(Referência principal: 5ª Carta: Instintos secretos. / Anexo 5).
Se na carta anterior Dom nos fala de sua decepção ao ganhar brinquedos não desejados, na quinta carta nos trará outra dimensão de brincadeiras, essas bem mais prazerosas para nosso colaborador, justamente por se vincular ao universo feminino. Entretanto, o que lhe instiga é poder desempenhar sua condição masculina ao iniciar jogos sexuais com suas primas e vizinhas. Afirma: “Era muito bom brincar naquela água suja, a água me dava uma sensação de poder e liberdade, nossos corpos se encostavam e a pele escorregadia das meninas me causava arrepios e desejos”. (ANEXO 5).
Essa vivência lhe permitirá dar materialidade ao gênero identificado ao se reconhecer sexualmente despertado pelo gênero feminino. Relata que desde menino sente forte desejo pelas meninas e mulheres que circulam em seu meio. Vê-se atraído pelas clientes da tia costureira, seu divertimento “passou a ser espiar no buraco da fechadura aquelas mulheres fazerem as provas de suas vestes”, e aos poucos intensifica seu interesse por cada detalhe da estética do corpo feminino. Por exemplo, nos relata que:
Passar bronzeador nas costas dessa prima que tinha cerca de nove anos a mais que eu, era um misto de tortura e prazer. Aquelas sardas espalhadas na pele branca e aqueles seios pequenos escondidos no biquíni me roubavam a paz. Ficava imaginando sua nudez completa, me despertando, assim, um forte desejo sexual (ANEXO 5).
As narrativas a que nos propusemos analisar, entre elas, as de Dom, nos permitem tecer aproximações com a história de vida de Sillvyo Luccio. A qual tomamos conhecimento por meio do documentário brasileiro Olhe para mim de novo, dirigido por Kiko Goifman e Claudia Priscilla, lançado em 2011. Entre outras narrativas, apresenta a história do personagem principal, Sillvyo Luccio, que afirma ter nascido mulher, em algum momento se reconheceu como lésbica, e hoje se identifica como homem.
O documentário também discute os avanços tecnológicos e da genética no que se refere a seu uso para a vivência da sexualidade, reprodução, e sua apropriação por novas constituições familiares. Aborda outros territórios e segmentos minoritários, fazendo uma
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conexão, com particularidades e distanciamentos, entre as temáticas: transexualidade masculina, deficiências, albinismo, maternidade. Levanta um sutil argumento de que dores, sofrimentos, enfrentamentos, devem-se a contextos singulares, cada qual perpassado por suas marcas e possibilidades de tangenciar linhas de escape, rupturas e ressignificações.
De modo semelhante a João W. Nery, Jô Lessa, Anderson Herzer e Dom, Sillvyo Luccio é um homem trans. Vive hoje o trânsito de seu processo transexualizador, inserido no contexto cultural do sertão nordestino, em uma pequena cidade do interior. Uma cultura fortemente impregnada pelo machismo, misoginia e sexismo, e é nessa realidade que passa a se reconhecer com homem transexual e a enfrentar os choques com familiares e sociedade no geral em decorrência do processo transexualizador.
Igualmente, Dom também se encontra inserido em uma cultura machista de um pequeno município do interior, marcada pelo regionalismo agropecuário, pela centralidade de valores morais tradicionais e conservadores.
Por essa particularidade encontramos, tanto nas narrativas de Dom, como nas de Sillvyo Luccio, a necessidade de constituir uma masculinidade marcada pela centralidade do que é ser homem inserido em parâmetros normativos, assim como sob a influência do regionalismo cultural de municípios agrários, marcados pela cultura rural. A qual ressalta o poder do homem como mantenedor da família heterossexual.
Transcrevemos do documentário Olhe para mim de novo uma fala de Sillvyo Luccio a respeito de experiências vividas em sua infância; expõe:
Desde criança eu sempre tenho uma história para contar com uma menina. Eu sempre encontrava uma sonsinha, mais safadinha do que eu, para deixar eu beijar na boca, para deixar eu pegar no peitinho, para deixar eu amassar, e realizar os desejozinhos dela e os meus, que não eram pequenos, nem poucos. (OLHE PARA MIM DE NOVO, 2013, s. p.).
