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4. BULGULAR, TARTIŞMA, SONUÇ VE ÖNERİLER

A “confirmação, o acordo” entre esses sujeitos diferentes avoluma-se à medida que as lembranças vão brotando. “Para localizar uma lembrança não basta um fio de Ariadne; é preciso desenrolar fios de meadas diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos, é um ponto complexo de convergência dos muitos planos do nosso passado” (BOSI, E. 1994, p.413).

As “meadas” do processo de produção do folheto vão se desdobrando através das falas.

As duas vozes dignificam um cotidiano relevante, constituem o testemunho de um tempo coletivo que permaneceu. As lembranças, sobretudo as de Dona Zuzinha, estão pontuadas de hesitações, de silêncios porque debruçam-se sobre o fluxo do vivido e este requer pausas, momentos em que se fala consigo próprio.

A memória é a faculdade épica por excelência. Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água irisada que, nômades, passamos do côncavo de uma para outra mão. A história deve reproduzir-se de geração a geração, gerar muitas outras, cujos fios se

cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos (BOSI, E. 1994, p.90).

Ao ouvir a memória de Dona Zuzinha e de Maria do Socorro traduzidas em palavras, fui impelida a buscar ‘outros fios’ que prolongassem esse ‘mundo misturado’ entre gráfica e família puxados por outros dedos da mesma ou de outra geração. Esse processo possibilitado pela confluência de vozes é dialógico. Mesmo sabendo que estamos diante de juízos quase idênticos, “se esse juízo puder expressar-se em duas enunciações de dois diferentes sujeitos, entre elas surgirão relações dialógicas (acordo, confirmação)” (BAKHTIN, 1997, p.183-184). Rosangela – E como era o processo de fazer folheto?

- Primeiro era a composição das estrofes, fazia as estrofes... ... como é... tirava a impressão ... ... ... aí tinha a dobragem, que a gente ajudava na dobragem, na encadernação... Na dobragem era eu, quando eu chegava da escola eu ajudava... encadernação... (Dona Maria José)59

Rosangela – Quem fazia a composição?

- Olhe aqueles ali que tinham mais condições, que liam, que chegavam já com prática e tudo, iam compor.

Rosangela – Como era a composição?

- A composição era o quê? Era juntar aquelas letriiinhas, cada, você já viu, né? Aquele monte de letra em cada, vamos dizer, era um verdadeiro jogo de xadrez, uns tabuleiros assim grandes, todo cheio de pedaço... os pedacinhos, aquelas gavetinhas em miniatura que continham aquelas letras, né? Aí pronto, aquilo dali pra juntar, fazer as palavras, formar as palavras, já pensou, né, como era difícil!? Fazia a composição daquelas rimas, daqueles folhetos, né? O pior, o melhor é que aquilo dali, já pensou se fosse um jornal todo, as palavras, os textos enorme pra você juntar aquele monte de palavras, né? Pelo menos dava aquele espaço nas rimas, nos versos, né? nas estrofe... pois é...

Rosangela – Ai depois que preparava, essa, era uma chapa, era que preparava? - Era uma chapa.

Rosangela – Tinha pessoas pra fazer isso aí?

- Tinha a chapa. Já eram outros que se encarregavam disso aí... do chapeamento.

Rosangela – Pronto. Quem fazia o chapeamento? A senhora lembra de alguém? -Aí tinha era seu Zé Camilo, depois Expedito, pessoa que tinha, né? mais... ... mais cultura mais conhecimento, mais experiência ali dentro.

Rosangela – Ah! Sim

Rosangela – Aí depois que fazia o chapeamento, qual era o outro processo, o seguinte, o passo seguinte?

- Aí ia imprimir, a impressão,dava a parte da impressão movimentar as máquinas.... Tinha outros que se encarregavam... de cortar, né

Rosangela - Quem imprimia? - Mexer na guilhotina, né? Rosangela – Hum! Hum!

- A impressão, tinha um que tinha que segurar aquela parte, quando viesse aquela parte ali, num haver o empastelamento. Porque se não tivesse o cuidado,ó porque hoje tudo é moderno, moderníssimo, num é? Joga ali, quando sai, já sai não sei quantos mil impressos...num é?

Rosangela – Exato.

- E hoje ... aquilo naquele tempo...

Rosangela – Aí o que era o empastelamento?

