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Voltando ao trabalho de Berlinck (1996) e Torres Morais (2007), as autoras afirmam que em PE o que diferencia os complementos dativos dos acusativos é substituição dos mesmos por clíticos acusativos e dativos respectivamente:

(139) a.Maria não ama ao Pedro. b. Maria não o ama.

c. *Maria não lhe ama.

(140) a. Maria transferiu a responsabilidade ao Pedro. b. Maria transferiu-lhe a responsabilidade.

Essa assunção é confirmada por Gonçalves & Raposo (2014), na qual os autores fazem a seguinte afirmação:

Do ponto de vista funcional, o complemento que não é introduzido por uma preposição (pelo menos tipicamente, cf.28.1.3.1.1) e que pode ser substituído por um pronome clítico acusativo (me, te, o, a e variantes plurais) chama-se complemento de objeto direto41 (ou apenas objeto direto ou

complemento direto): p.e., os artistas em o Pedro cumprimentou os artistas, ou o pronome os em o Pedro cumprimentou-os.

O complemento introduzido pela preposição a e que pode ser substituído por um pronome clítico dativo (me, te, lhe e variantes plurais) chama-se complemento de objeto indireto (ou apenas objeto indireto ou

complemento indireto: p.e., à Ana em O Pedro deu os bombons à Ana ou o

pronome lhe em O Pedro deu-lhe os bombons.

(Gonçalves & Raposo 2014:1158)

O principal critério de classificação do complemento indireto de 3a pessoa como dativo, portanto, é a possível substituição do mesmo pelo clítico dativo lhe(s). Logo, o fato deste clítico ter desaparecido do inventário dos falantes de português é relevante para compreensão da mudança em questão neste trabalho. Diversos estudos já

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124 confirmaram quantitativamente essa perda (cf. Ramos 1999; Freire 2000, 2005; Gomes 2003; Torres Morais & Berlinck 2006, 2007).

Freire (2000), ao analisar um corpus falado de PB do Rio de Janeiro e PE, verificou que, no PB, o argumento indireto de 3a pessoa é predominantemente expresso pela preposição acompanhada de um pronome lexical – em 57% dos seus dados. Além disso, as outras ocorrências registradas pelo autor são de OIs nulos e SNs anafóricos. Importante ainda ressaltar que o autor não encontrou nenhuma ocorrência de OI clítico de 3ª pessoa, o que está de acordo com os resultados obtidos em outros trabalhos, e no corpus que analisei.

Um aspecto fundamental dessa reanálise foi a gramaticalização do pronome de tratamento você(s), como pronome pessoal de 2ª pessoa com a eliminação do pronome de 2ª pessoa tu na maioria das regiões do Brasil (cf. Tarallo, 1993; Duarte, 1995)42

Consequentemente, houve redução no paradigma flexional verbal em PB. Acredita-se que esse fato gerou uma mudança significativa na sintaxe tanto dos pronomes com função de sujeito quanto de objeto, uma vez que o pronome você pode atuar tanto como argumento externo quanto interno do evento.

No mesmo movimento dos rearranjos pronominais, foram afetados os clíticos acusativos e dativos de 2ª e 3ª pessoas. O clítico acusativo te alterna com a forma você na posição de objeto direto. Além disso, observa-se que a mudança na segunda pessoa comprometeu também a realização dos complementos de 3ª pessoa, pois, como mencionado anteriormente, o clítico dativo lhe não é mais usado para se referir a 3ª pessoa e passa a ser uma forma sincrética de 2ª pessoa usada tanto como acusativo (141) ou dativo (142), da mesma maneira como as forma de 1ª pessoa do singular me e do plural nos (cf. Oliveira 2003; Figueiredo Silva 2007):

(141) Eu lhe vi ontem.

2SG. AC

(142) Eu lhe enviei a carta. 2SG.DAT

De acordo com Oliveira (2003:6), devido à falta de distribuição harmônica entre os pronomes acusativos de 3ª pessoa que possuem marca de gênero e os de 1ª e 2ª

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É importante lembrar que há regiões em que o pronome tu ainda é utilizado como 2ª pessoa do singular, porém com a conjugação verbal de terceira pessoa do singular.

125 pessoas que não de um lado e com a perda dos clíticos acusativos de outro, não há uma representação pronominal de 2ª pessoa com uma forma pronominal de 3ª.