De modo muito semelhante encontramos nos relatos de Dom a mesma descrição dos jogos sexuais iniciados com a prima. Afirma:
A brincadeira de casinha com a prima acendia um fogo embaixo do cobertor e tudo ficava real. Os beijos, os abraços e as minhas mãos buscando conhecer a geografia daquele corpo colado ao meu. Nossa respiração falhava. O desejo de tocar a pele dela se agigantava e o prazer de tirar suas peças íntimas se transformava em chamas incontroláveis. (ANEXO 5).
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A partir dos excertos de Dom e Sillvyo Luccio é possível percebemos uma elaboração da masculinidade articulada ao modo de atuar diante do corpo feminino, que longe de estar inserido em uma ordem biológica, natural e essencializada, está inserida na ordem do discurso, e do “dispositivo da sexualidade”, segundo propõe Foucault (2010a).
Ainda na infância, os aspectos da sexualidade já se engendram por influência de um minucioso regime político de como ser homem, a partir de um modelo de masculinidade fortemente atrelado pelos pressupostos heterocêntricos.
Na elaboração de brincadeiras com as primas e vizinhas/os, Dom nos relata que: se “inspirava nas novelas da época e criávamos histórias para serem representadas, dignas de folhetim global, com beijos na boca e abraços, tudo bem escondido...” (ANEXO 5). A referência tomada para as brincadeiras é um modelo discursivo presente nas mídias, famílias, igrejas, o qual propaga os postulados de uma sociedade heterocentrada, e produz, na perspectiva de Andrea Braga Moruzzi, as relações entre infância e gênero segundo um “padrão adultocêntrico e androcêntrico”, uma vez que:
Estimula-se neles um comportamento que ostenta a sexualidade, a virilidade e a demonstração constante de masculinidade, esta relacionada à força física, a não passividade diante das meninas e ao controle das emoções (não chorar, não se afetuar pelas meninas, não se deixar dominar por elas). Por outro lado, estimula-se nas meninas comportamentos que representam a feminilidade, como por exemplo, a passividade diante dos meninos, a meiguice, a ajuda nas tarefas domésticas e especialmente, um comportamento negativo diante da sexualidade (MORUZZI, 2010, p. 5)
Em outro excerto, Dom indica que ao brincarem de casinha as dinâmicas de arranjos familiares não estavam isentas das influências políticas do sexo e gênero, segundo propõe Preciado (2014). Dom relata:
As divisões de papéis nessas brincadeiras eram bem estipuladas. O homem, o chefe, o pai na casinha, sempre era eu; a prima, à mãe, uma das vizinhas, nossa filhinha, e as outras duas juntamente com o amigo, faziam outro casal e sua filhinha, e assim se dava a brincadeira (ANEXO 5).
É possível observarmos por meio de nossas análises realizadas no Capítulo 2, a respeito das narrativas de Anderson Herzer e Jô Lessa, durante o período em que foram internos da FEBEM, uma íntima relação com os relatos de Dom. De modo similar discorrem sobre as regras utilizadas pelas/os internas/os da FEBEM para simularem arranjos familiares, ou seja, com a presença do paizão, a mulher do paizão, e seus/as filhos/as. O modelo de família heterossexual nuclear é a norma e parâmetro a ser seguido.
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Louro (2013a) recorda a partir da História da sexualidade de Foucault, que este “não pretendia escrever uma arqueologia das fantasias sexuais, mas sim uma arqueologia do discurso sobre a sexualidade...” (LOURO, 2013a, p. 32). Tomando como referência a necessidade de descontruir os discursos e verdades naturalizadas sobre os corpos, sexualidades e gêneros, observamos que os relatos de Dom, João Nery, Lessa, Herzer, e Sillvyo Luccio, buscam, recorrentemente, ressaltar aspectos da virilidade masculina, do desejo sexual intenso pelo sexo feminino. Da postura ativa que um homem deve, supostamente, desempenhar.
O que mais uma vez enfatizamos, sem pretender questionar o lugar e condição do desejo e fantasias sexuais, próprias de cada sujeito, é que esses não são neutros. Antes, marcados pelo sistema biopolítico, conforme coloca Preciado (2014); pelos discursos, silêncios e práticas institucionais, segundo destaca Louro (2013a).
