da convivência em "grupo" no canteiro de obras, não há a percepção que existam outros objetivos, além de conseguir o "melhor apartamento". Há um desmonte completo do que os textos encontrados nos documentos assinados com a CDHU, e nem mesmo esta buscou interfirir nesta prática contraditória.