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O primeiro desses conjuntos diz respeito a dados provenientes de estudos bioarqueológicos, os quais, com base na análise de anomalias ósseas presentes em

indivíduos sambaquieiros, sugerem o estabelecimento de atividades náuticas ligadas à prática de mergulhos e à utilização de embarcações a remo. Especificamente em relação às anomalias, essas podem ser de três tipos: exostoses auriculares (anomalias ósseas que se formam na base do canal auditivo externo), modificações nas estruturas de inserção dos feixes musculares e desgastes ósseos irregulares.

Segundo Okumura et al (2006) e Schell-Ybert et al. (2003), as exostoses auriculares estão relacionadas, principalmente, a constantes imersões em águas frias e salgadas ou exposição ao vento. O que indicaria certa adaptabilidade e domínio de técnicas associadas ao mergulho livre por parte dos sambaquieiros. Ao analisar as exostoses do sambaqui Jabuticabeira II (em Santa Catarina), Okumura (op. cit, p. 275) indica que tais anomalias seriam mais comuns em indivíduos do sexo masculino. Estabelecendo, também, uma possível associação da prática dessas atividades náuticas a questões de gênero.

Auditory exostoses can be interpreted as an indicator of sex specific activities in the Jabuticabeira II population. A higher frequency of auditory exostoses in men than women was observed in this and other Sambaquis populations (MENDONÇA DE SOUZA, 1995). This type of exostoses is reported to be caused by frequent dives in cool (CHAPLIN e STEWART, 1998; KENNEDY, 1986) or salt water (PEIXOTO, 1989) and may therefore be related to the people´s subsistence strategies. In several other populations, high frequencies of this trait are found in the sex which is responsible for the capture of aquatic resources (KENNEDY, 1986; STANDEN et al, 1997). This might also be true for the Sambaqui people (OKUMURA et al, 2006).

No que tange à modificação das estruturas de inserção dos feixes musculares e dos desgastes ósseos irregulares, Carvalho (2004) aponta uma associação dessas anomalias à prática de atividades ligadas à natação, à utilização de remos (em pé e sentando) e, indiretamente, à fabricação de canoas.

Com base na análise das articulações de sambaquis de Santa Catarina e do Rio de Janeiro, Carvalho (op. cit, p. 152) aponta que os conjuntos articulares mais afetados são, respectivamente, pulso e cotovelo. Entre as populações pré-históricas, segundo a autora, o grande acometimento do pulso deve estar ligado,

principalmente, a movimentos que envolvam ao mesmo tempo, firmeza, e mobilidade da região, [...], como, ocorre, por exemplo, na confecção de artefatos

(polimento, raspagem), em atividades envolvendo redução de matéria-prima ou

[na preparação] de alimentos (raspagem, moagem). Atividades também realizadas ao longo do processo de fabricação de canoas e embarcações.

No caso do estresse articular do cotovelo, o mais provável é que estaria associado ao transporte de peso ou à flexão/extensão do antebraço contra algum

tipo de resistência, como pode ocorrer na remada e no arrastar redes, por exemplo

(CARVALHO, op. cit, p. 152).

A seguir ao pulso e ao cotovelo, a articulação que apresenta maior desgaste é a do ombro. Embora em segundo plano, entende-se, com base no resultado dessas análises, que tais alterações articulares indicam também certa relação com a prática de atividades náuticas (arremesso de arpões e lanças), a fabricação de canoas (machados e enxós5) e aquelas relacionadas aos ambientes aquáticos (natação), pois:

O ombro é particularmente sensível a atividades que envolvam movimentos de grande extensão acima da cabeça como o arremesso de objetos, a natação moderna e a aplicação de diferentes golpes acompanhados de ferramentas diversas (como machados, marretas, porretes, etc.) e associados a movimentos amplos (CARVALHO, op. cit., p. 155 apud WHITING e ZERNICKE, 2001).

O tornozelo foi uma das articulações menos afetadas nas séries estudada e,

como possui [...] um papel imprescindível na marcha e no suporte do peso corporal (CARVALHO, op. cit., p. 156), a autora sugere que possa ter havido um menor esforço decorrente de atividades de caminhada em relação à utilização de embarcações.

No que tange aos marcadores de estresse muscular, Carvalho aponta a manutenção do mesmo padrão, que, de uma maneira geral, está relacionado a uma maior utilização dos membros superiores em relação inferiores. Nos membros superiores, movimentos envolvendo o conjunto braço/ombro devem ter sido

freqüentes em todas as séries, enfatizados pelo desenvolvimento da inserção do deltóide e peitoral maior. Segundo a autora, o desenvolvimento das áreas

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Ferramentas normalmente utilizadas para a escavação do interior de canoas monóxilas (ver figura 6.22).

correspondentes de fixação muscular está associado a diversas atividades como [...]

a utilização de remos duplos, a retirada de peles animais, ao manuseio de ferramentas como machados [para a fabricação de canoas], enxadas, picaretas, à utilização de grandes pilões, na natação (especialmente nos movimentos da natação moderna), no lançamento de objetos, entre outros (CARVALHO, op. cit., p.

156).