Podemos inferir, desse modo, que a infância dos meninos transexuais sofre um duplo investimento, por um lado, a negação social do gênero identificado, nesse caso o gênero masculino, mas por outro, ainda que de maneira silenciosa, a incorporação dos modos hegemônicos do que significa ser homem. Segundo Richard Parker:
O que significa ser macho ou fêmea, masculino ou feminino, em contextos sociais e culturais diferentes, pode variar enormemente, e a identidade de gênero não é claramente redutível a qualquer dicotomia biológica subjacente. [...] É através desse processo de socialização sexual que os indivíduos aprendem os desejos, sentimentos, papéis e práticas sexuais típicos de seus grupos de idade ou de status dentro da sociedade, bem como as alternativas sexuais que suas culturas lhes possibilitam (PARKER, 2013a, p. 135)
Dito de outra forma, podemos afirmar que desde a infância nossos colaboradores passam a ter em seus corpos, mentalidade, emoções, linguagens, comportamentos, um investimento do que é ser homem, ou um homem de verdade. Ainda que um investimento clandestino, ou realizado de maneira transversal. Entre tais incorporações, está ser o homem garanhão, pegador, machão, ou, conforme relata Herzer: o paizão, ou, o galo. Para Dom: “Era como um jogo de caça, onde eu era somente o caçador e ela sempre a caça, nunca consegui inverter esses papéis” (ANEXO 5).
Nesse momento, as palavras de nosso colaborador evidenciam um discurso e um saber recorrente que busca produzir a subjetividade feminina com atributos opostos àqueles tidos como próprios ao universo normativo da masculinidade. Ou seja, à condição feminina reserva-se um lugar de submissão, fragilidade, sensibilidade, emotividade; um
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corpo vulnerável, uma vez reconhecido como presa, e suscetível ao prazer e domínio masculino, disponível ao poder e agilidade do caçador, nesse caso, o macho.
O documentário Eu sou homem, sobre relatos de transhomens, produzido pelo
Coletivo de Feministas Lésbicas/Minas de Cor, em 2008, sob a direção de Márcia Cabral, traz, entre outras, a seguinte fala de Régis Vascon: “Eu acho que esse jogo de sedução é importante! Na verdade eu sou um conquistador, eu sempre fui. Né?! Eu gosto da caça, eu sou um caçador!” (EU SOU HOMEM (DOCUMENTÁRIO..., 2016, s. p.). Régis e Dom utilizam, mesmo sem se conhecerem, a mesma analogia do homem caçador, ativo. O que se nota é que a ordem discursiva propaga-se em seu caráter produtivo, político, interessado em governar as condutas, corpos, subjetividades. Nesse caso o discurso se organiza, segundo Foucault, em “Procedimento internos, visto que são discursos eles mesmos que exercem seu próprio controle...” (FOUCAULT, 2010, p. 21), Os sujeitos
FtM acabam introjetando os códigos da masculinidade hegemônica, aprendem em uma linha de aproximação com os homens, assim assignados ao nascerem, que ser homem é ser ativo, másculo, caçador.
De maneira muito semelhante, Sillvyo Luccio, no documentário Olhe para mim
de novo, também apresenta uma analogia em que a mulher é apresentada como uma caça, a qual deve ser sutilmente atraída para que possa ser capturada e levada à panela. De modo descontraído, reforçando a autêntica masculinidade nordestina, Sillvyo Luccio afirma:
Eu jogo ração pros pombos, xerém, na calçada. Aí o pombo vem e come, aí eu jogo e entro, aí o pombo vem e come, e vai embora. Noutro dia eu jogo de novo, aí o pombo vem e come, e eu me retiro. No terceiro dia eu já não me retiro, eu jogo e fico, aí o pombo vem mais receoso, come o xerém e me vê, e a partir daí eu passo a ficar, eu jogo, por algumas vezes, mais algumas vezes, e contínuo ficando; gera uma intimidade com o pombo, e eu posso pegá-lo com a mão e ele não voa. Assim é a mulher, você joga o xerém (risos)... Olha a expressão, né?! Você joga alguma coisa aqui, ela vem belisca, você se afasta. A partir daí, depois, é que você... quando se gera aquela confiança, com a mulher já é uma confiança, né?! Aí ela já não foge de você, aí você vai e leva pra panela (OLHE PARA MIM DE NOVO, 2013, s. p.).
Há uma aberta referência à relação de poder, onde o corpo feminino é subjugado pela supremacia da lógica patriarcal; há uma relação assimétrica e hierárquica de construção social da masculinidade e feminilidade. Demonstram acreditar ser preciso, desde cedo, estampar virilidade, especialmente quando se é um homem que ocupa um território da menoridade, ou seja, das masculinidades desviantes. Os discursos, ditos e
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não ditos, parecem informar, já na infância de nossos colaboradores, a existência da construída:
... superioridade masculina sobre as mulheres e, por outro lado, normatiza o que deve ser a sexualidade masculina, produz uma norma política andro- heterocentrada e homofóbica que nos diz o que deve ser o verdadeiro homem, o homem normal. Este homem viril na apresentação pessoal e em suas práticas, logo não afeminado, ativo, dominante, pode aspirar a privilégios do gênero (WELZER-LANG, 2001, p. 468).
