2.1 Origens da crônica
Se buscarmos o fio da meada da crônica voltaremos à segunda metade do século XIX e ao Rio de Janeiro, onde, vindo de Paris, chega o folhetim. É Marlyse Meyer quem descreve um pouco da gênese desse ancestral da crônica. Com lugar preciso, geralmente o rodapé da primeira página dos jornais, esse espaço tinha uma finalidade específica: entreter e, muitas vezes, lançar jovens autores. Mexericos da alta sociedade, atrações teatrais, dicas de cozinha, receitas, quase tudo podia ser tema do folhetim, que, em certos momentos, tinha também a função de difundir as idéias correntes na Europa. Aos poucos, assuntos específicos como política externa e interna, economia, crimes ganham espaços determinados dentro das publicações e o perfil do rodapé da primeira página muda.1
O folhetim se divide em dois tipos específicos: folhetim-romance, espaço utilizado para a publicação de romances de ficção em capítulos e o folhetim-variedades, escritos diversos, que dependiam muito do estilo e talento de seu escritor, sobre assuntos frívolos e cotidianos. A crônica será uma evolução do folhetim-variedades e tem, desde seus primeiros escritos, a marca de textos ligeiros, propositalmente descomprometidos com o forte intuito de criar empatia com o leitor. Aos autores desses escritos deu-se o nome de folhetinistas.
Para Davi Arrigucci Jr., os primeiros cronistas como José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e França Jr. tinham muito do folhetinista – que percorria “todo tipo de acontecimento com a volubilidade de colibri a esvoaçar em ziguezague”2– e aprendiam através das letras a conviver com
a sociedade tradicional e com novidades advindas dos processos de modernização, em que se incluía o jornal. França Jr., Aluísio Azevedo, Artur Azevedo, Raul Pompéia, Olavo Bilac e Machado de Assis são outros autores do século XIX que dominaram o bem-fazer dos folhetim-variedades, cativaram um público leitor e promoveram a transição desse primeiro gênero para a crônica.
Também na crônica, Machado de Assis é apontado como um marco. Arrigucci argumenta que ele descobriu rapidamente “a liga do ‘útil e do fútil’ que dava graça aos textos. E pôs mão à obra, dedicando-se à relativização dos solavancos entre os altos e baixos do assunto; balanceando [...] os pesos e contrapesos de toda questão”.3 Machado de Assis iniciou suas atividades em jornal
em 1860, aos 21 anos, no Diário do Rio de Janeiro e passou por várias redações cariocas, mesmo depois que se tornou romancista (aos 33 anos). Muitas vezes usou pseudônimos para assinar suas crônicas – Lélio, João das Regras, Malvólio foram alguns deles. Suas crônicas registraram a passagem do Império para a República e desde muito cedo já conquistaram o foco do gênero:
1 MEYER, Marlyse. “Voláteis e versáteis. De variedades e folhetins se fez a chronica”. In CANDIDO, Antonio et. al. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas; Rio de Janeiro: Unicamp; Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992, p. 93 a 133.
2 ARRIGUCCI JR., Davi. Enigma e Comentário. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 57. 3 Ibidem, pág 58.
flagrar algo no cotidiano que morreria logo, assim que chegasse o jornal do dia seguinte. Machado foi um dos cronistas que mais rapidamente percebeu a importância do jornal para divulgação das crônicas, explorando o tom de superficialidade que cativava o leitor e, ao mesmo tempo, a grande gama de assuntos que os textos poderiam tratar. Vale a pena ler um trecho de uma de suas Aquarelas chamada “O Folhetinista”, escritas para a revista O Espelho, em que trata da empatia com o leitor e da dificuldade do momento de escrever:
Todos o amam, todos o admiram, porque todos têm interesse de estar de bem com esse arauto amável que levanta nas lojas do jornal a sua aclamação de hebdomadário. Entretanto, apesar dessa atenção pública, apesar de todas as vantagens de sua posição, nem todos os dias são tecidos de ouro para o folhetinista. Há-os negros, com fios de bronze, à testa deles está o dia... adivinhem? o dia de escrever! 4
No texto, “Machado Maxixe: O Caso Pestana”, José Miguel Wisnik trata de uma série de textos de Machado de Assis escritos no final do século XIX que colocam a música em destaque. O conto “Um homem célebre” é apontado como central dessa série. Esmiuçando o escrito de Machado que mostra o conflito de um ótimo compositor de polcas populares que insiste, sem sucesso, em produzir uma obra “erudita”, Wisnik aponta o nascimento da música popular brasileira através da polca que:
inaugura o mercado de música dançável, acompanhado do frisson que lhe corresponde e de todas as implicações que isso terá sobre a vida musical como um todo, quando a música popular urbana se espalhar pelos meios de reprodução de massa [...]. 5
Mais adiante, Wisnik compara o compositor (Pestana) a Machado de Assis e acrescenta que a crônica estava para Machado assim como a polca estava para Pestana: “Machado já exercitava na crônica, em 1878, um desembaraço irônico-paródico que estava longe de praticar na ficção [...]”.