Outro músculo bastante solicitado foi o bíceps, o qual também está relacionado à utilização de remos. Capasso (1999) e Carvalho (op. cit, p. 162 apud Hawkey e Merbs, 1995) apontam que o desenvolvimento [...] bilateral desse músculo é

freqüentemente relacionado ao carregamento de pesos com o braço flexionado e a utilização de remos duplos. A atividade – remada – também é indicada em

conseqüência dos índices de robusticidade obtidos nos sambaquieiros em relação ao músculo pronador quadrado. A autora relaciona, ainda, a utilização desses músculos em atividades ligadas ao [...] processamento de alimentos pela moagem

ou raspagem, ao polimento de diferentes artefatos [como as laminas de machado] e a outros movimentos que podem ser realizados com o cotovelo flexionado e o antebraço em pronação.

No caso do tríceps, [...] mais uma vez o manejo de remos pode ser uma

explicação6, juntamente com a utilização de [...] machados, [...] lanças longas ou

arpões, acompanhados de um arremesso rápido e a pouca distância do alvo, o que

poderia ser associado a pesca em águas calmas e com boa visibilidade

(CARVALHO, op. cit., p. 163). A autora chama a atenção, ainda, para:

[...] o uso de embarcações que se utilizassem de longas hastes como propulsores [para jangadas e canoas] e remos, tipo de transporte comum em águas calmas e com poucas correntes, onde o condutor geralmente se posiciona de pé e o esforço é compartilhado entre ambos os braços. Não se deve descartar, porém, o emprego de machados (CARVALHO, op. cit., p. 163).

6 A extensão do antebraço contra resistência pode ocorrer, por exemplo, em contraposição à flexão

do braço oposto na remada e na manutenção do equilíbrio e mudanças de orientação da embarcação, que estariam em concordância com a navegação em águas agitadas e com correntes fortes (CARVALHO, op. cit., p. 163).

Embora essas evidências tenham sido aqui apresentadas como uma tendência geral entre os sambaquieiros, Carvalho (op. cit.) destaca que ocorrem diferenças entre os diversos sítios, apontando certa diversificação das atividades entre os conjuntos regionais de sítios e, em um mesmo sítio, entre homens e mulheres.

A maior solicitação do extensor radial longo do carpo nestas séries é uma característica masculina. Este músculo estende e abduz o punho (desvio radial), ajuda a flexionar o cotovelo e é importante na preensão de objetos (Palastanga et al., 2000). Esta última poderia ter sido sua função principal nas séries fluminenses, já que as alterações nas articulações também apontam para uma sobrecarga nos pulsos e nas mãos. O manuseio e transporte de objetos pesados, associados a outras atividades onde a preensão firme fosse requerida, explicariam a grande utilização desse músculo. É possível ainda sugerir que a confecção de determinados artefatos fosse atribuição masculina, como, por exemplo, o preparo de peças líticas (CARVALHO, op. cit., p. 164).

O abdutor longo do polegar foi muito solicitado entre as mulheres do Sambaqui da Beirada. Este músculo abduz, aduz e opõe o polegar, sendo também flexor do punho (Palastanga et al., 2000). Com uma ação importante na oposição do polegar, provavelmente estava envolvido em alguma atividade motora fina que implique na movimentação intensa deste, como em movimentos relacionados ao trabalho em fibras, na cestaria, na confecção de redes, esteiras, adornos (especialmente de pequenas dimensões), e outros artefatos (CARVALHO, op. cit., p. 164).

Em geral, as atividades que demandam maior esforço físico foram realizadas por homens, com algumas possíveis exceções. Parecem ter sido atividades masculinas o uso de redes de pesca, o transporte de grandes quantidades de matéria-prima lítica, o uso de embarcações, a coleta de madeiras para confecção destas embarcações e de estruturas habitacionais, a confecção, pelo menos em parte de peças líticas, entre outras. É necessário lembrar essas atividades poderiam ser também executadas pelas mulheres, porém em menor escala (CARVALHO, op. cit., p. 170).

Um padrão que nos faz refletir não somente a respeito da diversidade e especialização de comunidades marítimas, litorâneas e fluviais em relação à prática da navegação, mas, também, quanto ao estabelecimento de diferentes funções e especialidades entre indivíduos de uma mesma comunidade, sugerindo, assim, diferenças de atividades ou demandas entre indivíduos de mesma idade, de idades diferentes e entre homens e mulheres.

Esta variabilidade é facilmente observada, por exemplo, pela persistência de indivíduos com o mesmo nível de comprometimento em diferentes intervalos etários, sugerindo que as demandas exercidas sobre as articulações não eram as mesmas para todos os indivíduos. Isto é, as

atividades, ou pelo menos a carga de esforço solicitada por estas era desigual entre os sexos e entre os indivíduos do mesmo sexo (CARVALHO, op. cit., p. 168).

Ao concluir sua análise, a autora indica, ainda, que o esforço dedicado à

utilização de arpões, propulsores, arcos, lanças e etc., não sobrepujou o esforço dedicado a atividades como o uso de embarcações e redes de pesca (CARVALHO, op. cit., p. 170). Sugerindo que, embora todas as comunidades sambaquieiras

tenham mantido contato com os ambientes aquáticos, tal relação não tenha se dado apenas a partir de suas margens. É provável que, efetivamente, os sambaquieiros tenham rompido o limite terra-mar, aventurando-se em meio às águas lagunares e costeiras.

Benzer Belgeler