- É porque se ele não aparasse, quem tivesse imprimindo, tinha que ficar tirando a folha, afastando com rapidez, com a rapidez precisa pra num empastelar, porque se juntasse uma na outra, ia ser prejuízo, não sei quantas folhas de prejuízo, aí o papel caro... aí a pessoa, né? tudo isso eu me lembro...

Rosangela – Aí então imprimia, já tinha outro pra ficar aparando. - Aparando, depois dobrando.

Rosangela – Hum...

- Já para dobrar que já ia para o que hoje se chama o acabamento. Rosangela – Certo, Hum!

Rosangela – Sei. Aí depois que dobrava ainda fazia o quê? - Já ia botar a capa, né?

Rosangela – Ia botar a capa. Como era que botava a capa?

Ah! Aí a capa era cortada e a pessoa colava. Usava, tinha um grude, uma espécie de... fazia uma pasta assim meio mole de goma, .... .... ... ...(com uma substância que usava.... ... ) pra não ser comido pelas baratas...

Rosangela - Ahhh! Tá certo. Humm....

Rosangela – Aí depois que colava, ainda tinha outra coisa pra fazer? - Aparar.

Rosangela – Aparar .

Rosangela – Aí depois de aparado... ia fazer o quê?

- Pronto... Aí ia contar, né? Pra fazer os pacotes... os pacotes para colocar nas ... ... ...nas estantes.

Rosangela – Fazia os pacotes com quantos folhetos?

- De cem, duzentos, era geralmente de duzentos, cento e cinquenta. Rosangela – Aí já ia vender?

- Era. Já dizia eu quero tanto. Boi Mandingueiro, João Grilo... Pavão Misterioso e assim por diante. E outros de dezesseis páginas... (D. Zuzinha)60

Rosangela – E qual era o processo todinho de, de, do folheto? Como era que começava?

- O processo do folheto... O processo do folheto... é tinha os tipos ... letrinha, eram feitos letrinha por letrinha, eu lembro muito bem disso, em tábuas, né? Tábuas rústicas... eram aquelas letras por letra ... o documento ali, aquilo tinha que ser escrito era colocado ali ... Depois ia para uma máquina, tinha uma máquina alemã, né? onde eram passados, né? ... tinha também uma outra máquina manual, onde eram também colocado ali eram passados... Era tudo feito assim de uma forma muito manual, muito rústica... Tinha duas máquinas enormes lá...E tinha essa outra manual... Eram muitos lugares assim, é, placas, onde tinha todas essas letras, né ? caixinhas pequenas com as letras que os meninos já de uma forma assim rápida já tiravam e já encaixavam e já colocavam tudo aquilo, né? E já iam passando... e tinha a revisão...

Rosangela – Como era a revisão?

- Passava numa máquina, tinha uma pessoa pra fazer a revisão pra evitar erros, né? Aquilo que tava errado já voltava pra ser retirado aquela letra e colocada

outra ou apagada alguma coisa que tivesse errada ali... Depois da revisão é que era feito tudo naquelas folhas grandes de papel que o meu avô recebia de Recife, geralmente, de Recife... Ele ia, ou minha mãe ia... Minha mãe também ia muito a Recife pra trazer toda essa papelada de lá, né?

[...] E aí, depois de tudo isso, daquelas folhas empilhadas é que a gente ia dobrar... Rosangela – Depois que dobrava estava pronto o folheto?

- Depois da dobragem, né? era feita a serragem do lado que era pra poder encaixar direitinho a cola... passava cola naquele amontoado de folhetos, né? de cordel... passava a cola e depois daquilo ali ... um a um ia passando as capas... ia tirando e colocando em cima das capas que eram feitas ou com xilogravuras ou então com chumbo... era uma forma que eles usavam... se fosse xilogravura era madeira, quando era chumbo já eram aquelas placas que vinham também ... Aí depois tinha o corte na guilhotina que era uma máquina superperigosa... naquela época, né? Você tinha que ter um corte preciso... ia tudo arrumadinho ali pra poder cortar.

Rosangela – Então já estava pronto para vender?

- Depois ia pra tipografia, às vezes, amarrado, por exemplo, contagem de centos e parte já olhava se Rosangela – E como era o processo de fazer folheto?