Sabemos que na sociedade heterocentrada uma das estratégias clássicas para a exibição de uma masculinidade hegemônica, reconhecida pelos parâmetros do que seja um homem viril, é sua capacidade de atrair e se relacionar intensamente com o sexo oposto. Quanto mais mulheres um homem se cercar, mais estará atestando sua masculinidade. Não por acaso encontramos, desde o berçário, ditados populares machistas. Por exemplo, é comum em nossa cultura, um homem e pai, afirmar em tom de piada a seguinte expressão: segura suas cabritas que meu bode está solto.
Essa estratégia do homem conquistador, Don Juan, sedutor, ajuda a naturalizar e reelaborar os pressupostos heteronormativos. Os homens trans ao trilharem rotas para a constituição de suas masculinidades não deixam de incorporar possíveis elementos dessa estratégia. Como salientam Alexandre Toaldo Bello e Jane Felipe:
Nesse jogo de construção da masculinidade torna-se importante discutir de que forma os processos homofóbicos vão se formando e se enraizando nas crianças e, também dessa forma, se espalhando para as mais diversas instâncias sociais. As manifestações homofóbicas vão sendo elaboradas a partir de um conjunto de conhecimentos que circula na relação adulto/criança, criança/criança, criança/escola, fazendo com que os sujeitos infantis introjetem esses saberes em suas vidas e valham-se deles para posicionarem-se em relação à matriz (FELIPE; BELLO, 2009, p. 145).
Os relatos, em especial de Herzer e Lessa, como também de Sillvyo Luccio, no documentário Olhe para mim de novo, nos levam a essa visão do homem garanhão. Por outro lado, percebemos tanto em Nery, quanto em Lessa, uma tentativa de desconstrução desse modelo hegemônico de masculinidade no referente à educação de seus filhos. Em diversos momentos João Nery nos fala que buscou educar seu filho com princípios diferentes daqueles da sociedade heterocentrada, afirma que tinha “preocupação em não tornar Yuri machista” (NERY, 2011, p. 261).
Ao ter acesso à leitura dos relatos de Herzer, Lessa, e ao documentário de Sillvyo Luccio, Dom sublinha que se sente muito diferente no que se refere às experiências
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sexuais, pois não se reconhece como um homem sedutor, mulherengo. Nesse sentido, afirma:
Minhas experiências sexuais foram poucas em função do processo de negação, construído ainda na pré-adolescência. Pensava que era impossível uma mulher se interessar por um tipo como eu, um homem com limitações sociais e físicas, devido ao nome e ao corpo de mulher (ANEXO 15).
Dom sente sua masculinidade diminuída por não possuir um corpo biológico masculino, assim como por ter um nome feminino; afirma possuir limitações, as quais compreende ser um impedimento para que possa se relacionar com maior número de parceiras. A sensação de Dom, entretanto, não é incomum quando falamos da transexualidade masculina, já que outros transhomens também expressam a mesma dificuldade, conforme aponta Ávila:
As dificuldades de se relacionar afetiva e sexualmente com as mulheres, para alguns transhomens heterossexuais, são devidas à idealização de um corpo masculino, uma vez que preferem iniciar um relacionamento mais estável quando se sentem mais seguros de sua masculinidade. [...] alguns só iniciaram relacionamentos sexuais e afetivos mais estáveis após se sentirem mais seguros quanto à construção de sua masculinidade, o que mostra que na transição de gêneros de transhomens está implicado o desejo por corpos considerados masculinos por potenciais parceiras sexuais e /ou afetivas (ÁVILA, 2014, p. 224).
A ditadura da masculinidade ideal, viril, potente, ativa, dominante, parece produzir, nesse sentido, tanto para os homens trans, como para homens não trans, marcas de um duplo ou complementar viés. Por um lado a necessidade imperativa de se constituir a partir desse agenciamento normativo, mas por outro, o temor de não alcançar tais patamares de perfeição e idealização designados para a figura masculina. Se na sociedade heterocentrada, ser homem é ser amado e desejado pelas mulheres, ter a sensação que seu corpo, pênis, comportamento, ou postura masculina não cumpre os protocolos anunciados pelas diferentes instituições sociais é motivo de pânico e sofrimento. João Nery compartilha a mesma sensação ao afirmar que “Novamente o pesadelo de que as mulheres não poderiam se sentir atraídas por mim começou a me estrangular” (NERY, 2011, p. 98).
