A caracterização desta pesquisa já foi formulada em capítulos anteriores quando foram descritos o contexto teletandem de ensino e aprendizagem de línguas como também seu funcionamento, as sessões de interação, as sessões de aconselhamento (item 1.4).
Lembramos que esta pesquisa se enquadra no conjunto de investigações desenvolvido pelo grupo de pesquisadores do campus da UNESP de São José do Rio Preto. Estes pesquisadores participaram de reuniões mensais para troca de experiências e constatação do andamento dos projetos e subprojetos desenvolvidos pelos graduandos e pós-graduandos da instituição. Nessas reuniões, modelos de diários foram apresentados e disponibilizados aos interagentes, como também a indicação dos programas de interação e gravação que poderiam ser utilizados e a sugestão de leituras, como as diretrizes do projeto Teletandem Brasil e as diretrizes de mediação (formulada pelos participantes que ingressaram previamente no programa).
Além disso, esses encontros foram utilizados para determinação de mediadores dos pares formados, bem como para resolução de problemas advindos do andamento dos processos de teletandem, como falta de interagentes estrangeiros, dificuldade na gravação e geração de dados, dentre outros.
2.2.1 Os participantes da pesquisa
A referida investigação teve como participantes focais um par teletandem (formado por uma interagente brasileira, falante de português e um interagente estadunidense, falante de inglês), bem como um mediador. Nomes fictícios foram atribuídos aos participantes para garantir a preservação da identidade dos mesmos, e também a ética na pesquisa.
Há, em um momento específico da pesquisa, a colaboração da pesquisadora, participação esta que será explicitada detalhadamente no decorrer desta dissertação.
À interagente brasileira foi atribuído o nome de Mônica, ao interagente estadunidense o de Bradley e à mediadora o de Carla.
A interação entre os participantes se configura de acordo com a figura a seguir:
FIGURA 4 – Representação gráfica da interação entre os participantes
De acordo com a figura, a pesquisadora teve contato com todos os envolvidos na pesquisa. O contato com o interagente estadunidense aconteceu por chat, via Windows Live Messenger e por áudio e vídeo, com a utilização do aplicativo ooVoo.
O contato com a mediadora foi presencial e constante, já que a pesquisadora procurava acompanhar a geração de dados das sessões de aconselhamento.
A interagente brasileira, periodicamente, enviava os diários das sessões, os pedidos de auxílio e informações sobre o andamento das interações via e-mail, tanto para a pesquisadora como para a mediadora. As gravações das interações, feitas pela interagente brasileira, foram entregues à pesquisadora em encontros presenciais e repassadas à mediadora.
A mediadora e a interagente brasileira realizaram quatro sessões de aconselhamento. A primeira foi requerida pela interagente brasileira, que informalmente contatou a mediadora via Windows Live Messenger. As outras três foram solicitadas pela mediadora com intuito de acompanhar o desenvolvimento das interações. As três primeiras sessões ocorreram por meio de chat, via Windows Live Messenger. Entretanto, a última delas foi realizada com a utilização de áudio e vídeo, pelo aplicativo ooVoo. Tal mudança ocorreu a pedido da pesquisadora, a qual acreditava que os dados provindos da gravação com áudio e vídeo seriam de maior representatividade para a investigação em questão, por apresentar uma característica mais natural da interação.
A mediadora teve contato somente com a pesquisadora e com a interagente brasileira, apesar de apresentarmos no capítulo de análise e discussão dos dados que a mediação também influenciou o interagente estadunidense por meio da interagente brasileira.
O interagente estadunidense e a interagente brasileira trocaram mensagens eletrônicas via e-mail, Messenger, e se comunicaram utilizando vídeo e áudio por meio dos aplicativos Skype e ooVoo.
2.2.1.1 A interagente brasileira: Mônica
Mônica encontrava-se, no momento da coleta, no segundo ano letivo (de um total de quatro) do curso de tradução e tinha 19 anos. Além do inglês, ela também frequentava aulas de italiano na própria faculdade. Apesar de receber formação para atuar como tradutora, ela gostaria de dar aulas, porém ainda não havia vivenciado nenhuma experiência de ensino fora do contexto teletandem.
Mônica demonstrou ter domínio da língua inglesa: é formada em nível avançado em uma escola de línguas e é portadora do certificado do TOEFL (Test of English as a Foreign Language)40. Também foi contemplada com uma viagem à Disney por ter sido classificada dentre as três melhores alunas, em âmbito nacional, da rede de escolas de inglês onde estudava.
Envolvida em pesquisa de iniciação científica, Mônica sempre se mostrou muito disposta e participativa no tocante ao projeto. Ela utiliza a Internet desde os 12 anos e realizava as interações na própria residência.
