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Desde o ano de 2010, quando da descoberta de um programa de extensão homônimo no campi da UFGM em Betim, Minas Gerais, que se deu inicio aos primeiros passos rumo à alteração do nome “Lições de Cidadania”. Propostas como “Justa Raiva”, “Inédito Viável”, “De Pé no Chão”, “Encontros de Cidadania” surgiram, porém, ante a demanda e a centralidade da

organização do Programa, o debate foi paralisado, conforme problematizou o estudante Lourival, em e-mail enviado em 22 de outubro de 2010:

Pessoal, acho que não devemos mudar.

Sinceramente, não me preocupo com o que fulano ou sicrano imaginam que seja o projeto. eu me policio muito para não cair num discurso vazio e afastado da prática. tento não me perder em palavras, mas no mover das minhas mãos. me preocupo menos com o nome do projeto do que só ir sexta deixar a defesa que construímos com a comunidade (prometida para segunda) no IDIARN, me preocupo menos com os preconceitos que o nome do projeto vai despertar[...] do que dizer o nome de alguém errado na comunidade.

eu não atuo num projeto que se preocupa com o que vão pensar do nome dele, atuo num projeto que desconstrói preconceitos. muito menos me preocupo com os projetos que bebem das mesmas fontes até porque se eles forem populares eles a todo momento devem ver antes de julgar, pois se não forem assim menos ainda me importo com o julgamento.

pessoalmente eu não estou nem ai com o nome que levamos, minha luta é muito maior que nomes, símbolos, minha luta é forjada no dia-dia, nas atitudes que eu tomo para colocar tijolos nessa construção. parte de um pressuposto único que é a fé nos homens e mulheres.

as palavras foram feitas por homens, podem ser reconstruídas. o grande legado desse projeto é o compromisso com os oprimidos e o poder transformador desse compromisso. tudo que estiver fora disso para mim é se propor a tudo e tender ao nada.

acho que diante dos desafios que nossa realidade impõe, debates muito mais transformadores precisam ser travados, como o da defesa do IDIARN, como o da ausência de membros nas reuniões, como nosso compromisso que deve ser reafirmado diariamente, como o da renovação, como o de ser líder e sujeito dentro do projeto. não nos percamos no discurso, esse é meu grande medo.

Porém, a mudança de cenário político e de compreensão dos sujeitos que faziam o Lições, demandou no ano de 2013, no encontro de vivência do Programa, que os sujeitos retomassem o debate.

Na tentativa de responder à questão “Por que mudar?” os extensionistas presentes naquela vivência, quais sejam: Juliana Muniz, Analice, Lorena Olegário, João Pedro Laurentino, David Emmanuell, Mayara Pais, Vanessa Macêdo, Jessika Rufino, Denis Torres, Clarissa Pais, Mariana Belchior, Rafael Dias, Raissa Freire, Allyne Macedo, Luciana Ramos, Lorena Cordeiro, Magnus Henry, Magno Catão, Morgana Nina, Raul Rocha, Victor Darlan, Madson Vitor,

Lara Sena, Nayara Costa, Karina Bezerra, Diego Akangasu, Giovana Galvão, Flavia Borges e Mateus Alves; afirmaram que o nome “Lições de Cidadania”,

Não explica a atuação do programa, nem pelo Lições (falta de dialogicidade), nem pelo conceito de cidadania, que é burguês, castrador, domesticador. Isso sem falar no símbolo do programa, que é uma família tradicional, sendo um verdadeiro ícone da ideologia conservadora da cidadania.

O nome e o símbolo apresentam previamente os grupos. Existe concretamente uma dificuldade de diálogo com outras instituições e militantes em função da ideia construída em torno do nome do programa.

Ante a essa percepção, os sujeitos presentes, passaram a elencar critérios para a elaboração do novo nome.

Cinco foram estabelecidos: 1 - Dialogicidade, 2 - Unidade; 3 - Identificação com @ Oprimid@/com as Lutas; 4 - Identificação com o Trabalho Desenvolvido pelo Programa, 5 - Originalidade.

Embasados nesses critérios, os extensionistas passaram a sugerir nomes. Os que ficaram registrados em ata e que diretamente concorreram para o nome final foram: Motyrum, Vivências Reais, Resistência Motyrum, Inédito Viável, De Pé no Chão, Sabiá-da-praia, Sabiá-do-sertão, Resistência Potiguar, Diálogos de Autonomia, Pés Descalços, Diálogo Popular e Ciranda de Saberes.

Foi proposta então uma primeira votação, na qual todos os sujeitos poderiam escolher dentre esses, os três que em sua opinão melhor atendessem aos critérios estabelecidos. Após essa bateria, os nomes mais votados foram: Motyrum com 8 votos, Resistência Motyrum com 17 votos, Sabiá do Sertão com 20 votos e Resistência Potiguar com 13 votos.

Após um tempo de diálogo em busca do consenso, e a movimentação das consciências sobre as próprias consciências restou em dúvida entre Motyrum e a proposta, que já não mais configurava entre as mais votadas, mas que foi reabilitada à decisão em virtude do pedido de muitos dos presentes, “De Pé no Chão”.

Numa votação cujo resultado final foi de 15 votos para Motyrum e 14 para “De Pé no Chão”, o nome Motyrum sagrou-se vencedor. A partir daquele momento, não mais existia o Programa de Educação Popular em Direitos

Humanos – Lições de Cidadania. Inaugurava-se o novo. O tempo do Programa Motyrum de Educação Popular em Direitos que aflorou se constituiu, finalmente, no marco que encerrou temporalmente nossa pesquisa.