- Primeiro era a composição das estrofes, fazia as estrofes... ... como é... tirava a impressão ... ... ... aí tinha a dobragem, que a gente ajudava na dobragem, na encadernação... Na dobragem era eu, quando eu chegava da escola eu ajudava... encadernação... (Dona Maria José)61

Rosangela – Quem fazia a composição?

- Olhe aqueles ali que tinham mais condições, que liam, que chegavam já com prática e tudo, iam compor.

Rosangela – Como era a composição?

- A composição era o quê? Era juntar aquelas letriiinhas, cada, você já viu, né? Aquele monte de letra em cada, vamos dizer, era um verdadeiro jogo de xadrez, uns tabuleiros assim grandes, todo cheio de pedaço... os pedacinhos, aquelas gavetinhas em miniatura que continham aquelas letras, né? Aí pronto, aquilo dali pra juntar, fazer as palavras, formar as palavras, já pensou, né, como era difícil!? Fazia a composição daquelas rimas, daqueles folhetos, né? O pior, o melhor é que

aquilo dali, já pensou se fosse um jornal todo, as palavras, os textos enorme pra você juntar aquele monte de palavras, né? Pelo menos dava aquele espaço nas rimas, nos versos, né? nas estrofe... pois é...

Rosangela – Ai depois que preparava, essa, era uma chapa era, que preparava? - Era uma chapa.

Rosangela – Tinha pessoas pra fazer isso aí?

- Tinha a chapa. Já eram outros que se encarregavam disso aí... do chapeamento. Rosangela – Pronto. Quem fazia o chapeamento? A senhora lembra de alguém? -Aí tinha era seu Zé Camilo, depois Expedito, pessoa que tinha, né? mais... ... mais cultura mais conhecimento, mais experiência ali dentro.

Rosangela – Ah! Sim

Rosangela – Aí depois que fazia o chapeamento, qual era o outro processo, o seguinte, o passo seguinte?

- Aí ia imprimir, a impressão,dava a parte da impressão movimentar as máquinas.... Tinha outros que se encarregavam... de cortar, né

Rosangela - Quem imprimia? - Mexer na guilhotina, né? Rosangela – Hum! Hum!

- A impressão, tinha um que tinha que segurar aquela parte, quando viesse aquela parte ali, num haver o empastelamento. Porque se não tivesse o cuidado,ó porque hoje tudo é moderno, moderníssimo, num é? Joga ali, quando sai, já sai não sei quantos mil impressos...num é?

Rosangela – Exato.

- E hoje ... aquilo naquele tempo...

Rosangela – Aí o que era o empastelamento?

- É porque se ele não aparasse, quem tivesse imprimindo, tinha que ficar tirando a folha, afastando com rapidez, com a rapidez precisa pra num empastelar, porque se juntasse uma na outra, ia ser prejuízo, não sei quantas folhas de prejuízo, aí o papel caro... aí a pessoa, né? tudo isso eu me lembro...

- Aparando, depois dobrando. Rosangela – Hum...

- Já para dobrar que já ia para o que hoje se chama o acabamento. Rosangela – Certo, Hum!

Rosangela – Sei. Aí depois que dobrava ainda fazia o quê? - Já ia botar a capa, né?

Rosangela – Ia botar a capa. Como era que botava a capa?

Ah! Aí a capa era cortada e a pessoa colava. Usava, tinha um grude, uma espécie de... fazia uma pasta assim meio mole de goma, .... .... ... ...(com uma substância que usava.... ...) pra não ser comido pelas baratas...

Rosangela - Ahhh! Tá certo. Humm....

Rosangela – Aí depois que colava, ainda tinha outra coisa pra fazer? - Aparar.

Rosangela – Aparar .

Rosangela – Aí depois de aparado... ia fazer o quê?

- Pronto... Aí ia contar, né? Pra fazer os pacotes... os pacotes para colocar nas ... ... ...nas estantes.

Rosangela – Fazia os pacotes com quantos folhetos?

- De cem, duzentos, era geralmente de duzentos, cento e cinqüenta. Rosangela – Aí já ia vender?

- Era. Já dizia eu quero tanto. Boi Mandingueiro, João Grilo... Pavão Misterioso e assim por diante. E outros de dezesseis páginas... (D. Zuzinha)62

Rosangela – E qual era o processo todinho de, de, do folheto? Como era que começava?