2.2.1.2 O interagente estadunidense: Bradley
Bradley tinha 29 anos, é formado em Negócios Internacionais e tem MBA (Master of Business Administration) 41 na mesma área. Passou um ano na cidade de Suzuka, no Japão, como instrutor de conversação, ensinando inglês a japoneses. Portanto, tem experiência em
40 Teste de Inglês como Língua Estrangeira. 41 Mestre em Administração.
ensino da Língua Inglesa/LE. Em relação a outras línguas, é falante de japonês e espanhol, sendo o espanhol sua primeira LE.
O interagente morou no Brasil durante um ano, em 1998. Hospedou-se na casa de uma brasileira que havia feito intercâmbio e morado na cidade dele, nos Estados Unidos. Assim, ele era falante da língua portuguesa, mas encontrava-se sem praticá-la há aproximadamente dez anos.
Bradley usa a Internet desde 1994 e utilizava seu laptop para realizar as sessões de teletandem na própria residência.
2.2.1.3 O encontro de Mônica e Bradley
Mônica havia previamente tentado estabelecer parceria no âmbito do projeto com um interagente da Inglaterra. Afirmou que tiveram cinco encontros por chat, utilizando o programa Windows Live Messenger, mas que seu parceiro não demonstrou comprometimento com as interações e, muitas vezes, não compareceu aos encontros marcados. Ele alegava estar sempre viajando pela Europa e, portanto, não conseguiam fixar um horário para realizarem as sessões. Após várias tentativas frustradas, Mônica recorreu à mediadora, que lhe propôs começar a interagir com outro parceiro, no caso, Bradley.
Bradley tomou conhecimento do teletandem por meio da pesquisadora (com quem interagia eventualmente por chat), que, percebendo seu grande interesse em aperfeiçoar a língua portuguesa, sugeriu que ele aceitasse interagir com Mônica, que aguardava receber outro parceiro.
Bradley achou interessante poder contribuir e também relembrar seu português, que não praticava fazia algum tempo, já que tinha planos de voltar a visitar ou viver no Brasil.
Desse modo, podemos afirmar que, de acordo com Vassallo (2007), Mônica e Bradley praticaram tandem semi-institucional, sendo que somente Mônica estava vinculada a uma instituição. Quando consideramos o contexto em que os participantes estavam inseridos, podemos caracterizar que Bradley praticou tandem leigo, já que não estudava a língua portuguesa em um contexto escolar; Mônica, no entanto, praticou o tandem didático, pois também estudava a língua inglesa na universidade. O tandem realizado por Mônica também poderia ser caracterizado como formativo, já que ela não descartava a possibilidade de futuramente atuar como professora dessa língua.
2.2.1.4 A mediadora: Carla
Carla é formada em Direito e em Letras Português / Inglês por universidades particulares; é especialista em Língua Inglesa pela FIO (Faculdades Integradas de Ourinhos) e mestre em Linguística Aplicada pela UNESP de São José do Rio Preto. Ela demonstrou estar totalmente inteirada das condições do projeto, já que sua dissertação, defendida em 2008, foi um subprojeto no âmbito do Teletandem Brasil e abordou questões relacionadas à mediação nesse contexto.
A mediadora possui experiência profissional em escolas de línguas estrangeiras, em escolas de ensino regular e médio e ensino superior. Além do inglês, ela também é fluente em espanhol e ministra aulas dessa língua.
Utiliza a Internet desde que a mesma se tornou popular no Brasil, mas nunca fez um curso específico de ensino virtual à distância. Ela somente veio a se interessar pela área quando ingressou no mestrado.
Interessou-se em explorar mais a língua espanhola, com intuito de melhorar o seu conhecimento sobre a língua, e o contexto virtual de aprendizagem. Para tanto, ela se inscreveu no teletandem com intuito de interagir com uma falante nativa de espanhol, mas, após duas tentativas frustradas resolveu dedicar-se a outras atividades.
2.2.1.5 A pesquisadora
A pesquisadora é formada em Letras Português / Inglês pela Universidade do Sagrado Coração, é especialista em Língua Inglesa pela FIO e mestranda, bolsista CAPES, no PPG em Estudos Linguísticos na UNESP de São José do Rio Preto. Tem experiência em ensino de Língua Inglesa em escolas particulares de idiomas e também leciona em cursos do ensino superior. Já fez cursos nos Estados Unidos e Inglaterra, e atualmente se dedica a aprender também a língua espanhola.
Com intuito de complementar seus conhecimentos sobre o tema tratado neste trabalho, não só do ponto de vista teórico, mas também da prática no contexto em questão, ela realizou teletandem, tendo como interagente uma estadunidense de Chicago. Além disso, ela atuou como mediadora de um par teletandem, formado por uma brasileira, estudante de Letras na UNESP de São José do Rio Preto e um estadunidense.
A pesquisadora lida bem com novas tecnologias, mas assume não ter conhecimento suficiente para tratar com problemas mais complexos vinculados ao uso do computador. Já
fez dois cursos à distância, sendo um por correio e outro virtual (além do teletandem), que lhe despertaram ainda mais interesse em pesquisar sobre o assunto.