O que Wisnik nos mostra é que como a música popular, a crônica enraizou-se de forma definitiva na cultura brasileira neste final do século XIX. E Machado de Assis foi dos primeiros a se dar conta dessa longevidade e boa aclimatação do gênero entre nós.
Assim como os jornais, que ganharam títulos respeitáveis, passando a ser produzidos em escala industrial, com periodicidade conhecida, os folhetins também sofreram adaptações segundo as regras do mercado. De imensos e excessivamente generalistas rodapés, encurtaram e se transformaram em coluna restrita a um tópico específico e com um título. Junto das (e nas) crônicas do período entre 1870 e 1920, Margarida de Souza Neves aponta a profissionalização do jornalismo; a semente de um público de massa e a “incorporação dos meios técnicos na produção
4 ASSIS, Machado de. Miscelânea/Aquarelas. In Obras Completas (vol. 3). Rio de Janeiro: José Aguilar, 1962, p. 958. 5 WISNIK, José Miguel. Sem Receita. São Paulo: Publifolha, 2005, p. 31.
literária” bem como da “linguagem e do estilo das inovações da época à própria escrita literária”. Para ficar um pouco mais no final do século XIX: Antonio Candido destaca Olavo Bilac como um dos autores que contribuíram para tornar o gênero um “produto sui generis do jornalismo literário brasileiro”. Para o crítico, “a leitura de Bilac é instrutiva para mostrar como a crônica já estava brasileira, gratuita, meio lírico-humorística”.7 Famoso por seus poemas, Olavo Bilac também
foi homem de jornal – entre 1890 e 1908, trabalhou para a Gazeta de Notícias. A leitura da prosa que Bilac exercitou em jornal endossa o comentário de Antonio Candido. No trecho abaixo, observamos como na escrita diária, ele já começa a perscrutar os limites desse novo gênero, a crônica:
Os noticiaristas registram; os cronistas comentam. O noticiarista retira da mina a ganga de quartzo em que o ouro dorme, sem brilho e sem prestígio; o cronista separa o metal precioso da matéria bruta que o abriga, e faz esplender ao sol a pepita rutilante.8
A crônica segue firmando raízes nas duas primeiras décadas do século XX. Nesse período, convivem nas páginas de jornal – e nas prateleiras das livrarias – o estilo rebuscado e conservador de nomes como Coelho Neto e Humberto de Campos bem como uma corrente renovadora, com textos mais leves de cronistas como Lima Barreto e Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio.
João do Rio e Lima Barreto são bons exemplos de cronistas que saem à cidade e colhem na vida urbana impressões variadas. Além de crônica leve e mundana, João do Rio registrou e denunciou os contrastes de uma cidade, o Rio de Janeiro, em que a beleza natural convivia com problemas sociais, como a miséria, o vício e a insalubridade. As influências européias, o folclore e o agravamento da desigualdade social brasileira foram temas constantes dos textos de Lima Barreto para os mais diversos periódicos. Os temas leves, pinçados nos bondes e ruas da cidade, também eram freqüentes nas colunas do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma (publicado em forma de folhetim-romance no Jornal do Comércio). Dois trechos assinados por Lima Barreto publicados em semanas subseqüentes de dezembro de 1915 na revista Careta, que mostram como temas leves e mundanos e a denúncia social se alternavam em suas crônicas.