Sobre esse processo de morte e vida, os próprios sujeitos escreveram uma carta aberta que afirma os caminhos e opções que levaram a essa mudança e que dela decorrem. Publicado em 13 de março de 2013 no sitio do Centro Acadêmico Amaro Cavalcanti45, eis as palavras dos Sujeitos:

Motyrum, em tupi-guarani, significa grupo de pessoas que se unem para a construção de algo coletivamente, uns ajudando os outros.

“Não há paz, quebram até as flores.” “E de guerra em paz De paz em guerra Todo o povo dessa terra Quando pode cantar Canta de dor.” Os homens e as mulheres se fazem sujeitos ao pronunciar o mundo, essa pronúncia se dá através da palavra maciça que é práxis, e, por isso, transformadora. A existência humana não se faz no silêncio, ao contrário, se faz na palavra que pronuncia o mundo, e que, ao ser pronunciado, volta aos pronunciantes, dessa vez, problematizado e assim exige uma nova pronúncia. A palavra, portanto, não é só palavra. A palavra é ação, é reflexão. É pronunciando o mundo que o homem e a mulher se fazem históricos, vivem o mundo não como coisas, mas como sujeitos que transformam o mundo quando o problematizam e agem. Portanto, dizer o mundo, pronunciá-lo, não deve ser privilégio de alguns poucos, mas sim direito de toda a humanidade.

Desse modo, dar nome às coisas toma um significado ainda mais forte. Um nome não é apenas som ou grafia, ele carrega consigo concepções de mundo, opções políticas, traz cultura, identidade. Um nome nunca será capaz de indicar a essência da coisa e nem de dizer a coisa em abstrato, pois a coisa só tem sentido na proximidade com os homens e mulheres. Nomear um coletivo, portanto, não é mera exigência estética, está relacionado com a identidade do grupo, com a sua ação. Por isso, os homens e mulheres que vem construindo conjuntamente o Programa de Educação Popular em Direitos Humanos Lições de Cidadania sentiram a necessidade de dar uma nova pronúncia ao coletivo. “Lições de Cidadania” já não é o nome que identifica a nossa práxis e, por isso, não é

45 http://amarocavalcanti.wordpress.com/2013/03/13/nota-do-programa-motyrum-sobre-a- mudanca-de-nome/

suficiente para a construção de nossa identidade. O nosso coletivo nasceu como um meio de combate às opressões no mundo, e tem o objetivo de transformar a universidade e o saber produzido por ela em um instrumento dos oprimidos e das oprimidas, pois fazemos a opção política pelos esfarrapados e esfarrapadas do mundo, que têm sua palavra silenciada.

Embora o termo cidadania possa ser ressignificado, como Augusto Boal busca fazer em suas obras, é preciso fazer um contorcionismo hermenêutico para justificar o "Lições" de Cidadania de uma maneira progressista e libertadora. O nome do programa vinha representando o aspecto mais tradicional do termo, trazendo a ideia bancária de que alguém ensina lições de como ser um bom cidadão ou como tornar-se um cidadão capacitado para outrem, diferente da construção coletiva de novos saberes que o programa entende como pressuposto fundamental para uma educação libertadora. A própria ideia de Lição de cidadania já remete que só é cidadão aquele que aprende a ser e que, portanto há cidadãos e não-cidadãos - aqueles que não se adequaram às normas cívicas.

O Programa Lições de Cidadania tem avançado muito nos últimos anos: ampliou seus campos de atuação; conseguiu acolher estudantes e professores de diversos cursos; conta com a participação ativa de 6 advogados que passaram pela extensão popular; tem extensionistas ocupando diversos espaços críticos e atuando diretamente com os movimentos sociais. O programa mudou, avançou, cresceu em pensamento e atuação critica. Mas o nome continuava. O nome e o símbolo - uma família heterossexual, formada por pai, mãe e filho - reforçando ainda mais a descontextualização entre as ações que o programa vem desenvolvendo e o nome com o qual se apresentava.

Somos latino-americanas e tivemos nosso direito de pronunciar o mundo negado por processos encobridores que remontam à invasão de nosso continente até aos regimes totalitários apoiados pelo imperialismo em nome da “Democracia”. Somos ainda Carlos Marighella, Juliano Siqueira, Dermi Azevedo, Mailde Pinto, Hélio Vasconcelos, Gregório Bezerra, Maria Laly, Maria Diva, Nivaldo Monte, Frei Tito, Mery Medeiros, Sabino Gentilli, Clara Camarão, Marcos Guerra, AtonFon, Zumbi, os heróis e heroínas potiguares de 23 de novembro de 1935, somos xs militantes por um mundo mais justo e xsoprimidxs que a história teve a ousadia de encobrir os nomes. Somos San Martí, Simon Bolivar, Tapuias, Potyguaras, Guaranis. Por isso precisávamos de um nome, de uma identidade, de uma palavra popular, feminista, negra, indígena, da juventude, dos oprimidos, dos condenados da terra, condenados do mundo e da história, que indicasse nossa opção lúcida e consciente pelos explorados e exploradas, pela libertação das correntes opressoras. Assim, escolhemos um novo nome que simboliza o nosso comprometimento com a luta histórica dos povos que tiveram sua identidade roubada, assim como ainda

ocorre hoje em todos os espaços em que atuamos. Favelas, Campos, Presídios, comunidades indígenas, etc. Escolhemos um nome que significa mais que a união de pessoas, mais que um simples multirão. Talvez ainda mais que um "tamo junto". Escolhemos um nome que simboliza a resistência, a luta e a revolução.

Desse modo:

“Aos Povos do Terceiro Mundo que vencem o fratricídio

À mulher

camponesa e proletária que suporta o uxoricídio À juventude

Do mundo inteiro que se rebela contra o filicídio Aos Anciões

sepultados vivos nos asilos.”

Somos, a partir de agora, Programa Motyrum de Educação Popular em Direitos Humanos.

Benzer Belgeler