- O processo do folheto... O processo do folheto... é tinha os tipos ... letrinha, eram feitos letrinha por letrinha, eu lembro muito bem disso, em tábuas, né? Tábuas rústicas... eram aquelas letras por letra ... o documento ali, aquilo tinha que ser escrito era colocado ali ... Depois ia para uma máquina, tinha uma máquina alemã, né? onde eram passados, né? ... tinha também uma outra máquina manual, onde eram também colocado ali eram passados... Era tudo feito assim de uma forma muito manual, muito rústica... Tinha duas máquinas enormes lá...E tinha essa outra manual... Eram muitos lugares assim, é, placas, onde tinha todas essas letras, né ? caixinhas pequenas com as letras que os meninos já de uma

forma assim rápida já tiravam e já encaixavam e já colocavam tudo aquilo, né? E já iam passando... e tinha a revisão...

Rosangela – Como era a revisão?

- Passava numa máquina, tinha uma pessoa pra fazer a revisão pra evitar erros, né? Aquilo que tava errado já voltava pra ser retirado aquela letra e colocada outra ou apagada alguma coisa que tivesse errada ali... Depois da revisão é que era feito tudo naquelas folhas grandes de papel que o meu avô recebia de Recife, geralmente, de Recife... Ele ia, ou minha mãe ia... Minha mãe também ia muito a Recife pra trazer toda essa papelada de lá, né?

[...] E aí, depois de tudo isso, daquelas folhas empilhadas é que a gente ia dobrar... Rosangela – Depois que dobrava estava pronto o folheto?

- Depois da dobragem, né? era feita a serragem do lado que era pra poder encaixar direitinho a cola... passava cola naquele amontoado de folhetos, né? de cordel... passava a cola e depois daquilo ali ... um a um ia passando as capas... ia tirando e colocando em cima das capas que eram feitas ou com xilogravuras ou então com chumbo... era uma forma que eles usavam... se fosse xilogravura era madeira, quando era chumbo já eram aquelas placas que vinham também ... Aí depois tinha o corte na guilhotina que era uma máquina superperigosa... naquela época, né? Você tinha que ter um corte preciso... ia tudo arrumadinho ali pra poder cortar.

Rosangela – Então já estava pronto para vender?

- Depois ia pra tipografia, às vezes, amarrado, por exemplo, contagem de centos e parte já olhava se tinha na tipografia, se não ia pras gavetas, porque tinha umas gavetas... eu não sei se você viu, não sei... Tinha umas gavetas onde era colocados certinho no lugar certinho e já com o nome...

Rosangela – Quem arrumava?

- Minha avó colocava de tal maneira que ela sabia... muitas vezes a gente não sabia onde tava o folheto, mas ela sabia...

(Maria do Socorro)63

As três falas registram com detalhes todas as etapas da impressão do folheto desde a composição até a embalagem dos pacotes para guardar, vender. Para Halbwachs (2006, p.51),

“dois seres podem se sentir estreitamente ligados um ao outro, e terem em comum certos pensamentos. Embora em certos momentos de suas vidas decorram em ambientes diferentes”. Tive a oportunidade de conversar com Dona Zuzinha em Juazeiro do Norte, no Ceará, com Dona Maria José e Maria do Socorro em Fortaleza.

Ambas, ao tratarem do trabalho com o folheto, trazem falas convergentes, mutuamente enriquecidas. Conforme Bakhtin (1992, p.316,), “[...] os enunciados não são indiferentes uns aos outros nem são auto-suficientes; conhecem-se uns aos outros, refletem-se mutuamente”.

Os limites desses enunciados são estabelecidos pelo revezamento dos sujeitos que nem sempre precisam dialogar face a face. Aqui se evidencia a importância que Bakhtin atribui ao contexto extraverbal. “Este contexto extraverbal do enunciado se compõe de três momentos: 1) um horizonte espacial compartilhado por todos os falantes; o conhecimento comum da situação e a valoração compartilhada pelos dois, desta situação. (Bajtin, 1997, p.114)64. Nestes enunciados, localiza-se cada um dos elementos mencionados por Bahktin: a gráfica, o horizonte espacial; o conhecimento comum da situação, ou seja, as etapas da produção do folheto e a valoração, a importância que implicitamente, as falas se complementam. Nestes fragmentos de diálogos entre as duas vozes femininas, não se percebe desmembramento, embora sabendo que o diálogo no sentido bakhtiniano não descarta uma refutação.

Benzer Belgeler