Assim começa a crônica Os outros, publicada em 11 de dezembro de 1915:
Não há prazer maior do que se ouvir pelas ruas, pelos bondes, pelos cafés, as conversas de dois conhecidos. Tenho um camarada cuja curiosidade pelo pensamento dos estranhos é tal que não há papel caído na rua, contendo algumas linhas escritas, que ele não guarde, recomponha, a fim de dar pasto a esse seu vício mental. Tem no seu museu cousas maravilhosas. Muitas vezes os missivistas pensam em ter inutilizado uma cartinha amorosa, um bilhete de ‘facada’ e vai um indiscreto como
6 NEVES, Margarida de Souza. “Uma escrita do tempo: Memória, ordem e progresso nas crônicas”. In CANDIDO, A. et al. Op cit. p. 83.
7 CANDIDO, Antonio. Recortes. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2004, p. 28.
8 BILAC, Olavo. Metrópole de desocupados. Vossa Insolência. Organização Antonio Dimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 232.
este meu amigo e descobre que em tal dia F. ‘morde’ X. em 50$000 ou Z. está apaixonado por H.
Nos primeiros parágrafos do texto publicado na edição seguinte da revista (de 18 de dezembro de 1915) com o título de O Congraçamento, vemos que o assunto é outro:
A cidade L. era uma cidade muito pobre que vivia sempre a pedir emprestado, usando de expedientes dignos dos mais célebres ‘facadistas’ de rua. Dinheiro depositado em cofres, era dinheiro sumido e ninguém sabia para onde ele ia. Entretanto para servir aos interesses do chefe político Leitão, a sua municipalidade possuía um exército de funcionários e até os seus vereadores eram pagos regiamente. Justificava-se esse pagamento pela carência absoluta de homens ricos que quisessem ocupar os lugares de edis, de modo que só os pobres concorriam a eles e precisavam do subsídio para manter-se.10
Esse sair a campo, praticado nas crônicas desses autores, vai ser decisivo na evolução do gênero como veremos a seguir.
2.2 O amadurecimento da crônica, um gênero quase nosso
A revolução temática e da linguagem que antecipam João do Rio e Lima Barreto eclodiram no Modernismo. A famosa Semana de Arte Moderna de 1922, ocorrida em São Paulo, é um marco da estréia do movimento que impõe idéias novas que vinham tomando corpo e forma entre a intelectualidade brasileira. A crônica acompanha o movimento modernista e surge como arma de luta, irreverente e incisiva nos escritos de Mario de Andrade, Oswald de Andrade e seus contemporâneos. Nesses textos algumas bandeiras do movimento, como a incorporação do coloquial da linguagem falada, encontram terreno fértil.
No texto introdutório do livro Taxi e Crônicas no Diário Nacional, Telê Porto Ancona Lopez comenta a produção de Mario de Andrade como cronista:
A 9 de abril de 1929, tem início no Diário Nacional a coluna “Taxi”, sua primeira produção regular de cronista. O título é uma feliz escolha; ao mesmo tempo que estabelece a vinculação ao contemporâneo, tão ao gosto dos modernistas, sugere o empenho do intelectual participante que usa da imprensa de massa como seu veículo. “Taxi” conduzirá sua opinião, da mesma forma que em 1922 a revista Klaxon propagava a modernidade.11
Os escritos desse período serão fundamentais na formação dos cronistas surgidos logo após a eclosão do modernismo. Não por acaso Antonio Candido, Davi Arrigucci Jr. e outros
9 BARRETO, Lima. Toda crônica. Organização Beatriz Resende e Rachel Valença. Rio de Janeiro: Agir, 2004, p. 253. 10 BARRETO, Lima. Op. cit., p. 255.
11 ANDRADE, Mário de. Taxi e Crônicas no Diário Nacional. Estabelecimento de texto, introdução e notas de Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: Duas Cidades/Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia, 1976, p. 18.
pesquisadores apontam a década de 1930 como definitiva para a consolidação da crônica moderna. Nos textos de escritores e também jornalistas Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Rubem Braga e, logo em seguida, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, entre outros, sentimos um amadurecimento do gênero. Nesses autores o tom – descompromissado, de conversa fiada –, a temática – assuntos diversos e até a falta dele – e o suporte – o jornal – não são mais uma experiência, mas um fato.