O único clítico que apresentava traço [+humano] sem marca de gênero era o dativo lhe. Logo, essa pode ser uma das razões para a sua reanálise, uma vez que esse clítico passar a se referir a 2ª pessoa, independentemente da transitividade do verbo. Segundo a autora, o uso do clítico lhe(s) como 2ª pessoa para verbos transitivos diretos aparece em diversas regiões do Brasil, mas com mais relevância nas regiões do nordeste. Oliveira (op. cit.) afirma ter verificado em seu corpus um alto índice de uso de objetos diretos preposicionados nos dados da Bahia no século XIX. Esse fato confirmaria a correlação entre os OD preposicionados – que no século XIX era favorecido pelo traço [+humano] (cf. Oliveira 2003:5) - e o clítico lhe(s).

No âmbito dos pronomes pessoais houve, ainda, a gramaticalização da expressão nominal a gente como 1ª pessoa do plural, porém com concordância verbal de terceira pessoa do singular. Logo, a expressão a gente alterna com o pronome pessoal forte nós na função de sujeito, enquanto o clítico acusativo de 1ª pessoa do plural nos também se encontra em variação com a gente na posição de complemento.

Tendo em vista essas mudanças, o quadro dos pronomes pessoais em PB passa a ter a seguinte configuração:

Quadro 1. Quadro de pronomes do português brasileiro

1a pessoa 2apessoa 3a pessoa

Forte/Fraco Clítico Forte/Fraco Clítico Forte/Fraco Clítico

Sujeito eu a gente (pl) nós (pl) -- (tu) você vocês (pl) -- ele (masc) ela (fem) eles (pl) elas (pl) -- Objeto Direto a gente (pl) nós (pl) me nos (pl) Você vocês (pl) te lhe ele (masc) ela (fem) eles (pl) elas (pl) -- Objeto Indireto para/a gente (pl) nós (pl) me nos (pl) para/a você vocês (pl) Te Lhe para/a ele (masc) ela (fem) eles (pl) elas (pl) --

126 (Adaptado de Torres Morais & Salles 2010:192)

Como discutido anteriormente, os clíticos de 1ª e 2ª pessoas continuam sendo utilizados em todas as regiões do país, porém o uso do clítico dativo lhe caiu substancialmente, como notados pelos estudos mencionados anteriormente43. Freire (2000) e Gomes (2003), por exemplo, notaram essa mudança em seus trabalhos baseados em corpora de língua falada, porém podemos afirmar que essa mudança já passou para a língua escrita na região estudada, como é possível verificar através do resultado obtido na análise do corpus do presente estudo, reproduzido no gráfico abaixo:

Gráfico 16. Ocorrência do clítico dativo lhe(s)

Nos dados analisados, há 51 ocorrência de lhe na década de 20, exemplo (143), enquanto que a quantidade cai para apenas uma única ocorrência nos anos 2000, sentença (144).

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De acordo com Galves (s/d:4) a variabilidade de concordência verbal em PB afetou os traços de pessoa. Assim, como o uso do pronome tu não depende somente de fatores sócio-culturais como de fatores regionais, o mesmo acontece com o lhe de segunda pessoa. Assim, o clítico lhe de 3ª pessoa passou a ser utilizado como um equivalente a forma você, ambos com uso de 2ª pessoa e, segundo Galves, consequentemente, lhe e te variam livremente. Da mesma forma, os pronomes possessivos ‘teu’ e ‘seu’ também variam na referência a você – 2ª pessoa. Por fim, os possessivos ‘seu’ e ‘dele’ variam livremente também como referentes de 3ª pessoa, assim, nota-se que há uma variação livre em PB entre 2ª e 3ª pessoas. Resumidamente, com a ausência da 2ª pessoa no paradigma verbal, 2ª e 3ª pessoa não mais se distinguem no sistema pronominal do PB, o que, faz com que PB tenha um sistema pronominal binário com um valor [+] correspondendo à 1ª pessoa e um valor [-] para o restante.

0 10 20 30 40 50 60 20 30 40 50 60 70 80 90 2000 lhe(s)

127 (143) (...) a França abriu-lhe os braços para dar-lhe o nome de filho.

(1/8/1927)

(144) (...) o candidato republicano vencia em 16 Estados o que lhe dava apenas 139 votos.

(05/11/2008)

Conclui-se, portanto, que o PB realmente perdeu a expressão morfológica do dativo de terceira pessoa, sendo que, diferentemente do que se verificou para a preposição a, nem a escola é capaz de recuperar o uso desse clítico.

Benzer Belgeler