A angústia, medo da rejeição e a necessidade que muitos transhomens possuem de exercer suas expressões de masculinidades de maneira hegemônica deve-se ao fato de já sofrerem o estigma decorrente da subversão biológica dos gêneros. O que não significa
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que tenhamos aval para culpabilizar qualquer modo de existência das masculinidades trans. Não esperamos encontrar uma forma correta, adequada, homogênea, já que encontramos múltiplas expressões de transmasculinidades, e todas elas, de alguma maneira enfrentam variadas dores e cicatrizes ao terem que afirmar uma masculinidade tida como abjeta no bojo de uma sociedade perversamente heterocentrada.
Simone Ávila (2014) em suas apreciações sobre os relatos de Sillvyo Luccio, no documentário Olhe para mim de novo, afirma que muitas pessoas consideraram suas falas, quando se refere à mulher, machistas, assim como outros transhomens também relataram que “... se sentiram incomodados com essas cenas e chamaram Sillvyo de ‘machista’” (ÁVILA, 2014, p. 171). O que de algum modo também analisamos, mas ressalvamos o fato de sua fala e postura não serem essencializadas por um núcleo identitário naturalizado, antes, fruto de uma produção minuciosa, de uma obra realizada por uma sociedade heterocentrada, a qual os homens trans não estão isentos.
Ávila (2014) compartilha uma fala de Sillvyo emitida durante um debate em Gramado, após a exibição do documentário em que é protagonista. Sillvyo responde a intervenção de uma mulher que o chamou de machista e disse sentir-se desrespeitada em relação ao documentário. Ávila apresenta-nos a exposição de Sillvyo Lucio:
... eu não podia representar o homem perfeito. Eu não sou ator. Eu não sou perfeito. Eu sou um cara cheio de cicatrizes feitas exatamente por pessoas que tem um comportamento do ‘correto’, dos que acham que estão com a ‘verdade’ e com o ‘certo’. Porque acham que eu sou uma aberração, uma ‘sem- vergonhice’, como dizem lá no nosso nordeste. Eu sou o incorreto, eu sou o imperfeito. Eu sou aquilo que ninguém gostaria de ter como filho ou como filha porque eu tenho uma indefinição (FESTIVAL DE CINEMA..., apud ÁVILA, 2014, p. 171).
Em outras palavras, Sillvyo Lucio afirma que sua masculinidade não está comprometida com o politicamente correto, com uma suposta masculinidade verdadeira, especialmente porque ele se considera imperfeito, repleto das marcas da violência e preconceito social inscritas em sua pele.
Sua fala nos mostra como corremos o risco de recairmos em julgamento e culpabilização ao acreditarmos que todos os homens trans, por terem o desejo intenso e urgente de afirmarem as expressões da masculinidade, devam fazê-lo de maneira universal e fidedigna a uma suposta masculinidade verdadeira. Conforme discorremos no Capítulo 1, essa é uma produção dos saberes médicos, psicológicos, políticos de toda uma maquinaria e sistemas interessados em reiterar uma verdade única e permanente sobre
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masculinidade e feminidade. Entretanto, essas são frágeis como castelos de areia, para se manterem em pé precisam, continuamente, ser produzidas, pois, se não o fizerem, a força da maré normativa não hesita em tragá-las mar adentro.
Outro aspecto que gostaríamos de retomar é o fato de que embora nosso colaborador e os demais transhomens a que nos dedicamos a analisar seus relatos sejam heterossexuais, essa não é uma regra das transmasculinidades. Essas são plurais, transitórias, marcadas pelas mais diferentes nuances. No que diz respeito à orientação sexual reafirmamos que muitos homens trans são homossexuais, uma vez que “... não se pode derivar daí que todas as mulheres e os homens transexuais sejam heterossexuais, afinal o fato de mulheres e homens transexuais assumirem a homossexualidade desfaz qualquer possibilidade de se produzir esta inferência” (BENTO, 2008, p. 57).
Como menino transexual e aos poucos se identificando como heterossexual, as primeiras experiências, ou jogos sexuais de Dom, ainda em sua meninice, foram vividos, em certa medida, com a mesma liberdade e desprendimento de Macunaíma. O herói