No texto “Braga de novo por aqui”, sobre o cronista capixaba, Davi Arrigucci Jr. argumenta que desde seu surgimento na década de 1930, em meio às atribuições do dia-a-dia, “o leitor brasileiro se habituou a esperar, em certos jornais e revistas, os dois dedos de prosa com que o Velho Braga o prendia ao seu visgo de impenitente caçador de passarinhos”.12 Rubem Braga, que
em entrevista ao Jornal da Tarde13, disse que não se lembra de ter escrito um só texto que não
fosse para ser publicado no dia ou na semana seguinte, talvez seja o autor que melhor explorou a gama de assuntos (ou de falta de assunto) que podem dar crônica.
Nos primeiros textos de Rubem Braga, como nos de outros autores surgidos na década de 1930, podemos enxergar os elementos que levaram Paulo Rónai a escrever em seu artigo “Um gênero brasileiro: a crônica” que, “para qualquer brasileiro a palavra crônica tem sentido bem claro e inequívoco, embora ainda não dicionarizado; designa uma composição breve, relacionada com a atualidade, publicada em jornal ou revista”.14 Algumas características do gênero – tratar
de temas cotidianos, com linguagem coloquial e em jornal – talvez sejam boas justificativas para explicar esse caráter bem brasileiro que os escritos adquirem com o passar dos anos.
Não por acaso, o citado artigo de Rónai foi incluído pelos pesquisadores do Centro de Estudos da América Latina da Universidade Federal da Flórida, nos Estados Unidos, Alfred Hower e Richard Preto-Rodas numa compilação de textos sobre crônica. Além de escritos teóricos sobre o tema, Crônicas Brasileiras traz textos de Rubem Braga, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Verissimo entre outros e é recomendado, em sua contra-capa, a estudantes que estudam o português falado no Brasil. Na introdução da obra, além de apontar que a palavra “crônica” não tem tradução para o inglês, os autores justificam a escolha desse tipo de texto por conterem a língua corrente no Brasil.15
Afrânio Coutinho, de certa maneira, parece concordar com seus colegas da Flórida, quando destaca a contribuição da crônica para a caracterização da língua portuguesa falada no Brasil:
12 ARRIGUCCI JR., Davi. Op. cit. p. 29.
13 FRANCHETTI, Paulo e PÉCORA, Alcir. Rubem Braga – Literatura Comentada. São Paulo: Abril Educação, 1980. 14 PRETO-RODAS, Richard et al. Crônicas Brasileiras. EUA: University Press of Florida, 1971, p. 213.
15 Na introdução da obra, os pesquisadores norte-americanos dizem que: “The word crônica has no exact equivalent in English”. Mais adiante eles acrescentam que o gênero é caracterizado por “language as it is used in present-day in Brazil”. p. 15.
A crônica brasileira [...] tem dado uma contribuição notável à diferenciação da língua entre Portugal e Brasil, pois ligada à vida cotidiana, ela tem que apelar freqüentemente para a língua falada, coloquial, adquirindo inclusive certa expressão dramática no contato da realidade da vida diária.16
Nem todos os autores descrevem a crônica como um gênero característico do Brasil. Em seu artigo “A Crônica”17, José Marques de Mello é categórico: “...não se trata de gênero
exclusivamente brasileiro. A literatura portuguesa do jornalismo registra a sua existência na imprensa periódica e mostra a correspondência de interesse que encontra junto aos leitores”. É nos periódicos daqui, no entanto, que ela é mais praticada. Afrânio Coutinho chama a atenção para a abundância de cronistas na década de 1970:
Se existe problema embaraçoso é de querer-se estar em dia com todos os cronistas, notadamente com os que assinam crônicas diárias, dada a superabundância de publicações periódicas no País. Basta observar que só um vespertino do Rio de Janeiro mantém cerca de vinte espécies de crônica em cada edição.18
Não é preciso voltar tanto no tempo para constatar a abundância de cronistas nos jornais brasileiros e a raridade – pode-se dizer ausência – dos mesmos nas páginas de periódicos internacionais importantes à exceção de Portugal. Para comprovar essa afirmação, acompanhamos por quinze dias quatro periódicos de fora do Brasil (The Guardian e Times, na Inglaterra; The New York Times, nos Estados Unidos; La Nácion, na Argentina) e dois nacionais (O Globo e Folha de S.Paulo). Dos periódicos publicados no exterior, nenhum tem publicação constante de cronistas. Já no Brasil, a presença das crônicas é diária. Em O Globo, contamos sete cronistas. A Folha de S.Paulo tem pelos menos 14 colunistas fixos que praticam a crônica, talvez por isso há alguns anos o periódico paulista tenha ganhado o apelido de “Colunista de São Paulo”. Não há um só dia da semana que os dois jornais brasileiros não tragam pelo menos uma crônica. Arrigucci resumiu bem essa constância: “a crônica tem sido, salvo alguma infidelidade mútua, companheira quase diária do leitor brasileiro”.
Sobre esse tipo de escrito em Portugal, o cronista João Pereira Coutinho, que estreou em 22 de fevereiro de 2006 no caderno “Ilustrada”, da Folha de S.Paulo, disse à pesquisadora que os jornais portugueses não têm tradição da crônica diária, mas publicam, em dias fixos textos que podem ser chamados de crônicas. Ele mesmo é cronista fixo do jornal português Expresso, publicação semanal. Perguntado se considerava a crônica um gênero brasileiro, respondeu com um vago “talvez”, mas em seguida enviou texto por ele publicado no Expresso intitulado
16 COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil (vol. VI). Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1971, p. 121. 17 GALENO, Alex e CASTRO, Gustavo de (org.). Jornalismo e Literatura: a sedução da palavra. São Paulo: Escrituras, 2002, p. 150.
“A Arte da Crônica” e reproduzido a seguir em que lista os dez mandamentos da crônica. Segundo ele, “esses dez mandamentos são sobretudo encontrados no Brasil”.
Primeiro: a crônica não é um gênero jornalístico; a crônica é um gênero literário.
Segundo: a crônica pode partir da realidade mas, não raras vezes, a crônica cria a sua própria realidade.
Terceiro: a crônica não é análise nem comentário; a crônica é confissão e hipérbole.
Quarto: a crônica não pretende formar nem influenciar; a crônica deve entreter e, se possível, opinar.
Quinto: a crônica não vive de especialização; a crônica vive de diversidade.
Sexto: a crônica vale pelo estilo e pela substância; em caso de conflito, sacrifique-se a substância.
Sétimo: a crônica não pondera opiniões contrárias à sua; a crônica pondera apenas uma opinião que seja contrária às outras.
Oitavo: a crônica não está certa ou errada; a crônica, como diria Wilde, está apenas bem escrita ou mal escrita.
Nono: a crônica é pessoal; a crônica é um prolongamento do ego. Décimo: a crônica deve ser tão fácil de ler como de esquecer.19
Como bem trata Antonio Candido em seu texto introdutório para o primeiro livro da série Para Gostar de Ler, um clássico da década de 1980, no Brasil, a crônica “tem uma boa história e até se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que aqui se aclimatou e a originalidade com que aqui se desenvolveu”.20
2.3 Crônica, difícil definição
O texto enviado à pesquisadora pelo cronista português João Pereira Coutinho pode ser citado como uma das muitas tentativas de autores e pesquisadores de definirem o gênero crônica. Como vimos no início deste capítulo, os primeiros cronistas já perscrutavam os limites desses escritos. Em sua crônica de despedida do Jornal do Brasil, Carlos Drummond de Andrade também tenta explicitar as características do gênero:
a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou
19 Texto do cronista português João Pereira Coutinho, publicado no jornal semanal Expresso de Portugal e enviado por e-mail à pesquisadora.
20 CANDIDO, Antonio. “A vida ao rés-do-chão”. Recortes. Rio de Janeiro: Editora Ouro sobre Azul, 2004, p. 28. Nota: o mesmo texto da série de livros da década de 1980 foi publicado em dois livros: na introdução de A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992, e